segunda-feira, 27 de abril de 2026

Rússia (ferrovia Transiberiana), Mongólia e China (parte 8/8)

 ...continuação

Pela manhã, ônibus para Shaoshan, cidade natal de Mao Zedong (Mao Tsetung).

Primeiro, o memorial com fotos, textos, reproduções de cenas da história do líder da revolução chinesa de 1949. Nova triagem de segurança e ônibus interno no sentido da praça principal. Ao redor da estátua de Mao dezenas de grupos depositavam coroas de flores, faziam três reverências inclinando o corpo. Havia três opções de coroa de flores, a pequena, a grande, e a enorme com direito a banda musical militar com soldados vestidos a caráter. Os chineses abarrotavam o local. Mais nenhum estrangeiro por ali.

O povo chinês prestava homenagem a quem esteve à frente das transformações revolucionárias que substituíram a velha China, feudal, miserável e submissa ao imperialismo ocidental e japonês, pela nova China, soberana, que aboliu a fome, a miséria, o analfabetismo, o desemprego, garantindo vida digna a mais de um bilhão e quatrocentos milhões de chineses. Transformações que não cessavam de ocorrer e contavam como apoio e a participação maciça da maioria do povo.

Mais filas longas e lentas para visitar a casa onde Mao Zedong morou com a família, contendo móveis e objetos pessoais. Em seguida a escola onde ele estudou os primeiros anos.

O ônibus atravessou a cidade de Changsha a fim de visitar a ilha alongada de Juzizhou, no rio Xiang Jiang, que banha e divide a capital da província em dois setores. Ao redor, espetáculo de luzes coloridas, temáticas e dinâmicas nas altas torres envidraçados das margens do rio. No meio da ilha, busto gigante e iluminado do jovem Mao Zedong.

Apesar de carentes de beleza, as cidades chinesas visitadas ganhavam leveza e qualidade de vida devido à arborização intensiva em ruas, avenidas, praças, parques, espaços vazios em geral, viadutos repletos de vasos de flores.

Em restaurante dentro de complexo retrô de três andares, lembrando armazém antigo, com paredes e pisos descascando, o jantar farto e variado. Veio de tudo um pouco. Camarão, lagostim, lula, rã, sapo, legumes variados, invariavelmente ensopados em molhos bastante apimentados. Tigelas de arroz não paravam de chegar. Hidratei o banquete com o destilado Baijiu e suco de frutas.


Ônibus ao aeroporto de Changsha para embarcar em voo rumo a Xi’An (Xian), capital da província de Shaanxi.

Em restaurante na avenida principal de Xi’an detonei dois pratos bem servidos. Primeiro noodles com legumes em caldo quente e temperado. Emendei com piang piang, macarrão largo e longuíssimo repleto de carnes e legumes.

Dei voltas pelo miolo da cidade, iluminada exageradamente, como regra nas cidades chinesas. Muita gente em circulação, conversando, comendo, e também dando sequência a hábito curioso entre parte das mulheres chinesas. Elas vestiam roupas das dinastias chinesas feudais, se maquiavam, se penteavam como tais, faziam caras e bocas e eram fotografadas nas calçadas como se fossem chinesas da antiguidade. Outras falavam sem parar diante de celulares posicionados sobre tripés a fim de serem vistas e ouvidas na internet. Não eram casos isolados e se concentravam em pontos da cidade.

Pela manhã, visita à filial distante e moderna do Museu de História de Shaanxi. Tudo amplo, novinho em folha. Painéis explicativos sobre a história dos primeiras dinastias que se unificaram, dominando diversas etnias espalhadas, sobre o território da China atual.

Pelas avenidas, de ida e volta ao museu, edifícios residenciais de mais de vinte andares, às pencas, abrigando parte dos um bilhão e quatrocentos milhões de chineses. Construções cinzentas, pardas, a despeito de amplos apartamentos, entristeciam aquela paisagem urbana sem fim. A arborização e o ajardinamento das cidades chinesas, por outro lado, iniciada havia mais de vinte anos e seguida à risca em todas as partes, amenizava a paisagem urbana.

Almoço perto do pagode do Grande Ganso Selvagem, ao qual nos dirigimos em seguida com a barriga cheia e satisfeita. Bem mais agradável e útil, porém, era apreciar e registrar flagrantes urbanos da cidade murada de Xi’an.

Circulei despretensiosamente pelo centro da aconchegante e atraente cidade de Xi’an. Flagrei cenas urbanas, as variadas e minúsculas motos elétricas, com ou sem cobertura, com ou sem reboque, com ou sem assentos traseiros, as barracas de sucos de frutas frescas, as de comes e bebes variados, a maioria limpa, organizada, colorida, vistosa. Como esperado, muita gente, mas muita gente mesmo, nas ruas.


No meio do dia rumo aos arredores de Xi’an (Xian), onde, em 1974, acidentalmente, por camponeses lavrando a terra, foi encontrado parte do mausoléu do imperador Qin Shihuang, da dinastia Qin, contendo os mundialmente famosos Exércitos de Terracota, uma das maiores atrações da China.

Em galpões cobertos, em processo de escavação arqueológica, com muito ainda a ser descoberto e exposto à visitação, lá estavam os soldados do imperador, em tamanho natural, cuja função seria a de protegê-lo após a morte. Em centenas de metros, enfileirados militarmente, soldados, armados ou não, cavalos, charretes, completos ou danificados, em pé ou caídos, mas todos em tamanho natural. Originalmente coloridos as peças perderam a pigmentação ao entrar em contato com a atmosfera.

Obviamente estava lotado de visitantes. Os turistas chineses e estrangeiros se empurravam para apreciar e fotografar da melhor posição possível.

O galpão contendo a escavação 1 era o maior e o mais deslumbrante. O galpão protegendo a escavação 2 era menor, mas também fascinante. O galpão da escavação 3 oferecia cenas diferenciadas, embora em menor quantidade.

O mausoléu do imperador Qin Shihuang, embora localizado e mapeado com exatidão, jamais fora escavado. O ar contaminado por mercúrio, o risco da atmosfera natural danificar pinturas, revestimentos e cores, como no exército já escavado e exposto, provocava o adiamento dos procedimentos até o momento em que novas tecnologias garantissem a preservação do material tal como foi no século III A.C..

Perambulações livres por Huimin Jie, o bairro muçulmano de Xi’an (Xian), ao lado da Torre do Tambor e da Torre do Sino.

O bairro charmosíssimo revelava ruas estreitas, becos, comércio alegre, comes, bebes, lojas de antiguidades, lembrancinhas, inutilidades, supérfluos. No meio dos itens expostos à venda, muita estupidez para turistas com problemas mentais, como camisetas com a foto do ex-presidente negro daquele regime terrorista ao norte do México, mais a expressão impressa em letras grandes “Oba Mao”. Também camisetas com foto do protofascista de plantão daquele mesmo regime, mesclados com frases da história da revolução chinesa. Servia para aqueles que pensam que já viram todas as idiotices do mundo. A despeito de ostentarem a própria estupidez os consumidores desses itens inevitavelmente contribuiriam com o comércio local de Huimin Jie. Era a ironia chinesa.

Ocupando espaço privilegiado no miolo do bairro muçulmano, a tranquila e fascinante Grande Mesquita de Xi’an. Em arquitetura tipicamente chinesa, mal reconheci estar dentro de uma mesquita, a não ser pelos escritos em árabe, os fiéis de barrete, as fiéis com véus. Caminhos estreitos, vegetação, passagem sob os arcos de pedra, madeiras e pedras trabalhadas, silêncio, paz, naquele espaço islâmico.


Ônibus à estação ferroviária de Xi’an (Xian) para embarque rumo a Yan’an (Yanan).

O trem confortável promoveu viagem tranquila, atingindo velocidade máxima de cento e sessenta e cinco quilômetros por hora.. No início do percurso, extensas planícies cultivadas. Depois a sucessão de túneis conduziu a composição para área de relevo acidentado, vegetação ressecada, encostas desmatadas, boçorocas, rios enlameados, aspecto geral de acentuada mudança climática e também de degradação ambiental.

Da estação ferroviária de Yan’an longo trajeto por estradas sinuosas aos arredores da cidade, colinas acima, no sentido do hotel composto por quartos e chalés amplos e ricamente decorados com motivos regionais. A intenção era fazer os hóspedes se sentirem em situação similar à dos revolucionários chineses nos anos 1930 após a Longa Marcha, do sudeste para o noroeste da China. Na época os membros do exército vermelho, para escapar do cerco do Kuomintang e das forças armadas das classes dominantes, se viram obrigados a morar em habitações improvisadas nas montanhas, em cavernas ou grutas de fachada discreta e disfarçada, mas de interiores abastecidos com todo o necessário.

Desci para tomar café da manhã autenticamente chinês, sem concessões. Comida de verdade, e com pimenta, típica da província de Shaanxi. Nem talheres havia, apenas os kuazi e as sempre charmosas colherzinhas estampadas com motivos locais.

Explorei as estradinhas atrás dos chalés, morro acima, em meio à cerração. Esquilos, pássaros grandes com caudas ainda maiores, paz, silêncio, vegetação, mais nenhum ser humano por ali. Dei de cara com algumas das grutas onde ficaram os membros do exército vermelho. História pura.

O complexo de grutas de Yangjialing concentrou a liderança do Exército Vermelho e do Partido Comunista da China, entre eles Mao Zedong, Chou Enlay, Li Shaoshi. Lá estavam as moradias durante os anos de recuo e reorganização. Eram minúsculos cômodos espartanos encravados na encosta. Havia também outros espaços para reuniões, assembleias, hortas comunitárias, etc. Uma vez descobertos, os revolucionários chineses montavam outra base nos arredores de Yan’an.

O segundo sítio visitado, Wangjiaping, também contava com grutas para moradias, locais de reuniões e hortas comunitárias.

Eram locais bastante visitados pelos chineses, em especial os membros do Partido Comunista e funcionários do governo. Mais nenhum estrangeiro em circulação.

Yan’an (Yanan) se diferenciava das demais cidades chinesas visitadas. Não era tão urbanizada, organizada, limpa, arborizada e, principalmente, padronizada. Talvez estivesse em estágio anterior das demais. A homogenização urbana ainda não a atingira.

Naquela manhã circulei pela beira do rio Yanhe, observando as montanhas com sinais de grutas escavadas. A icônica torre se erguia no topo da colina. Fluía pouca e barrenta água pelo vale do rio cortado por dezenas de pontes. Obras se espalhavam em diversos pontos da cidade. A cor preta predominava nas vestimentas deles e delas. Embora mais retraídos os moradores retribuíam sorrisos e acenos de mão.

Almocei sopa com legumes e bolinhos de massa recheada de carne, pouco apimentado. A dona do estabelecimento riu quando entrei e fiz o meu pedido conforme as fotos nas paredes. Me pareceu que estrangeiros raramente entravam ali. Emendei com enorme pão recheado com creme de ameixa. Durante a ida e a volta a pé, sozinho, fui alvo de olhares curiosos de todos os pedestres que sorriam e cumprimentavam.


Ônibus rumo à Nanniwan, vilarejo nas redondezas de Yan’an (Yanan). Tratava-se de mais uma referência na luta dos revolucionários que libertaram a China da opressão e humilhação imperialista. Ali fora formado o conselho de camponeses e soldados, auto suficiente, contendo escolas, atividades culturais, entre tantas opções libertadoras. Extensas plantações de arroz, dourado naquele mês do ano, embelezavam o outono. A imensa escultura da foice e martelo, em cor vermelha, se destacava no meio de tudo.

Voo de volta à capital Beijing (Pequim).

Eu tinha gostado da China, dos chineses, mas não o tanto para me fascinar e desejar retornar. Por outro lado, era claro, a China e os chineses iam muito bem, obrigado. E com tendências a melhorar ainda mais. Tudo graças à revolução chinesa de 1949, a partir de quando começaram as transformações radicais na sociedade chinesa, seguidas das correções e dos aperfeiçoamentos necessários. Noventa por cento dos um bilhão e quatrocentos milhões de chineses tinham moradia própria e de qualidade. Setenta por cento dos jovens de até trinta anos também. O salário mínimo médio na China era muito superior ao do Brasil. O poder aquisitivo dos chineses era ainda maior por conta do baixo preço dos itens essenciais, como alimentação, saúde, educação, lazer, transportes, etc. Contra fatos não há argumentos. A realidade favorável da China e dos chineses era inquestionável. E sem as transformações radicais iniciadas com a revolução de 1949 nada disso aconteceria.

Pela internet ouvi vídeo esclarecedor sobre a catástrofe nos Estados Unidos onde quarenta milhões de estadunidenses vegetavam abaixo da linha da pobreza. O jornalista Jamil Chade, autor do livro Tomara Que Você Seja Deportado, descrevia a calamidade social em que se encontrava o império.

No aeroporto de Daxing, voo para Doha, no Qatar. Durante o percurso as prestativas comissárias de bordo, mal orientadas pela chefia, serviram a refeição, depois o tira-gosto, depois as bebidas. Exatamente ao contrário.

Li e encerrei Os Urubus Não Esquecem, de Pedro Cesarino. Segui com os contos de As Coisas Que Perdemos No Fogo, de Mariana Enriquez. Comecei a ler Samarcanda, de Amin Maalouf.

Desembarquei em Doha. Me estendi em banco voltado para cochilos, bastante anatômico e espaçoso. Caí imediatamente em sono profundo, com direito a roncos variados.

Embarquei em voo lotado, como sempre, para São Paulo.

Li bastante o interessante Samarcanda, de Amin Maalouf.

Desembarquei em São Paulo à noite daquele início de novembro. Entrei em casa antes da meia-noite.

Fim de longa e maravilhosa viagem pela Rússia, Mongólia e China, três países diferentes que me marcaram e me marcariam por muito tempo.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Rússia (ferrovia Transiberiana), Mongólia e China (parte 7/8)

 ...continuação

Pela manhã embarque no metrô de Beijing para trajeto de dezesseis estações, até o ponto das ruínas do antigo Palácio de Verão dos imperadores.

Praticamente nada mais restava em pé. Os civilizados regimes da Inglaterra e França saquearam e destruíram os pavilhões, igrejas, mesquitas, templos, fontes, tudo. Era o início do século da humilhação do povo chinês pela tirania da Europa. Não por coincidência não havia ocidentais desses regimes em visita aos escombros decorrentes daqueles crimes cometidos. Os chineses, no entanto, de todas as idades e regiões do país, sobretudo crianças escolares, visitavam o local, para aprender, relembrar, jamais esquecer o que significaram, e ainda significam para outros povos, o imperialismo estadunidense e europeu.

Em ônibus urbano, cuja passagem equivalia a menos de um real, para a ruazinha gastronômica e almoçar bem o pato laqueado, macarrão com legumes, suco e chá bem quente.

Dali breve caminhada ao novo Palácio de Verão. Os imperadores construíram lagos, colinas, templos, pavilhões, residências, em área extensa, a perder de vista. O local estava entupido de turistas, chineses e também os estrangeiros que não foram às ruínas do antigo Palácio de Verão para aprender sobre os crimes dos regimes dos respectivos países.

De maneira geral, os chineses, crianças, idosos, todos, observam, sorriem, cumprimentam. Povo feliz vivendo em país feliz.

Na manhã seguinte visita ao mausoléu de Mao Zedong na praça Tiananmen. Foram três horas e meia em várias filas por conta da verificações de passaporte, controles de segurança para os objetos trazidos no corpo, com direito a apalpadelas na frente, atrás, membros superiores, membros inferiores, quadril, centímetro por centímetro, das roupas e do corpo. E em repetidas vezes, em filas diferentes. Por fim, a última e novamente imensa fila para acessar o mausoléu propriamente dito, a fim de ver o corpo embalsamado do líder da revolução chinesa Mao Zedong.


Mais deslocamentos pelo eficaz, eficiente e extenso metrô de Beijing (Pequim). Desembarque na estação construída para a vila olímpica das Olimpíadas de 2008. Lá estavam construções gigantescas e arrojadas, como o estádio Ninho de Pássaros, entre tantas da moderna arquitetura chinesa, e o prédio construído em 2021 para comemorar o centenário do Partido Comunista chinês.

A construção suntuosa e bojuda do museu abrigava exposição didática. Em cinco pavimentos organizados em ordem cronológica havia fotos, textos, vídeos, filmes, painéis, pinturas, objetos, referentes aos cem anos do Partido Comunista chinês. Pouca coisa apresentava legendas em inglês ou em outras línguas além do mandarim.

Após o museu, jantar em restaurante típico que servia hot pot. Diversas comidas cruas eram lançadas em água fervente e temperada, com ou sem pimenta, para cozinhar no ponto desejado de cada um. Tomei cem ml de baijiu com gradação alcoólica de 56 por cento. Pedi suco de limão para diluir tamanha dinamite alcoólica.

Muito boa a frota de motos e lambretas inteiramente elétricas, silenciosas, não poluentes do ar e dos ouvidos. Porém, na China, e na Mongólia, elas circulam impunemente pelas calçadas, mesmo as calçadas estreitas, que mal cabem os pedestres. Silenciosíssimas, elas apareciam do nada, por trás, pela frente, pelos lados. E aí era um alvoroço para desviar ou ser desviado. Nunca presenciei acidentes ou desrespeito por parte dos condutores desses veículos. Mas as finas e os quases eram inúmeros.

Forma dezoito estações de metrô mais ônibus urbano ao extremo leste da capital chinesa. Em extensa área recentemente urbanizada, com estações de metrô previstas para breve, jardins, árvores, beira de rio, os arrojados prédios da Biblioteca de Beijing e do Centro de Performance Artística de Beijing.

As três construções do Centro de Performance Artística impressionaram pelo desenho e detalhes das fachadas, sob os diversos ângulos de observação. Internamente, cafeterias, lojas de lembrancinhas inúteis, três auditórios estupendos, na acústica, na disposição da plateia e balcões, no palco amplo. Num deles organista ensaiava e testava os recursos técnicos do aparelho, com os tubos produzindo sonoridade assustadora.

Novamente o eficiente metrô da cidade para alcançar o complexo comercial de escritórios Soho, projetado pela arquiteta iraquiana Zaha Hadid. As formas da construção, abusando de curvas sinuosas nas estruturas, interligações fechadas e abertas, provocava espantos, de longe, de perto, de dentro, de cima, de baixo, por conta dos interiores vazados.

Levantei antes da alvorada. Desci ao café da manhã que apenas iniciava os serviços.

Na estação ferroviária de Beijing (Pequim), embarque em assentos confortáveis e espaçados do trem de alta velocidade para Shanghai (Xangai).

O percurso contou com três paradas em cidades no caminho, todas invariavelmente entupidas de prédios altos e cinzentos, alguns de desenhos ousados. Entre as zonas urbanas, plantações com culturas variadas. Ao fundo do horizonte serras e serrotes quebravam a monotonia da paisagem aplainada, vez ou outra recortada por rios de porte médio. Os vagões confortáveis do trem pouco balançavam e atingiram a velocidade máxima de trezentos e quarenta e oito quilômetros por hora.

Durante o trajeto era possível pedir comida por aplicativo da internet de maneira antecipada, especificando o trem, o vagão, o assento. A refeição seria preparada na cidade da próxima parada. Assim que o trem encostava na estação dessa cidade, as encomendas já estavam disponíveis na plataforma. Os funcionários internos do trem as recolhiam e as distribuíam nos vagões e assentos correspondentes.

Desembarque no começo da tarde na gigantesca estação ferroviária de Shanghai (Xangai), integrada lado a lado ao aeroporto internacional. Ônibus ao hotel situado ao lado da estação do metrô.

Metrô rumo ao centro de Shanghai. Logo atingi a orla do rio Huangpu, afluente do rio Yangtzé, não distante da foz no Mar da China Oriental. Calçadão elevado, largo e extenso, atraía moradores e visitantes para perambular ao final da tarde. Na margem oposta do rio a internacionalmente famosa linha de torres de vidro, altíssimas, deslumbrando turistas regionais e estrangeiros.

Circulei por ali até anoitecer e começar o espetáculo de luzes nos arranha-céus da outra margem. A maioria se impressionava com o colorido da iluminação. Não se cansavam de fotografar e, sobretudo, se fotografarem. Na beira do calçadão, barcos de passeio e de travessia entre as margens. Também atracados diversas embarcações para festas e eventos em geral, decoradas e escandalosamente iluminadas.


Mergulhei no Bund, o centro da cidade, por ruas, avenidas, becos cheios de bares, restaurantes, cafés, e muita gente jovem.

Durante o café da manhã, conversas com mãe e filha marroquinas com quem dividi a mesa em ambiente lotado. Muçulmanas legítimas, viajadas, alegres, comunicativas, elas tomaram a iniciativa do diálogo, brotando assuntos variados.

Novamente o metrô levou à Casa e ao Memorial refente ao primeiro congresso do Partido Comunista chinês, em 1921. Fotos, vídeos, textos explicativos, a despeito da maioria deles somente em mandarim.

Almocei bolinhas de trigo macias recheadas com carne de porco e nabo. Saborosíssimas.

Shanghai sofria fortes influências ocidentais, em especial nas vitrinas das lojas, expondo marcas famosas, aquelas de sempre pelas quais os consumistas se matam. Era a cidade da China na qual mais abundavam turistas e moradores provenientes dos países ocidentais. Definitivamente, as motos elétricas, circulando livremente e impunemente sobre as calçadas, se tornavam impraticáveis. Os pedestres sofriam com aquelas máquinas velozes e silenciosas.

Para além das ilimitadas funcionalidades digitais disponíveis na vida cotidiana, da simpatia e prestatividade do povo chinês, o que mais me deslumbrava na China era a arborização planejada e intensa em todos os lugares vagos do país. Calçadas, canteiros centrais de ruas e avenidas, rotatórias, vasos de plantas floridas em viadutos, acostamentos e ilhas das rodovias, áreas livres nas esquinas, recuos de calçadas, entre outros tantos lugares. Sem falar na infinidade de praças e parques bem cuidados. Não havia espaço disponível que não estivesse densamente arborizado. A saúde dos seres vivos agradece. Os olhos agradecem. O planeta agradece. Somente assim dava para aceitar a falta de beleza em geral das modernas cidades chinesas.

De manhã ônibus para Jiaxing. O veículo percorreu rodovias de várias pistas entupidas de automóveis, ônibus, caminhões. Em ambos os lados, edifícios altos, cinzentos ou pardos, impessoais, Tudo porém, para felicidade geral da nação, arborizado maciçamente, em muitos casos recentemente, com as árvores ainda contando com os suportes laterais.

Perambulei pela orla do lago de Jiaxing, arborizado e ajardinado maravilhosamente. Pelas águas, barcos em desenhos antigos carregavam turistas chineses.

Foi numa dessas embarcações que nos dirigimos à ilha no centro do lago. Em 1921, ao lado da ilha, em barco com aquelas características, hoje turísticos, os membros fundadores do Partido Comunista chinês prosseguiram a realização do primeiro congresso, interrompido em Shanghai pela polícia do quadrante francês. Naquela época a cidade era fatiada em partes, cada uma delas administrada e policiada por um país estrangeiro. Corria o século da humilhação para os chineses.

No interior da ilha lacustre, pequeno palácio utilizado pelos imperadores em determinadas estações do ano, mobiliado e decorado conforme as modas antigas.

Pelo centro antigo e histórico de Jiaxing, entre as dezenas de opções charmosas, almocei bolinhos de arroz prensado, com carnes, ovos, verduras, castanhas. Tempo para passear em região que remetia à velha China, mesmo a China depois da revolução de 1949, mas antes da modernização acelerada a partir da virada do século XX para o XXI. Flanei por becos, canal de água, pontezinhas pitorescas, casas de madeira, barcos da época, comércio ativo e atraente de comes e bebes.


Levantei muito cedo. Ônibus ao aeroporto Pudong, de Shanghai, a fim de embarcar em voo doméstico para Zhangjiajie, província de Hunan.

A empresa aérea Juneyao, nova, modesta, caprichou no atendimento aos passageiros. As comissárias, recém-saídas da adolescência, lindas, delicadas, parecendo bonequinhas de porcelana, se desdobravam em sorrisos e trejeitos para agradar.

Já em meio às montanhas de agulhas areníticas da cidade de Zhangjiajie, almoço de comida típica da província de Hunan, famosa pelos pratos apimentados. Na verdade, a pimenta estava mais nos próprios pedaços dela do que no sabor incutido nas opções variadas que se alternavam no centro giratório da mesa coletiva.

A portaria sul do Parque Nacional de Zhangjiajie levava à parte baixa da região, de onde se avistava os pináculos rochosos de baixo para cima. Havia filas para entrar no parque pago, muita gente pelo caminho, sobretudo de turistas chineses, mas nada de lotação ou tumultos que impedissem o prazer de caminhar em meio a árvores, cursos d’água, montanhas agulhadas e enevoadas ao fundo.

À noite, o espetáculo musical Madame Raposa (Lady Fox). A plateia do teatro ao ar livre, aos pés da montanha Tianmen, abrigava mais de mil espectadores, entre turistas chineses e estrangeiros. O espetáculo se baseava em fábula chinesa da região. Enredo e roteiro excessivamente ingênuos. Produção ambiciosa, de gosto duvidoso, usando e abusando de luzes e cores.

Pela manhã bem cedo, na entrada central do Parque Nacional Zhangjiajie, inúmeras e longas filas por corredores estreitos de barreiras metálicas. Tudo, absolutamente tudo, na China era cheio de chineses, e estrangeiros também, que avançavam aos trambolhões, mais por afoiteza e cientes de viverem em país superpopuloso do que por má-educação ou desrespeito. Entre uma fila longa e outra, ônibus interno, acessado por filas longas, para atingir outros estágios com mais filas longas. Finalmente os imensos e questionáveis elevadores que transportavam o público ao topo das montanhas de pináculos areníticos.

A subida do elevador, feita em duas etapas, com formação de longas filas entre elas, era afronta tecnológica à natureza e aos seres humanos, visível de vários pontos, próximos e distantes. O Parque Nacional Zhangjiajie era de propriedade privada! Portanto movido pelas leis do lucro, e não pela harmonia entre os seres humanos e a natureza.

Enquanto essas reflexões ocupavam minha mente, eu tentava superar as seguidas e longas filas. Mais ônibus internos, mais curtas caminhadas, precedidas e sucedidas por longas filas de dezenas de milhares de turistas em pleno dia útil e longe de qualquer feriado. No meio dos caminhos de concreto, vendinhas, comércio, bugigangas em exposição, gente, muita gente, grupos de turistas, muitos grupos de turistas.

Entretanto, as montanhas, então vistas de cima para baixo, com ou sem vegetação, nas encostas ou no topo dos pilares, meio suspensas no ar em razão da névoa fina costumeira daquele outono úmido, encantavam os olhares. Nem a absurda lotação de turistas se amontoando nos locais mais privilegiados de observação, e se fotografando de maneira obsessiva, prejudicava o prazer de contemplar tantas e curiosas belezas naturais.

Para descer e fazer o caminho de volta aos portões centrais do parque nacional, mais filas, mais ônibus internos, mais trilhas curtas e entupidas de turistas para alcançar a estação dos bondinhos, teleférico, que levava todos para baixo. Pelo percurso aéreo, imagens belíssimas dos pilares areníticos bem diante dos olhos.

No meio da tarde, nas tradicionais mesas redondas, com o centro giratório, comi e bebi a melhor refeição e bebidas da região até aquele momento. Tomei chá da casa, baijiu, o destilado chinês de arroz. Comi carne de frango, carne de boi, carne de porco, carne de pato, verduras e legumes, ovos temperados, brotos de bambu, entre outras tantas e saborosas iguarias, autenticamente chinesas e apimentadas da província de Hunan.


Na manhã seguinte, na entrada ao acesso à montanha Tianmen, filas e mais filas. Embarque em bondinho, ou teleférico, sustentado por cabos altíssimos, para percorrer, sobre as montanhas, nove quilômetros durante vinte e cinco minutos. Em elevação gradual de altitude, visão incrível das escarpas, dos vales e lagos, das casinhas e lavouras isoladas, do ziguezague da estrada ascendente, serpenteando as montanhas até o cume, do verde intenso das encostas, da cidade de Zhangjiajie, atrás e embaixo.

Já no topo da montanha, trilha leve e diluída na multidão inacreditável de chineses e poucos estrangeiros, com direito a vista estupenda das montanhas, algumas em pináculos, dos vales, novamente da cidade, lá no fundo e distante no horizonte. Curto trecho sobre vidro transparente ao lado da encosta rochosa vertical.

Me entusiasmava com a paisagem estonteante. Ao mesmo tempo questionava tanta tecnologia invasiva na natureza. E associava essa agressão ao fato daquele parque nacional estar entregue à empresa privada. Abundavam as lojinhas de inutilidades e supérfluos, bancas de comes e bebes das redes daquele regime terrorista ao norte do México, ao lado de opções chinesas.

E começou a descida, não descida comum, em meio à natureza. Mas por nada menos que doze lances de escadas rolantes escavadas dentro da montanha. Nada se via do exterior e, portanto, não era vista do exterior. Não comprometia a imagem externa da montanha. Porém, precisava ser assim, como num xópim?

Finda a absurda maratona dos doze lances de escadas rolantes, o patamar de concreto, mais lojinhas para os consumistas desvairados, muro com escritos em mandarim, a escada de concreto montanha acima e, lá no alto, a famosa Porta do Céu (Tianmen) que dava o nome àquele trecho do parque de Zhangjiajie. O enorme orifício verticalizado no paredão rochoso compunha desenho natural impressionante. O conjunto, no entanto, se comprometia pela desfiguração tecnológica e comercial.

Mais um teleférico, de descida, diferente do trajeto da subida. Mais visual impressionante das escarpas e picos esverdeados sob o céu azul.

Em enorme panela côncava no meio da mesa, e aquecida a lenha na parte inferior, as cozinheiras prepararam ensopados de carne de boi e de porco, legumes, temperos variados e, como de praxe na província de Hunan, muita pimenta. As tigelas de arroz à parte, constantemente repostas, auxiliavam contra a queimação da boca e dos lábios.

Ônibus vespertino rumo a Changsha, capital da província de Hunan.

continua...

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Rússia (ferrovia Transiberiana), Mongólia e China (parte 6/8)

...continuação

De manhãzinha embarque no micro-ônibus munidos de rascunho de café da manhã fornecido emergencialmente pelo hotel em função do horário antecipado. Sanduíche com bastante coisa dentro, iogurte, água mineral.

Após a árdua batalha para romper a barreira infame do encalacrado trânsito de Ulan-Bator, avançamos na rodovia no sentido sudoeste. Logo a estepe mongol se fez presente, com grama acastanhada e baixa, ondulada por cadeias de montanhas ao longe, em ambos os lados da estrada de pista simples. Rebanhos de bois, carneiros, cavalos, pastavam livremente, tendo ao lado ou não os pastores de motos. Apesar da monotonia, a paisagem agradava aos olhos. Qualquer coisa era melhor que o caos de Ulan-Bator. Iurtas brancas e circulares, as tendas de pele de carneiro dos pastores nômades, se apresentavam, ora isoladas na estepe, ora em terrenos cercados. Se tratavam de famílias nômades que, a qualquer momento, assim que a grama secasse ou esgotasse, desmontariam tudo e se instalariam em outras paragens com alimento abundante, leia-se grama e água, para os rebanhos. Sempre se instalavam em terras devolutas, do estado, para usufruto comum, sem o ridículo e injusto sistema da propriedade privada da terra.

O almoço da beira da estrada veio de sopa de bolas de carne de carneiro com legumes e macarrão. Em seguida, prato quente de carne com macarrão e verduras. Na mesa a massa levemente gordurosa e amarrada em nós, como se fosse tecido, mas comestível, para comer junto com a sopa ou com o prato quente, ambos bastante parecidos no sabor, ambos com muita carne, ambos com poucos legumes, ambos carentes de temperos, ambos gordurosos. Estávamos na Mongólia.


De volta à rodovia de pista simples, mais estepes, mais rebanhos, mais iurtas isoladas ou em grupos. Em determinado trecho, estreita faixa de areia, entre dunas e vales, talvez ramal ou mancha do deserto de Gobi, este situado mais ao sul da Mongólia. Pastavam rebanhos de camelos, enormes e peludos, com duas corcovas muito altas, bastante diferentes dos camelos dos desertos tradicionais.

No meio da tarde chegada em Jarjorin, onde séculos antes existiu a famosa Harahorum (Karakorum), capital do império mongol, o maior império em área consecutiva do planeta, se estendendo do extremo oriente, Ásia Central, oeste da Ásia, até parte do leste europeu e da Rússia. Sobre a cidade destruída pela dinastia Ming do império chinês foi construído enorme complexo de templos budistas em área quadriculada e murada.

Mais adiante, visita ao museu Harahorum (Karakorum), dotado de vídeos e painéis explicativos das várias fases do império mongol que dominaram por séculos a história da Mongólia, dos Hunos aos Khans.

Houve tempo de subir o morro e assistir ao estupendo pôr do sol nas montanhas ao sul, em cujo vale abaixo corria o rio Orkhon, o mais longo da Mongólia. O cenário se compôs de imagens douradas, belíssimas, da sinuosidade prateada das águas, do vale pouco profundo, das montanhas ao redor, salpicadas de rebanhos de animais, lembrando manchas em tapetes aveludados, acastanhados, ondulados.

O vento aumentava drasticamente a sensação de frio.

Me instalei em iurta em que nada faltava para garantir o conforto, a higiene e a segurança. Energia elétrica, banheiro completo com chuveiro e água quente, duas camas de casal, roupas de cama aconchegantes, quentinhas, móveis para isso e para aquilo. Parecia mais chalé no formato circular do que iurta autêntica de pastor nômade. Efeitos da indústria do turismo de massas.

A lua cheia, escandalosamente imensa e brilhante ao fundo das iurtas, deu o ar da graça e aqueceu os corações na estepe gelada da Mongólia.

Entre as opções do jantar no restaurante do complexo turístico, saladas, sopas, vários tipos de carne, arroz, batatas, legumes cozidos, três tipos de sobremesas, entre outras delícias bem preparadas.

Acordei antes do amanhecer.

O micro-ônibus partiu no rumo nordeste. À esquerda, a serra pontilhada de pedras acompanhou a estrada em todo o percurso. Iurtas, rebanhos de ovelhas, cabras, bois, cavalos. Estepe mongol autêntica, de cor acastanhada.

Em trecho de areias e dunas, chamado Gobi Rico (Bayangobi), explorei detalhes da paisagem natural e humana. Riozinho de águas cristalinas, com trechos congelados, corria em vale raso e invisível à distância. Árvores secas, deserto de areia e dunas, musgos, gramíneas, camelos soltos e presos, iurtas, mongóis em roupas típicas.

No meio do dia entrada no Parque Nacional Hustai, em cuja sede havia restaurante, conjunto de iurtas rústicas e o salão social onde foi projetado filme didático sobre a região. No miolo do parque nacional era possível avistar cavalos selvagens, renas, veados, marmotas.

Após o jantar substancioso voltei à iurta para encarar, sem aquecimento, a noite que prometia, mais uma vez, gelada. Não esqueci de providenciar garrafas plásticas vazias para servirem de penico noturno. Assim eu não precisaria sair ao relento, com temperaturas negativas, na busca pelo banheiro coletivo. Dormi sob os dois espessos edredons disponíveis, mais o gorro na cabeça.


Amanheceu sete graus abaixo de zero. O ar congelava no caminho da iurta, ou ger, ao restaurante da sede. Me esbaldei no café da manhã com direito a omeletes preparados na hora.

O micro-ônibus partiu cedo na direção nordeste para trecho que demorou ainda mais pela necessidade de atravessar a cidade de Ulan-Bator. Ao longo de esplendorosas e fulgurantes avenidas entupidas de veículos particulares, para deleite das transnacionais da indústria automobilística, o trânsito permanecia eternamente congestionado. Pelo jeito não havia nada parecido com anel viário em torno da capital e maior cidade da Mongólia. Era bom lembrar que a população de Ulan-Bator mais que quadruplicou, por conta da abrupta queda da qualidade da vida, sobretudo no campo, após o fim do período socialista. As extensas periferias pobres ao redor da capital comprovavam a catástrofe.

Mais adiante pela estrada, o Parque Nacional Terelj, belíssima unidade de conservação dotada de serrotes rochosos pontiagudos e vales acentuados.

Só que não.

As belezas naturais estavam sendo desfiguradas e obstruídas por empreendimentos hoteleiros, dezenas deles, dentro da área do parque. Como assim? Comércio privado aos montes dentro de parque nacional? Seria aquilo realmente parque nacional ou o governo mongol entregou a natureza aos capitalistas lucrarem à vontade? Não havia pé de paredão rochoso, outrora deslumbrante, que não estivesse ocupado por tendas repletas de confortos urbanos, mais bares e restaurantes para turistas. Até o lixo musical no estilo bate-estaca, repetitivo e monótono, rolava por ali.

Ia mal a Mongólia. Muito mal.

A visita ao tal parque encerrou com visita a ger, ou iurta, de família nômade. Embora também voltada para o turismo predatório, a experiência agradou pela recepção calorosa, pelos comes e bebes típicos, iogurte, queijo amanteigado, creme de leite seco, de produção direta do rebanho da família. Eram cinco pessoas vivendo na ger. A dona da casa explicou como o nomadismo funcionava na prática, sempre em movimento na busca por grama fresca e alta para o rebanho de bois, cavalos, ovelhas, cabras, carneiros. A autossuficiência da família e eventuais comercialização dos excessos eram curiosamente acumulados em objetos de prata, nos arreios e selas dos cavalos, por exemplo.

Durante as conversas, a dona da casa salientou o choque cultural que o povo mongol enfrentava nos novos tempos. Eram os contrastes abissais entre a vida nas estepes como pastores nômades e a sobrevivência sedentária e sem mudanças em apartamentos nas periferias de Ulan-Bator. Sofriam para tentar se adaptar à nova vida, muitas vezes sem sucesso, enclausurados em cubículos de concreto dentro de prédios colados a outros prédios contendo centenas de cubículos de concreto. Mesmo os que ainda viviam nas iurtas móveis da vida nômade encaravam problemas com a educação dos filhos, que precisavam abandonar os hábitos familiares para se imobilizarem em escolas urbanas, retornando à vida nômade somente nas férias. Muitos não retornavam porque não aceitavam mais as origens. Outros não frequentavam escolas urbanas para não abrirem mão da liberdade e autonomia da vida nômade.

Partimos de volta ao doentio engarrafamento de veículos individuais e privados em Ulan-Bator. Na madrugada, van para o aeroporto. E mesmo nesse horário improvável havia congestionamentos isolados em partes da cidade.

Embarque cedo em voo curto da empresa aérea da Mongólia. Desembarque num dos gigantescos aeroportos de Beijing (Pequim). A China recentemente havia liberado de visto prévio, pelo período de um ano, os brasileiros que permanecessem no país até trinta dias.


Nos saguões do aeroporto adquiri o chip chinês. Via VPN, e apenas com ela, eu acessava todos os endereços não chineses da internet. Mas precisava desligar a VPN para usar os aplicativos e endereços chineses, como em todos os pagamentos, carros de aplicativos, transporte público.

Pelo caminho ao hotel, ruas e avenidas maciçamente arborizadas, edifícios altos, alguns ousados arquitetonicamente.

Almoço em restaurante típico chinês, em sala privativa e com a famosa mesa de centro giratório, para que todos pudessem comer de tudo. Os pratos vieram frescos, saborosos e baratíssimos.

Atravessando a avenida, o parque do Templo do Céu. Chineses de todas as idades aproveitavam a área pública, democrática, mas surpreendentemente paga. Sim, tinha que comprar os ingressos, eletrônicos, claro, antes de entrar. Muito verde e árvores frondosas formavam bosques escuros e sedutores dentro do parque.

Café da manhã do hotel com cardápio asiático. Sopas, frituras, carnes, ensopados, comidas de verdade, entre concessões ocidentais como pães, raríssimos queijos, ovos cozidos, cereais, sucos.

Aprendi a circular e me orientar no gigantesco, eficaz, eficiente e autoexplicativo metrô de Beijing. Almoço de comida típica e apimentada chinesa, obviamente. Devorei macarrão oriental com carne de porco e legumes, saborosíssimo, apesar de a pimenta arder no fundo da alma.

Caminhada pelos arredores, em meio avenidas arborizadas e outro parque, estanhamento pago como os demais. Calçadas inferiores e superiores margeavam canal de águas piscosas, dado a quantidade de pescadores de ocasião aguardando fisgadas. Outros caminhavam, corriam, pedalavam e até cantavam em karaokê improvisado na calçada, com direito a somente um espectador. Por ali também os hutongs, emaranhado de becos, de ruas sinuosas e estreitas. Era a Beijing antiga, resquícios do passado no meio da megalópole de urbanismo planejado e quadriculado.

No jantar um pouco de tudo no centro da mesa giratória. Legumes variados com carne de boi, carne de porco, carne de galinha, peixe, bambu em broto, sem falar na estrela da casa, o famoso pato laqueado de Beijing, com os acompanhamentos devidos. Me hidratei com baijiu, destilado chinês a partir do sorgo ou de outros grãos.

Retorno ao hotel a pé, para espairecer, respirar ar puro, auxiliar na digestão. As temperaturas amenas e as calçadas vazias convidavam a tais caminhadas.

Bem cedo o ônibus demorou até Jinshanling, uma das muitas entradas para a Grande Muralha da China. Não era a principal, perto de Beijing, costumeiramente lotada de turistas chineses e estrangeiros. Mas era distante o suficiente para encontrar paz, sossego, silêncio, entre raros turistas. Só assim para contemplar calmamente a construção milenar e a paisagem montanhosa ao redor.

Por escadarias laterais era possível atingir uma das tantas torres de controle da Muralha. A partir dali bastava caminhar e explorar. O sol brilhava e queimava com força. Foram quilômetros caminhando, entre torres de observação, repouso e reabastecimento, ao longo da fortificação de mais de vinte mil quilômetros de extensão. Iniciada no século III a.C. e finalizada no século XIV, durante a dinastia Ming, serviu como proteção contra invasões e incursões militares vindas do norte, sobretudo de mongóis e russos.

Do alto da muralha, pelas ameias e por cima das muradas laterais, se tinha visão privilegiada das montanhas ao norte e ao sul, dos vales profundos, da vegetação espessa. E, principalmente, se tinha visão da continuidade da própria muralha, serpenteando sinuosamente pelas cristas do relevo. O piso rochoso alternava rampas, escadarias com degraus baixos, altos e médios, portais às torres. Para aqueles com dificuldades de locomoção, bondinhos, teleféricos, com destino a paradas intermediárias.

Ao final de tantos sobes e desces, ao longo de quilômetros de caminhada, os músculos, especialmente os extensores e as panturrilhas, manifestavam esgotamento. Em pontos espaçados, vendedores ofereciam bebidas, tira-gostos, sorvetes, lembrancinhas.

Ao final fomos direto a restaurante das imediações de Jinshanling para matar a fome galopante em restaurante que servia comida chinesa tradicional. Imensas mesas com o centro giratório abasteceram os famintos com carne de porco, carne de cordeiro, peixes, legumes variados, brotos de bambu, cogumelos, tofu, entre outras delícias. Para beber, fui de chá de jasmim, gelado e quente.


Anoitecia ao embarcar no ônibus de volta para Beijing, com direito a trânsito pesado em estradas e avenidas da capital. Aproveitei para apreciar a iluminação impressionante dos altos edifícios que coloriam e alegravam a noite.

Na manhã seguinte metrô ao Museu Nacional da China. Espaço gigantesco, organizado, autoexplicativo. Circulei sem rumo pelos vários andares observando o movimento interno dos chineses, da capital e dos interiores, admirando as obras e objetos expostos.

Na frente do museu, a praça Tiananmen, a da Paz Celestial, onde se encontrava o mausoléu contendo o corpo de Mao Zedong e o monumento dos Heróis do Povo. Do lado oposto, o Grande Salão do Povo. À direita, a construção onde Mao Zedong, em outubro de 1949, declarou a fundação da República Popular da China. Atrás, a Cidade Proibida.

A visita à Cidade Proibida percorreu vários pavilhões internos, salões, praças, pontes trabalhadas em pedra. A guia local não parava de falar. Os detalhes enfadonhos da vida dos diversos imperadores que ali moraram e reinaram, pertencentes a esta ou aquela dinastia, entravam por uma orelha e imediatamente saíam pela outra. Talvez, levantar os contrastes da vida daquela nobreza com a vida da maioria do povo chinês na época, as causas e mecanismos desse sistema autocrático de exploração e opressão, seria mais informativo e reflexivo.

A partir da movimentada, colorida e alegre rua Quianmen, mas turística em excesso, mergulho nos becos do hutong dos arredores, penetrando em pedaços da antiga China, antes dos intensos processos de modernização. Povo na rua, conversando em frente às casas e lojinhas, residências, comércio, mercadinhos, bares e restaurantes tradicionais, simplicidade, bicicletas e motos elétricas, nada de automóveis.

Num desses restaurantes, caímos de cabeça em pratos apimentados e regados a vinho de arroz. A fome deu o tom.

continua...

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Rússia (ferrovia Transiberiana), Mongólia e China (parte 5/8)

 ...continuação

Frio gelado das ruas de Kostroma, sob o sol brilhante, o céu azul limpo e sem nuvens. Longa caminhada por ruas pitorescas, ladeadas por casas pesadas e antigas de madeira, algumas aparentemente abandonadas, conjuntos baixos e alongados de edifícios residenciais da época soviética, em cuja frente de um deles apareciam estátuas de pioneiros da juventude comunista do período estalinista. As calçadas arborizadas de ambos os lados das vias embelezavam o cenário e a saúde do moradores agradecia de coração.

Ao final da extensa via, ponte sobre o rio Kostroma, um pouco a montante da foz sobre o rio Volga. Dali visão privilegiada do mosteiro, das águas dos dois rios, das habitações baixas em ambas as margens, da marina repleta de barcos suspensos fora da água, e verde, muito verde da vegetação abundante e amarelada pelo avanço do outono.

Ao fim da ponte, ruelas calçadas de cascalho do bairro ao lado do mosteiro, repletas de casinhas de madeira, pintadas em cores vivas, com janelas envidraçadas e emolduradas em detalhes personalizados, uma mais vistosa que a outra.

Ao fundo de tudo, o Museu de Casas de Madeira, para onde o Estado Soviético transplantou moradias, igrejas, armazéns, celeiros, comércio, absolutamente tudo em madeira original, de regiões distantes, com o objetivo de ensinar aos povos recentes, sobretudo os urbanos, como se vivia na Rússia rural das décadas, ou séculos, anteriores. Os interiores das casas retratavam fielmente a vida de comerciantes ricos, camponeses médios, religiosos, população mais carente. Lá estavam móveis, aparelhos de cozinha, da sala, dos quartos, dos armazéns, celeiros, igrejas. O conjunto ocupava ampla área na beira de lagos habitados por patos selvagens e margeados por bétulas de folhas amareladas. O resultado outonal e colorido encantava os olhos a valer.

Em cidade famosa, entre outras coisas, por fabricar os considerados melhores queijos da região, o almoço ocorreu em restaurante que oferecia cardápio cujos pratos e tira-gostos usavam e abusavam do produto.


Seguimos ao Mercado Municipal, entre barracas de mel, queijo, obviamente, legumes, repolhos gigantescos, batatas com cascas de cores variadas, peixes frescos e defumados. As pernas pediram trégua. Voltamos ao hotel para descansar, na intenção de sair para jantar à noite.

Mesmo sem fome saí para jantar. Duas doses de vodca, metade da porção de arenque fresco, salada verde e queijo. Bastou para quem raramente jantava de modo substancioso.

Abri parcialmente a claraboia do teto inclinado do quarto do sótão a fim de neutralizar o calor provocado pelo aquecimento central, recentemente acionado pelas administrações públicas, e sem possibilidade de desligar ou regular o termostato. Assim a noite fluiu bem mais fresca e agradável.

Após o café da manhã substancioso, eu e o guia fomos, de mala e cuia, de carro de aplicativo, à estação ferroviária de Kostroma. Mas não para pegar o trem. Não havia trens, ônibus ou lotações de Kostroma diretamente para Suzdal. Embarcamos em van com destino a Vladimir para descer no meio do caminho, mais precisamente no trevo rodoviário para Suzdal, e dali subir em mais um carro de aplicativo ao destino final.

Sentei em assento individual, perto da porta da van, na intenção de liberar as pernas. Não havia espaço reservado para as bagagens, a minha e a do guia. Elas foram empilhadas de pé e largadas ao lado da porta deslizante, bem na minha frente. As rodinhas provocaram deslocamentos constantes das bagagens à medida que o veículo se movimentava. Isso atrapalhava o embarque e desembarque de passageiros. No meio do caminho deitei as bagagens na horizontal, uma sobre a outra. As rodinhas e os deslizamentos não incomodariam mais. Porém, diminuiu o espaço para a circulação de passageiros, me obrigando a puxá-las sempre que alguém descia ou subia na van, sobretudo os passageiros da primeira fileira do outro lado do corredor interno.

Durante o percurso apreciei a paisagem, composta por florestas e campos onde o verde amarelava pelo avanço do outono. Cochilei pouco no assento duro e não reclinável. E ainda tinha o movimento das malas para zelar.

Veio o desembarque no entroncamento de acesso a Suzdal, no acostamento da rodovia principal. O guia chamou o carro de aplicativo rumo ao hotel.

Bem instalados, saímos para explorar a pequena Suzdal, a menor e a mais visitada cidade do circuito do Anel Dourado. E era uma gracinha de lugar, a despeito da maior quantidade de turistas, principalmente russos.

Entre as atrações, igrejas, mosteiros religiosos, para homens e mulheres, o Kremlin, casas de madeira com janelas grandes e envidraçadas, parques, praças, jardins. Tudo limpo, organizado, em ótimo estado de conservação ou em processos de reformas ou restaurações. Rodamos a pé por todos os segredos locais, apreciando as ruas ou entrando em algumas das dezenas de atrações.

Ao final da tarde, com o sol se pondo num céu límpido e sem nuvens, entramos em restaurante típico russo para matar a fome e a sede em dia sem almoço. Tomei quatro doses de vodca curtidas ora no gengibre ora em frutas vermelhas. Iniciei o banquete com sopa de legumes, cogumelos e carne de porco. Prossegui com assado de porco com batatas e cebolas. Encerrei com torta de mel, surpreendentemente pouco doce, e até levemente cítrica, para a minha alegria, seguida de chá de ervas e flores regionais.


Depois de café da manhã farto e variado, pegamos carro de aplicativo para a cidade de Vladimir. Desembarcamos na estação ferroviária para deixar as bagagens no guarda-volumes. E botamos o pé nas ruas para a longa exploração pelo centro histórico da cidade de porte médio.

Em Vladimir abundavam construções suntuosas, igrejas, capelas, catedrais, as onipresentes e charmosas casas antigas de madeira, algumas abandonadas e caindo aos pedaços, infelizmente. O centro histórico se erguia no alto de colina da qual se tinha vista panorâmica do vale do rio Kliazma e das planícies ao redor. Na maioria das igrejas, nenhum destaque internamente, mas trabalhadas detalhada e artisticamente do lado de fora. A que mais impressionou externamente, a igreja de São Demétrio, datada do século XII, exibia imagens em alto-relevo de animais, plantas, personagens de lendas, religiosos, cenas de guerras e lutas, distribuídas lado a lado nas quatro faces da torre alta e estreita. Lembrava a arquitetura das igrejas armênias visitadas anos antes no extremo leste da Turquia.

Os parques de Vladimir encantavam pelas bétulas esverdeadas a amareladas sobre solo gramado e coalhado de folhas caídas, se tornando lugares ideais para relaxar e observar o mundo passar.

Almoço na base de comida russa simples e saborosa em restaurante instalado em subsolo frio de construção antiga. Fui de sopa temperada de cordeiro e batata, espeto de pescoço de porco com cebolas, o tradicional suco de frutas vermelhas, o onipresente morse.

Mais voltas pela cidade, agora sob o frio e o vento gelado do entardecer, antes de acessar a estação ferroviária de Vladimir e aguardar o trem para Moscou.

As menos de três horas em trem confortável, cujo vagão dispunha de dois assentos em cada lado do corredor central, transcorreram sem novidades. Bizarro foi os russos e as russas reclamarem dos vinte e quatro graus da temperatura interna. Mas não pelo calor. Alegavam frio e desconforto. Solicitavam insistentemente para os funcionários regularem o termostato nos vinte e seis graus. Parecia mentira, mas não era.

Ao desembarcar numa das inúmeras estações ferroviárias de Moscou, utilizei novamente o extenso, eficaz e eficiente metrô da capita russa, dotados de estações suntuosas, diferentes entre si, verdadeiras galerias de arte.


Moscou se descortinava ao amanhecer da janela do décimo segundo andar. Lá embaixo, a estação dos bondes, a avenida com duas estações de metrô, a estátua do Lenin, o movimento de veículos que certamente engarrafaria o quase sempre engarrafado trânsito de Moscou, as horríveis torres de vidro ao fundo, construídas na catastrófica década de 1990, logo após o fim da União Soviética.

Entrei no metrô de Moscou, percorrendo três linhas até o aeroporto Vnukovo (VKO).

Embarquei em voo a Istambul. Comi a pouca e saborosa refeição servida a bordo. Li bastante, até encerrar, A Estrela Vermelha Brilha Sobre a China, de Edgar Snow. Livro riquíssimo em detalhes sobre o avanço da guerra popular prolongada do exército vermelho, sob a liderança do Partido Comunista da China, contra a invasão do Japão e contra o sistema de exploração e opressão vigente até então na China, que contava com total apoio dos principais regimes cinicamente chamados de democráticos do ocidente.

Andei horrores, por esteiras rolantes ou não, subindo e descendo escadas, pelo aeroporto de Istambul até, finalmente, encontrar o ponto de embarque para o segundo voo, com destino a Ulan-Bator, na Mongólia.

Durante o voo comecei a ler Os Urubus Não Esquecem, do antropólogo Pedro Cesarino, abordando a Amazônia brasileira devastada por madeireiros, pelo narcotráfico e pelos políticos, sempre sob o ponto de vista das comunidades indígenas.

Amanheceu sobre as estepes mongóis e trechos do deserto de Gobi. Café da manhã farto e saboroso servido a bordo.

Desembarque matinal no aeroporto de Ulan-Bator, capital da Mongólia, em meio à estepe semiárida.

Ônibus ao centro da capital. Foram quase duas horas para vencer os congestionamentos crônicos do dia a dia daquela região metropolitana. Do lado de fora, a estepe mongol e os bairros da periferia.

Me hospedei na região central de Ulan-Bator, cidade feia, desorganizada, com trânsito infernal. Para piorar, horrorosas torres de vidro estavam sendo erguidas por todos os cantos. Em cidade sem rede de metrô, o melhor meio de transporte naquele caos rodoviário era a pé.

Visita à Galeria Nacional de Artes. Ao longo de vários andares, ampla exposição de xilogravuras, litogravuras, linogravuras, interessantíssimas, entre outras obras de arte moderna e contemporânea de artistas da Mongólia.

Em longa caminhada pela noite gelada, jantar em restaurante típico mongol. Por típico, em país que praticamente nada produz de agricultura, se entenda carne, muita carne, praticamente só carne. Na mesa veio carne de cordeiro a partir de vários tipos de preparo, poucos e pobres acompanhamentos. Tomei quatro doses de vodca mongol para auxiliar a encher o bucho. No palco quase à nossa frente, músicas e danças regionais ao vivo.

Entrei no quarto do hotel cambaleando a fim de recuperar o sono atrasado. Mais uma vez eu teria que encarar o choque de cinco horas de fuso horário na frente de Moscou, fora as onze horas à frente de São Paulo.

Amanheceu quatro graus abaixo de zero sob o céu sempre azul da Mongólia.

Novamente a pé, para evitar os congestionamentos constantes de Ulan-Bator, nos dirigimos ao Museu Gengis Khan, onde havia imensa exposição ao longo de oito andares sobre as maravilhas do império mongol, enaltecido ao máximo pelos dirigentes do país depois do fim de período socialista. Estruturalmente museu de primeira qualidade. Mapas, vídeos, painéis, peças, vestuários, reproduções de cenas passadas, arqueologia, entre tantas atrações. O conteúdo do museu, entretanto, louvava apenas os antes e os depois do período socialista, fase esta demonizada ou ignorada pelo novo regime.

Visita ao Museu Nacional da Mongólia, dessa vez sem guia local. Mesmo assim as exposições louvavam somente as monarquias dos Khans, detratando a era socialista que retirou o povo mongol da miséria, exploração e abandono. Para as autoridades do país de então, que impunham o conteúdo do museu, importava celebrar o que veio depois do socialismo, denominado por eles “período democrático” e não período capitalista.

Ao final da tarde, seguimos a pé a parque afastado do centro para assistir a apresentação folclórica composta de músicas e danças típicas mongóis. A despeito do caráter turístico e da presença quase exclusiva de turistas estrangeiros na plateia, inclusive de europeus do Otanistão e daquele regime terrorista ao norte do México, o espetáculo traçou atraente panorama das músicas, vozes e danças da Mongólia, das quais eu jamais ouvira referências.

Durante o jantar valeram as conversas da mesa, variadas, divertidas, informativas. O mineiro, morador de Berlim havia anos, salientou que a lavagem cerebral dos meios de comunicação alemães, induzindo os desavisados a apoiar o regime nazista da Ucrânia contra a soberania da Rússia, tornava o povo alemão difícil de conviver. E ele já cogitava sair daqueles regimes do Otanistão.

Amanheceu novamente com temperaturas negativas, a despeito do céu incrivelmente azul e desprovido de nuvens.

Embarque em van, pelo caótico e sempre congestionado trânsito de Ulan-Bator. rumo ao museu que homenageia o marechal Jukov, militar que liderou o exército soviético na derrota do nazismo em 1945. Antes ele esteve à frente da batalha contra o exército invasor japonês na Mongólia e China, como na batalha de Khalkhin Gol.


Mais que as visitas programadas, eu procurava observar e registrar os flagrantes urbanos do cotidiano da caótica capital mongol. Cenas de rua, paradas de transporte coletivo, pessoas sentadas, conversando ou olhando o vazio, guardas de trânsito fingindo organizar o cronicamente desorganizado tráfego de veículos, algum raro e peculiar detalhe arquitetônico, entre outras imagens que me chamavam a atenção.

Visita ao palácio residencial do último monarca da dinastia Khan, Bogda Khan, antes daquele regime ser derrubado pelo povo via a revolução socialista de 1922.

Mais van, mais trânsito insuportável de Ulan-Batot, dessa vez rumo à periferia montanhosa da cidade para subir as escadarias até o Memorial Zaizan em homenagem aos heróis da Grande Guerra Patriótica, conhecida no ocidente como Segunda Guerra Mundial. Nesse período foi selada a aliança e a amizade entre União Soviética e o Governo Socialista da Mongólia. Painéis em mosaico representavam cenas cronológicas dessa aliança destacando as mais cruciais na história de ambos os povos.

Durante a madrugada mais fria da viagem os termômetros marcaram dez graus abaixo de zero. E isso em pleno começo de outono, distante ainda do verdadeiro inverno.

Pela manhã, visita ao maior mosteiro budista da Mongólia, Gandantegchinlen. O monstrengo foi fechado após a revolução socialista e reaberto durante a Grande Guerra Patriótica. Nos dias atuais, ainda mais que antes da libertação do povo mongol, passou a atuar como peça de alienação e doutrinação conformista. A máquina de fazer dinheiro age com orações encomendadas, “consultas” a monges que recitam mantras decorados, todos muito bem pagos pelos inocentes úteis. Bastava notar as dezenas de caixas de doações, as contas bancárias para depósito e afixadas em todos os cantos, as inúmeras máquinas de cartões nas partes internas da construção, os televisores matraqueando a aceitação compulsória e a submissão. Nada diferente dos fundamentalismos cristãos e judaicos do ocidente. E, como todas as religiões institucionalizadas, a elite do budismo mongol esteve aliada à monarquia absolutista dos Khans e atualmente era unha e carne com o regime.

Em seguida, ainda de van, pelo insuportavelmente entupido trânsito de Ulan-Bator, fato que a indústria transnacional automobilística agradecia, com destino ao Museu de História Natural. Chamado de Museu Lenin durante a fase final do período socialista, o espaço foi posteriormente transformado em salão de bilhar pelo regime capitalista, antes de voltar a ser novamente museu. Internamente acervo fraquíssimo e mal apresentado, a despeito de fósseis e ossadas de dinossauros quase completas e tão abundantes em território mongol.

Almocei risoto de tutano de boi, de entrada e, como prato principal, carne vermelha com arroz e curry bem temperado.

À tarde visita ao templo budista, mais um, Choijin Lama, que se tornou museu durante o período socialista e assim se manteve.

No começo da noite, já sob as temperaturas negativas do dia mais frio da viagem até então, desci às ruas para jantar lamen apimentado com carne de porco, ovo, legumes variados.

Até pensei em circular pelo centro da cidade, em especial pela ampla e vazia praça principal. Desisti. A maioria dos mongóis corria para lá e para cá de volta para casa. E ficar parado, ao ar livre, naquele frio glacial, com temperaturas abaixo de zero, nem pensar!

continua...