quinta-feira, 20 de setembro de 2012

do Pará ao Piauí (parte 4/4)

...continuação
Acordei finalmente em dia útil, infinitamente mais bem-vindo, para quem viaja a passeio, do que os finais de semana.
Nas proximidades da área central da cidade encontrava-se a praça do troca-troca, assim chamada pelos moradores. Ali se trocava de tudo, usado, velho, muito velho. Os itens espalhavam-se pelo chão, bancos, escadas. Muitos circulavam, observavam, analisavam cuidadosamente, antes de iniciarem as negociações.
Embarquei na lotação à praia do Coqueiro. Percurso tranquilo, passando pelo centro da cidadezinha de Luis Correia, pela badalada praia de Atalaia, ponto de destino da maioria dos banhistas, e finalmente a vila e praia do Coqueiro, ponto final do micro.
Ignorei o movimento dos poucos bares. Ultrapassei a ponta do farol de Itaqui, com formações rochosas compondo desenhos. A partir da curva, a praia do Itaqui ficou completamente deserta. Nenhuma alma viva a leste e a oeste. Cenário paradisíaco, mesmo na acentuada maré baixa e pela ausência de vegetação ou sombras providenciais. Caminhei bastante no sentido leste, ora com os pés na areia seca, ora chapinhando sobre as águas mornas. Eu, a praia, o mar, o vento, as gaivotas. Nada mais. Após a curva mais pronunciada da praia de Carnaubinhas, avistei grupos de casas no horizonte, provavelmente vila de pescadores. No final de tudo, no fundo do horizonte, protegida por dunas e vegetação aparentemente rala, o que seria a praia de Macapá.
Larguei as coisas na areia seca da praia. Tirei toda a roupa. Entrei no mar de ondas fracas. Sensação indescritível de infinita liberdade, sem ninguém à vista no raio de centenas e centenas de metros. A imaginação seria o limite, sem quaisquer restrições. Flutuei, nadei, mergulhei, flutuei mais, me sequei sob o sol, me deitei na areia, mergulhei outra vez. Nem sinal de outro ser humano. E divaguei, e relaxei, e me sequei novamente. Não tive ideia de quanto tempo permaneci ali. E nem me importava em saber.
Deu fome e me retirei à praia do Coqueiro.
Assim que cheguei à barraca escolhida, não havia, surpreendentemente, a poluição sonora do lixo comercial de sempre. Rolava som baixo com repertório da década de 1980. Interpretei que a chance de trocarem para a barulheira dos rebanhos seria menor. Não trocaram. Bebi caipirinhas preparadas com pinga piauiense, comi quase toda a imensa porção de sururu ao molho, acompanhado de farofa, arroz branco e, por incrível que pareça, outra porção de arroz cozido com milho e açafrão. Perguntei o motivo de dois acompanhamentos de arroz e a garçonete respondeu que era assim mesmo, as duas porções de arroz servidas juntas. Fiquei na mesma.
Retornei à Parnaíba pouco antes do anoitecer.
De barriga ainda lotada pelo farto e tardio almoço, eu não passei de um sorvete à noite. Escolhi a sorveteria do Porto das Barcas, local charmoso e silencioso, próxima à beira do rio Igaraçu.
Não mais que de repente, uma caminhonete cheia de jovens estadunidenses quebrou o silêncio da região. Os adolescentes, guiados por três mais velhos, também daquele país, acompanhavam uma família de mulatos, pobres, brasileiros. A maioria dos gringos se dirigia em inglês às crianças da família brasileira, com exceção dos mais velhos que optavam pelo português com sotaque carregado. O pouco tempo não me permitiu entender do que se tratava aquilo. Mas não cheirava bem. Não se podia esperar grande coisa de indivíduos oriundos de um país viciado em crimes, invasões, guerras, agressões, saques, pilhagens, terrorismos.
O Porto das Barcas guardava núcleo arquitetônico preservado e transformado em espaço voltado a restaurantes, lojas, agências de turismo, galpões de oficinas culturais. Mas esse conjunto englobava porção pequena da região. A maior parte dela, sobretudo à montante da ponte que ligava a cidade à ilha Grande de Santa Isabel, encontrava-se abandonada e degradada. Amplos galpões, velhas fábricas, ruas inteiras, tudo em ruínas, tomadas pelo lixo e a escuridão, abrigavam marginalizados e alijados dos serviços públicos.
Inúmeros e imensos quarteirões poderiam se transformar em áreas de integração social, voltada à população que mal sobrevivia nas proximidades. Escolas, centros culturais e esportivos, praças e parques populares, formariam patrimônio útil, primeiramente à população carente da cidade, depois aos visitantes.
O assunto entre três hóspedes e o arrendatário da pousada, na calçada da frente, embora começasse bem, logo despencava para violência e criminalidade, usando e abusando dos falsos argumentos largamente difundidos pela classe dominante através dos meios de comunicação, principalmente a televisão. Ouvi excrescências do tipo que bandido tem que morrer, menor tem que ser preso, as vítimas e os respectivos parentes tem o direito, e até o dever, de fazer justiça com as próprias mãos. Os energúmenos defendiam, em outras palavras, a barbárie social, consciente ou inconscientemente. Aproveitei uma brecha e saí de fininho.
Ainda baqueado com o excesso de sol do dia anterior, peguei ônibus com destino à praia da Pedra do Sal, ao norte da ilha Grande de Santa Isabel, ainda no município de Parnaíba.
A sensação de abandono e descaso assustava logo à primeira vista. Barracas caindo aos pedaços, fechadas, largadas, com garçons sonolentos que não tomavam a iniciativa de servir os gatos pingados que se sentavam nas mesas tortas.
A praia do lado oriental da ponta do farol, mais vazia e com mar bravo, permanecia intacta a partir da última barraca arrebentada. Andei bastante até as pessoas se transformarem apenas em manchas no horizonte. Ainda cruzei com pescadores e raros moradores locais. Sem ninguém por perto, tirei toda a roupa e entrei no mar. Aproveitei a situação de relaxamento e contemplação.
A praia do lado oposto, ocidental, oferecendo baía de águas calmas, mais procurada pelas famílias, revelava-se uma calamidade. A maré baixa expunha lixo, muito lixo na areia molhada, lixo jogado impunemente pelos frequentadores e não recolhido pela prefeitura. Copos plásticos, sacos plásticos, latas de cerveja e refrigerante, restos de comida, detritos em geral, formavam imagem desoladora. A população sujava e as autoridades públicas não orientavam, não puniam, não limpavam. Nem que forçasse, eu conseguiria ficar ali. Me sentiria conivente com tanto desleixo, sem falar no nojo de conviver com a sujeira. Esperei o ônibus e retornei ao centro de Parnaíba.
Dia livre, sem programação. Li, relaxei, conversei, observei. Tudo sem pressa ou maiores pretensões.
Almocei novamente no restaurante que servia comidas típicas, caipirinhas bem preparadas com pinga piauiense, instalado em charmoso casarão. O proprietário e família atendiam bem e de maneira descontraída. Jamais deixaram de se mostrar simpáticos comigo.
O ônibus para Teresina partiu pela manhã com metade da lotação. Na capital piauiense me hospedei em hotel situado em rua estreita próxima ao centro da cidade. Construção térrea, bem conservada, bem cuidada, limpa, confiável.
Sem ter almoçado, corri para o local do jantar. Correr seria força de expressão. Ainda mais naquela cidade em fusão. Senti o calor de Teresina, seco, sem vento ou refrescos, logo no começo do primeiro quarteirão. Caminhei lentamente. Bem lentamente.
O bar e restaurante era de esquina, frequentado principalmente por funcionários depois do expediente. Dezenas de mesas se espalhavam pela calçada e parte interna do estabelecimento, a maioria tomada de gente alegre e descontraída naquele anoitecer. O som, baixo como deveria ser, compunha-se de música brasileira de qualidade. O atendimento solto deixava o ambiente ainda mais leve. Entre goles refrescantes, forrei o estômago com carne de sol completa. Ninguém me secou por estar sozinho. Paqueras leves e respeito à privacidade típicas de cidade grande. Relaxei, comi, bebi. Observei o movimento e troquei olhares sem maiores pretensões. Quando eu soltava o braço, fazendo-o se aproximar do chão de cimento da calçada, a temperatura subia rapidamente. O mormaço e o sol intenso que castigavam a calçada durante o dia ainda mostravam a força naquela noite estrelada.
A frase escrita em letras garrafais no cardápio do restaurante aliviava e provocava a sensação que nem tudo estava perdido no mundo, principalmente no nordeste. “É proibido som de carro”. Não seria a primeira nem a última vez que via aviso tão providencial. Os ouvidos e mentes de todos ali agradeciam. Ninguém se interessava em saber para onde migraram os poluidores insuportáveis. Muito menos eu.
Dei grande volta antes de retornar ao hotel. Apesar do calor, durante a noite era o melhor momento para circular a pé pela cidade. Atingi a estratégica avenida Frei Serafim, contornei a igreja de São Benedito, avancei pelo centro comercial, vazio e quieto, desviei das barracas de ambulantes, cobertas de lona plástica ou simplesmente sem produtos, apenas os esqueletos metálicos. Estava em Teresina, a cidade constantemente sob o banho-maria. Eu suava e meu corpo parecia pegar fogo. E os relógios marcavam quase 23h.
Pela manhã, deixei a mochila no guarda-volumes do aeroporto. Sem opções naquela cidade tórrida, apesar de simpática e arborizada, me refugiei no templo do consumo. Almocei tarde e enrolei no cinema antes do início da noite.
Somente a necessidade premente de ajudar o tempo passar me levou a entrar numa sala de cinema para assistir a lixo comercial produzido naquele país terrorista ao norte do México. Não tinha alternativa. E, por triste coincidência, igual sete anos antes, a imagem estava fora de foco em metade da tela. Sem falar na luz fraca da projeção. O segundo filme em Teresina, em sala diferente da primeira, a segunda vez com péssima qualidade de imagem. Não que o filme horroroso merecesse algo melhor. Mais por respeito aos espectadores, os quais, aliás, aceitaram calados, sem reclamar. Muitos nem viam o filme, preferindo cutucar o celular no meio da sessão, da mesma maneira que os paulistanos.
Embarquei em avião extremamente apertado, sem espaço suficiente para as pernas. Qualquer ônibus do interior do injustamente achincalhado Piauí ganharia de goleada em espaço e conforto. Desisti de tentar adormecer, apesar do sono. O avião não oferecia as mínimas condições de relaxamento.
Aterrissagem tranquila no aeroporto de Cumbica em São Paulo naquela manhã de fins de julho. Peguei ônibus comum e metrô até em casa.
Incluí nesses relatos fotos de outras viagens minhas às mesmas regiões. Isso porque esta viagem ficou sem registros fotográficos. Até levei câmera. Mas ela partiu dentro da pochete, junto a outros itens menores, no momento em que dois rapazes muito gentis, numa rua de Belém, me solicitaram que eu a entregasse imediatamente.

2 comentários:

  1. Templo do consumo é ótima... E ótima definição para shoppings!
    Os rapazes educados e gentis de Belém... rsrs
    Isso é apenas um detalhe, né? Boa sorte nas próximas viagens.
    Tenho uma pergunta... Sua profissão te leva a todos esses lugares ou... como você faz? Desculpa a pergunta desagradável ( Já me perguntaram como eu conseguia dinheiro para viajar tanto, em tom inquisidor e por isso sei que talvez minha pergunta não soe mto simpática! Rsrs)

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  2. Oi Marcela!
    Foram realmente muito gentis aqueles rapazes de Belém. Lembro sempre...
    Nunca fui consumista, gasto pouco.
    O tantinho que sobra aproveito em viagens baratas e fascinantes.
    Abraços!

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