quinta-feira, 20 de setembro de 2012

do Pará ao Piauí (parte 4/4)

...continuação
Acordei finalmente em dia útil, infinitamente mais bem-vindo, para quem viaja a passeio, do que os finais de semana.
Nas proximidades da área central da cidade encontrava-se a praça do troca-troca, assim chamada pelos moradores. Ali se trocava de tudo, usado, velho, muito velho. Os itens espalhavam-se pelo chão, bancos, escadas. Muitos circulavam, observavam, analisavam cuidadosamente, antes de iniciarem as negociações.
Embarquei na lotação à praia do Coqueiro. Percurso tranquilo, passando pelo centro da cidadezinha de Luis Correia, pela badalada praia de Atalaia, ponto de destino da maioria dos banhistas, e finalmente a vila e praia do Coqueiro, ponto final do micro.
Ignorei o movimento dos poucos bares. Ultrapassei a ponta do farol de Itaqui, com formações rochosas compondo desenhos. A partir da curva, a praia do Itaqui ficou completamente deserta. Nenhuma alma viva a leste e a oeste. Cenário paradisíaco, mesmo na acentuada maré baixa e pela ausência de vegetação ou sombras providenciais. Caminhei bastante no sentido leste, ora com os pés na areia seca, ora chapinhando sobre as águas mornas. Eu, a praia, o mar, o vento, as gaivotas. Nada mais. Após a curva mais pronunciada da praia de Carnaubinhas, avistei grupos de casas no horizonte, provavelmente vila de pescadores. No final de tudo, no fundo do horizonte, protegida por dunas e vegetação aparentemente rala, o que seria a praia de Macapá.
Larguei as coisas na areia seca da praia. Tirei toda a roupa. Entrei no mar de ondas fracas. Sensação indescritível de infinita liberdade, sem ninguém à vista no raio de centenas e centenas de metros. A imaginação seria o limite, sem quaisquer restrições. Flutuei, nadei, mergulhei, flutuei mais, me sequei sob o sol, me deitei na areia, mergulhei outra vez. Nem sinal de outro ser humano. E divaguei, e relaxei, e me sequei novamente. Não tive ideia de quanto tempo permaneci ali. E nem me importava em saber.
Deu fome e me retirei à praia do Coqueiro.
Assim que cheguei à barraca escolhida, não havia, surpreendentemente, a poluição sonora do lixo comercial de sempre. Rolava som baixo com repertório da década de 1980. Interpretei que a chance de trocarem para a barulheira dos rebanhos seria menor. Não trocaram. Bebi caipirinhas preparadas com pinga piauiense, comi quase toda a imensa porção de sururu ao molho, acompanhado de farofa, arroz branco e, por incrível que pareça, outra porção de arroz cozido com milho e açafrão. Perguntei o motivo de dois acompanhamentos de arroz e a garçonete respondeu que era assim mesmo, as duas porções de arroz servidas juntas. Fiquei na mesma.
Retornei à Parnaíba pouco antes do anoitecer.
De barriga ainda lotada pelo farto e tardio almoço, eu não passei de um sorvete à noite. Escolhi a sorveteria do Porto das Barcas, local charmoso e silencioso, próxima à beira do rio Igaraçu.
Não mais que de repente, uma caminhonete cheia de jovens estadunidenses quebrou o silêncio da região. Os adolescentes, guiados por três mais velhos, também daquele país, acompanhavam uma família de mulatos, pobres, brasileiros. A maioria dos gringos se dirigia em inglês às crianças da família brasileira, com exceção dos mais velhos que optavam pelo português com sotaque carregado. O pouco tempo não me permitiu entender do que se tratava aquilo. Mas não cheirava bem. Não se podia esperar grande coisa de indivíduos oriundos de um país viciado em crimes, invasões, guerras, agressões, saques, pilhagens, terrorismos.
O Porto das Barcas guardava núcleo arquitetônico preservado e transformado em espaço voltado a restaurantes, lojas, agências de turismo, galpões de oficinas culturais. Mas esse conjunto englobava porção pequena da região. A maior parte dela, sobretudo à montante da ponte que ligava a cidade à ilha Grande de Santa Isabel, encontrava-se abandonada e degradada. Amplos galpões, velhas fábricas, ruas inteiras, tudo em ruínas, tomadas pelo lixo e a escuridão, abrigavam marginalizados e alijados dos serviços públicos.
Inúmeros e imensos quarteirões poderiam se transformar em áreas de integração social, voltada à população que mal sobrevivia nas proximidades. Escolas, centros culturais e esportivos, praças e parques populares, formariam patrimônio útil, primeiramente à população carente da cidade, depois aos visitantes.
O assunto entre três hóspedes e o arrendatário da pousada, na calçada da frente, embora começasse bem, logo despencava para violência e criminalidade, usando e abusando dos falsos argumentos largamente difundidos pela classe dominante através dos meios de comunicação, principalmente a televisão. Ouvi excrescências do tipo que bandido tem que morrer, menor tem que ser preso, as vítimas e os respectivos parentes tem o direito, e até o dever, de fazer justiça com as próprias mãos. Os energúmenos defendiam, em outras palavras, a barbárie social, consciente ou inconscientemente. Aproveitei uma brecha e saí de fininho.
Ainda baqueado com o excesso de sol do dia anterior, peguei ônibus com destino à praia da Pedra do Sal, ao norte da ilha Grande de Santa Isabel, ainda no município de Parnaíba.
A sensação de abandono e descaso assustava logo à primeira vista. Barracas caindo aos pedaços, fechadas, largadas, com garçons sonolentos que não tomavam a iniciativa de servir os gatos pingados que se sentavam nas mesas tortas.
A praia do lado oriental da ponta do farol, mais vazia e com mar bravo, permanecia intacta a partir da última barraca arrebentada. Andei bastante até as pessoas se transformarem apenas em manchas no horizonte. Ainda cruzei com pescadores e raros moradores locais. Sem ninguém por perto, tirei toda a roupa e entrei no mar. Aproveitei a situação de relaxamento e contemplação.
A praia do lado oposto, ocidental, oferecendo baía de águas calmas, mais procurada pelas famílias, revelava-se uma calamidade. A maré baixa expunha lixo, muito lixo na areia molhada, lixo jogado impunemente pelos frequentadores e não recolhido pela prefeitura. Copos plásticos, sacos plásticos, latas de cerveja e refrigerante, restos de comida, detritos em geral, formavam imagem desoladora. A população sujava e as autoridades públicas não orientavam, não puniam, não limpavam. Nem que forçasse, eu conseguiria ficar ali. Me sentiria conivente com tanto desleixo, sem falar no nojo de conviver com a sujeira. Esperei o ônibus e retornei ao centro de Parnaíba.
Dia livre, sem programação. Li, relaxei, conversei, observei. Tudo sem pressa ou maiores pretensões.
Almocei novamente no restaurante que servia comidas típicas, caipirinhas bem preparadas com pinga piauiense, instalado em charmoso casarão. O proprietário e família atendiam bem e de maneira descontraída. Jamais deixaram de se mostrar simpáticos comigo.
O ônibus para Teresina partiu pela manhã com metade da lotação. Na capital piauiense me hospedei em hotel situado em rua estreita próxima ao centro da cidade. Construção térrea, bem conservada, bem cuidada, limpa, confiável.
Sem ter almoçado, corri para o local do jantar. Correr seria força de expressão. Ainda mais naquela cidade em fusão. Senti o calor de Teresina, seco, sem vento ou refrescos, logo no começo do primeiro quarteirão. Caminhei lentamente. Bem lentamente.
O bar e restaurante era de esquina, frequentado principalmente por funcionários depois do expediente. Dezenas de mesas se espalhavam pela calçada e parte interna do estabelecimento, a maioria tomada de gente alegre e descontraída naquele anoitecer. O som, baixo como deveria ser, compunha-se de música brasileira de qualidade. O atendimento solto deixava o ambiente ainda mais leve. Entre goles refrescantes, forrei o estômago com carne de sol completa. Ninguém me secou por estar sozinho. Paqueras leves e respeito à privacidade típicas de cidade grande. Relaxei, comi, bebi. Observei o movimento e troquei olhares sem maiores pretensões. Quando eu soltava o braço, fazendo-o se aproximar do chão de cimento da calçada, a temperatura subia rapidamente. O mormaço e o sol intenso que castigavam a calçada durante o dia ainda mostravam a força naquela noite estrelada.
A frase escrita em letras garrafais no cardápio do restaurante aliviava e provocava a sensação que nem tudo estava perdido no mundo, principalmente no nordeste. “É proibido som de carro”. Não seria a primeira nem a última vez que via aviso tão providencial. Os ouvidos e mentes de todos ali agradeciam. Ninguém se interessava em saber para onde migraram os poluidores insuportáveis. Muito menos eu.
Dei grande volta antes de retornar ao hotel. Apesar do calor, durante a noite era o melhor momento para circular a pé pela cidade. Atingi a estratégica avenida Frei Serafim, contornei a igreja de São Benedito, avancei pelo centro comercial, vazio e quieto, desviei das barracas de ambulantes, cobertas de lona plástica ou simplesmente sem produtos, apenas os esqueletos metálicos. Estava em Teresina, a cidade constantemente sob o banho-maria. Eu suava e meu corpo parecia pegar fogo. E os relógios marcavam quase 23h.
Pela manhã, deixei a mochila no guarda-volumes do aeroporto. Sem opções naquela cidade tórrida, apesar de simpática e arborizada, me refugiei no templo do consumo. Almocei tarde e enrolei no cinema antes do início da noite.
Somente a necessidade premente de ajudar o tempo passar me levou a entrar numa sala de cinema para assistir a lixo comercial produzido naquele país terrorista ao norte do México. Não tinha alternativa. E, por triste coincidência, igual sete anos antes, a imagem estava fora de foco em metade da tela. Sem falar na luz fraca da projeção. O segundo filme em Teresina, em sala diferente da primeira, a segunda vez com péssima qualidade de imagem. Não que o filme horroroso merecesse algo melhor. Mais por respeito aos espectadores, os quais, aliás, aceitaram calados, sem reclamar. Muitos nem viam o filme, preferindo cutucar o celular no meio da sessão, da mesma maneira que os paulistanos.
Embarquei em avião extremamente apertado, sem espaço suficiente para as pernas. Qualquer ônibus do interior do injustamente achincalhado Piauí ganharia de goleada em espaço e conforto. Desisti de tentar adormecer, apesar do sono. O avião não oferecia as mínimas condições de relaxamento.
Aterrissagem tranquila no aeroporto de Cumbica em São Paulo naquela manhã de fins de julho. Peguei ônibus comum e metrô até em casa.
Incluí nesses relatos fotos de outras viagens minhas às mesmas regiões. Isso porque esta viagem ficou sem registros fotográficos. Até levei câmera. Mas ela partiu dentro da pochete, junto a outros itens menores, no momento em que dois rapazes muito gentis, numa rua de Belém, me solicitaram que eu a entregasse imediatamente.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

do Pará ao Piauí (parte 3/4)

...continuação
A voadeira pelas águas e vilas do rio Preguiças partiu no início da manhã com passageiros de várias partes do Brasil. Paramos no povoado de Vassouras, onde caminhamos pelas dunas do chamado Pequenos Lençóis. Descemos mais à frente na vila de Mandacaru, local do farol da Marinha e do qual se tem visão de 360 graus de toda a região após subir os cento e sessenta degraus em espiral. Ventava fresco no topo e ninguém queria deixar aquela vista refrescante e privilegiada.
Seguimos rio abaixo e em poucos minutos desembarcamos no povoado de Caburé, onde eu me hospedara cinco anos antes. Permanecemos ali mais de três horas, tempo suficiente para beber umas e outras, almoçar bem, apreciar a vista do rio e das dunas, conversar bastante com um casal, ela maranhense, ele mineiro. Doutorados, bem formados e informados, exibiam pontos de vista progressistas sobre diversos assuntos nacionais.
A volta foi brindada com céu completamente azul e sol forte na cabeça. O manguezal das margens do rio guardava vegetação variada, inclusive árvores de grande porte cujas raízes se lançavam feito tentáculos ao solo.
A caminhonete me pegou na tarde seguinte rumo ao passeio na região da Lagoa Bonita, em meio às dunas do parque nacional dos Lençóis Maranhenses. Era caminho mais distante, e bem mais vazio também, que a rota usual da Lagoa Azul. Perfeito.
Foi mais de uma hora na carroceria coberta da caminhonete por trilhas de areia fofa. Não faltaram chacoalhadas, solavancos, buracos, curvas acentuadas, passagens de rios e lagoas. Tremendamente empolgante, a despeito do desgaste físico, dor nos braços, costas e bunda.
O veículo nos deixou no limite da duna de vinte e cinco metros de altura, por onde subimos e começamos a explorar livremente os Lençóis. A paisagem revelava um deserto sem fim, enriquecido com lagoas esverdeadas nas maiores depressões, fruto de acumulação de água das chuvas do primeiro semestre. O impacto visual imediatamente deslumbrou a todos. Plena sensação de liberdade diante daquela imensidão de areias e água doce.
Paramos primeiro na Lagoa do Clone, antes de seguir até Lagoa Bonita, uma das maiores da região. Reconfortante nadar nas águas límpidas e transparentes, recepcionados por peixes minúsculos, depois subir a duna, descer acelerado e mergulhar novamente. Ventava constantemente e a sensação térmica não podia ser mais agradável.
Andei livremente pelo entorno da lagoa, subi e desci outras dunas, mergulhei em mais lagoas, flutuei, nadei. Repetia tudo em diversos pontos daquele infinito, um mais encantador que o outro. Conversei, contemplei, relaxei.
Então nos dirigimos a mais alta das dunas a fim de contemplar o pôr-do-sol. O céu estava azul, quase sem nuvens. O sol se pôs avermelhado, enquanto a cor da areia evoluía de creme a cinza claro. O vento deslocava finas camadas de areia junto ao chão e desenhava véus esbranquiçados que acariciavam as dunas.
Encaramos novamente as trilhas de areia esburacada na carroceria da caminhonete, desta vez no escuro, mais lentamente.
À noite, me sentei na cadeira da calçada, jogando conversa fora com o dono da pousada. Logo aterrissaram dois espertinhos que transportavam turistas desavisados de Barreirinhas a Jericoacoara, cobrando uma fortuna. Alegavam isso e aquilo contra os veículos de linha e a favor das maravilhas do esquema deles. Eu, que não nascera ontem e sabia dos preços e condições, inclusive já percorrera o caminho anteriormente, questionei-os e recusei aquela generosa oferta. Nem pensar. Que fossem esfolar os gringos!
Eu me entristecia em ver a população local de Barreirinhas, ou de outros pontos do Maranhão, alijada pelos turistas. Os visitantes não viam com bons olhos os moradores locais frequentando os mesmos bares, restaurantes, os trechos por onde andavam na orla do rio Preguiças. Discriminação aceita com naturalidade pela maioria dos turistas. Repugnante. Revoltante.
Preferi seguir o caminho inverso do rebanho geral e comi em quiosque utilizado apenas pelos maranhenses, que servia espetinho misto, acompanhado de salada, baião-de-dois e farinha. Os turistas, claro, preferiam se amontoar junto a outros turistas. Comi bem, bastante, barato, sem falar no atendimento descontraído.
Logo cedo eu estava de prontidão na caminhonete de linha. Ao se aproximar o horário da saída, a caminhonete lotou e tratei de ocupar um assento. Era curto para as pernas, me obrigando a abri-las e pressioná-las contra a pessoa do lado e contra a madeira da frente da carroceria. Precisei me afastar um pouco e me sustentar sobre as coxas.  Pelo menos não faltavam locais para me segurar com as mãos, sobretudo nas alças do bagageiro sobre a cabine bem à minha frente, durante os buracos, curvas, solavancos.
E lá fomos nós, sempre entrando mais um e esmagando os passageiros um pouquinho mais. Mais três passageiros subiram após o posto da fiscalização e sentaram sobre a própria cabine da caminhonete, em frente das bagagens. Apreciei a paisagem e o movimento dos passageiros. Atravessamos o final dos Pequenos Lençóis, cruzamos dunas e lagoas.
Antes do meio-dia eu desembarcava em Rio Novo (Paulino Neves), em frente à casa do proprietário da segunda caminhonete que me levaria até Tutóia. Era casebre sem as mínimas condições de vida humana, banheiro sem descarga, sem água corrente. Achei uma sombra com cadeira e me sentei na varanda da casa. Minutos depois a moradora me comunicou que a caminhonete não iria mais a Tutóia naquela tarde. Sugeriu que eu aguardasse outra que passaria na esquina acima, no mesmo horário. Permaneci naquela esquina deserta, tórrida, sem sombra e com rajadas de areia. Tudo fechado na cidade, sol abrasador. Embarquei e me sentei numa das ripas de madeira da carroceria coberta de pedaços de papelão.
No meio da tarde desci em Tutóia e me hospedei no hotel de sempre. Optei pelo quarto sem ar condicionado, sem forro, facilitando a ventilação natural.
Comi alguma coisa ali mesmo e me dirigi ao porto da cidade. Más notícias. O barco que percorria o trecho até Parnaíba, via o Delta, já não navegava mais. Ninguém informava com precisão o que realmente acontecera. Restava a opção de seguir de ônibus.
Caminhei pela longa rua até a praia da cidade. O hotel que me salvou durante o carnaval de cinco anos antes, o único com vagas naquela ocasião, ainda estava lá, assim como o navio encalhado e enferrujado no mar em frente. Sentei-me na mesinha sob o guarda-sol de palha de buriti e tomei uma. Som, apenas do vento, das ondas do mar e do farfalhar das palhas acima da minha cabeça. Sensação de paz em contato direto com a natureza. Não durou muito. Um mentecapto estacionou o carro ao lado das mesas e ligou a poluição sonora. Abafava os sons suaves e naturais da praia com o lixo estrangeiro dos bailes de mela-cueca da década de 1970. Foram quinze eternos minutos de tortura até a múmia paralítica perceber que não agradava e se mandar sabe lá para onde. A natureza voltou a reinar e os seres humanos agradeceram.
Tutóia melhorou na região central com calçadões, jardins, praças e bancos para descansar. Os adolescentes prestigiavam os novos locais. A cidade, livre das festas chatas e poluídas, se revelava tranquila e ideal para não fazer nada.
Segundo a dona do hotel, o barco da linha Tutóia/Parnaíba afundara no porto da cidade piauiense durante a noite, sem ninguém a bordo. Ainda conforme a descrição dela, o vigia noturno notou a entrada de água, nada fez e assistiu passivamente o dito cujo ir a pique. Versão para lá de obscura.
O trajeto rodoviário de três horas correu tranquilo em ônibus praticamente vazio. Saí do Maranhão e desembarquei no ponto final, centro de Parnaíba, Piauí. Peguei a mochila e em vinte minutos de caminhada pelo centro comercial da cidade eu entrava na pousada.
Encontrei restaurante na ponta da bela e tranquila praça de Santo Antônio. Instalado em antigo casarão, o estabelecimento oferecia pratos da culinária regional. Comi peixe ensopado com muitas espinhas, após arrombar o apetite já aberto com duas caipirinhas preparadas com cachaça piauiense, e antes de encerrar com a famosa e saborosa cajuína do Piauí.
A área central da cidade de Parnaíba, mais precisamente nas imediações da avenida Getúlio Vargas e da praça de Santo Antonio, permanecia limpa, bem urbanizada e aconchegante. O vento soprava sempre e garantia temperaturas agradáveis no final da tarde e à noite.
Depois de jantarmos, emendamos na avenida Beira Rio, ponto tradicional da noite parnaibana. Poucos bares e restaurantes animados, músicas ao vivo no estilo voz e violão, repertório padrão. Poucos metros adiante, adolescentes endinheirados disputavam qual o som do carro mais potente. Exageravam no volume com aquele lixo comercial de sempre. O chão chegava a tremer pela poluição sonora, interferindo agressivamente na música suave dos restaurantes. Encerramos a noite pela madrugada.
Me incluí no passeio de barco pelo Delta do Parnaíba. Me pegaram na porta do hotel e seguimos ao porto dos Tatus, margem direita do rio Parnaíba e de onde partiria o barco. Cerca de cinquenta passageiros, cearenses na maioria, preenchiam as cadeiras do piso inferior e superior.
Percorremos canais do rio Parnaíba até a foz propriamente dita. Frutas variadas foram servidas para alegria geral. O barco atracou na ilha dos Poldros, pertencente a empresários espanhóis que a utilizavam para extração de produto primário local a ser transportado integralmente para a Espanha. Horror! A conquista e a pilhagem dos invasores europeus mantinham-se inalterada desde 1500.
Desembarcamos em praia fluvial da ilha invadida pelos espanhóis e caminhamos até a praia de mar aberto mais à frente. Desatracamos, contornamos, acessamos o igarapé dos Periquitos. O barco desligou o motor e a tripulação serviu o almoço.
Seguimos às dunas. Desembarcamos e circulamos pelas dunas do local, nos banhando nas águas do rio, nos empanturrando de caranguejo servido em mesinhas de plástico dispostas especialmente sobre a areia da praia fluvial.
Defeito catastrófico do barco eram as caixas de som que vomitavam o lixo comercial. Meu colega de conversas tomou a iniciativa de desconectar os cabos das caixas e, imediatamente, foi apoiado por outros passageiros. O mundo tem salvação!
No fim da tarde encerrávamos o passeio e voltávamos à região do Porto das Barcas. O sorvete no beco antigo daquele bairro, berço de fundação de Parnaíba, encerrou o dia.
Aproveitei a noite numa lenta caminhada pela avenida Getúlio Vargas, pelas paralelas, pelas transversais. Tudo vazio, silencioso, arborizado, limpo, bonito. Na volta, sentei na calçada da pousada e me refresquei ao vento sempre presente, diante da lua cheia.
Pela manhã caminhei mais pelas ruas da região central da cidade e arredores. Andava colado às paredes e muros das calçadas na busca desesperada por sombra. O sol literalmente torrava a cabeça, embora o ar seco impedisse a sensação de desconforto extremo do calor. Desemboquei na avenida Beira Rio, entrando em restaurante ainda vazio e silencioso. Não por muito tempo, infelizmente. Um casal estacionou em frente ao restaurante a caminhonete absurdamente grande. Manteve a porta aberta, da qual borbulhava a barulheira costumeira. E se instalou com o filho pequeno em mesa próxima à minha. Fim da tranquila contemplação à bucólica margem do rio Igaraçu. A poluição sonora dos carros particulares voltava a atacar sem pedir licença. Terminei o que já estava no final e fugi a fim de preservar meus ouvidos.
Parecia impossível encontrar paz na tarde de domingo. Me sentia cercado e acuado pela barulheira dos carros. Muitos brasileiros, desgraçadamente, sentiam pavor do silêncio, dos sons suaves da natureza, de ouvir música em volume humano. A cada ano eu sentia o fundo do poço afundar mais e mais, muito abaixo do limite inferior da mediocridade.
Não saí naquela noite. Resolvi me entregar à preguiça que me envolveu. Li bastante. Consultei mapas, cochilei, belisquei as castanhas. Adormeci cedo e nada mais. 
continua...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

do Pará ao Piauí (parte 2/4)

...continuação
Desisti de ir a Breves. Ficaria para outras oportunidades. Seguiria direto a São Luís e de lá pensaria nos próximos passos.
Embarquei em ônibus lotado, ao lado de família paranaense de Maringá. Os três viajavam de férias e por conta própria.
O ônibus estacionou na rodoviária de São Luís ao amanhecer. Fiz cera em conversas com os paranaenses, fornecendo-lhes dicas sobre a região, antes de seguir ao centro da cidade.
Saí para almoçar e depois cochilei o resto da tarde.
Encontrei com amigos em bar sob as árvores e a iluminação amarelada que tingia suavemente os casarões barrocos do Projeto Reviver. As mesas logo se entupiram de gente animada em plena quinta-feira útil de julho.
Acordei cedo com a movimentação do café da manhã, conversas dos funcionários, ruído dos pratos, xícaras, copos, talheres, gritaria dos hóspedes enquanto comiam.
Finalmente café da manhã completo, em sistema de bufê. Eu poderia tomá-lo quando, como e o quanto desejasse. Nada de bandejas de motel!
Foi um sacrifício chegar à loja de passagens da empresa aérea no bairro da Renascença. De posse das informações obtidas na recepção do hotel, peguei ônibus que deu a maior volta pelos bairros novos da cidade. Acontece, que depois da via sacra dentro do ônibus, jamais vi uma avenida com o nome de Colares Moreira, justamente a do endereço da loja. O ônibus cruzou todo o bairro da Renascença, atravessou a ponte e retornou ao terminal da Praia Grande, de onde eu tinha partido. Desembarquei, perguntei novamente sobre ônibus para aquela avenida e voltei a embarcar em ônibus de outra linha. Redobrei a atenção quando o ônibus passava pelo bairro da Renascença. Ao achar que poderia estar perto do local, perguntei ao cobrador onde se localizava a avenida Colares Moreira. Ele respondeu firmemente “Aqui!”. Ainda confuso, pois não lera esse nome nas placas, desembarquei. Aquela avenida, porém, chamava-se Luís Pires Saboia Filho, conforme escrito nas placas. Caminhei pela calçada vazia até o ponto de táxi. Nova pergunta sobre a avenida Colares Moreira e nova resposta taxativa: “É esta!”. Mas em todas as placas, eu lia avenida Luís Pires Saboia Filho. Fingi que entendi. Perguntei então onde ficava a loja daquela empresa aérea. Ele pensou, pensou, e respondeu que bastava seguir três quarteirões e encontrar o local. O número procurado era 23. Como poderia ficar três quadras à frente? Agradeci ao taxista e caminhei. Nada encontrei no terceiro quarteirão. Entrei em loja qualquer e refiz a pergunta. A balconista me informou que era meio longe, mas daria para ir a pé. Segui a direção indicada. No caminho, mais e mais placas com o nome de avenida Luís Pires Saboia Filho. Nenhuma das espaçadas construções possuía o número na frente. Quinze minutos de caminhada depois da informação da balconista, encontrei a loja da empresa aérea. Com o número 23 na porta. Atendimento rápido e eficiente. Ninguém na fila. Também pudera! Dois dias antes ocorrera o acidente com avião da empresa no aeroporto de Congonhas em São Paulo. Todos morreram.
Mas como pode o número 23 se situar a mais de dez quarteirões de ambas as extremidades daquela avenida? E como pode a avenida Colares Moreira, conforme endereço obtido na lista telefônica e confirmado pela recepção do hotel, ficar na avenida Luís Pires Saboia Filho? Mistérios maranhenses que nenhum maranhense conseguiu explicar.
O calor abafado e ardido após o almoço me impediu de caminhar livremente a fim de auxiliar na digestão. Mais me sentava nas sombras que propriamente andava. Adiei o passeio às praias para outros dias.
Já à noite, com fome, saí para forrar o bucho em restaurante simpático instalado em casarão barroco de pé direito bem alto.
E parti para uma festa folclórica com os representantes da música, dança e rimos do estado, destacando o Bumba-Meu-Boi. O evento corria nos interiores do Convento das Mercês, centro histórico de São Luís. Reunia milhares de ludovicences, do interior, turistas, que se contagiavam com os ritmos e participavam livremente das danças, dentro do palco, ao lado dos membros dos Bois. Barracas de comes e bebes, roupas, brincadeiras típicas de festas juninas animavam os que preferiam permanecer no pátio do convento ou nas ruas ao redor.
Assisti ao Boi da Lua, do chato sotaque de orquestra, ao comovente e rústico Boi Fé em Deus, do pioneiro sotaque de zabumba, ao Boi da Pindoba, com número excessivo de integrantes para o pouco espaço disponível, do contagiante sotaque de matraca. A atração seguinte, o Boi de Morros, do sempre desagradável sotaque de orquestra, me lembrou de que passava da meia noite. E sotaque de orquestra, nem sem sono!
Pela manhã, tomei ônibus à praia do Calhau. Desembarquei na extremidade sul e caminhei até a parte mais ao norte, observando as perspectivas de onde e como me instalar. Refiz o caminho no sentido contrário pela areia da praia, bem próximo às primeiras ondas do mar.
Calhau jamais foi praia maravilhosa. Plana, com areia dura, sem vegetação natural sobre as dunas atrás da avenida. A longa fila de navios cargueiros no horizonte, prontos para levarem do porto do Itaqui as matérias primas brasileiras para o exterior a preço de banana, comprometia ainda mais a paisagem geral. Mas, como compensação, a praia encontrava-se limpa e quase vazia.
Reencontrei os três paranaenses, com quem passei o dia, ora na barraca de comes e bebes, ora na água do mar. Conversamos sobre tudo, principalmente viagens e futuros destinos.
Durante o retorno de ônibus ao centro, ao cruzarmos a ponte sobre o rio Anil e a baía de São Marcos, me deparei com cena lembrando uma catástrofe climática. Não havia nem sinal de água abaixo da ponte. E assim se mantinha até onde a vista alcançava. Apenas lama preta, lixo visível, a umidade refletida pelo sol. Nada mais. Não é à toa que a baía de São Marcos ganhou fama pela forte oscilação das marés, podendo atingir doze metros.
Algumas amigas maranhenses não apreciavam o centro histórico da própria cidade, consideravam aquela “velharia” feia, renegando as belezas do Maranhão. Enalteciam somente o que a cidade possuía de menos original e menos fascinante, a parte moderna com vida noturna copiada dos grandes centros do sudeste do país.
Assisti no Convento das Mercês ao boi da Floresta, sotaque de matraca, e ao boi de Guimarães, sotaque de zabumba. Este Boi, em determinada toada, cantou versos que defendiam abertamente a pena de morte no Brasil, como forma de acabar com a violência. Ofuscou sem necessidade o restante da própria apresentação.
Acordei inspirado a rever a distante praia de Araçagi, vinte quilômetros do centro de São Luís, depois de cinco anos. As lembranças me traziam imagens de casebres simples, outros mais rústicos, dunas, vegetação de mangue, poucos banhistas, raras barracas de palha invariavelmente vazias e abandonadas.
Ou minha memória falhou ou a praia decaiu vertiginosamente. De paisagem semelhante às demais praias da ilha, Araçagi transformou-se em destino de carros particulares, motos, caminhonetes. Circulavam impunemente pelas areias por entre dezenas de barracas de comes e bebes, cujas caixas vomitavam som alto do forró comercial. Carros e caminhonetes formavam pequenas filas de congestionamento na areia da praia e os mais impacientes buzinavam impunemente. Os veículos estacionavam em qualquer lugar da areia, inclusive rente às pessoas que já estavam lá. Vindo do porta-malas deles, mais lixo descartável em alto volume. Mal se ouvia o som do vento ou das ondas do mar. Os frequentadores entornavam litros e mais litros de cerveja e refrigerante. O avançado estado etílico no meio da manhã prometia horrores para mais tarde, quando eu esperava estar bem longe dali.
Caminhei sem relaxar de uma ponta à outra da praia, antes de embarcar aliviado em ônibus com destino ao exuberante e mal conservado centro histórico de São Luís.
Almocei pelo centro, perambulei, descansei sob a sombra, apreciei o movimento lento e preguiçoso dos pedestres durante o calor da tarde. Entrei no cinema de arte do Projeto Reviver e revi a deliciosa animação baseada em quadrinhos do cartunista Angeli. Contemplei o pôr-do-sol no fundo das águas da baía de São Marcos. Diante de todos esses prazeres, a praia de Araçagi me vinha como incômodo pesadelo da manhã.
Peguei a lotação na área do mercado central para a cidade santuário de São José do Ribamar, no nordeste da ilha de São Luís.
Dei volta leve pela beira do mar. Primeiro a leste, sem praias, mas com ancoradouros, pescadores, barcos, o mar muito azul. Passei sob a estátua de São José e em seguida pelos bares da orla da praia, do lado oeste da cidade. Os garçons disputavam clientes na calçada e até na areia da praia. Subi a escadaria que me levou de volta à praça da Matriz. Caminhei pela calçada com destino ao restaurante conhecido de viagens anteriores.
Caiu bem, pelo local alto, sombreado e ventilado naturalmente pela brisa do mar, pela vista privilegiada da praia. Bebi umas e outras, aguardei o apetite se manifestar e pedi sururu ensopado com arroz e pirão.
A lotação de volta encheu de passageiros com destino à festa no vilarejo de Pau Deitado. Roupas mínimas mal cobriam as mulheres festeiras. Assim que embarcavam, elas perguntavam ao cobrador: “É Pau Deitado?”. Um velho sentado no meio da lotação imediatamente respondia: “Não senhora, aqui é pau em pé mesmo”. Elas gargalhavam e rebatiam debochando: “Esse aí nem levanta mais, coitado”. Dois bancos à minha frente, o casal jovem se agarrava e se beijava animadamente, antes de ele apagar de tão bêbado no colo dela.
O ônibus matinal para Barreirinhas saiu praticamente vazio da rodoviária e assim se manteve. Quatro horas de viagem tranquila, em ônibus novo e bem mais confortável que as lotações, por paisagens nas quais se destacavam casebres de taipa cobertos de palha, buritizais, extensas áreas desabitadas e cobertas de arbustos.
Tentei variar de pousada, mas estavam lotadas. Fiquei na mesma das visitas anteriores. Segui ao restaurante de sempre, agradavelmente localizado na beira do rio, cuja novidade era a desnecessária música ao vivo. Relaxei diante da visão bucólica das margens e das águas do rio Preguiças, enquanto turistas apressados exigiam, sei lá porque, atendimento rápido nos serviços. Embalei duas caipirinhas antes de cair de cabeça na peixada à moda da casa.
Barreirinhas estava cheia de turistas, embora, durante o dia, seguisse a calma e a preguiça que apropriadamente cedia o nome ao rio que a banha. Contemplei deslumbrante entardecer na margem direita do rio, sombreada, tendo à frente a margem oposta iluminada pela luz do sol. A imagem com açaizeiros, buritis, arbustos aquáticos, aguapés, encantava os olhos. Permaneci ali por horas, trocando de lugar apenas para obter diferentes ângulos de visão ou observar o movimento dos barcos recém-chegados dos passeios fluviais.
A prefeitura urbanizou a pequena orla do rio, ampliando a área suspensa, com plataforma de madeira e bancos. Sumiram os ambulantes que vendiam comes e bebes, substituídos por três quiosques de alvenaria. Melhor para os bares e restaurantes em frente ao calçadão. O visual tornou-se mais formal e certinho que o de dois anos antes, sem tirar, contudo, o charme da beira do rio.
À noite muitos se dirigiam à orla do rio Preguiças. Os maranhenses circulavam, conversavam, namoravam, desfrutavam a vida ao ar livre. Os turistas se concentravam mais nos bares, restaurantes e lojas.
continua...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

do Pará ao Piauí (parte 1/4)


Nem trinta dias disponíveis nas férias da pós-graduação. Decidi aproveitar minhas milhas acumuladas em destinos familiares naquele começo de julho.
O despacho de bagagens da empresa aérea estava o caos no aeroporto de São Paulo. Filas imensas desembocavam em somente dois balcões de atendimento, lentamente. Outros passageiros tentavam acessar outros balcões, cruzando transversalmente as dezenas de filas, carregados de pesadas e volumosas malas, por onde não havia espaço nem para um alfinete. Um mundaréu de gente usando e abusando das acotoveladas, empurrões, pisadas, pressões, agressões verbais. Tudo prestes a explodir diante da primeira faísca ou descarga nervosa de alguém mais irritado.
E ali estava a elite privilegiada que conseguia viajar de avião. Não era o povão tão discriminado por essa mesma elite. Eu jamais presenciara tais cenas de barbárie em nenhuma estação rodoviária pelo país ou em portos fluviais da Amazônia.
Durante o voo aproveitei para usar e abusar das leituras, desde que um indivíduo ao meu lado exagerava na cerveja e na inconveniência. Falava aos berros, cuspia e incomodava até não poder mais. Dei-lhe a prensa e ele passou a cochilar pesadamente entre goles de álcool.
Minha amiga me esperava no saguão do aeroporto de Belém, me levando ao único hotel com vagas disponíveis em função de um prestigiado evento científico na cidade. A espelunca era ponto de encontro de casais, com preços por hora, pagamento adiantado e demais finezas. Consegui quarto no final do corredor do segundo andar, menos barulhento, mas com luz queimada no banheiro, sem cabides ou armário, janela que não fechava, permitindo a livre entrada de carapanãs.
À noite, esperei a amiga e outros convidados em frente ao teatro da Paz, ao qual adquiriram ingressos para apresentação de pianista acompanhado de pequena orquestra de jovens. Emendamos em bar informalmente instalado no quintal da casa do proprietário e músico que se juntava a amigos para tocar choro.
O ridículo café da manhã do motel, servido no quarto, mal deu para coçar o estômago. Apenas uma fatia de mamão, oito bolachas, manteiga, café e leite.
Seguimos a um restaurante em Icoaraci, distrito a leste de Belém, lugarejo pacato e simpático, de frente para a baía de Guajará. Optamos pela caldeirada de filhote no tucupi, acompanhado de caipirinhas, suco de cupuaçu e doce de bacuri.
No dia seguinte caminhei despreocupado pelo centro antigo de Belém. Sentava-me em bancos sombreados e permanecia ali somente na observação da paisagem e vaivém das pessoas. O calor, como não poderia deixar de ser, marcava presença.
Almocei bem no bufê de comida paraense do restaurante na Estação das Docas. Entrei de cabeça no pernil ao tucupi com jambu e arroz, regado a caipirinhas. Duas tigelas de creme açaí fresco com farinha de goma de tapioca fecharam com chave-de-ouro o lauto almoço.
De volta ao meu luxuoso motel. Enquanto aguardava a entrega da chave do quarto, feita através de barreira de grade e vidro escuro, um casal assanhado esquentava, ainda na portaria, para as tarefas a serem realizadas no quarto.
Como o preço para os encontros furtivos era cobrado por hora, o cliente recebia comanda na qual seriam marcados os itens eventualmente consumidos durante o ato de amor. E o recepcionista inquiria o casal: “querem camisinha?”. Se o cliente aceitasse a delicada sugestão, o recepcionista pedia de volta a comanda e marcava o item consumido. Tudo em voz alta para todos ouvirem. A mulher não sabia onde enfiar a cara. O homem demonstrava embaraço e não via a hora se trancar no quarto com a parceira.
Encontrei as amigas em café instalado dentro de loja de informática que fechava cedo. Rolava música ao vivo suave, em meio à frequência ouriçada. O estabelecimento não cobrava couvert artístico, não cobrava taxa de serviço, não cobrava café, não cobrava água mineral. No mínimo, curioso.
Já no quarto suntuoso do motel, enquanto escovava os dentes, liguei a televisão de 14 polegadas suspensa na parede. O único canal que exibia boa imagem era o com programação exclusiva de sexo explícito. Tenebroso. Esse tipo de filme deve ter sido concebido de maneira maquiavélica por conservadores e adeptos fanáticos da abstinência sexual. Não poderia haver outra explicação para serem tão horríveis. Sob todos os aspectos possíveis. Sobretudo aquele que deveria conduzir à excitação ou ao empurrão para casais mais tímidos. Bastavam alguns minutos para as cenas provocarem exatamente o efeito contrário, ou seja, a repulsa ao sexo ou qualquer atividade afim. Talvez aqueles filmes incluídos nas programações da televisão durante a semana santa excitassem mais que os tais rotulados de eróticos ou pornográficos.
O café da manhã servido no quarto do motel surgia do nada, sem ser chamado ou esperado, sempre entre 7h e 8h.
Fui ao porto de onde partiam barcos rumo a Curralinho, Breves, Melgaço, Portel. Nos pequenos ancoradouros próximos ao porto, voadeiras e canoas traziam cestas entupidas de açaí fresco, cobertas de palha da palmeira para proteger os frutos do sol escaldante. Compradores analisavam a qualidade, negociavam os preços, pechinchavam, levavam o açaí para ser centrifugado e vendido nas lojas da cidade.
Caminhei nas imediações pelas ruas estreitas, esburacadas e sujas da chamada Estrada Nova, margeada por casebres de madeira sobre igarapés fétidos. Mais à frente, após o quartel da Marinha, relaxei na sombra ventilada do Mangal das Garças antes de retomar a caminhada.
Parei na portaria de segurança máxima do motel. Conversei com o recepcionista e porteiro, enquanto, vez ou outra, entravam e saíam casais de idades, tipos e sexos variados. O encanador que tentava solucionar problema em um dos quartos mais usados pelos casais que pagam por hora veio perguntar na recepção quando vagaria o quarto ao lado daquele em conserto, então ocupado. O porteiro respondeu na lata: “Faz menos de meia hora que os clientes entraram e não sei quando acabarão. Tu queres apressar os coitados, é?”.
Tomamos o mais famoso tacacá de Belém. E emendei com bolo de macaxeira, seguido de saborosa torta de cupuaçu com chocolate.
Depois do café da manhã mixuruca, embarquei no ônibus com destino a Vigia de Nazaré, no norte do Pará. A cidade era pequena, plana, aconchegante, se estendendo na margem do braço de mar, junto a manguezais. As ruas estreitas, com algumas construções históricas, abrigavam dezenas de milhares de paraenses durante a semana de carnaval. No restante do ano vivia de pesca artesanal, de rede, ou linhas extensas com até sessenta anzóis pequenos em cada uma.
Perambulei bastante por ali. Deu meio-dia, a cidade fechou o comércio e mergulhou no silêncio. Até a feira nas ruas, tão movimentada nas proximidades do mercado de peixes, desapareceu por completo. Centenas de urubus sobrevoavam e cobriam os telhados do mercado, os muros na beira da água, postes de linhas de transmissão. Fugi do sol ardido em restaurante simples que servia comida boa e barata em longas mesas coletivas.
Caiu forte pancada de chuva e tive que me proteger sob a marquise do comércio ainda fechado. Caminhei de volta à rodoviária assim que estiou temporariamente. Só foi me sentar nos bancos da estação que o aguaceiro retornou com vontade.
Ao anoitecer eu estava de volta ao meu querido motel em Belém.
Comemos, eu e a colega sempre presente nas noitadas, deliciosa pizza coberta de jambu e camarão.
Pela manhã me sentei por bom tempo na bela e prestigiada praça Batista Campos. Apreciei o verde, o bom gosto do desenho dos jardins e coretos, as mulheres dando infinitas voltas ao redor a fim de perder os indesejados quilinhos. Segui até o parque museu Emílio Goeldi, com zoológico, trilhas, árvores seculares como a samaumeira e o mogno, muita sombra e verde exuberante.
Entrei no Parque da Residência para almoçar em restaurante por quilo, frequentado por engravatados, executivos, representantes da fina flor da sociedade belenense. Retomei o longo percurso pela rua Gentil Bitencourt, sombreada de mangueiras, como as demais vias dos arredores. Nuvens negras e pesadas se acumulavam no céu, ameaçando fortes chuvas para o final da tarde.
Os lençóis e toalhas do motel eram trocados diariamente. E eu recebera lençóis limpos da arrumadeira naquela tarde, lavados e cheirando a limpo. Mas com manchas vermelhas, de sangue, e manchas claras, formando cascas, de sêmen. Nada surpreendente para um hotel de encontros. As manchas se concentravam em uma das extremidades do tecido. Arrumei então o lençol de tal maneira a ficarem no lado oposto àquele que eu costumava dormir.
Fomos a pub no bairro de Batista Campos, em estilo irlandês. Se enquadrando perfeitamente no ambiente, lá estava um individuo sentado, sozinho, bebendo cerveja. Bebia muito. Ia constantemente ao banheiro, com dificuldades para se equilibrar. Não deu outra. Horas e inúmeros copos depois ele despencou no chão, levando consigo copos, cadeiras e mesa. Imediatamente, mas com discrição, os garçons o levantaram e o transportaram dali. Para onde, ninguém soube. O bêbado, de meia idade e com aparência de endinheirado, não ofereceu resistência.
A recepção do motel me cobrou as diárias vencidas. À vista. Aquele estabelecimento jamais aceitaria cheque ou cartão.
Belém se esvaziava com a aproximação do final de semana. Muitos belenenses fugiriam para as praias, marítimas ou não. Linhas especiais de barcos grandes partiam às tardes da sexta-feira com destino a Mosqueiro.
Novo almoço reforçado na base de muito tucupi, jambu e creme de açaí fresco. Saí estufado, bem alimentado e feliz.
À noite comi cachorro quente paraense, que levava carne moída no lugar da salsicha. Quando a salsicha era usada, o sanduíche recebia o nome de hot-dog. Repetimos a noite na casa dos músicos de choro. Ouvimos boas músicas. Bebemos caipirinhas coadas cujo sabor deixava a desejar.
Almocei com elas em restaurante caro, instalado no parque novo e ainda com poucas árvores frondosas. Evitamos a área interna frequentada pela elite e com o sempre indesejado ar condicionado. Optamos por mesa na varanda, em contato com o vento, mais próximo da paisagem natural. Destaque para a música ao vivo que brilhou com violonista e clarinetista em repertório de choros e sambas antológicos.
Revi o ótimo filme Batismo de Sangue ao lado delas. Depois sentamos na Estação das Docas, bebemos caipirinhas e debatemos sobre o tema do filme, a história de resistência popular à ditadura civil e militar, Frei Beto, o autor do livro que deu origem ao filme e de quem uma delas era muito amiga. Prosseguimos a noite em outro bar. Passavam das 4h da manhã quando me deixaram na porta do motel, trancado pela grade de ferro, como sempre.
Almoço na Estação das Docas. Esticada ao pôr-do-sol em frente à Casa das Onze Janelas. Imagem belíssima do sol mergulhando nas águas da baía de Guajará.
À noite, reprise do divino e mais famoso tacacá de Belém. Os efeitos da noitada anterior me endoideciam para dormir cedo.
continua...