segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Democratizar a mídia

Editorial do jornal Brasil de Fato, edição 395:
http://www.brasildefato.com.br/node/1331


A velha imprensa, como se refere o jornalista Rodrigo Vianna à mídia burguesa, já é a grande derrotada no processo eleitoral de 2010. Era inimaginável que a participação da chamada grande mídia nesse pleito fosse tão grotesca. Dessa vez, escancararam seu partidarismo, jogaram na lata do lixo qualquer compromisso com a verdade, flertaram abertamente com seu passado golpista e mostraram-se ávidos pelos tempos de tranquilidade que o regime ditatorial lhes assegurava.

Fracassou até mesmo na tentativa de ser um eficiente partido de oposição ao governo Lula, frente à fragilidade dos partidos políticos que não compõem a base de apoio governamental, como ressaltou a presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e também diretora-superintendente da Empresa Folha da Manhã, que publica o jornal Folha de S. Paulo, Judith Brito.

Estão promovendo a mais odiosa campanha política desde a abertura democrática de 1985. Não hesitam em disseminar difamações e injúrias, promover assassinatos de reputações e fazer acusações sem qualquer elemento que ateste a veracidade das mesmas. Recorrem a um receptador de carga de mercadorias e carro roubado, já condenado pela justiça, para estampar na capa dos seus diários e em telejornais acusações infundadas. Um vínculo, mídia burguesa e meliante, que será lembrado por anos, como foi o boicote que a rede Globo fez da Campanha das Diretas Já, em 1984, e o uso dos caminhões de distribuição do jornal Folha de S. Paulo para emboscar militantes da esquerda, durante a ditadura militar.

Mas o desespero da velha mídia não se deve apenas à possível vitória da candidata petista, Dilma Rousseff, já no primeiro turno, dia 3 de outubro. A crise se deve porque suas expressões partidárias, Democratas e PSDB, parecem ter chegado também ao fim da linha. Os DEMos, ex-Arena e ex-PFL, nasceram e se fortaleceram sob a sombra de governos ditatoriais. Foram socorridos em 1994 pelo tucano FHC. Mas, na época, já demonstravam dificuldades para sobreviver em processos eleitorais democráticos. Mudaram de nome – de PFL para Democratas – na vã tentativa de fugir do momento que seriam expelidos do cenário político do país. Filhote da ditadura militar, há oito anos alijado da maquina estatal federal e incapaz de apresentar propostas de desenvolvimento social e econômico que pudesse beneficiar o povo brasileiro – seria contradizer sua natureza –, só lhe restou a alternativa de fazer campanhas eleitorais com mentiras e acusações infundadas.

Já o PSDB virou refém e vítima de suas próprias construções. Primeiro, achou que o férreo controle que impôs à velha mídia, em troca de milionários repasses financeiros ao oligopólio da comunicação, era suficiente para mascarar a realidade e concretizar obras políticas que nunca realizou enquanto foi governo.

Segundo, os tucanos apresentaram a cidade de São Paulo como a maior vitrine do que chamam de êxito em administração pública. No programa eleitoral, aparecia o metrô de primeiro mundo, dois professores em sala de aula, uma eficiente política de segurança pública, políticas sociais e preocupação coma população mais carente... Apenas esqueceram que o paulistano que via seus programas na TV é o mesmo que pega o metrô super-lotado todos os dias, que testemunha um dos piores sistemas de ensino do país, que viu o governo se notabilizar, mesmo que a mídia não mostrasse em seus noticiários, por reprimir violentamente as mobilizações dos professores.

Terceiro, os tucanos paulistas continuam se comportando como se fosse o Partido Republicano Paulista (PRP), da República Oligárquica, não admitindo qualquer outra liderança fora de suas fronteiras estaduais. Especialista em elaborar dossiês para implodir possíveis concorrentes dentro das próprias fileiras tucanas, Serra se tornou, nas palavras do jornalista Luís Nassif, uma “liderança destrambelhada e egocêntrica, atuando à sombra das conspirações subterrâneas”. Perfil político complementado pelo deputado Brizola Neto, quando afirma que o candidato tucano é um homem a quem a sede de poder e mando encolheu, minguou, deformou até transformá-lo numa mórbida caricatura do seu passado. Ainda mais, “é um cadáver insepulto, que exala os miasmas do golpismo”.

Mas esse processo eleitoral traz também resultados positivos para novas conquistas democráticas em nossa sociedade. Essas eleições estão marcadas pela entrada em cena da eficiente e dinâmica rede de blogueiros, novas formas de comunicação pela internet, e jornais independentes que minaram o poderio da velha imprensa.

No entanto, é preciso não subestimar o poder do oligopólio da mídia – tão atrasado e antidemocratico quanto o da terra. É necessário avançar na adoção de políticas que realmente assegurem a democratização da comunicação em nosso país.

Infelizmente, os que ocupam cargos políticos, na sua maioria, mostram-se receosos e se acovardam frente ao poderio dos que monopolizam as comunicações. Já é hora de promover uma profunda mudança na Lei Geral das Comunicações, assegurando seu controle social, promovendo o arejamento e a modernização desse setor atrasado e oligárquico, de atuação antidemocrática. Soma-se a essas mudanças a bandeira pela universalização da banda larga de acesso à internet. Mudanças que permitam o povo deixar de ser um passivo receptor para tornar-se um agente ativo de comunicação.

E é exatamente em respeito ao direito do povo brasileiro à informação que, na noite do dia 21, o Brasil de Fato promoveu seu primeiro debate com os candidatos presidenciais que, coerentes com suas trajetórias históricas e defensores dos interesses da classe trabalhadora, foram completamente alijados dos debates eleitorais pela velha imprensa.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 7/7)

...continuação
Durante o trajeto cruzamos com outros grupos que cortavam lenha para fazer fogo, numa grave contribuição à depredação da natureza. O parque nacional da Chapada Diamantina ainda não saíra do papel, mal estruturado, mal fiscalizado, desorganizado, abandonado. A maior parte da área ainda encontrava-se em propriedades particulares, com garimpos e caçadores. Para cuidar e fiscalizar a totalidade, apenas três e mal treinados funcionários do IBAMA, relegados a atividades burocráticas na sede do parque em Palmeira. As estradas para Xiquexique do Igatu e Mucugê, atravessando a área do parque, foram asfaltadas, num claro sinal de subordinação aos interesses dos grupos privados que mandavam e lucravam na região.
Saímos em direção ao lago formado pelas águas da cachoeira da Fumaça. Transpor trechos com correnteza e pedras escorregadias exigiu bastante cuidado. As sombras em meio às luzes e a abundância de verde forneciam exuberância ao cenário. O rio e a cachoeira da Fumaça estavam com muita água, o que não impedia o vento de produzir efeitos interessantes no desvio das águas durante a queda. A imagem da queda d’água vista de baixo diferia da que eu observara por cima dez anos antes, quando a cachoeira tinha pouca vazão e o vento forte não permitia que a água chegasse embaixo, desenhando curvas paras os lados e para cima.
Acordamos nas tocas assim que começou a clarear. Tomamos o café da manhã, enchemos as mochilas e partimos para subir a serra dos Macacos, rumo ao platô da Fumaça. A íngreme subida não deixava eu me esquecer do peso da mochila. A paisagem impressionante compensava com o vale do rio Capivara, outros vales, escarpas, formações rochosas. Pelo caminho, muitas quedas d’água, riachos e o solo argiloso preto. No topo apreciamos a queda da Fumaça, agora de cima. Nada como matar a fome diante de paisagem tão maravilhosa. Sem vontade de deixar o local, iniciamos a descida da serra.  
Após a chegada ao vilarejo do Capão, me despedi do guia e dos gringos, peguei a barraca encomendada previamente e me instalei em camping próximo, limpo, organizado, com regras rígidas e justas nos horários.

Vilarejo simpático com bares, comida caseira e, até então, muita tranquilidade, Capão era procurado pelos refugiados do carnaval e sedentos por paz. Uma perua de Salvador estacionou na pracinha, abriu o porta-malas e escancarou enormes caixas de som, de onde saiu o lixo carnavalesco. A maioria não estava para aquilo. Ninguém pediu para ouvir. O desavisado, após leve e suave pressão, teve que desligar a poluição. E a paz voltou a reinar no Capão.
A visão das serras ao redor do vilarejo era muito bonita. Aproveitei para sentar na sombra, observar o pequeno movimento, comer os típicos pastéis recheados com broto de jaca. Reencontrei o baiano da travessia da cachoeira da Fumaça sentado nas escadas do bar. Permanecemos ali praticamente calados e contaminados pela atmosfera de preguiça. Foram mais de duas horas naquela “leseira”, conforme a expressão dele. Em todo esse tempo, e após grande esforço, ele proferiu apenas duas frases, bem espaçadas, lentamente, quase parando. A primeira:
“que maresia...”.
E, depois de um intervalo, para recuperar a energia perdida na fala, murmurou:
“vou ali dar um cochilo...”.
E foi. E assim também arrastou minha tarde no vilarejo do Capão, cujo nome oficial é Caeté-Açu.
Acordei cedo, desarmei a barraca, arrumei a mochila para me juntar ao grupo da segunda parte da travessia pela Chapada Diamantina.
A vista do vale do Capão, com paredões, escarpas e muito verde, se embelezava ainda mais à medida que ganhávamos altitude. Paramos no topo, ao lado do riacho, para lanchar e apreciar a paisagem. Atingimos os Gerais do Vieira. Descortinou-se belo panorama à frente, constituído por cadeias de serras, campos floridos e o vale do Pati, mais ao fundo. Desviamos pelo alto da serra do Candombá para evitar os lamaçais das baixadas. Depois partimos para a descida íngreme e sinuosa, nos maravilhando com as flores endêmicas. A entrada do vale do Pati se impunha colorido bem à frente. Fomos calorosamente recebidos pelos donos da casa simples com a deliciosa comida caseira.
Fomos até a simpática cachoeira do Funil. Em meio às folhagens das margens do rio, a cascavel alertou, com o guiso, quem mandava no pedaço.

Na volta colocamos as mochilas nas costas, nos despedimos dos nossos anfitriões e continuamos a travessia. E entramos, finalmente, no estupendo vale do Pati. As altas escarpas rochosas expostas em ambos os lados do vale deslumbravam. Após cruzar as águas do rio por duas vezes chegamos à Prefeitura. Montamos as barracas próximas ao rio, em local limpo e tranquilo. Ao fundo, a visão fascinante do morro do Castelo dava o tom da paisagem.
Casa grande caindo aos pedaços, a Prefeitura já funcionou como posto avançado da prefeitura de Andaraí nos tempos das plantações de café. Não havia mais janelas ou portas. As paredes estavam completamente pichadas. Barracas, montadas no interior dos cômodos. Os adolescentes e pós-adolescentes naqueles dias de carnaval se restringiam a cantar e ficar chapados. Pichações nas paredes traziam o nome da equipe, a duração da travessia e a quantidade de baseados consumidos pelos componentes. Esta última informação se destacava pelo orgulho, sobretudo quando superava, em quantidade consumida, as demais concorrentes.
Apenas a beleza ainda salvava o parque nacional da Chapada Diamantina. A desorganização e abandono eram gritantes. Não havia portarias, ou qualquer tipo de controle de entrada e saída. Nenhuma orientação prévia a respeito do comportamento dos visitantes. Agricultores ainda residiam dentro do parque, mendigando serviços, vendendo bugigangas e comida para os visitantes, provocando queimadas. Os guias despreparados em nada amenizavam a situação e estavam ali apenas pelo emprego. A associação dos guias em Lençóis pecava pela desunião, desinteresse pela sorte do parque, se consumindo em disputas de egos.
Caminhamos até a cachoeira ali perto e permanecemos o dia inteiro, somente na base do relaxamento, braçadas no lago formado no final da queda d’água, na contemplação do visual das escarpas da chapada. O entardecer foi de lavar a alma de tanta beleza.
À noite, próximo às barracas, os vaga-lumes davam espetáculo à parte, piscando luzes intensamente.
No dia seguinte acompanhamos o rio Pati pela margem direita, cruzamos a ponte antiga e começamos subir a encosta intensa e sinuosa da margem oposta. Cruzamos vegetação de grande porte, com quaresmeiras roxas, diversas minas de água. Merecido descanso no alto da serra para lanchar e apreciar o vale de outro ângulo. A descida para Andaraí, do outro lado da serra, ofereceu clima e paisagem radicalmente alterados, entre vegetação de agreste, com muitos cactos e pedras de coloração ocre. Chegamos à simpática cidade de Andaraí, onde relaxamos, matamos a sede, comemos petiscos no primeiro bar que apareceu. A caminhonete nos levou de volta a Lençóis.
Predominavam brasileiros na nova composição dos turistas na cidade. Embora bem conservada, com boa oferta de serviços e restaurantes, Lençóis perdia aos poucos a característica sertaneja, interiorana, tipicamente baiana. Desgraçadamente atraía, além de viajantes bem intencionados, moderninhos e metidos a alternativos, amantes de esportes equivocadamente chamados de radicais, mais interessados em se alienar do que conhecer, ou respeitar, a rica cultura regional. E essa involução andava a passos largos.

Levantei cedo para seguir a Seabra. O ônibus vinha de Salvador lotado de turistas israelenses. Tais indivíduos que só andavam em bandos fechados possuíam a reputação de oportunistas e aproveitadores. Na Ásia, Peru e Patagônia eram conhecidos por roubos nos alojamentos coletivos das montanhas e nos acampamentos, onde abriam as barracas com facas.
A viagem madrugadora até Rio de Contas conquistou pelas paisagens variadas e paradas sem influência do turismo. A serra do Espinhaço nos acompanhou a oeste. A vegetação tornou-se mais seca, com raras plantações de café, milho, cana de açúcar, palma. O asfalto acabou e, mesmo de terra, a estrada apresentava boas condições de tráfego. Várias faixas estendidas em Abaíra anunciavam o festival da cachaça Em Jussiape muita propaganda enaltecendo políticos regionais. Frases como “Dr. tal apóia fulano, cicrano, beltrano...” eram comuns nas paredes das casas. O partido era o mesmo do ACM, o todo poderoso do estado da Bahia. A barraca da feira livre prestava consultas oftalmológicas gratuitas e com distribuição, também gratuita, de óculos. Restaria saber se haveria a condicional exigência da apresentação do título de eleitor.
Em Rio de Contas predominava na cidade a comida sertaneja. O broto da palma refogado acompanhava e contava com sabor intermediário entre a vagem e o quiabo.
Rio de Contas era museu a céu aberto, com infindáveis casas tombadas pelo patrimônio histórico, a maioria conservada, habitada e datada da segunda metade do século XIX. As ruas, calçadas com pedras largas e irregulares, surpreendentemente largas para a época da construção. Imponentes montanhas pertencentes à cadeia do Espinhaço, com os picos mais altos da região nordeste, entre eles o pico das Almas, cercavam a zona urbana. A cidade estava vazia e silenciosa.
Durante o almoço, homens e mulheres de meia idade, sentados no restaurante na mesa em frente, discutiam política, ou melhor, politicagem. Saíam frases do tipo:
“eu garanto duzentos votos...”,
“eu tenho cento e cinquenta votos meus...”,
“O doutor fulano pode confiar em nós...”,
“O doutor fulano é protegido de Antônio Carlos Magalhães...”.

Em nenhum momento referiram-se às condições de vida da população. Ao anoitecer, buzinas, estouro de fogos e música brega, anunciavam o regresso à cidade do político doutor fulano vindo de cirurgia em São Paulo. A recepção foi organizada e conduzida pelos correligionários, capangas e parasitas em geral. O sujeito sairia candidato às próximas eleições municipais e trouxera, como demonstração de apoio, um deputado estadual do então PFL(DEM). E o que se seguiu foram cenas deploráveis de bajulações, mentiras, demagogias.
O dono do restaurante, que apoiara a oposição derrotada na eleição anterior, denunciou o boicote ao próprio estabelecimento pelos funcionários públicos municipais das cidades da região, coagidos pelos poderes executivos a prestigiar somente os apoiadores do governo de plantão. Mas a situação e a oposição pertenciam ao mesmo PFL(DEM) de Antônio Carlos Magalhães.
A descida da serra entre Rio de Contas e Livramento do Brumado, em estrada sinuosa e incrivelmente íngreme, com asfalto esverdeado, deslumbrou pelas imponentes escarpas, cachoeiras, picos rochosos. Depois o relevo aplainou-se com vegetação característica de caatinga.
Chegada em Guanambi no final da tarde, depois de passar em Brumado e Caetité. Comprei passagem para São Paulo para o ônibus do dia seguinte. Me hospedei em hotel antigo, mal cuidado, fedendo a desinfetante.
A fome era grande e investiguei o refeitório do hotel, em estilo bufê, com aspecto de decadência generalizada e também exalando odor insuportável de desinfetante. Da escotilha entre a cozinha e a copa, vestindo uniforme que um dia foi branco, o cozinheiro observava os raríssimos clientes. Com sorriso cínico no canto da boca, parecia dizer:
“vocês estão ferrados...”.
Caminhei pelas ruas de Guanambi até encontrar onde encher a barriga.
Pela manhã fui ao distante terminal rodoviário de moto-táxi.
Chegada em São Paulo na manhã do segundo dia de percurso, em meados de março do ano seguinte da partida. Tomei metrô lotado e logo entrava em casa.
Mas que viagem longa, diversificada e deslumbrante eu acabara de fazer!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 6/7)

...continuação
Senhor do Bonfim estava irreconhecível quase vinte anos depois que encerrei minha temporada na cidade em 1981. A pensão onde morei ainda estava lá, mas as duas irmãs gêmeas que tocavam o estabelecimento faleceram havia tempos. Engoli três acarajés no bar da praça e tracei as próximas etapas da viagem.
O uso do moto-táxi pegara mesmo na região. Diversos pontos espalhavam-se pela cidade, todos ao preço de um real, para qualquer parte. Era o mesmo preço em todo o nordeste. Prático, ágil, seguro, barato.
Irritante e infindável a frequência em que muitos locais públicos da Bahia levavam o nome de Luís Eduardo Magalhães, o filhinho morto de Antônio Carlos Magalhães. Além do nome do pai, presente em dezenas de lugares, o do filho aparecia em escolas, hospitais, aeroporto internacional de Salvador, até em uma cidade do interior. E era justamente essa a cidade infestada de latifúndios de estrangeiros, da monocultura, de lojas de equipamentos agrícolas estadunidenses, de plantios da famigerada soja transgênica. A maioria da população local sobrevivia em meio à enorme miséria.
O ônibus para Euclides da Cunha saiu à tarde e cruzou por dentro a caatinga, esverdeada nessa época, com muitos sobes e desces de passageiros. Muitos dos que entravam alegavam estar sem dinheiro para a passagem. O motorista reclamava, esbravejava, mas tudo ficava por isso mesmo. Ao lado de Monte Santo erguia a serra com o longo e sinuoso caminho calçado de pedras pintadas de branco, pequenas capelas e oratórios ao longo da subida até o local tradicional de peregrinação desde os tempos de Antonio Conselheiro. O sol começava a se esconder atrás da montanha, no instante em que a enorme e brilhante lua cheia surgia no lado oposto.
Amanheceu dia de feira em Euclides da Cunha. Dezenas de ônibus e caminhões traziam o povo dos vilarejos ao redor. Toda a cena era marcada por fortes contrastes. Barraca singela vendendo fumo de corda em frente à loja de telefonia celular, cuja parede dividia com pequeno armazém comprador de farinha dos sertanejos, usando enormes e antigas balanças. Senhores sisudos vestidos de gibão e chapéu de couro ao lado de adolescentes de tênis e penduricalhos eletrônicos nas mãos e ouvidos. 
No percurso até Jeremoabo, passando por Bendegó, Nova Canudos, Candé e Água Branca, vi o açude de Cocorobó e partes da antiga igreja, acima do nível da água, construída pelos seguidores de Antonio Conselheiro antes do massacre de Canudos. Mais à frente, e na parte elevada da área reservada ao parque estadual de Canudos, havia o monumento ao Conselheiro, com a estátua branca, ele em pé, com a túnica e o cajado. Mais da metade da viagem transcorreu em estreitas estradas de chão. Era o sertão autêntico. Pequenas serras de cor ocre, formações rochosas avermelhadas, vilarejos e aldeias típicas, vaqueiros de gibão e chapéu de couro. Plantações de milho e mandioca, coqueiros, mangueiras e bananeiras nos oásis.

Um casal iniciou discussão acalorada dentro do ônibus. Ele a acusava de aprontar e ameaçava deixá-la. Ela, em prantos e com o recém-nascido no colo, oferecia-lhe a criança, mas ele recusava bruscamente. Em determinado momento, ele desembarcou, seguido por ela ainda chorando intensamente.
Em Jeremoabo embarquei em outro ônibus quase vazio. A estrada, teoricamente asfaltada, era um pesadelo. O ônibus balançava de ponta a ponta em meio a festival de buracos com pedaços de asfalto. Encontrei hotel confortável e caro em Paulo Afonso. Era noite, estava bem cansado.
Acordei cheio de expectativas de explorar a famosa estação ecológica do Raso da Catarina e me dirigi ao centro cultural de onde saíam os roteiros. O preço para o dia de passeio ao Raso da Catarina, incluindo serviços de guia e transporte, ultrapassava os limites aceitáveis. E o atendente simplesmente saiu da sala no meio da conversa para fumar e conversar no lado de fora. Dei o fora.
Comprei passagem para a cidade sergipana de Canindé, onde peguei caminhonete até Piranhas nova. Apertado e curvado pela lona baixa do teto da carroceria da caminhonete, vi a ponte sobre o rio São Francisco, divisa com o estado de Alagoas e, mais à esquerda, a hidroelétrica de Xingó, um monstrengo cinzento de concreto. Em Piranhas Nova subi em moto-táxi para descer a estrada sinuosa até a Piranhas Velha, nas margens do rio São Francisco. Logo na entrada, o impacto da beleza e do charme da cidadezinha, ruas estreitas, ladeiras, casas antigas. Ao lado, as águas esverdeadas do rio correndo entre as encostas secas da caatinga. Encontrei pousada no alto da escadaria com vista indescritível da cidade, morros, o vale profundo, o rio. O entardecer com aquela paisagem maravilhosa à frente me indicava que ali era o lugar para ficar. Em Paulo Afonso me juraram que a antiga cidade de Piranhas estava submersa pelas águas da hidrelétrica e em Canindé afirmaram que a cidade nova, por mais absurdo que parecesse, era mais bonita.
Antes do anoitecer, banhei-me nas águas do velho Chico ao lado da simpática praia de areias finas. Saboreei a peixada, degustei caipirinhas. Contemplei a lua cheia, enorme e prateada, subindo bem em frente.
As águas esverdeadas do rio São Francisco correm por dentro do vale profundo. Nos trechos mais estreitos e sinuosos apareciam corredeiras. Em ambas as encostas, o clima semiárido e a caatinga, pedras, diversos tipos de cactos. Na parte baixa da cidade o prédio da antiga estação ferroviária, desativada no fatídico ano de 1964, o do golpe. Até então ligava as cidades de Penedo em Alagoas e Jatobá em Pernambuco. O local abrigava o singelo Museu do Sertão. A seção dos objetos era pobre, porém a de fotografias exibia imagens interessantes. Eram detalhes dos cangaceiros de Lampião e Corisco, dos policiais ou volantes, antes e depois do assassinato de Lampião. A foto que mais chamou atenção foi tirada em 1998. O ex-volante e o ex-cangaceiro, ambos muito idosos, pousam apertando as mãos, sorridentes para a câmera.

Em poucos dias me sentia intimo dos moradores de Piranhas, os cumprimentava pelas ruas, conversava sem pressa. Um garoto me pediu um caderno, pois a família não tinha como comprá-lo. Não era esmola e sequer houve pressão ou chantagem emocional. Era apenas a necessidade imediata para frequentar a escola. À noite sentei na barraquinha na beira do rio e saboreei delicioso pitu fervido acompanhado de muitas caipirinhas. A calma e a brisa suave vinda do rio deixava tudo leve e agradável.
Não muito longe de Piranhas está o sítio de Angicos, local onde foram assassinados vários cangaceiros, inclusive Lampião e Maria Bonita. Desci de barco o rio São Francisco e avancei na curta picada pela caatinga até o local exato, em território sergipano. O sítio de Angicos era composto por um pequeno abrigo sob um bloco rochoso às margens de córrego temporário. Ali dormiam os cangaceiros quando foram surpreendidos durante a madrugada pelos volantes. Alguns conseguiram fugir, mas Lampião, Maria Bonita e outros companheiros não tiveram a mesma sorte. Foram imediatamente executados e degolados, tendo as cabeças exibidas nas cidades como troféus. Segundo o barqueiro e o garoto que me acompanharam na trilha, encontrou-se ali na época dinheiro e ouro, saqueados e usados pelos volantes para comprar imóveis e enriquecer da noite para o dia. Em 1998, cem anos do nascimento e sessenta do assassinato de Lampião, foi colocada placa comemorativa e a cruz ao lado de outra mais antiga. Periodicamente, nas datas importantes, são realizadas missas no local.
Encontrei vários alagoanos que costumavam fazer o trajeto de barco entre Penedo e Piranhas. Vestiam camisetas com frases de protesto contra os planos de transposição do rio São Francisco. As mangas frescas e maduras, colhidas nos pés ao redor do local, temperaram o ambiente de conversas e reflexões. 
Na parte da tarde, em Piranhas, fiquei na beira do rio bebendo umas, beliscando tira-gostos e dando mergulhos para me refrescar. De repente um forte vendaval levantou tudo e foi areia para todos os lados, olhos, nariz e boca. Mais mergulhos e estava limpo e refrescado novamente. Como por encanto a cidade adormeceu completamente no começo da noite. Os barzinhos da praia, as escolas e todos os cantos da cidade mergulharam em gostoso silêncio. Demais caminhar pelas ruas desertas, ao som apenas do vento e das folhagens.

Reservei o dia para não fazer absolutamente nada e agir conforme o vento. Caminhei preguiçosamente pelas ruas da cidade. Conversei com um aqui e outro ali, amarrei meu burro no barzinho na beira do rio e lá fiquei entre bebidas, comidas e mergulhos nas águas.
Ouviam-se repetidamente os grupos Mastruz com Leite, Caviar com Rapadura, Calcinha Preta e tantos outros. As melodias seguiam padrão primário e dançante, com letras sofríveis. Pegavam sucessos internacionais, colocavam qualquer letra, acrescentavam batidinhas programadas e estavam prontas para o consumo. Nas gravações ao vivo não se cansavam de frases do tipo “que lindo!”, “está demais!”, “jamais esqueceremos de vocês!”. Como os grupos são incontáveis e parecidíssimos, entre as músicas ou mesmo durante elas, sempre martelavam com o nome da banda e o do disco: “É o Calcinha Preta, Ao Vivo, Volume 5, O melhor do forró pra você...” e outras preciosidades.
Não havia transporte direto para a capital Maceió. Peguei ônibus até Delmiro Gouveia, em cuja praça motoristas e ajudantes de várias caminhonetes gritavam os próximos destinos, mas nada de Maceió. Acertei o preço para a cidade de Arapiraca, mas ainda esperei o veículo lotar. Nas rodinhas masculinas formadas na praça se ouvia a realidade regional. Embora entrecortada por ruídos, ouvi o homem dizer:
“aí o cara matou a mulher grávida com uma faca...”.
E o outro arrematar:
“mas ela merecia, desrespeitou o homem”.
Cruzar o sertão escancarou a Alagoas miserável, seca e desolada. A caatinga, embora ligeiramente esverdeada pelas chuvas, mostrava-se rala e pobre. Pequenas serras cobertas de pedras cercavam os vales e baixadas com esparsas plantações de palma para alimentar o gado nas épocas secas. As cidades e vilas eram invariavelmente feias, cinzentas, tristes. Olho d’Água do Casado, São José da Tapera, Olho d’Água das Flores, Batalha, Jacaré dos Homens. As estradas apresentavam trechos em péssimo estado, cheias de buracos. Crianças recolhiam com pás a terra da beira da estrada e a depositavam nos buracos do asfalto. E estendiam as mãos, pedindo esmolas pelo trabalho realizado. Não vi ninguém dar nada. Miséria e indigência pura e simples. Em São José da Tapera notei várias frases escritas na parede de uma casa, oferecendo serviços de costura, eletricista, encanador e reformas em geral. Demorei a entender, pois não havia uma palavra sequer escrita segundo as regras gramaticais do português oficial. Na cabine da caminhonete o senhor de cinqüenta e poucos anos bradava que traçava até quatro mulheres por dia. Sentia-se preocupado por não conseguir gozar na quarta mulher, e indignado pelo fato dela, a quarta, gozar três vezes.   
O micro-ônibus em Arapiraca, a terceira etapa do trajeto desde Piranhas, deu grande volta pelo litoral até estacionar em Maceió.

Apesar da intensa urbanização das praias, edifícios altos, da horda de turistas, a orla de Maceió continuava bonita e agradável. Os usuários desfilavam roupinhas novas, camisetas e tênis da moda, o uso incansável dos telefones celulares e assim por diante.
Estava em transição a mudança da entrada de passageiros, da porta traseira para a porta dianteira, nos ônibus urbanos da cidade. Parte da frota funcionava da maneira nova, outros ainda seguiam o processo antigo. Somente as pessoas já embarcadas sabiam o segredo, daí a gritaria para os de fora quando corriam para a porta traseira:
“é pela frente!”, “não é aí não!”.
Colocavam os braços para fora da janela e batiam na lataria do ônibus. Os passageiros ocupavam, mas sem sentar imediatamente, o assento recém-liberado. Ainda de pé, esperavam esfriar, ou ao menos passar a quentura do usuário anterior.
Caminhei preguiçosamente entre as praias de Ponta Verde e Jatiúca, alternando com rápidos mergulhos para me refrescar. Revi a distante praia da Sereia. Durante o percurso, passando por passou por Jacarecica, Guaxuma, Garça Torta e Riacho Doce, as construções e urbanizações não afetaram demasiadamente as praias, os coqueirais, o azul do mar.
Embarquei em ônibus sem o desnecessário ar condicionado. A paisagem tornou-se mais acidentada, perigosa, e interessante, no meio da Bahia, a partir de Itaberaba. As centenas de crateras e a lamentável conservação da via obrigavam os veículos a acrobacias e desvios. Mais grupos de miseráveis tapavam os buracos com areia ou terra e depois pediam dinheiro. Desci no trevo de Lençóis para, logo depois, subir em lotação proveniente de Seabra.
Lençóis se enchia de turistas, na maioria estrangeiros, que se concentravam à noite nos bares e cafés para ouvir rock e reggae, como em qualquer ponto de concentração deles ao redor do mundo. E somente entre eles, ignoravam as demais pessoas ao redor. Mas a cidadezinha ainda encantava, com os baianos simpáticos e hospitaleiros.
Peguei trilha curta e fácil às cachoeiras e corredeiras do ribeirão do Meio, vazia e bastante agradável para se refrescar ou mesmo não fazer nada, apenas contemplar a natureza ao som gostoso das águas.
A proximidade do feriado de carnaval preocupava, pois deixaria a cidade lotada e nada atraente. Acertei longa travessia de oito dias com acampamento, saindo de Lençóis, passando por baixo da Cachoeira da Fumaça, vale do Capão, vale do Pati, até a cidade de Andaraí.
O guia apareceu bem cedo, acompanhado da canadense e do iraniano. O casal se conhecera durante passagem pela Bolívia. Dividimos a comida nas mochilas cargueiras. Peguei o saco de dormir e o isolante, ambos alugados. A trilha começou a subir bastante em meio à vegetação agreste e a antigas tocas usadas por garimpeiros. O visual no alto da chapada oferecia escarpas íngremes, pedras, gargantas, cachoeiras, vales profundos. Subimos no mirante sobre grande pedra para lancharmos e apreciarmos a paisagem. O caminho seguia por trechos com obstáculos de fácil superação. Paradas providenciais e refrescantes nas cachoeiras do Palmital e Capivara reanimaram os corpos. Acompanhamos o rio sobre as pedras escorregadias das margens até encontrar o riacho da Fumaça, por onde subimos pelas lajes de pedra e, mais acima, encontramos o local das próximas duas noites. Ao lado, duchas refrescantes e piscinas naturais para qualquer hora. Não trazíamos barracas e dormiríamos dentro das tocas de pedra em caso de chuva.
continua...

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 5/7)

...continuação
Embarquei pela manhã no porto de Parnaíba rumo à cidade maranhense de Tutóia, na margem ocidental do Delta do Parnaíba. A refeição foi servida no barco pequeno, limpo e confortável. O Delta constitui-se de carnaubais, canais, manguezais, baías e vilarejos esparsos. Pescadores de camarão, catadores de caranguejos e pequenos barcos circulavam pelas águas. O passageiro do barco e catador de caranguejos maranhense denunciou gravemente os proprietários da Ilha do Caju e da pousada do mesmo nome no Delta do Parnaíba. Além de cobrarem fortunas pela estadia dos turistas desavisados, os donos da ilha tratavam a população local de maneira arbitrária e violenta. Os pescadores nem sequer podiam encostar os barcos perto da ilha privada. Eram hostilizados com ameaças, agressões e tiros de espingarda. Mas nada acontecia aos ricos criminosos, protegidos pela classe dominante local e estadual. A miserável população maranhense, habitante há séculos da região, sofria humilhações e barbaridades. As autoridades ignoravam. Os proprietários da Ilha do Caju, afinal, eram estrangeiros.
A cidade de Tutóia nessa época do ano estava bem pacata, típica do interior, com ruas pouco iluminadas, calçamento pé de moleque. A maioria da reservada população era cafuza, com rostos alargados e pele escura. A miséria e a injustiça social no estado abundavam decorrentes de décadas de governos impostos pela família Sarney em aliança com empresários e latifundiários.
Foram quatro horas de ônibus de volta a Parnaíba com paradas em Barro Duro, Canabrava, Pirangi e Jandira. Lotado e barulhento, o veículo parava a todo instante para embarque e desembarque de passageiros sofridos, com sacolas, sacos e caixas. Do lado de fora, a paisagem maranhense desoladora. Casebres de taipa e tetos de palha, trechos áridos, com raras e minúsculas plantações de mandioca.
O ônibus parou assim que entrou no Piauí. Devido a surtos de febre amarela na região, os fiscais da Fundação Nacional de Saúde exigiram a vacinação para os não vacinados ou sem o certificado. Tentei convencer os resistentes da necessidade da proteção. Mais adesões para a imunização.

Em Parnaíba fui à praia da Pedra do Sal. No caminho, a imensidão de carnaubais, buritizais, lagoas, casas esparsas, dunas e finalmente a praia. Uma ponta cheia de pedras, com pequeno farol, separa duas simpáticas baías. A menor, à esquerda, guardava águas calmas e casas em estilo ousado. A outra baía, extensa, com areia inclinada e praia de tombo no início, aplainava-se à medida que se afastava das pedras. Totalmente desertas mais à frente, se tornavam o motel mais barato da região.
Incompreensíveis e inacreditáveis os nomes das pessoas da região. Mas um deles, embora conhecido, era para lá de absurdo. O jovem piauiense, campeão de artes marciais de Parnaíba, ganhou o nome estampado na página do jornal: Benito Mussolini Neto.
O ônibus confortável, mas com o irritante e supérfluo ar condicionado gelado chegou no meio do dia em Piripiri, cidade pequena, de bom aspecto e com calçamento pé de moleque, muito comum no estado do Piauí. Essa solução urbana, bonita e barata, não reflete tanto o calor e absorve a água, ao contrário do tórrido e impermeável asfalto.
Corri à praça central bem cedo para pegar o ônibus do IBAMA que levaria funcionários ao parque nacional de Sete Cidades. Esperei até o horário marcado e descobri que apareceria somente uma hora depois. Na verdade sairia no horário determinado, mas no horário velho, ou seja, uma hora depois, desconsiderando o horário de verão, o novo. O horário de verão, implantado à força na região, nem sempre era respeitado. Tinha que perguntar se era no horário novo ou no horário velho. Um turista de Sobral também se atrapalhou com o horário de verão.
O guia obrigatório do parque nos explicou o ecossistema regional, nos orientando sobre a preservação. O parque nacional de Sete Cidades vai do cerrado à caatinga. Compõe-se de formações rochosas, esculpidas pelo tempo e apresentando figuras variadas, inscrições rupestres, grutas e mirantes. As figuras surgidas nas rochas lembram rostos, cenários, objetos, situações diversas. O sol nos castigava e as sombras eram raríssimas. Apenas um ponto de água morna em todo o percurso, localizado em local sombreado, verde e agradável.

Infelizmente a administração do parque permitia a circulação de veículos pelas estradas internas do parque, como o caminhão transportando turistas ingleses. O trajeto completo não é tão extenso e o ecossistema agradeceria se os veículos motorizados ficassem do lado de fora da unidade de conservação. Um alemão circulava de bicicleta. Fluente em português alegava coletar informações para reportagens e provável organização futura de grupos turísticos.
Eu e o cearense subimos na caminhonete do IBAMA que nos levou até a portaria do parque nacional. Detonamos a saborosa galinha à cabidela no restaurante ao lado. Pegamos carona como dois clientes até a rodovia asfaltada. Ficamos no acostamento da estrada por mais de três horas. Tentamos em vão ônibus, caronas em carros, caminhões e caminhonetes. Ninguém parava, nem mesmo aqueles que vinham da estrada do parque nacional. A preocupação aumentava à medida que a noite se aproximava. De repente apareceu um caminhão rebocado por outro. Foram obrigados a parar para acertar os engates dos cabos. Sob a enorme desconfiança, consegui convencê-los a nos levar até a entrada de Piripiri. Devido a assaltos frequentes, caronas por ali eram assunto proibido. Em velocidade reduzida devido ao reboque, às olhadelas laterais em minha direção para prevenir possíveis ataques, ao difícil diálogo de monossílabos, eles nos deixaram na cidade, quase seis horas depois de encerrado o passeio no parque nacional. Tremenda falta de articulação de transportes entre a administração do parque nacional e a prefeitura de Piripiri.
Peguei o primeiro ônibus da manhã para Teresina, de onde comprei passagem para São Raimundo Nonato no ônibus noturno. Deixei a mochila no guarda-volumes da rodoviária da capital piauiense.
A reputação de Teresina ser uma das cidades mais quentes do país não convidava a caminhadas. Pensei em cinema e a única opção foi tomar ônibus até o xópin. Almocei qualquer coisa insípida em qualquer rede de comidas rápidas. Praticamente tudo se assemelhava a qualquer templo do consumismo pelo mundo afora. Membros da elite, ou almejando chegar lá, desfilavam conjuntinhos da moda, celulares nas mãos, expressões de enfado, olhares presunçosos, vaivém de consumistas alienados e outras tristezas. O filme veio com imagem pálida, cores fracas, som excessivamente agudo. E piorava a cada barulhenta mudança dos rolos.
Voltei ao mundo normal e humano do terminal rodoviário. Mesmo bem agasalhado, o frio do insuportável ar condicionado do ônibus noturno não me deixou adormecer.
Cheguei ao amanhecer em São Raimundo Nonato. Contratei o guia obrigatório para o parque nacional da Serra da Capivara com a moto incluída. A moto seria cansativa devido às distâncias e às estradas enlameadas naquela época do ano, porém muito mais barata que qualquer carro.

Definitivamente o horário de verão não era respeitado e, em muitas vezes, totalmente ignorado. Como no parque nacional. O sol, os animais, a chuva, o vento, as plantas não eram afetados por medidas administrativas. Apenas os ônibus intermunicipais seguiam o horário de verão.
O parque nacional da Serra da Capivara, bem estruturado, organizado, limpo, era administrado pelo IBAMA em conjunto com a Fundação do Homem Americano. Apenas a menor parte do parque estava aberta à visitação, mas bastante representativa e rica em belezas naturais e arqueológicas. A região, situada em área de caatinga, estava esverdeada e florida.
Pinturas rupestres em diferentes estados de conservação, vestígios de seres humanos, utensílios, restos de fogueiras, cerâmicas, ossadas e fósseis indicavam presença humana na região havia mais de 50 mil anos, a mais antiga da América. Forte evidência de que os povos da Ásia entraram pela América do Sul muitos milhares anos antes do acesso pelo estreito de Bering da América do Norte. Não era à toa que em enormes cartazes localizados na cidade e nas estradas estava escrito, em pleno ano 2000, “Brasil 500 anos, São Raimundo Nonato 500 séculos”. Essas civilizações antigas pereceram havia cerca de dez mil anos, provavelmente devido à mudança climática da região que passou de tropical úmido para o semiárido atual.
Pelas localidades de Inferno, Barro, Veadinho Azul, Vaca, Paraguaio, caminhamos por cima e por baixo do extenso e estreito vale, em cujas paredes se expunham uma infinidade de pinturas rupestres. Nem todas estavam nítidas, mas inestimáveis pelo valor científico e histórico.
O circuito dos Rodrigues seguia por longa trilha pela caatinga, com subidas e descidas nas escarpas rochosas. A paisagem vista do alto encantava, com paredões, vales, gargantas, vegetação típica como xiquexique, coroa de frade, rabo de raposa, favela, mandacaru. Avistamos mocós e aves cantadeiras. Ao contrário da facilidade de se andar fora das trilhas na floresta amazônica, onde predominam árvores e folhas grandes, sem espinhos, na caatinga há o emaranhado de árvores e arbustos infestados de espinhos, com folhas que queimam ao primeiro toque.
As atrações do boqueirão da Pedra Furada compreendiam os principais sítios arqueológicos do parque, se destacando pela quantidade, qualidade e variedade. Imagens de homens, mulheres, animais em diversas situações cotidianas como festas, guerras, partos, trabalho, rituais, sexo. A formação da Pedra Furada atraiu, sobretudo, pelo céu azul visto através do enorme orifício e pela lua quarto crescente mais acima.
Encontrei um casal paulista que, pela Amazônia, pretendiam chegar aos Andes peruanos, em viagem prevista de seis meses. Estimulante ver brasileiros realizando essas aventuras de vida, ainda mais por conta própria. Ficaram entusiasmados com minhas descrições do Monte Roraima e do Pico da Neblina.
O bom restaurante da pousada em São Raimundo Nonato era o ponto de encontro da classe dominante local, que aproveitava o isolamento da cidade para conversar privadamente e fechar tenebrosas transações econômicas e políticas. Até honoráveis e excelentíssimos parlamentares compareciam para o ritual do “dar e receber”.

Muita lama rumo aos sítios do Pitombi, Serrinha e Zabelê. Precisei descer da moto várias vezes. Em ponto crítico, a moto derrapou e caímos na lama, besuntando o corpo e as roupas. Depois do Zabelê os caminhos pioraram e tivemos que partir para outras alternativas. Fomos à saída do desfiladeiro da Capivara e de lá retornamos ao Sitio do Mocó. As mutucas atacavam em grande número e picavam mesmo sobre as roupas. Visitamos a região do baixão do Perna onde havia placas de “cuidado com cobras”. O boqueirão das Mulheres estava lotado de marimbondos. As pinturas rupestres encontradas chamavam a atenção pelas cenas do cotidiano, como sexo em grupo, violência, acrobacias. Subimos a pitoresca trilha pelas escarpas até o Alto da Pedra Furada. Do alto se tinha ampla vista das baixadas, Sítio do Mocó e das demais áreas visitadas.
Nos arredores de São Raimundo Nonato, o museu do Homem Americano, ilustrado e autoexplicativo, além das tradicionais peças expostas, oferecia extensos painéis iluminados com imagens, desenhos, reproduções e textos de fácil compreensão. Podia-se ver, por exemplo, como eram a fauna e a flora na região até dez mil anos atrás, e como viviam as civilizações em harmonia com a natureza. Em outros painéis orientava-se sobre o que não fazer, como a ação agressora de madeireiros, caçadores, depredadores em geral.
Dei uma volta preguiçosa por São Raimundo Nonato, cujo município fora desmembrado em seis pedaços três anos antes. A região central era desorganizada. Apresentava muita sujeira e esgoto a céu aberto nas ruas, diferentemente da parte alta, mais limpa e arrumada. Porém a cidade conquistava pelo povo acolhedor, hospitaleiro e conversador. Em todas as paradas para matar a sede sempre aparecia alguém para papear, trocar ideias e informações. Demonstravam grande orgulho pela terra natal.
Numa delas a senhora me contou sobre a coligação progressista que governava a cidade depois de séculos de governos conservadores nas mãos da classe dominante. Embora ainda com muitos problemas, a situação melhorava a cada dia e a população reconhecia. A relação prefeitura/IBAMA era construtiva nas desapropriações das áreas do parque nacional e na assistência às famílias desalojadas. O mesmo não ocorria, segundo ela, nas relações de ambas as instituições com a Fundação do Homem Americano, devido à desconsideração inicial da fundação pela população nativa das áreas internas e vizinhas ao parque. Inicialmente removiam os moradores sem antes lhes providenciar lugares alternativos onde pudessem reproduzir as próprias identidades e aptidões. A população revoltava-se diante dos gastos com a preservação da natureza e a pesquisa científica, ao mesmo tempo em que nada lhe era revertido em benefício social.
A cachaça antes do jantar fez a cabeça divagar sobre aqueles dias memoráveis em São Raimundo Nonato e pelo fantástico parque nacional da Serra da Capivara. O parque nacional da Serra das Confusões ficaria para outra vez, infelizmente.
Tomei ônibus para Petrolina passando pelos estados da Bahia e Pernambuco. No trecho piauiense a estrada estava bem conservada e fiquei atento para não perder a divisa interestadual. O passageiro ao lado disse sorrindo:
“Não se preocupe com a divisa. Você notará facilmente que estaremos na Bahia pelo sacolejo do ônibus”.
Repentinamente o ônibus passou a sacudir como cavalo selvagem nas inúteis tentativas do motorista desviar dos inúmeros e imensos buracos. E chegava a tal ponto que o acostamento de terra era mais trafegável que a estrada “asfaltada”. As cidades baianas de Remanso e Casa Nova, ambas novas e construídas devido ao lago da represa de Sobradinho, eram repugnantes. Não passavam de amontoados de casas, tudo muito feio, sujo e abandonado. Perto dali o ônibus parou em restaurante horrível e nojento de beira de estrada. A placa sobre a pia do banheiro avisava que a região não contava com eletricidade nem água encanada. A população precisava buscar a água na represa em baldes, por conta própria. E isso ao lado do lago da hidroelétrica de Sobradinho, no rio São Francisco, onde o que mais tem é água e eletricidade.
Depois da chegada ao terminal rodoviário de Petrolina precisei esperar o novo embarque para Senhor do Bonfim. O visual desolava com pedintes, menores de rua e mau aspecto em tudo. Pouco antes da partida a rápida tempestade alagou parte do terminal, inundou as plataformas, com direito a ondas respeitáveis. Duas pontes cruzavam o rio São Francisco, de Petrolina a Juazeiro. Mas não impedia longos e demorados congestionamentos nos acessos, com direito a buzinas estridentes e semblantes irritados. Nada diferente das tardes chuvosas em alguma ponte da marginal do rio Tietê ou Pinheiros em São Paulo.
continua...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 4/7)

...continuação
Uma Yanomami e os dois filhos embarcaram conosco, em busca de assistência médica. O mais novo tossia forte e frequentemente. A mãe aceitava tudo que oferecíamos, sem trocar palavras, olhares ou sorrisos. Durante a descida do rio, vista das serras ao norte, barcos transportando indígenas, pequenas malocas na beira do igarapé. Em uma delas nos ofereceram cestas de palha em troca de nossas roupas.
O belíssimo nascer do sol, acompanhado de densa cerração, o desabrochar de flores lilases e róseas nas árvores eram demonstrações da alegria da natureza e também sinal de despedida. Essas belas imagens compuseram o último trecho de barco.
O calor estava infernal em São Gabriel da Cachoeira. Antes do pôr-do-sol subi ao morro através de caminho tomado de oratórios e anteriormente usado como peregrinação religiosa. No topo, o mirante bastante pichado e em péssimo estado, a vista privilegiada da cidade, o rio Negro, as montanhas e a extensa floresta. No hotel, raspei a barba de doze dias antes do banho caprichado.
O funcionário da empresa aérea nos forneceu o cartão de embarque ainda dentro do ônibus e, sem qualquer controle, desci na pista de pouso para o embarque na pequena aeronave. Após o início das manobras para decolagem, o piloto abriu a porta da cabine de comando e gritou para todos:
“Ei, tem alguém aqui na pista me pedindo para parar. Alguém aí se esqueceu de devolver a chave do carro. Devolve logo!”.
A chave encontrada foi então atirada da janela da cabine, na direção de quem tinha pedido.
Hospedei-me na mesma pousada em Manaus, perto do teatro Amazonas. Dei voltas pelo centro da cidade. Sem fome, apenas belisquei e tomei guaraná em pó com frutas. Voltei ao quarto do hotel a fim de retirar, com a ponta do canivete, os últimos bichos de pé.
O restaurante na esquina próximo ao hotel oferecia comida razoável. A caipirinha era bem preparada e ainda se apreciava o movimento das pessoas nas calçadas. Os coitados dos garçons usavam calças compridas, grossas camisas de mangas compridas abotoadas e gravata borboleta. Transpiravam, ensopando as camisas. A equivocada linha da hotelaria no país, geralmente importada do exterior e sem critérios, ignora as especificidades do Brasil, como o clima e a cultura descontraída.

Comprei passagem no barco que sairia no dia seguinte para Belém. Tentei ir ao cinema e passar o tempo, mas só havia lixo estadunidense. Renovei meu estoque de livros em sebo do centro da cidade. Contos de Machado de Assis e Clara dos Anjos do mestre Lima Barreto.
Maravilha os pontos minúsculos na cidade vendendo guaraná natural, em pó ou xarope. Pode-se levar a matéria prima em saquinhos e vidros de diversos tamanhos ou consumir no local. Misturam com diversas frutas, cereais, leite, folhas afrodisíacas e adoçam com o próprio xarope do guaraná. O efeito estimulante sentia-se claramente. Num dia tomei dois copos de meio litro cada. Durante a madrugada, completamente sem sono e com os olhos vidrados, tive que sair do hotel e andar a esmo pelas ruas vazias para passar o tempo.
Arrumei a mochila e caminhei até o porto pela manhã. O camarote do barco, cubículo infestado de baratas, possuía beliche com duas camas estreitas e curtas, frigobar. Acima da cama superior existia a entrada do ar condicionado central, sem possibilidades de regular. O barco encheu à tarde e era grande a animação do público nas plataformas. Uma família cristã fundamentalista se instalou no camarote ao lado e saiu para passear no porto. Só voltaram quando o barco já havia desatracado. Gritaram desesperadamente, acenaram e o comandante voltou para pegá-los.
À medida que o barco se afastava do porto e descia o rio Negro, Manaus ficava para trás com as palafitas iluminadas pelo sol de final de tarde. Escurecia quando cruzamos o encontro das águas do rio Negro com o rio Solimões.
Não serviram o jantar no barco na primeira noite. Entrei no camarote para comer meus lanches. Difícil. Eu era observado e cercado por inúmeras baratas. Alternava as dentadas e mastigadas com porradas e pisadas. Mais eu matava, mais baratas apareciam pelas frestas das madeiras das paredes e do piso. Na volta do banheiro coletivo o camarote parecia filme de terror. Eram centenas de baratas por todos os lados. Não perdoavam nem as camas do beliche. Pouco se importavam se eu estava lá ou não. Praticamente não consegui dormir. Elas subiam pelo meu corpo e, após leves cochilos, acordava assustado. Batia com as mãos na cama, matei algumas. Nada parecia afugentá-las.  
Logo ao amanhecer forte tempestade atingiu o barco em cheio. A chuva entrou no convés e os passageiros instalados nas redes reclamaram. As águas barrentas do rio Amazonas carregavam galhos, troncos, folhas, pedras. Vez ou outra se avistavam ilhas alongadas e casas isoladas nas margens.
Após a chuva subi ao convés superior. Não havia sol e a temperatura, com a brisa do movimento do barco, era bastante agradável. Lá havia imensa área livre com cadeiras, mais quatro camarotes, bar e lanchonete, onde se vendiam bebidas, salgadinhos, lanches, doces e poucos gêneros de primeira necessidade. Das caixas de som saía música em alto volume, que variava de forró, brega, rock brasileiro a reggae.

O barco atracou no cais de Parintins para desembarcar grande carga de refrigerantes. Parte dos estrangeiros desembarcou ali. Assim que encostamos, dezenas de ambulantes, na maioria crianças, invadiram o barco vendendo tudo aos berros. Tinha sucos, sorvetes, banana seca, bolinhos, iogurtes, queijo de coalho e muito mais. Reforcei o pedido para o tripulante comprar inseticida. Usei quase todo o tubo nos cantos do camarote. Ficou cheiro forte, fechei a porta, esperei fazer efeito. Mais tarde voltei para verificar o resultado. As baratas não só ainda estavam lá como ficaram mais assanhadas e nervosas.
Os passageiros se aglomeravam na profusão de redes no convés intermediário, onde também havia mais cinco camarotes, além do meu e das baratas, a cabine de comando, quatro banheiros com chuveiros, quatro pias, reservatório de água potável e gelada, enorme mesa retangular para as refeições. O piso lotava de sacolas e objetos, o teto, de roupas e toalhas penduradas. O convés inferior era usado para carga e descarga, cozinha, acesso às maquinas e para a tripulação. Alguns passageiros armavam as redes no meio da carga que não ficou no porão, entre caixas e mais caixas, e até um carro.
Me banhei demoradamente no chuveiro frio e forte. Enxaguei as roupas e as vesti ainda molhadas. Parada para descarga de sal em Juruti no final da tarde. Desci e circulei pelas ruas cheias de gente.
Ventos fortes fizeram o barco balançar muito pela manhã. A impressão era que estávamos navegando no mar. Várias ilhas apareciam e se desmanchariam com a ação violenta das águas. Nelas se viam casas e muito gado.
Conversei com um passageiro paraense, vendedor de sapatos. A conversa ia muito agradável até que caiu no comércio da fé. Apelou ao dogmatismo habitual dos fundamentalistas, vomitou frases feitas, muita bobagem. Mudei de assunto na marra. Mesmo porque o hipócrita bebia, comentava baixarias sobre mulheres e as comia com os olhos. Muitos passageiros eram evangélicos. Havia momentos em que me sentia cercado pelas falas, cantos, mulheres de bigode vestindo roupas medievais.
Pela manhã, após o encontro das águas barrentas do Amazonas com as esverdeadas do Tapajós, o barco atracou em Santarém em porto de enormes guindastes. Abaixo da foz do rio Tapajós, o rio Amazonas ficou ainda mais largo, imponente e fascinante. O vento suave ainda provocava leve balanço no barco. Quando não havia ilhas e o barco navegava a meio caminho entre as duas margens, se notava apenas a linha escurecida no horizonte. Antes de aportarmos em Monte Alegre passamos por canal margeado por muito verde, mangues, poucas casas e pastagens de gado. A luz dourada de fim de tarde deu o toque mágico à natureza do lugar.
O barco parou pouco tempo em Prainha no começo da noite. Assim como nas demais paradas noturnas, a juventude da cidade, banhada e arrumada, permanecia no cais para assistir ao embarque e desembarque de passageiros. Um militar brasileiro, de feições indígenas, apreciava a movimentação, fardado e em posição de sentido, tendo o bizarro nome Kissinger bordado na farda.

Em parada em Almeirim no meio da madrugada ouvi a batida do brega paraense tocado em alto volume. Entramos no fuso horário de Brasília. No meio da manhã, chegada em Gurupá, simpática cidadezinha, com construções de madeira, inclusive todo o cais, onde se emaranhavam dezenas de barcos de diversos tamanhos.
O barco deixou o canal principal do rio Amazonas e avançou por entre rios e ilhas do extremo sul da ilha do Marajó. Tanto na entrada, como nas margens dos canais menores, pequenas casas de madeira ou palha. Não se via nada plantado. Nenhuma horta, criação, nada. Madeireiras, transnacionais na maioria, atuavam nas imediações. Em meio aos canais e ilhas se pediam esmolas a quem passava. Geralmente ocupadas por crianças saídas dos casebres, canoas rumavam na direção do barco, formando, em seqüência, longa fileira de canoas. As crianças agitavam as mãos e gritavam histericamente. Os passageiros do barco jogavam comida e roupas em sacos plásticos. As cenas causavam mal-estar, particularmente pela abundância, ao redor, de água, terra e verde.
A paisagem, porém, fascinava e ganhava mais nitidez devido à estreiteza dos canais. Os açaizeiros abundavam carregados de frutos. Mais à frente os canais se alargaram. As diversas entradas e saídas de água, em ambos os lados, eram mais evidentes.
Último café da manhã a bordo. Momento de arrumar tudo e se despedir das baratas, inclusive daquelas mais preguiçosas que fixaram residência na capa da mochila. Mais imagens de partes do arquipélago, dezenas de barcos de passageiros dos mais variados tamanhos.
O barco fez a curva acentuada e a baía de Guajará se apresentou, com a cidade de Belém no final do horizonte. Era uma larga muralha de edifícios altos ainda indefinidos pela distância. Pesava sobre a baía de Guajará a sina de afundar embarcações devido à forte influência da maré. Daí a maioria dos barcos chegarem a esse trecho somente nas primeiras horas da manhã, sob o risco de enfrentar correntezas traiçoeiras e prováveis naufrágios. Esperamos ainda algumas horas antes de chegarmos. Passamos em frente ao centro antigo, o mercado Ver-o-Peso, o burburinho da zona comercial. O barco atracou nas docas do porto de Belém no meio da manhã.
Caí nas ruas da cidade em busca de hospedagem nas ruas do centro velho. Logo em seguida, degustei dois tacacás e um vatapá com arroz e jambu.
À tarde o céu escureceu, estouraram trovões por toda parte e desabou temporal tipicamente amazônico. Permaneci o resto da tarde chuvosa no quarto do hotel, lendo e avaliando os próximos passos da viagem. Não saíam da cabeça as boas lembranças da viagem de barco pelo rio Amazonas e os desejos de repetir a dose em outros rios da região.

Fora do centro antigo, Belém se parecia com qualquer cidade grande, com a infinidade de edifícios altos, trânsito caótico, intenso e nervoso, poluição sonora das buzinas estridentes, escapamentos de caminhões em manobra, alarmes de carros. Dei uma volta pelo centro histórico, com ruas estreitas, construções antigas, bonitas e mal conservadas. Em bom estado apenas os prédios públicos, igrejas, museus. A catedral, suntuosa e bonita, por fora e por dentro. Nas imediações do mercado Ver-o-Peso, muita sujeira se espalhava ao redor das barracas de frutas, verduras, temperos, comidas, roupas, as com o creme do açaí pronto para o consumo. Na parte interna, dezenas de barracas de peixe. Instalado dentro de antigo forte, havia o restaurante de comidas típicas paraenses. Saboreei o autêntico pato no tucupi e o divino suco de cupuaçu, diante da baía de Guajará, com o circular de barcos de diversos formatos e tamanhos.  
Doei minha rede à camareira do hotel. Deixei a mochila no guarda-volumes da estação rodoviária e voltei de ônibus à região do teatro da Paz. Perto dali, outro restaurante de comida regional, porém em atmosfera pretensiosa, ambiente artificialmente requintado, ar condicionado congelando o ambiente. A frequência, a nata da alta sociedade belenense e de estrangeiros a trabalho, acompanhados de prováveis testas de ferro do Brasil. Foi servida porção minúscula em enorme prato estilizado e coberto de enfeites. A sobremesa típica também revelava mais prato que conteúdo. Paguei caro e saí com fome. Ganhei de brinde um prato decorativo que entreguei à moradora de rua da esquina.
O ônibus para Parnaíba também vinha com o ar condicionado desnecessariamente gelado. Na parada em Caxias foi servido o café da manhã substancioso já incluído no preço da passagem. A estação das chuvas deixava a paisagem agreste esverdeada no interior do Piauí. Passageiros com rostos sofridos subiam e desciam nas cidades intermediárias, vilarejos, no meio do nada. A trabalhadora rural que se sentou ao meu lado no trecho piauiense dava exemplo de luta e perseverança. A sindicalista se movimentava por toda a região na conscientização dos colegas de classe, jamais esmorecendo diante das dificuldades.
Desembarquei em Parnaíba e fui ao hotel de moto-táxi, cruzando a cidade plana, limpa, bem arrumada, com raros prédios altos. Na margem do rio Parnaíba, o Porto das Barcas, local de fundação da cidade com o conjunto de construções históricas. A área contava com ruelas, lojas de artesanato, bares e restaurantes, onde caí de cabeça, várias vezes, nas deliciosas galinhas ao molho pardo.
Tomei o ônibus para a praia de Atalaia no município de Luis Correia. Sem graça, extensa, plana e sem vegetação, a praia possuía muitos bares e cadeiras perto da linha do mar. A notável qualidade era a ausência de lixo. Peguei o rumo leste com as areias praticamente desertas. Caminhei mais de duas horas sob o sol inclemente até alcançar a praia do Coqueiro, mais bonita e simpática, onde saboreei caipirinha e peixada.
continua...

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 3/7)

...continuação
Os demais da expedição finalmente chegaram. A chuva torrencial desabou durante a refeição coletiva. O ruído no teto metálico da casa impedia a audição de qualquer conversa. Repentinamente começou e, uma hora depois, repentinamente parou. O ar ficou mais fresco e a caminhada menos desgastante. Mergulhamos os corpos até o pescoço nas águas do rio por horas e horas, jogando conversa fora. Voltamos para a arrumação das mochilas e os últimos preparativos para a partida da manhã seguinte rumo ao Pico da Neblina.
Saímos a bordo da carroceria da caminhonete, onde se ajeitou, lado a lado, toda a bagagem, motor do barco, comida para doze dias e mais sete pessoas. Outros integrantes foram na cabine junto com o motorista. Desembarcamos horas depois e subimos em barco de madeira com mais combustível.
A rota fluvial, entre sol e chuva, iniciou descendo igarapés até o rio Cauaburi, onde acampamos no posto da FUNAI, responsável por 1.200 indígenas, separados em 38 etnias, distribuídos em várias aldeias, como os Yanomami e os Tukano. O posto contava com eletricidade de gerador próprio, rádio transmissor, antena parabólica e a onipresente televisão para auxiliar no embrutecimento cultural.
Composto de arroz, linguiça calabresa e farinha, o jantar queimou no estômago. Pelo menos água para beber não seria problema para matar a sede insaciável. Choveu fraco durante toda noite, mas o calor interno da barraca me ensopou de suor. Usei a mochila como travesseiro e, apesar da histeria do galo e do cachorro, consegui dormir.
No café da manhã, os alimentos desidratados trazidos de Belo Horizonte, como vitaminas de frutas e mingau, eram simplesmente horríveis. Quase vomitei ao tentar forçá-los goela abaixo. Mas não havia opções.
No segundo dia, mais de oito horas de barco subindo o rio Cauaburi, sentados em ripas de madeira, diante de trajeto espetacular, com a floresta exibindo todo o esplendor. A estreiteza do rio colaborava para o contato mais estreito com a natureza. Diversas aves sobrevoavam o rio e os igarapés de coloração escura. O morador de aldeia Yanomami nos acenou da margem. Estava com forte inflamação no olho e nos pediu medicamentos. Fornecemos, orientamos, conversamos. Depois de muitos agradecimentos, nos despedimos para seguir viagem rio acima. Parada para lanche em ponto usado por pescadores e lotado de mosquitos famintos por sangue novo. Na parte da tarde surgiram, acima da copa das árvores, as primeiras montanhas ao norte.

Dormimos em clareira na barranca do rio onde havia cabanas de palha abandonadas. Estava infestado de formigas, pulgas e bicho do pé, além de muita sujeira. Não havia igarapé por perto e a única solução foi se abastecer com a água barrenta do rio.
Ainda percorremos longo trecho de barco antes do início da trilha. Fomos abordados outra vez pelos Yanomami. Desta vez nos alcançaram de barco. Reclamaram por não pararmos na aldeia, nem para cumprimentar, nem para avisar para onde íamos. Não havia o que contestar. Estávamos na terra deles.
Atingimos o igarapé onde começamos a segunda etapa da expedição, somente por trilha. O relevo ainda era plano, o calor intenso, o suor escorria aos montes. Cruzamos igarapés de águas límpidas e frescas, nos reconfortando parcialmente. As extensas e úmidas raízes das árvores deixavam o piso escorregadio. Centenas de formigas vermelhas se acumulavam nas enormes folhas. Balançadas pelos passantes, pulavam nos seguintes. Atacavam na nuca, braços, cabeça, mãos, irritadas por terem sido perturbadas. O corpo parecia pegar fogo. Prazer com a beleza natural e atenção redobrada eram sentimentos sempre presentes.
Depois de montadas as barracas, o banho refrescante no igarapé ao lado, o jeito foi encarar o jantar à base de macarrão passado com molho de tomate em conserva. Ao lado das barracas havia área coberta de lona para armar redes. Dois garimpeiros e um Yanomami balançavam nas redes quando chegamos. Pelo menos até ali era mais aconselhável dormir em redes. Mais fresco, mais leve, mais prático.
Outro terrível café da manhã. Fomos obrigados a enfiar goela abaixo o lixo desidratado. Com todos esses quitutes a nossa disposição, soava cínica a recomendação do famigerado guia mineiro para nos alimentarmos bem em função do dia puxado que teríamos.
Na trilha cruzamos com mais Yanomami. Vestindo calção e camiseta, trabalhavam como carregadores de rancho para garimpeiros. Indígenas nas próprias terras carregando alimentos para garimpeiros. E dentro do parque nacional. Havia algo errado ou eu estaria divagando?
Enfrentamos várias horas de subida, alternada com trechos planos, até o segundo acampamento. A floresta estava fechada e sem ventilação. O calor castigava. Por absoluta falta de planejamento da chefia da expedição, os carregadores com a comida ficaram para trás e percorremos todo o trajeto sem comer. Depois de muita lama, cansaço e fome, chegamos ao acampamento tremendo de fraqueza. Alguém abriu o pacote de biscoitos de chocolate e atacamos como animais. A desorganização se resolveria facilmente se o grupo pudesse participar, sugerir, criticar. Mas o autoritarismo do tal guia se mostrava cada dia mais desastroso. Cinquenta metros abaixo do nosso ponto de pernoite havia igarapé com pequena queda d’água. As águas frias não impediram de mergulhar de roupa e tudo naquele calor. Lavei o que deu para lavar, subi ao acampamento e montei a barraca.

Mais um dia bastante longo e pesado. Subidas íngremes exigiram esforço físico exagerado. Todo o grupo, exceto o doce guia mineiro, reclamava de fraqueza e fome, derivados da pouca e fraca alimentação. Muitos passaram mal e o cinegrafista, especialmente convidado para o registro da viagem, sentiu tonturas e náuseas. À medida que subíamos no relevo o clima se alterava. A vegetação se tornava de menor porte e surgiam muitas bromélias. O vento, antes quase inexistente, agora refrescava, ou até esfriava. A neblina cobria parcialmente a paisagem. Ainda nos defrontamos, antes do campo base, com extenso atoleiro. Por mais que se tentássemos evitá-lo, nos agarrando e nos equilibrando por sobre as bromélias, afundávamos até os joelhos na lama.
A área do campo base do Pico da Neblina, a dois mil metros de altitude, estava bastante deteriorada. O igarapé corria em meio a muito cascalho oriundo dos garimpos. Algumas barracas de lona azul, utilizadas pelos garimpeiros, ainda estavam armadas. Embora o ouro fosse escasso e a área ser unidade de conservação, eles insistiam em permanecer no local. Além de picaretas, marretas e bateias, utilizavam explosivos e o mercúrio, contaminando os cursos d’água.
Depois de montar a barraca aproveitei para me lavar e tentar remover a lama das botas e meias. A água estava gelada, mas revigorava os ânimos. O guia local, de São Gabriel da Cachoeira, não se entendia com o guia de Belo Horizonte. Insistia em afirmar que houve vetos a compra de determinados alimentos para não encarecer a expedição. O sargentão mineiro negava. Os demais duvidavam de ambos. Enquanto isso o grupo sofria e se prejudicava.
Despertar ainda no escuro e o costumeiro café da manhã ralo para o tão esperado ataque ao topo do Pico da Neblina, nos altos da serra do Imeri.
Exagerando na voz solene, o sargentão mineiro nos censurou por transformarmos pequenos problemas em grandes problemas. Mas recusou-se a comentar o péssimo planejamento da expedição e o próprio autoritarismo centralizador. Nenhuma novidade vinda do milico frustrado. Como ninguém pretendia estragar ainda mais o ambiente, começamos logo a caminhar.
Depois do aperitivo do dia anterior, foram horas e horas transpondo o infindável atoleiro com pedras e raízes submersas. A subida começou ainda com lama, mas depois se tornou rochosa e mais íngreme. Usamos as mãos em poucos trechos e, em dois deles, cordas de segurança. As rochas aderiam, mesmo com a umidade, e as raízes das plantas, sempre presentes, ajudavam na sustentação. Os frequentes fios de água que desciam as encostas refrescavam e matavam a sede.
Paramos, forramos o bucho e os ânimos se elevaram.
Perto do meio-dia atingimos o ponto culminante do Brasil, o Pico da Neblina, na altitude, até então, de 3014m. O topo consistia do pequeno patamar, cercado por rochas com inúmeras placas contendo os nomes das equipes, datas e pessoas que o conquistaram. A maioria era de militares brasileiros. No topo da rocha mais alta, a bandeira do Brasil amarrada ao mastro. Dentro da caixa plástica, o pequeno caderno recebia as anotações dos visitantes, os depoimentos, registro da chegada, reflexões. A vegetação era rasteira e de pequeno porte, muitas delas cobertas por gotículas de água, sobre as quais a luz produzia efeito intenso e brilhante. O tempo, nublado e coberto de neblina, fazia jus ao nome. Nada se via abaixo ou mesmo a poucos metros de distância.

Foi grande a emoção da chegada e da conquista. Abraços, gritos, muitas fotos individuais e em grupo, registraram o momento único. Abrimos a lata de cocada para a celebração. A filmadora do cinegrafista enguiçou e foram necessárias quatro pessoas a abraçarem para gerar calor e afastar a umidade.
Permanecemos no cume o tempo suficiente. Ainda estava prevista a conquista do pico denominado, com o perdão da palavra, 31 de Março. Um dos carregadores, sem casaco para o frio e chuva, avisou que voltaria ao campo base. Certamente iríamos chegar tarde da noite no acampamento. E as lanternas não ajudariam muito. A extensão até o outro pico provocaria horas desgastantes a mais de caminhada. E para apreciar somente a densa neblina. Eu e o carregador decidimos voltar, mesmo diante das ameaças e chantagens emocionais do sargentão de Belo Horizonte.
Iniciamos cuidadosamente a descida. As pedras escorregavam e os dois trechos com cordas de segurança exigiram mais cuidado que na subida. Logo atingimos a extensão dos atoleiros. Parecia não ter fim. As raízes e pontas de pedra batiam nos joelhos e canelas. Atingimos o acampamento no final da tarde, esgotados e famintos.
Me lavei no igarapé. Tirei a lama das roupas, meias e botas. Depois de vestir roupas secas, me dirigi à barraca do garimpeiro, sede da nossa cozinha. Maranhense, muito simpático, falante e morando sozinho no campo base, o garimpeiro afirmou que a retirada de ouro era irregular e incerta. Abrimos a garrafa de conhaque para esquentar e relaxar. Matada a fome com a refeição bem servida, energias repostas, mais minutos do bom papo e o sono bateu em cheio. Deixei as boas companhias e entrei na barraca.
O restante do grupo só chegou no meio da noite.
Dia de preguiça e descanso. Muitos aproveitaram para levar e tentar secar as roupas. Pequena fogueira foi acesa para defumar as meias e tentar espantar a umidade.
Os diversos pontos de exploração de ouro dos arredores consistiam de pequenas clareiras, buracos profundos, igarapés desviados, rochas perfuradas ou estilhaçadas por explosivos, deixando o local desolado e triste. Os poucos garimpeiros que ali permaneciam ainda caçavam para se alimentar. O garimpo estava dentro dos limites do parque nacional do Pico da Neblina, unidade de conservação administrada pelo IBAMA. As reservas indígenas são administradas pela FUNAI. O exército, por ser região de fronteira internacional, também se fazia presente. E esses três órgãos públicos federais toleravam abertamente a manutenção do garimpo.
O dia seguinte foi de levantar acampamento e descer a serra. Antes da partida, as nuvens se dissiparam e o tempo abriu ligeiramente. A serra do Imeri e o pico da Neblina se exibiram, imponentes, acima da vegetação. Depois de transpormos os atoleiros, entramos para valer na íngreme, longa e extenuante descida. A presença de lama, pedras e raízes molhadas tornavam o percurso mais delicado, compensado, porém, pelo tempo aberto e ensolarado que possibilitou avistar as planícies da floresta abaixo. A noite caiu agradável e fria. O luar prateado, que brilhava por entre as árvores, iluminava o acampamento e nem precisamos acender as lanternas.
No outro dia chegamos cedo ao ponto do acampamento, em tempo para aproveitar o refrescante igarapé ao lado. Mergulhei, nadei, relaxei. O calor ajudou a secar as roupas, meias e botas. Aparecendo somente abaixo de novecentos metros de altitude, os mosquitos não davam folga. Fora da água, para evitar o excesso de repelente na pele, me cobria com roupas compridas.

Vez ou outra passavam grupos de Yanomami carregando provisões para o garimpo em mochilas de palha entrelaçada. Nem eles se acostumavam com os mosquitos, espantando-os a todo instante das costas e braços. Decidiram pernoitar no mesmo acampamento. Parte do nosso grupo removeu as redes armadas justamente no pedaço mais protegido, liberando espaço para os verdadeiros habitantes do território. Nós éramos os visitantes e não os Yanomami. Nos pediram faca emprestada para limpar na beira do igarapé o macaco guariba caçado. Tiraram os pelos e o couro. Colocavam a caça limpa e preparada em grande panela sobre o fogo. Depois de nos oferecerem, comeram com gosto.    
Último de dia de caminhada. Reduzi bastante o ritmo a fim de melhor aproveitar os últimos momentos daquela exuberância. Nem retirei as roupas. Mergulhei na água refrescante e me larguei na leve e gostosa correnteza. As águas tinham baixado e precisamos empurrar o barco até o ponto mais profundo. Estendi as roupas, meias e botas na proa do barco para secarem. Descia o rio Cauaburi conosco um casal de garimpeiros cuja mulher adoentada buscaria assistência médica.
Subimos o igarapé Maturacá, de águas escuras e calmas, até a aldeia Yanomami. Fomos recebidos por uma antropóloga antipática, pertencente a uma ONG, depois de conseguir a autorização de entrada por rádio. Em parceria com a ONG, a missão salesiana cristianizava compulsoriamente a população indígena da aldeia, retirando as crianças das famílias para jogá-las em internatos religiosos. Nas malocas ao longe, se ouviam sons de rituais e danças. Cadeias montanhosas da serra do Padre se avistavam mais ao fundo. Ouvimos que certa empresa de turismo canadense trazia os turistas na aldeia com a promessa de exibir-lhes os povos mais primitivos do planeta. Além do impacto negativo sobre a cultura local, nenhum centavo dos quatro mil dólares cobrados de cada turista estrangeiro chegava à população das aldeias.
continua...