sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Norte de Minas Gerais-5 (parte 5/5)

                       
...continuação
Dormi maravilhosamente bem no quarto silencioso da pousada silenciosa em cidade silenciosa. Nem precisei conferir o horário de acordar ao ouvir as seis badaladas da igreja matriz.
Comi bem no café da manhã servido na própria cozinha da pousada. A copeira cursava o último ano do magistério, pretendendo seguir pedagogia na universidade, embora sonhasse estudar artes cênicas, carreira mal vista pela família dela.
Circulei por entre becos e ruelas fascinantes, algumas ladeiras, o ribeirão do Inferno fluindo com pouca água pelas pedras. As colinas e montanhas ao redor, as casas de pedra mineira, o casario antigo e a igreja de Santo Antônio, maciçamente de pedra.
Segui pela rua lateral à igreja que mais à frente se transformou na trilha do Vau, em descida no meio da serra pedregosa. O ribeirão do Inferno se mantinha à esquerda, agora em vale mais afastado, mais alargado, mais profundo. O amplo vale do rio Itacambiruçu aparecia adiante, a partir do qual as sequências de montanhas rochosas ascendiam a perder de vista. Caminhei sobre pedras soltas e trechos arenosos, ao lado de cerrado e agreste repletos de mandacarus, xiquexiques, macambiras, flores amarelas, as minúsculas flores brancas e concentradas em pontos isolados. Escavações esparsas com grandes placas rochosas removidas apontavam para extintos pontos de garimpos de diamante.
E bati de frente com o rio Itacambiruçu, de águas esverdeadas e praias de areias brancas, entre trechos de rochas acastanhadas. Somente eu, os pássaros, lagartos, a natureza em paz naquela manhã. O sol castigava sem dó nem piedade, queimando a pele, esquentando a cabeça mesmo com chapéu, me cegando em brilhos fortes.
A sede amargava a boca e a garganta ao pisar novamente nas ruas da cidade. Detonei garrafa grande de água, me sentei em restaurante e aguardei a fome dar sinal de vida. O ambiente oferecia sobre móveis antigos livros e textos sobre a região, fotos, pinturas. E trilha sonora embalava os clientes na base de música brasileira de qualidade, puxada por intérpretes das imediações, mais Elomar, Geraldo Azevedo, João Bosco, Vital Farias, entre outras feras do universo. E valeram as conversas sem fim com o proprietário sobre a história e situação atual da região. Ele chamou a atenção para os males sociais e ambientais causados pela monocultura de eucalipto, o deserto verde, a praga que beneficia meia dúzia de capitalistas da gang do agronegócio, enquanto a maioria sofre com a degradação ambiental, a falta de empregos, a diminuição do plantio e oferta de alimentos, antes cultivados naturalmente naquelas terras.
Saí aproveitando a luminosidade de fim de tarde, apreciando o contraste das ruas e construções com a serra pedregosa ao redor. A cada ladeira que subia e obtinha visão mais panorâmica desse cenário, mais me encantava com o local e mais me excitava com a possibilidade de ficar bastante por ali.
Jantei comida saborosa, sempre precedida de duas doses da cachaça curraleira e sucedida por cocada caseira. Dei voltas pelo centro iluminado de Grão Mogol, cujo resultado noturno encantava ainda mais.
Encontrei o início ascendente da trilha das Ruínas da Tropa. O caminho, largo, calçado de pedras, ou aberto naturalmente sobre as pedras originais, lembrava outras grandes rotas de tropeiros do Brasil. Passei sobre ponte de pedra, caprichosamente construída séculos antes para evitar o vale de ribeirão seco. Circundei ruínas de construções feitas de pedras superpostas com intuito de abrigar os antigos caminhantes nas noites de descanso. Contemplei o visual de Grão Mogol bem abaixo e das montanhas e demais cristas rochosas ao redor.
A vegetação do cerrado e do agreste abrigava bromélias, arbustos com flores amarelas, árvores retorcidas, mandacarus, xiquexiques, palmas. Reparei em enorme e assustadora casa de marimbondos, a poucos centímetros de mim, grudada sob a laje de pedra sobre a qual tinha me apoiado. As doces criaturas se acumulavam na boca estreita e circular, alertas, as mais afoitas já alçando voo, prontas a se defenderem de meus movimentos suspeitos.
Atingi quase o topo da serra, onde o olho d’água refrescante apontava para ponto de coleta de água dos caminhantes atuais e dos tropeiros séculos antes.
Após o jantar, Grão Mogol adormeceu deliciosamente cedo, sem alarde, sem neuras, tranquilamente.
No começo da manhã subi a trilha do Barão, calçada por escravos séculos antes, em áreas do parque estadual de Grão Mogol. O tempo encoberto mantinha tudo sob uma luminosidade uniforme, sem maiores contrastes ou realce de cores. Mas facilitou o esforço da caminhada, jamais cansando em excesso.
A subida gradual exibia blocos rochosos de formatos variados, alguns inusitados, configurando grutas, características físicas de animais, plantas, em meio ao cerrado de altitude, com poucas árvores de porte, muitos arbustos e vegetação rasteira. Pássaros, lagartos, abelhas, marimbondos, reinavam absolutos na fauna local. Após a primeira elevação atingi os campos de altitude, extensos areais, pontos de água, alagadiços, com flores minúsculas de formatos e cores variadas, entre vermelha, rosa, amarela, roxa, lilás, azul, branca. As abelhas faziam festa ao redor delas.
Ao final dos campos, nova elevação, vegetação arbustiva, rochas justapostas, visão a leste de colinas e vales bem abaixo se estendendo no horizonte. Quase cheguei ao ponto de descida da serra, do outro lado. Mas, satisfeito, resolvi dar meia volta.
Almocei no restaurante de sempre, entre mais informações históricas e conjunturais do proprietário.
A emissora FM de Grão Mogol exibia programação noturna de música brasileira variada e agradável de ouvir. O repertório transitava dos clássicos aos sucessos do momento, sem apelar para o lixo descartável, aquele que costumeiramente vomitava da televisão, bares, sobretudo carros, massacrando os ouvidos de quem estivesse próximo. E o curioso é que não havia locução ou comerciais na emissora. Somente vinhetas com a hora certa e a frase gravada “sequestraram o locutor!”. Parabéns!
O restaurante ao qual eu me dirigia todas as noites permanecia vazio de clientes. Era eu, somente eu, mais o casal e a cozinheira, os três do outro lado do balcão. E nessa calmaria tão bem-vinda eu me recolhia cedo, observava ligeiramente as ruas vazias, me deitava cedo rumo a mais uma noite silenciosa e bem dormida.
Perambulei pela discreta feira na praça da Biblioteca Municipal. Os ônibus caindo aos pedaços traziam os lavradores dos povoados vizinhos para vender produtos frescos na cidade. Dispunham as ofertas pelo chão, calçadas, sob a mangueira do centro da praça, à espera dos compradores urbanos. Em pouco tempo tudo se foi, o povo da roça recolheu as cestas, comprou o imprescindível e o supérfluo nas lojas do centro, embarcou nos ônibus velhos de volta para a zona rural. Além dos agricultores locais, paraibanos ofereciam mantas, redes, panelas, bugigangas em geral.
Circulei pela margem esquerda do ribeirão do Inferno, após passar pela pequena e simpática capela do Rosário. O esgoto escuro e fétido era despejado impunemente de ambas as margens, apodrecendo o ar local, turvando e escurecendo as águas a caminho da cachoeira do Inferno e da garganta profunda mais adiante. O que já foi o poço da cachoeira, ora ponto privilegiado para os moradores se banharem e se refrescarem, se transformou em água negra, podre, fedorenta, entupida de detritos de todos os tipos, todo o lixo de Grão Mogol, matando o charmoso ribeirão que corta a cidade.
Agressivos projetos de mineração envolvendo grandes empresas privadas brasileiras e estrangeiras prometiam profundas mudanças sociais, econômicas, políticas, ambientais, culturais naquela região de Minas Gerais. O que aconteceria com a paz, tranquilidade e o jeito mineiro de ser de cinco municípios envolvidos, incluindo a ainda charmosa cidade de Grão Mogol? E a produção de alimentos pela agricultura familiar que abastece as cidades nas feiras? E a quantidade e qualidade das águas que brotam e correm de todos os lados? A recém-inaugurada usina hidrelétrica de Irapé veio para abastecer o complexo mineral ou a população da região? A monocultura de eucalipto que envenena vastas áreas dos municípios tenderia a crescer, fornecendo lenha para os megaprojetos, diminuindo ainda mais a produção e oferta de alimentos saudáveis?
Outra dúvida que me vinha em tantas viagens pelos interiores do Brasil. Quem escolhia sintonizar na rede Globo os milhares de televisores espalhados por rodoviárias, hospitais, consultórios, órgãos públicos, salas de espera em geral, bares, restaurantes, salões de hotéis e pousadas, aeroportos, locais afins por todo o Brasil? Quem se deu a esse direito ou a essa arbitrariedade? Será que era daí que a tal rede obtinha os tão alardeados altos índices de audiência?
Doei os livros já lidos, Ladrão de Cadáveres, da Patrícia Melo, e um de coletâneas de pensamentos, do educador e mestre Paulo Freire, para a copeira da pousada, que os recebeu com muita felicidade.
À medida que eu subia o ribeirão do Inferno, a montante da cidade, o vale se estreitava ao longo do curso das águas douradas e ainda limpas, com paredões verticais na margem esquerda e encosta íngreme coberta de vegetação agreste na margem direita. No final, ao lado de pequena barragem, me sentei, liberando a mente às reflexões sobre aquela viagem que se aproximava do fim.
E o entardecer ensolarado fluiu sem alarde, na bem-vinda preguiça, com o comércio fechado naquele sábado e a cidade mais quieta que de costume.
À noite houve a festa de São Pedro em bairro situado nos altos de Grão Mogol, organizada pelos próprios moradores. Transferida da matriz, a missa foi rezada ao ar livre no mesmo trecho dos festejos. Depois a quadrilha de crianças se exibiu acompanhada de música ao vivo, fogos, rojões, fogueiras acesas. O público acompanhava com palmas, ameaças de danças e muita animação.
Porém, após a quadrilha, veio um tal de desfile “country”, também só de crianças. Pavoroso! As coitadas das crianças, algumas com menos de cinco anos de idade, desfilavam imitando passarelas da moda, ou tentavam a partir do que assistiram pela televisão, sob a trilha sonora de músicas estrangeiras, provavelmente daquele país terrorista ao norte do México. O mau gosto das roupas, da coreografia, das músicas, dos trejeitos da gurizada, era ruim de fazer dó. Pisada de bola inexplicável em pleno norte de Minas Gerais. Tirando os familiares, fotografando as vítimas mirins, a maioria pareceu não se animar e virou as costas. E eu, diante de tamanha deturpação cultural de festejo tradicional do Brasil, fugi dali imediatamente, de volta ao centro da cidade.
O casal dono da pousada me ofereceu um almoço de despedida na base de estupenda galinha ao molho pardo. E acompanhada de arroz, farofa de andu, salada verde com jiló cru, suco de laranja pera e lima da pérsia. Tudo precedido da divina curraleira, cachaça purinha, branquinha, artesanal. Detonei três pratos substanciosos. Saciei minha fome com comida saborosa em companhia para lá de acolhedora.
Acordei cedo para pegar o ônibus madrugador no único e bizarro horário. Embarquei no momento em que o sol despontava por trás das montanhas. Os pés das serras e baixadas se cobriam de cerração, produzindo efeito luminoso belíssimo com o sol do começo da manhã. Parada no deprimente distrito de Barrocão e na cidade de Francisco Sá, no pé da borda oeste da Serra Geral.
Travei instrutivas conversas com o colega de assento, agricultor e batalhador diante da falta de apoio governamental e do boicote do agronegócio. Avistamos o acampamento Santa Marta de trabalhadores rurais sem terra, na beira da rodovia, próximo a Francisco Sá. O colega ressaltou que nas imediações do vale do São Francisco os assentamentos do MST abasteciam as populações com alimentos variados, de qualidade, sem agrotóxicos, a preços convidativos. E que esses assentamentos davam o exemplo aos demais lavradores da região do cultivo na forma de agricultura familiar, cooperativada, sem envenenar os solos, sustentável social e ambientalmente.
Desembarquei no terminal rodoviário de Montes Claros. Não deixava de ser interessante estar em cidade grande, hospedado próximo ao movimentado terminal rodoviário, ao lado de hotéis de tipos diversos. Por perto, ainda havia o abominável xópin, repugnante como qualquer um do gênero pelo mundo afora. Pelas ruas, pessoas circulavam em meio ao anonimato, olhares que nada tinham de curiosidade e espanto, como os que eu recebia pelos interiores menos visitados, mas sim cheios de segundas e terceiras intenções. Eu me aproximava da minha megalópole natal.
Durante o jantar, um casal jovem se sentou do mesmo lado da mesa, de perfil para o televisor instalado em parede lateral. Ela se virava a todo instante, mantendo o patético olhar bovino nas bobagens da programação, dando as costas para o rapaz. Desconsolado, ele esfregava as mãos no próprio rosto ou ficava olhando o vazio. Nada diferente das demais mesas, desse e de outros restaurantes das imediações. Os frequentadores, que saíam de casa em casal, com a família, em grupo de amigos, não conversavam, não se olhavam, não se notavam. Preferiam se idiotizar diante da programação embrutecedora da televisão.
Embarquei em ônibus lotado procedente de Espinosa. No caminho, visão instigante e animadora das montanhas da cadeia do Espinhaço de um lado, e a serra do Cabral do lado oposto.
Desci em São Paulo naquele início de julho. E, assim que entrei em casa, já comecei a fuçar o mapa na busca de roteiros para a próxima viagem ao deslumbrante norte de Minas Gerais.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Norte de Minas Gerais-5 (parte 4/5)

                             
...continuação
               Coronel Murta acordou, e parece ser a regra em dia útil, escandalosamente bem cedo. Dezenas de galos, próximos e estridentes, cantaram histericamente. Vozes e músicas altas vindo das casas vizinhas, crianças berrando, pessoas e veículos circulando. Antes de clarear completamente a cidade toda já estava de pé. E o lauto café da manhã do hotel consistiu de uma tigelinha com biscoitos de polvilho, café adoçado na garrafa térmica, leite frio na própria embalagem longa-vida. Só, somente só.
O dono do hotel lamentou a ação das minerações ilegais, operando via liminares fraudulentas, de feldspato em pó e em pedra, nas imediações da cidade. Geravam poeira permanente sobre a população, causando problemas significativos de saúde, sobretudo na estação seca.
Coronel Murta agradava aos olhos, pelo traçado irregular das ruas, algumas ladeiras, ruas e avenidas mais longas, com canteiros centrais bem arborizados e decorados, pelas montanhas ao redor e, obviamente, pelo rio Jequitinhonha margeando-a. Atravessei a ponte sobre o rio até a margem direita. Lavadeiras em grupos davam um trato em imensas trouxas de roupa. Faixas de pedras escuras e ilhas cobertas pela vegetação arbustiva e rasteira surgiam do leito do rio de águas também escuras. Em ambas as margens, a vegetação, agreste, acastanhada, ressecada, envolvia casas, sítios, povoados esparsos.
Dobrei na estrada de chão, botando as pernas para funcionar bastante. As montanhas de pedra circundavam as imediações da cidade. Surgiram casas, propriedades maiores, uma concentração pequena de moradias, sempre próximas à margem do Jequitinhonha. A vegetação se mantinha seca. Não avistei plantações, somente algum gado. Tampouco notei pescadores em atividade ou barcos em circulação. Lajedos graníticos abrigavam mandacarus, palmas, sisal e as simpáticas coroas-de-frade, impassíveis, imponentes. Rejeitos de garimpo ou mineração de turmalina preta se acumulavam em pontos esporádicos.
Horas depois retornei, atravessei novamente a ponte sobre o rio, desviando para o bar e restaurante da margem esquerda. Bem instalado na barranca do rio, com vista privilegiada das águas, praias, da margem direita, o local oferecia mesas dispostas sob a sombra refrescante. Abri com uma dose da cachaça branca. Comi traíra frita sem espinho, arroz fresquinho, salada verde.
A prosa correu solta com o dono do estabelecimento. Pena que ele se desconcentrava constantemente do assunto, se enveredava por outros, dos quais também se perdia, iniciava terceiros, quartos, quintos assuntos. Raramente conseguia a proeza de responder ao que eu perguntava. De vez em quando, eu o puxava de volta ao assunto original, tarefa inglória, pois, apesar de sentir o tranco, se dispersava novamente. Deixei rolar. Comi bem, matei a sede, me refresquei na sombra.
Mas que trechinho barulhento da cidade eu fui me hospedar! Os vizinhos de todos os lados não sossegavam um instante sequer, principalmente ao entardecer e começo da noite. Ligavam som alto, acompanhavam as músicas com vozes altas e de taquara rachada, gritavam entre si, riam, discutiam, brincavam aos berros. Tudo em volume alto. Mas não deixava de ser vida vivida à flor da pele. E as duas janelas do meu quarto no primeiro piso, sem falar a do banheiro e a do corredor, davam de cara para eles, captando cada ruído emitido.
Duas explosões consideráveis de mineração próxima ocorreram à tarde. Tremeu tudo. As residências mais próximas certamente sofreram efeitos mais comprometedores. E o consumo, tráfico e demais consequências do uso do crack chegaram a Coronel Murta. Fui alertado para não transitar por determinados bairros e trechos da cidade, mesmo durante o dia.
Não havia agências ou terminais de autoatendimento do banco em Coronel Murta e o jeito foi me deslocar para me reabastecer na desagradável cidade de Araçuaí. Fui e voltei de táxi-lotação, uma vez que os horários de ônibus eram espaçados e inconvenientes. O caminho pela estrada, apesar da vegetação árida e espinhosa, oferecia montanhas isoladas e o rio Araçuaí na entrada da cidade.
Após as tarefas bancárias, rumei para o já conhecido restaurante que servia comida típica e saborosa em espaço arejado. O senão ficou por conta do telão gigante, mais caixas de som espalhadas pelos quatro cantos do ambiente, transmitindo programação sensacionalista da televisão, entre crimes, tragédias familiares, congestionamentos, quase que exclusivamente ocorridas na região metropolitana de São Paulo. E de suma importância para os moradores de Araçuaí e arredores, sem a menor dúvida! Os frequentadores anestesiados pela mídia lançavam os costumeiros olhares bovinos para se idiotizarem cada vez mais.
A real vida noturna de Coronel Murta ocorria nos bares dentro do posto de combustíveis na margem da estrada para Salinas. Ali ocorria maior consumo de bebidas, mais olhares objetivos entre os interessados, comportamentos mais previsíveis e ensaiados. Nada sofisticado ou pretensioso, mas direto ao assunto mesmo.
No começo da manhã seguinte eu já caminhava em outra estradinha de chão, acompanhando o pé da montanha de pedra alongada. Lajedos com arbustos espinhosos apareciam vez ou outra. Casinhas esparsas, pequenas propriedades pouco cultivadas e irrigadas, grandes propriedades nada cultivadas, com algum gado, ou totalmente abandonadas, porteiras e cercas em frangalhos. Sertanejos cortavam paus nos trechos mais arborizados e os transportavam nas costas para construções ou lenha. Abelhas e marimbondos zuniam aos milhares nas árvores de maior porte. Uma abelha suicida aterrissou no meu joelho direito. Não picou, mas ficou atolada no mel que a envolvia.
O piso sinuoso e acidentado da estradinha se coalhava de placas de malacacheta, reluzentes ao sol. Pequenos canaviais e cheiro adocicado vindo de sítios apontavam para prováveis engenhos de cachaça e rapadura. De vez em quando eu cruzava com vaqueiros conduzindo reduzidos rebanhos de bois e vacas. Raros veículos trafegavam por ali. Os mais desagradáveis eram as caminhonetes cabines duplas dirigidas espalhafatosamente pelos motoristas endinheirados que, ao passarem voando por mim, levantavam poeira fina e eu não via mais nada. As motos e carros mais simples diminuíam a velocidade e geralmente me cumprimentavam.
Na volta fui direto ao bar na beira da água do Jequitinhonha. Matei a sede, tomei uma dose da cachaça, detonei tucunaré frito com arroz e salada. O dono apareceu após eu encher o bucho. Relaxei para ouvir a valer. Ele falou sem parar, invariavelmente fugindo do assunto inicial, viajando pelas galáxias da mente dele, detalhando o desnecessário, abrindo sem fechar parêntesis e mais parêntesis. Alternava minha atenção às estórias com o deleite da paisagem ao redor naquele início de tarde quente e ensolarada.
Pouco notei da véspera de São João. Raras e esparsas fogueiras queimavam em frente das casas. Discreta quadrilha à noite, ao lado do posto de combustíveis do trevo, na verdade mais como preâmbulo à balada que a sucederia pela noite e madrugada.
E segui em frente na viagem. O ônibus pegou a BR-251, rodovia entupida de caminhões, carretas, veículos em geral, percorrendo paisagem desoladora. Ocorreram dezenas de paradas em cidadezinhas, povoados, beiras de estrada. A repugnante parada na rodoviária de Brasília de Minas revelou banheiro emporcalhado, inundado de bosta e urina. Por pouco não causou vômitos nos passageiros, motorista e cobrador.
O veículo embicou à noite na beira do rio São Francisco. Enquanto aguardava a balsa para a outra margem, pude apreciar, sem qualquer iluminação para atrapalhar, o céu escandalosamente estrelado. Dava a impressão que daria para tocar nas estrelas, tal a nitidez e a sensação de proximidade. Até as poeiras de estrelas, muito delicadas e difíceis de serem vistas por conta da luminosidade excessiva das cidades, me encantou até dizer chega.
Na margem esquerda, já em São Romão, caminhei com a mochila nas costas até o hotel onde o idoso proprietário me levou a um quarto básico. Uma mineira, acompanhada de um inglês, estranhamente me perguntou se eu era brasileiro ou estrangeiro, mesmo depois de eu ter conversado, ali ao lado, com o dono do hotel, negociado preços, tipos de quartos, essas coisas.
Saí pelas ruas no meio da noite à procura de restaurante com cara de restaurante. Caí de cabeça na moqueca de surubim. Enchi a pança e voltei ao hotel para desabar na cama.
Dormi feito pedra. Sonhei horrores uns sonhos recorrentes. De tão recorrentes que, durante um deles, comentei para mim mesmo durante o sonho que aquilo não passava de sonho, ou que pelo menos desconfiava seriamente disso.
Como regra no norte de Minas Gerais, a população migrava para cidades aparentemente mais promissoras, do sul do estado ou de outros estados. E as cidadezinhas se esvaziavam. As administrações públicas não tomavam providências e os moradores que permaneciam desejavam apenas sobreviver. A população de São Romão dava as costas ao rio que banha e alimenta todos na cidade. Nada de importante da cidade se localizava perto das águas do São Francisco. Tudo se afastou em direção a ruas feias, sem personalidade, empoeiradas, sujas, largadas.
Menos de meia dúzia de construções antigas, ainda de pé, lembravam os tempos idos da cidade. Mas somente enquanto não ruíam de vez. Os moradores, também pacatos e discretos, garantiam o bom acolhimento e a simpatia necessária.
Bons restaurantes, bares e padarias, impediriam de se morrer de fome ou de tédio. A inauguração de um bar e restaurante se transformou no acontecimento da cidade durante o dia e à noite. Mesas se espalhavam pelo canteiro central da avenida ornada de palmeiras, concorrendo à altura com as barracas das festas juninas, vários quarteirões acima.
Rica em caju, a região reservava milhares de frutos maduros no auge da estação. Mas se perdiam nos terrenos, sítios e chácaras, pela falta de quem os colhessem e os consumissem. Outras frutas apetitosas também abundavam nas imediações. Enquanto isso, o monopólio asfixiante dos refrigerantes de transnacional estadunidense imperava no comércio, entupindo e envenenando a maioria do povo. E no café da manhã do hotel foi servido suco de laranja industrializado, insípido e cheio de conservantes.
Elogiado entusiasticamente por nove entre dez moradores de São Romão, a localidade de Riacho, a cerca de quatro quilômetros da cidade, restou como única opção naquele domingo ensolarado e sonolento. Fui a pé até lá por estrada arenosa, larga, movimentada, sem nada de interessante na paisagem, debaixo de sol, pisando em areia fofa.
Riacho talvez tenha sido atraente décadas antes. Mas tornou-se a meca de recreação da cidade, com quiosques dotados de mesas e churrasqueiras, bares, restaurantes, campo de futebol, barraquinhas de comes e bebes. Tudo ao lado de curso d’água estreito e de águas lentas, formando alagadiços pelo vale alargado. Muito lixo nas águas e em terra, jogados pelos frequentadores e não recolhido por ninguém. Embora fosse área de preservação ambiental, como alardeava a placa na entrada, nada se preservava, social ou ambientalmente. Fora do trecho mais urbanizado, porém, despontavam alagados e veredas com buritizais, repletos de pássaros de tamanhos e cores diversas. Em cidade que nada oferecia de lazer à população, nem o usufruto da convidativa ilha com praias no meio do São Francisco, bem em frente ao centro da cidade, Riacho, por bem ou por mal, transformou-se em paraíso para muitos.
E não é que o bar e restaurante inaugurado no fim de semana, sem ter comidas soberbas como a moqueca do primeiro restaurante que experimentei, agitou atraindo os moradores, sobretudo nos finais de tarde e à noite, tocando pagode ao vivo, de qualidade e repertório razoáveis? Comi e bebi bem em mesa improvisada sob as palmeiras do canteiro central da avenida.
Antes do amanhecer, em jejum, caí nas ruas frias e escuras da cidade. Peguei a balsa do São Francisco, lotada de veículos, caminhões, passageiros para os únicos dois ônibus diários saindo da cidade para destinos diferentes. Ambos lotaram e esmagaram pessoas de pé durante o trajeto.
Colocar mais ônibus em horários variados, a empresa monopolista nem pensava em fazer. O cobrador, no entanto, utilizava o supérfluo aparelho eletrônico de registros e emissões de passagens. Para um a um dos passageiros, ele marcava o destino, estipulava o preço, emitia o bilhete em duas vias, guardava a primeira no bolso da camisa, entregava a outra ao passageiro. Mas o processo não terminava aí. Como a empresa inexplicavelmente emitia duas passagens para aquele trajeto, o coitado do cobrador teve que repetir toda a operação acima a partir de Ubaí, para todos os passageiros, driblando as pessoas em pé pelo corredor apertado do ônibus. Modernidade inteiramente dispensável ao lado de desserviço ao povo sofrido que embarcava e desembarcava nas cidadezinhas ou na beira da estrada.
Saindo do asfalto, o ônibus entrou nas minúsculas vilas de Morrinhos e Bentópolis para arrebanhar mais passageiros. Nesta última teve que cruzar, na entrada e na saída, ponte estreitíssima de metal, praticamente da largura do ônibus, obrigando o motorista a mirar bem, usar e abusar dos espelhos laterais, reduzir a velocidade, quase parando, para atravessá-la. O riacho que serpenteava abaixo e corria perto da cidadezinha reservava águas cristalinas, esverdeadas pela vegetação do leito, num convite para mergulhos, a despeito do frio do amanhecer.
Novamente o ônibus parou na imunda rodoviária de Brasília de Minas. Novamente o imundo banheiro atolava na bosta e urina, sem qualquer tipo de limpeza ou manutenção. Só que desta vez, a administração do terminal ousou cobrar os passageiros em trânsito pelo uso daquele horror. A maioria se recusou a tal disparate, eu entre eles, fazendo as necessidades fisiológicas no banheiro do ônibus ou em algum beco por ali.
O ônibus cruzou todo o centro nervoso de Montes Claros, a fim de pescar mais passageiros. Depois, ambos os lados das rodovias se infestaram de imensas monoculturas de eucalipto, o famigerado deserto verde. Pouco antes da chegada, a paisagem se acidentou intensamente. Cristas rochosas surgiram. Riachos em vales profundos cortavam o relevo.
Desembarquei na instigante Grão Mogol entre ruas e construções antigas de pedra.
Me instalei, lavei as roupas empoeiradas, tomei banho caprichado e saí para jantar no miolo da cidade. Abri o apetite, já escancaradamente aberto, com duas doses da saborosa curraleira, termo usado para designar as cachaças artesanais na região.
continua...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Norte de Minas Gerais-5 (parte 3/5)

                              
...continuação
Andei pelo centro de Mato Verde, por entre ruas em traçado quadriculado, exibindo raras casas antigas. A cidade começava na parte mais baixa, na margem do rio Viamão, abandonado e sujo, completamente ignorado pela cidade, e subia na direção da rodovia federal. Na outra margem do rio, a zona rural avançava em terreno aplainado e coberto por vegetação ressecada do agreste. No meio da tarde, em pleno horário da sesta, Mato Verde adormecia e quase não apresentava movimento.
Exceto eu, todos os hóspedes do hotel vinham a trabalho, atuando em diversas áreas. Quase todos portavam notebooks, celulares, I ”isso”, I ”aquilo”. Igualzinho ao restante do país. Um vendedor sentou-se na sala de entrada do hotel, abriu o notebook, acionou dois telefones ou dois daqueles “I” qualquer coisa. Conversava nos dois aparelhinhos, manuseava o notebook, passava dados disso e daquilo, digitava outros, perguntava, respondia. Tudo sob um clima de tensão e pressão. E contrastando com essa tecnologia de ponta, havia a miséria e abandono pelos campos e cidades.
Esfriou ao anoitecer, acompanhado de ventos fortes, uivando e açoitando de tudo quanto era lado. Mas a lua cheia ainda brilhava no céu.
O ônibus partiu à tarde e, depois de subir a serra, dobrou para legítima estrada de chão. A luz da tarde embelezava o relevo acidentado em meio ao cerrado do norte mineiro. Poucas casas ou sinais de plantações e criações de animais. Cerca de dez quilômetros antes de Rio Pardo de Minas, a paisagem natural deu lugar à desolação venenosa das monoculturas de eucalipto, sugando o lençol freático, secando cursos d’água, espantando a flora e fauna nativas. O deserto verde se perdia de vista, a leste e a oeste da estrada de terra. Ao chegar a Rio Pardo de Minas, dava a impressão de a cidade estar cercada, sufocada, asfixiada por aquela praga da monocultura, que nenhum benefício social traz ao povo local.
O ônibus partiu novamente, lotado de moradores da zona rural abastecidos das compras realizadas na cidade.
Daí em diante o veículo fez jus à expressão pinga-pinga durante o trajeto em estrada de chão rodeada de paisagem rural, casinhas isoladas, plantações variadas em pequenas propriedades, criando visual reconfortante após a imagem catastrófica dos eucaliptos. A maioria dos passageiros se conhecia. Eles se cumprimentavam, comentavam da vida, da terra, das colheitas, do tempo, de como estava esse ou aquele. E nas despedidas, muitas recomendações a essa ou aquela, prometendo uma visitinha para breve.
O asfalto ressurgiu pouco antes da chegada a Montezuma, exatamente no momento em que a estrada engatava acentuada subida. O ônibus estacionou e desligou o motor na pracinha do centro de Montezuma.
Embora houvesse estrada recentemente asfaltada entre Mato Verde e Montezuma, o ônibus rodou entre as duas cidades mais que o dobro da distância, a maior parte em estradas de chão, em quase quatro horas de deslocamento. Para mim, porém, em viagem de passeio, fã ardoroso de estradas de terra, da proximidade das moradias e lavouras, do baixo impacto socioambiental dos traçados rodoviários, foi um maravilhoso mergulho nos sertões do norte mineiro.
Caminhei até o hotel amplo, com área de lazer, piscina, sauna, bar, restaurante, entre outras comodidades estranhas aos tipos de hotéis em que costumo ficar.
Comi comida caseira em restaurante simples tocado por familiares no centro da cidade, na base de carne de porco com arroz, feijão, salada crua e legumes refogados, precedida obviamente de generosa dose de cachaça artesanal, local, purinha, branquinha.
Dei leve giro pelas ruas sob o frio cortante da cidadezinha situada a apenas vinte quilômetros da divisa da Bahia. Com pouco mais de sete mil habitantes, Montezuma revelava tendência à verticalização das novas construções, oferecendo prédios de três a quatro andares. Raridade bizarra, inexplicável e nada bem-vinda. Praticamente ninguém nas ruas naquela noite gelada de quinta-feira de junho.
O hotel ficava em frente ao balneário municipal de Montezuma, mantido pela prefeitura, oferecendo piscinas com águas naturalmente termais e correntes, bar, restaurante. Era comum eu avistar cabeças, somente as cabeças, acima da linha da água das piscinas públicas durante do dia, noite ou madrugada. Todas as dependências do balneário funcionavam 24 horas por dia, sete dias por semana. Visitantes acampavam nos trechos arborizados do balneário, nem precisando sair do local sempre provido de água, comida, bebida, banheiros. E na cidade, principalmente ao entardecer e à noite, as pessoas circulavam pelas ruas, de toalha ou roupão enrolado no corpo, de cabelos molhados, bem à vontade, aproveitando aquela dádiva da natureza bem administrada pelo poder público.
Circulei horas pelas estradinhas e trilhas nas colinas acima do balneário, região que já abrigou mineração e garimpo de pedras preciosas. Perambulei solitariamente em meio ao cerrado mineiro, aves, lagartos, vegetação retorcida, pedaços de quartzo e minerais ferruginosos pelo chão. Bem lá do alto, visão panorâmica da cidadezinha, das estradas de acesso e da Serra Geral. Adiante do topo da colina, a trilha bateu de frente à estrada com marcas de veículos pesados e com o desastre ambiental da monocultura do eucalipto. Toda a empolgação por caminhar no meio da vegetação nativa se esvaiu de uma pancada só. Será que era aquilo que a prefeitura de Montezuma escrevia na página oficial da administração municipal como sendo áreas de reflorestamento? Aquele horror era a destruição da flora e fauna nativas, jamais qualquer tipo de reflorestamento. Só existe um tipo de reflorestamento, isto é, aquele efetuado com espécies nativas da floresta original, no caso, do cerrado do norte de Minas Gerais.
Dei meia volta, dando as costas àquela praga do agronegócio.
À tarde usei e abusei da piscina naturalmente térmica do hotel, sem ninguém a maior parte do tempo. A temperatura da água era ideal para permanecer imerso por um tempão. Nem vi as horas passarem. Mergulhei, encostei à borda da piscina, somente com a cabeça fora da água. Lagarteei. Não fiz absolutamente mais nada. Relaxante. O sol se foi, o frio veio com tudo, e resolvi dar o fora.
Acertei com um funcionário da pousada a ida de carro ao ponto onde havia pinturas rupestres, nas tocas da serra das Macaúbas.
No caminho pelas estradinhas de chão conversamos sobre os cortadores de cana que partem do norte de Minas e do nordeste do Brasil rumo às safras de cana de açúcar nos interiores de São Paulo. O funcionário garantiu que, nas quatro safras das quais ele e os colegas da região participaram, todos foram de carteira assinada, todos receberam os direitos trabalhistas, alugaram casas confortáveis, tiraram quatro salários mínimos por mês. Ele particularmente cortou treze toneladas de cana por dia, média alta e característica dos provenientes das imediações de Montezuma, os cortadores mais produtivos do Brasil, segundo o mesmo. Ainda de acordo com ele, os cortadores sertanejos vindos das caatingas nordestinas, baianos, alagoanos, pernambucanos, cearenses, ao contrário, originários da miséria absoluta, se sujeitavam a menos de vinte reais por dia, se matavam de trabalhar sem os direitos trabalhistas previstos em lei, se amontoavam em alojamentos fétidos, sofriam estafas crônicas e constantes acidentes de trabalho. Ele acreditava que, por virem do fundo do poço, se contentavam com os poucos ganhos e as três refeições diárias, então artigos raros dos confins de onde migravam. Declarou que durante a safra paulista da cana, somente de Montezuma, partiam mais de mil cortadores para fazer um pé-de-meia. Ele mesmo, depois de quatro safras, juntou dinheiro suficiente para comprar uma casa em Montezuma. Talvez eles e os colegas fossem exceção em meio ao inferno daquele trabalho quase escravo. Ou aquelas descrições não passassem mesmo de exageros de contador de estórias.
Depois de encostar o carro na beira de estradinha estreita de areia, começamos a caminhar no meio do cerrado, sem trilha, sem nada. Abríamos caminho com o próprio corpo. Enfrentávamos o mato seco, repleto de espinhos, rochas soltas, rampas em lajedos, enormes blocos de pedra, avançando e desviando do jeito que dava. Subimos parte da serra, nos pendurando nas encostas e bicos rochosos. Voltamos a descer, andamos muito, para cá e para lá, sempre rompendo o mato sem trilha, picada ou coisa parecida. E nada de encontrar as tais pinturas rupestres.
Desbrava daqui, se arranha dali e, finalmente, horas depois, ele as achou, acidentalmente. Sob as tocas protegidas das intempéries, as pinturas apresentavam razoável estado de conservação e, num primeiro momento, sem maiores significados. O tipo do local, a inclinação da parede superior da toca, a coloração das pinturas, predominando o ocre, se assemelhavam às demais exemplares do gênero pelo Brasil afora. Identifiquei certas formas humanas e animais de um lado, geométricas e abstratas de outro.
Na volta paramos para visitar alambique totalmente artesanal, sem atividades naquela tarde de sábado. A moenda de cana era movida à tração animal, os recipientes de fermentação e destilação revelavam a precariedade dos equipamentos parados no tempo. Além da cachaça, o minúsculo engenho produzia rapadura. Abelhas zuniam ao redor do espaço que exalava forte perfume de melado.
Paramos em boteco rural. Nem me lembrei da sede provocada pelas caminhadas a esmo pelo cerrado e entornei duas doses caprichadas de cachaça branca artesanal. Enquanto molhávamos o bico, nós e mais a vendedora conversamos sobre um pouco de tudo. Já que ele nascera e se criara nas imediações, passaram a lista, um por um dos conhecidos. Quem casou, quem separou, quem se comportou, quem aprontou. A bebida e o ambiente simples ajudaram passar o tempo de maneira descontraída.
Embora o alcoolizado colega não estivesse em perfeitas condições de manejar o volante, considerando a maneira como arrancou e conduziu o carro, dali partimos para a casa dos pais dele. O casal residia em moradia tipicamente rural. Fomos recebidos tímida e calorosamente. O pai me mostrou moenda de cana do tempo do onça, toda em madeira e também movida à tração animal. O estômago vazio desde o café da manhã recebeu maravilhosamente os pães de queijo, biscoitos de polvilho e café adoçado com rapadura, tudo quentinho, fresquinho, recém-preparado pela mãe. E haja prosa sobre a vida rural, tarefas, sonhos, ideias. Impossível não se sensibilizar e mergulhar naquela atmosfera sincera, generosa, acolhedora, solidária. Bom demais da conta! E na saída, durante as despedidas, o casal ainda se lamentou que tivéssemos aparecido de repente, não dando tempo de eles matarem um porco ou uma galinha.
Somente quando cheguei ao hotel soube que eu teria direito ao almoço do final de semana. Já não estava com tanta fome. Mesmo assim, me sentei na cozinha e matei um prato de feijoada bem temperada no momento em que as cozinheiras se preparavam para sair.
À tarde entrei novamente na piscina termal. Relaxei imerso naquela água quentinha. Mais nada. E precisaria de mais alguma coisa?
As quadrilhas juninas ocuparam um quarteirão da rua central durante toda a noite de sábado, oferecendo música ao vivo, orador ao microfone, animado e animando os integrantes caracterizados a rigor, casamento caipira, duplas, voltinhas, coreografias típicas e variadas. Os moradores assistiam, balançavam o esqueleto, entravam e dançavam dentro da quadrilha.
Caminhei de manhã novamente na direção das colinas ao norte da cidade, optando por estradinhas e trilhas diferentes. Mais próximos do topo do morro me deparei com riachos e córregos completamente secos, sem uma gota d’água sequer. Efeitos da antiga mineração ou das ações insustentáveis das monoculturas de eucalipto que infestavam o tabuleiro das serras?
Reservei a tarde para merecidas preguiças, intercaladas de leituras e imersões nas águas termais. Não fiz e não quis fazer absolutamente mais nada até o anoitecer.
Saí do hotel antes do amanhecer. Embarquei ainda no escuro no único ônibus que partia de Montezuma. Fazia frio. E estava em jejum.
Já na agência de passagens em Rio Pardo de Minas tive a grata surpresa que a única empresa a monopolizar a região cancelara a linha para Salinas ou mesmo até Taiobeiras. Nenhum transporte coletivo oficial levava passageiros para essas cidades. O funcionário da bilheteria me sugeriu caminhar alguns quarteirões e esperar táxi lotação. Clandestino, é claro.
Lá apareceu um carro particular, com chapa cinza, não um táxi, oferecendo transporte para Taiobeiras. Em seguida entrou uma senhora com as três filhas, mais um rapaz na saída da cidade. E lá fomos nós pela estrada asfaltada em transporte ilegal e sem segurança. A senhora rogava para o motorista dirigir devagar. Ele, por outro lado, se preocupava com possíveis fiscalizações que certamente reteriam o carro e a carteira dele. E, detalhe, nos deixaria na beira da estrada.
Desci na rodoviária de Taiobeiras, onde, finalmente, comprei passagem para Salinas em ônibus regular. E da mesma empresa que cria e altera os itinerários, cancela linhas, ao bel prazer, de olho somente nos lucros, jamais na prestação de serviços aos passageiros. Aproveitei para enganar o estômago, engolindo dois pães de queijo e café com leite na lanchonete do terminal.
Já na rodoviária de Salinas, providenciei outra passagem pela mesma empresa de sempre. Esperei horas a partida do quarto e último transporte do dia.
O ônibus desceu mais o relevo, agora rumo ao vale do rio Jequitinhonha. Parada rápida na inclinada Rubelita, cidadezinha com uma só entrada e saída, toda construída em nível abaixo da rodovia.
O ônibus oscilava através de relevo acidentado, asfalto estreito e sinuoso, cruzando córregos e riachos secos. Passamos ao lado de mineração de feldspato, em condições precárias e sem segurança, emitindo poeira em grande quantidade.
Desembarquei oco, cansado, sonolento, em Coronel Murta no meio da tarde, depois de doze horas através de quatro transportes a partir da não tão distante cidade de Montezuma.
Arrisquei hotel cujo quarto, no andar de cima, empoeirado, repleto de pernilongos, com duas janelas de alumínio, outras inteiramente vazadas, banheiro precário, oferecia espaço suficiente e diária barata. Tomei banho caprichado no chuveiro de frente à janela sem vidro, exposto aos passantes da rua lá embaixo.
Jantei comida saborosa e bem temperada no bar e restaurante por quilo na parte de baixo do próprio hotel. Andei pelas ruas próximas. O sono, no entanto, me fez retornar ao quarto e desabar na cama bem cedo. A temperatura caía à noite e a maioria dos pernilongos desapareceu. Bastou abrir as janelas do quarto, ventilar, resfriar o ambiente interno.
continua...

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Norte de Minas Gerais-5 (parte 2/5)

                                      
...continuação
            Pela manhã troquei para o quarto mais espaçoso do andar superior. A má conservação, com tudo caindo, se desintegrando, se soltando, no entanto, continuava a mesma.
A cidade aplainada e com traçado quadriculado de Manga nada oferecia de atrativos arquitetônicos ou urbanísticos. A meia dúzia de casas do início do século XX, espalhadas e esmagadas entre construções sem personalidade, mal apareciam e nada representavam historicamente. As poucas praças cultivavam o péssimo costume dos interiores brasileiros de mutilar geometricamente as raras árvores, comprometendo a já reduzida área de sombra em cidade quente e ensolarada. O caudaloso rio São Francisco atraía pela imponência. E abundavam farmácias e drogarias em Manga. Nunca tinha visto tantas delas concentradas em tão pouco espaço. Permaneciam sempre às moscas com os balconistas olhando para o nada.
E verifiquei mais preciosidades no hotel “cinco estrelas” onde me hospedei. Eles cobrem as camas, todas elas, em todos os quartos, apenas com o lençol de baixo. Mais nada. Pedi o lençol de cima. A recepção estranhou. Os funcionários procuraram, mas não havia nenhum disponível além dos quatro de casal existentes em todo o estabelecimento e já usados como lençol de baixo em outros quartos. Ofereceram um de solteiro, retirado da cama de um quarto vago, o qual ficou só com o colchão exposto. Todos os lençóis e fronhas apresentavam manchas de diversas cores, tamanhos e tipos, algo parecido com intervenções artísticas decorrente do uso e da idade dos mesmos. O registro da torneira da pia às vezes liberava água com pressão, às vezes apenas um fio fino. A própria pia estava solta, podendo despencar no meu pé a qualquer momento, e vazava por cima da cuba. Havia somente pedaços ou simples sinais do que foram os cabides do banheiro, suporte para sabonete, toalhas, papel higiênico. As tomadas e fiação exposta do quarto instigavam a choques, curtos circuitos e incêndios. Mas nada como um dia após o outro para a gente se acostumar com tudo.
Uma saborosa peixada de surubim com arroz e pirão encerrou a noite em restaurante da praça principal da vida noturna.
Atravessei o São Francisco de balsa e subi em moto-táxi na outra margem que me levou a Matias Cardoso, doze quilômetros rio acima. A atração principal ficou por conta da pesada igreja em frente à praça ampla e sem sombra. Construção do século XVII, sem forro, com as madeiras de sustentação do telhado à vista, solidez de fortaleza, a igreja impressionava pelas dimensões e suntuosidade em cidade tão pequena. O altar e a sacristia, apesar de desprovida de cores e brilhos chamativos, impunha respeito pela idade e arcos retorcidos.
Em frente a uma casa, um senhor expunha aparelhos eletrônicos velhos, usados, esparramados pela calçada, sob o sol quente, para exibição, venda ou sei lá o quê. Mas para quem, numa cidadezinha pacata e sem movimento? Ele me pareceu com problemas de raciocínio e encadeamento de ideias. Receoso de não conseguir sair dali, evitei puxar assunto ou fazer perguntas.
Dividi táxi lotação e retornei à margem do rio em frente à Manga para pegar a balsa.
No restaurante, onde repeti a deliciosa peixada de surubim, precedida de duas doses de boa cachaça, havia despedida de uma moradora da cidade junto a colegas, amigos, familiares. Contrataram músico local, que interpretou, além dos sucessos previsíveis de outros, composições próprias, em estilo de cantador sertanejo, bastante interessantes. Enquanto isso, na longa mesa de convidados, poucos assuntos, muitos olhares de inveja e intrigas, revelando clima nada amistoso entre a maioria dos presentes. Abundavam as olhadas compulsivas aos relógios e telefones celulares.
A arrumadinha e limpa Manga, era silenciosa à noite, mas barulhenta durante o dia, como de praxe nos interiores. As lojas instalavam caixas de som nas calçadas e dá-lhe música alta e chamadas comerciais. Propaganda ambulante sobre reboques puxados por motos, carros ou bicicletas, bombardeavam mais publicidade e música, bem alto obviamente. E, vez ou outra, um veículo particular passava com o som no último volume.
Presenteei o recepcionista do hotel com um livro lido. Talvez por isso tenha ganhado mais desconto no valor das diárias. De tanto abaixarem a tarifa, fiquei na dúvida do preço real do quarto.
O ônibus provisório partiu à tarde do terminal rodoviário de Manga. Embarcou na balsa, cruzou o São Francisco, estacionou na margem oposta, onde já se encontrava o ônibus definitivo, para o qual foram transferidos os passageiros e as bagagens. E partiu rumo à rodovia aplainada, ladeada por plantações de frutas, cerrado, caatinga, campos.
O veículo cruzou a horrorosa cidade de Jaíba, esparramada ao longo da rodovia, sem centro, sem cara de cidade, sem cara de nada.
Desembarquei na rodoviária de Janaúba ao anoitecer, em meio à festa no parque de exposições bem ao lado do terminal. O evento ocupou todas as vagas dos hotéis das imediações, os bons e os ruins, caros ou baratos. Caminhei quarteirões com a mochila nas costas até um hotel com apenas um quarto vago. O vento encanado no poço central da construção de cinco andares uivava pelas janelas do quarto e do banheiro, garantindo a bem-vinda ventilação.
Saí para jantar e para matar a fome bem matada. Encontrei inúmeros bares e restaurantes. Impressionante a poluição sonora vomitada dos porta-malas dos carros dos tais da cidade, estacionados bem em frente. Mesmo que eu gritasse, seria impraticável qualquer diálogo com os garçons. Os clientes berravam uns com os outros, sentados ou em pé ao redor das mesas. Impossível até ouvir o próprio pensamento. Dei meia volta e fugi daquilo. Entrei em lanchonete de rua, mais tranquila, ou que ainda não fora atacada pelas gangs do som ensurdecedor. Encerrei a noite naquela cidade apenas de conexão.
Baixei na rodoviária bem cedo. Comprei a passagem sem assento marcado em ônibus procedente de Montes Claros. E esperei, esperei muito. Enquanto isso, a tal feira agropecuária corria solta ao lado do terminal. O agronegócio patrocinava mais um daqueles eventos de propaganda, exibições de peças, animais, acessórios. Mas o que atraía mesmo o público eram as apresentações musicais, lotando as dependências internas do parque de exposições a trinta reais por cabeça, em cidade sem quaisquer alternativas culturais. O mesmo acontecia com as cidades vizinhas, cujos moradores afluíam a Janaúba para ver os ídolos de perto.
O ônibus só foi chegar no meio do dia, lotando imediatamente.
A paisagem começou a chamar atenção com a cadeia do Espinhaço, ali denominada de Serra Geral. Pude apreciar os paredões rochosos e esbranquiçados ao longe. As jovens passageiras ao lado, moradoras de Espinosa, não se cansavam de descrever as maravilhas da noite passada durante a apresentação da dupla sertaneja Vítor e Leo. Esgotadíssimas, de ressaca, só pensavam em quando teriam outra oportunidade de assistir exibições assim e paquerarem à vontade rostos desconhecidos.
Desembarquei na rodoviária de Mato Verde. Caminhei até o hotel afastado do centro e da rodoviária, mas oferecendo a vista da linha de montanhas da Serra Geral iluminada pelo entardecer.
Dei volta noturna pelo centro da cidade, pela praça dos lanches, pela praça da matriz moderna, onde havia festa em homenagem a Santo Antônio. Comes e bebes, mesas e cadeiras lotadas ao redor da quadra vazia, muita gente circulando, um palco onde se revezavam bandas tocando o padrão comercial.
Pela manhã, o vento incansável uivava e batia nas janelas do salão vazio do café. Dali eu via os campos e sítios e, mais distante, as montanhas da Serra Geral.
Atravessei a rodovia. Logo no começo da estrada de chão consegui carona na carroceria de caminhão. Desci no povoado de Melancias e iniciei a caminhada na estrada encascalhada.
O céu nublado ofuscava a paisagem agreste e ressecada. As montanhas de Serra Geral, ainda distantes, se cobriam de nuvens cinzentas até a metade. Mais adiante avistei paredão rochoso do topo do qual vertiam quedas d’água separadas, formando conjunto impressionante. A estradinha, agora mais estreita, descia o relevo. Margeei casas isoladas, pequenas plantações, criações de animais. No fundo do vale, o riacho que vinha da cachoeira e a imagem do paredão com as quedas d’água apareciam mais nítidos.
O tempo nublava mais e mais, começando a garoar. As pernas davam sinais de cansaço e eu ainda nem completara a metade da distância.
Retornei sob a garoa intermitente e refrescante. Proseei com morador em Melancias antes de respirar fundo e botar o pé com firmeza na estradinha de volta a Mato Verde, justamente pelo trecho que percorrera na carroceria do caminhão. O tempo e o visual melhoraram nas proximidades da cidade, com trechos fascinantes da Serra Geral, entre paredões rochosos quase verticais.
No meio da tarde as nuvens engrossaram, escureceram, baixaram, encobrindo o horizonte das montanhas. A garoa acentuou, despencou a temperatura, tudo ficou cinzento e frio. Mais à noite, nublado e com pequenas aberturas, frio suave e sem vento intenso, pude sair sem sustos.
Perto do hotel um bar abriu com cardápio reduzido a espetinhos variados acompanhados de farinha e vinagrete picante. Detonei seis espetos. E ainda saboreei duas doses generosas de cachaça branca, artesanal, sem rótulo. O som precário da casa vinha de dvd´s transmitidos em televisão pequena, a maioria deles com defeito, pulando ou travando nas faixas. Melhor assim. Os ouvidos agradeciam. Comi bem, bebi bem, na beira da BR-122, extremo norte de Minas Gerais. Dei volta rápida pelo centro da cidade para ajudar na digestão. Observei as casas com platibandas ornamentadas, costume frequente por aquelas paragens, e o silêncio profundo das ruas.
Nas imediações da cidade vizinha de Monte Azul as montanhas altas e instigantes se erguiam do outro lado da rodovia. Caminhei poucos metros e me dei diante de cercas. O lavrador que carpia a roça seca nas proximidades do arame farpado me sugeriu caminhar rente à cerca ou procurar veredas de gado, através das quais, garantiu ele, eu atingiria a colina, do topo da qual eu obteria visão desimpedida das montanhas.
Caminhei horrores, me enchi de espinhos nas botas, meias, bermuda, camiseta. Nada de trilhas ou veredas. E me embrenhei ainda mais no mato baixo e seco. Mais espinhos e arranhões alongados nas pernas. Passei por entre arames farpados, encontrei trilha bombardeada de bostas de vaca, frescas e secas. O dia ensolarado auxiliava na apreciação das montanhas exuberantes. E que serras, que paredões, que montanhas! Eram imagens de cair o queixo. Acabei batendo num curral e estábulo, com ainda mais bosta de vaca. Cruzei as inúmeras divisões cercadas de madeira. Escalei e pulei o alto alambrado. E atravessei novamente o asfalto da BR-122.
Andei pelas ruas de Monte Azul, morro abaixo, atingindo o centro da cidade. Matei a sede e comi comida comível. Aproveitei as dependências vazias da rodoviária para me sentar, tirar botas e meias, remover espinhos, carrapichos, areia, terra, pedras e demais itens dos pés. Ainda bem que nenhuma vítima por perto teve o desprazer de compartilhar o cheiro marcante que emanava daquelas meias suadas.
De volta a Mato Verde, aproveitei para caminhar apreciando as montanhas iluminadas pelas luzes do fim de tarde. Casebres da margem da rodovia e mesmo um pequeno cemitério emolduraram aquela pintura. Nem lembrava mais os arranhões, cortes, carrapichos, espinhos, grudados e enfiados pelo corpo todo.
À noite não titubeei. Repeti o jantar no bar dos espetinhos. Em noite mais quente, mais mesas se ocupavam, mais animação entre os frequentadores. E contemplei a lua cheia brilhando no céu estrelado, entre uma abocanhada e outra no espeto de linguiça caseira, antes ou depois do gole de cachaça artesanal, branquinha, purinha. Veículos leves e pesados, ônibus clandestinos e oficiais, trafegavam de maneira esparsa pela BR-122. Apenas algumas árvores me separavam da rodovia. E eu pedia mais espetinhos de porco, coração, linguiça caseira. E sempre molhando a garganta com doses da pinga alambicada nas redondezas. E lançava mais olhares à lua cheia.
O vento uivava com tudo logo pela manhã. Mas o céu amanheceu azul e sem nuvens. Apenas a névoa e a poeira em suspensão pela ventania persistiam no horizonte.
O único jeito de conhecer sem pressa a estrada de acesso e a própria cidadezinha de Santo Antônio do Retiro era por táxi contratado entre os muitos que se juntavam ao lado do terminal rodoviário de Mato Verde. Não havia linhas de ônibus, lotação ou qualquer forma de transporte coletivo, público ou privado, oficial ou clandestino, naquele trecho, ainda que em asfalto novo e bem conservado.
As paisagens ao longo da subida de serra se compuseram de curvas fechadas, visão da planície desde o alto, algumas formações rochosas da parte alta, casas e povoados isolados. Áreas de recuperação ambiental, cercadas e protegidas, apareciam na subida e alto da serra. Aquelas extensões tinham sido infestadas anteriormente pelo deserto verde das monoculturas de eucalipto. O plantio foi suspenso pelas autoridades ambientais do estado, iniciando então processo de reflorestamento com espécies nativas do cerrado original.
A minúscula cidadezinha de Santo Antônio do Retiro não tinha cara de nada, excetuando uma ou outra casa velha, entre inúmeras novas e sem graça.
Encarei o restaurante por quilo do restaurante do posto de combustíveis de Mato Verde, de comida apenas comível, mas aparentemente a única opção diurna na cidade.
Passageiros de ônibus clandestinos abrilhantaram a companhia durante a refeição, antes de reembarcarem em veículos nada confiáveis que os levavam do interior da Bahia para o interior de São Paulo. Os motoristas utilizavam rotas alternativas, em veículos em péssimo estado de conservação, interna, externa, mecanicamente. Pneus carecas, assentos em número acima do suportável na intenção de enfiar mais gente e aumentar o faturamento, aperto e desconforto geral, riscos de acidentes e bloqueios pela fiscalização rodoviária. Os passageiros pagavam menos da metade do valor cobrado pelas empresas oficiais de ônibus. A placa de um deles, fria ou não, era da cidade paulista de Icem. A maioria seguia para o trabalho de semiescravidão ligado à indústria do corte de cana de açúcar durante as safras nas fazendas do agronegócio, setor muito “moderno” segundo os testas-de-ferro e a mídia burguesa.
E me liberei na parte da tarde. Não queria e nem precisava fazer nada.
continua...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Norte de Minas Gerais-5 (parte 1/5)

                                        
                Como o norte de Minas Gerais me agradara intensamente nas quatro viagens anteriores, decidi explorar partes e cidadezinhas ainda desconhecidas da região.
Embarquei à noite naquele fim de maio. O ônibus confortável até Belo Horizonte não lotou, não gelou. Após Lagoa Santa, em estrada asfaltada e estreita o segundo ônibus entrou de cabeça na Serra do Cipó, passando pelo vilarejo repleto de pousadas, restaurantes, botecos, antes de iniciar a subida sem tréguas do espigão rochoso. O asfalto serpenteava a borda leste da cadeia do Espinhaço, avançando sobre os paredões, escarpas íngremes, vales, deixando a planície esverdeada lá embaixo. O veículo guinava pelas curvas acentuadas, subidas violentas, descortinando paisagem deslumbrante do cerrado mineiro. Era o roteiro pertencente à Estrada Real.
O ônibus alcançou Conceição do Mato Dentro, encravada na encosta oposta da serra. Casario colonial e igrejas antigas despontavam isoladamente na cidadezinha desfigurada, cortada por ruas sinuosas, invariavelmente estreitas. Na minúscula rodoviária, um escritório de transnacional de mineração, estranhamente instalada em local público, dava as boas-vindas e orientações aos recém-chegados.
Em seguida o veículo penetrou na estrada de chão, estreita, empoeirada, situação que se agravou pela circulação de caminhões e máquinas de terraplanagem. Mais placas da mesma transnacional nos limites de imensas áreas cercadas, alertando serem propriedades particulares e de entrada proibida. O cerrado se alternava com extensões da mata atlântica em relevo acidentado. As montanhas, as cidadezinhas, o casario antigo, o povo que embarcava e desembarcava do ônibus velho, contribuíram para a empolgação.
Após uma das paradas, o ônibus partiu sem um dos passageiros, distraído na compra de qualquer coisa, e que não ouviu o aviso de reembarque. O veículo já ia mais de dez quilômetros adiante quando alertaram o motorista. Mas nem precisou refazer todo o caminho de volta. O esbaforido passageiro se dirigia em sentido contrário dentro de um táxi buzinando para que o ônibus parasse.
Em Serro me hospedei em rua tranquila e com vistas para as montanhas. Após matar a fome no começo da noite, o pouco que andei pelas ruas estreitas e calçadas de pedras irregulares do centro antigo, deu para notar que a cidade arrasava na arquitetura barroca. Linda demais!
Comi muito no café da manhã, especialmente o saborosíssimo queijo do Serro, considerado o melhor de Minas Gerais, e, portanto, do Brasil.
E fui circular pelas ruelas, ladeiras, escadarias do belíssimo centro de Serro, dotado de casarões, sobrados, igrejas e capelas de século XVIII. O céu azul e a forte luminosidade valorizavam ainda mais o conjunto arquitetônico. Fui devagar, apreciando e degustando cada esquina, cada detalhe, entre dezenas de preciosidades, a maior parte bem conservada ou em processo de restauração, utilizada por escolas, órgãos da administração municipal e estadual. O calçamento das ruas variava de pedras planas e irregulares ao charmoso pé-de-moleque. De inúmeros pontos se tinha vista privilegiada da cidade e dos morros ao redor, sobretudo após subir os cinquenta degraus da escadaria da igreja de Santa Rita.
O sombreado casarão do Barão do Serro, embora restaurado e de bom aspecto, não contava com mobiliário, nem tampouco uso para visitação ou atividades pela população local. Já o museu dos Otoni, ocupando casarão ao lado de igreja secular, exibia móveis originais, imagens de antiga igreja demolida, objetos históricos, jardim bucólico para uso dos moradores da cidade.
Na estrada para Santo Antônio do Itambé avistei o pico do Itambé e outros da cadeia do Espinhaço bem próximos, formando cenário imponente e promissor para futuras caminhadas. Desci do ônibus na cidadezinha, botei a mochila nas costas e caminhei até um hotel pequeno e limpo.
Durante o jantar, precedido de cachaça branca alambicada nos arredores, obtive informações adicionais sobre acesso a cachoeiras e ao pico do Itambé.
As primeiras impressões de Santo Antônio do Itambé, cidade com menos de quatro mil habitantes, foram mais que animadoras. Ajeitada e aconchegante, ela não contava com o casario secular, mas as ruas, moradias, pontes sobre córregos e margens arborizadas com áreas de lazer e descanso, revelavam carinho dos moradores e da administração pública. E que silêncio noturno bem-vindo das ruas!
Cedinho, parti morro acima, rumo à rota das cachoeiras e do pico do Itambé.
Em estrada estreita de chão, cruzei a Ponte de Pedra, formada naturalmente da própria rocha sobre riacho encachoeirado. As águas corriam por baixo da placa rochosa, se represando em poços convidativos, não fossem as temperaturas baixas de fim de outono. Mais adiante, já em áreas do parque estadual do Itambé, a estradinha subiu sem dó, fornecendo vistas parciais da serra do Espinhaço e do próprio pico. Desci a trilha para as duas quedas da cachoeira da Água Santa. Nenhuma alma viva por ali, somente eu e a natureza. Pulei de rocha em rocha, subi à segunda queda, apreciei as águas das cachoeiras de vários ângulos, límpidas, transparentes. Deitei sobre os lajedos, olhei o céu, ao som relaxante e evolvente das águas.
Retomei o caminho morro acima. As montanhas davam sinal de vida vez ou outra à esquerda. Cruzei e proseei com casal de idosos negros a caminho da cidade para vender a pouca banana colhida. Passei sobre ponte de madeira muito velha, sobre a qual o córrego repleto de corredeiras e caldeirões para banhos corria apressado. Entrei no caminho vicinal à cachoeira do Nenen. A queda d’água impressionava em meio a bicos de pedra até o poço bem desenhado. Contemplei aquele cenário de tirar o fôlego, enchi os pulmões e peguei o caminho de volta para a cidade.
Desci mais rápido que na ida. Descansei e conversei com o fiscal na entrada oficial do parque estadual. Aproveitei para dar trégua às pernas e obter mais informações sobre a região.
Enchi o bucho com a comida comível do restaurante da pousada. Tentei descansar à tarde. Os sons dos alto-falantes do campo de futebol próximo, junto a batucadas e músicas altas dos preparativos para partida de futebol intermunicipal, invadiam em cheio o quarto. E o primeiro jogo emendou com outro, com direito a narração e comentários, tudo bem alto.
Após 21h voltou a reinar a paz tão almejada em cidadezinhas aconchegantes como Santo Antônio do Itambé. O pequeno leilão de frangos, galos, outros animais, prendas em geral, prosseguiu em frente à igreja, com muita animação do público e do espirituoso leiloeiro.
Acordei com os galos, um deles de canto rouco e estridente. Desci para o café da manhã ainda em preparação. Saí com a mochila nas costas, um pão de queijo na boca e outro na mão. O ônibus logo apareceu e pouco depois desembarquei de volta a Serro. Peguei quarto mais alto, mais claro, com vista mais desimpedida da cidade e dos morros ao redor.
À tarde perambulei pelas ruelas, ladeiras do centro. Livre, leve, solto, contemplando, apreciando, despreocupadamente, sem pressa. Permaneci um tempão nos altos do adro da igreja de Santa Rita, observando o domingo preguiçoso de Serro. Para que mais?
Peguei o ônibus para Diamantina. Antes de Pedro Lessa, a estrada cruzou o curso d’água estreito e escuro do rio Jequitinhonha. Muito, mais muito mesmo, perto da nascente. Ele corria entre lajedos oblíquos e fundo arenoso.
Em Diamantina me hospedei em pousada afastada do burburinho do centro histórico, cujo dono me recebeu cheio de sorrisos comerciais.
Dei grande volta de reconhecimento pelos becos, ruelas, ladeiras, entre o casario barroco e igrejas bem conservadas. Fascinante, a despeito da atmosfera menos interiorana, com pesado movimento de veículos e pedestres, figuras de olhares menos naturais, ambiente menos aconchegante. Afinal eu estava em cidade turística do dobro do tamanho de Serro.
A impressão da cidade melhorou à noite, com menos carros e motos em circulação, trechos de ruas e becos bloqueados ao trânsito, poucas pessoas circulando, iluminação noturna realçando o casario. Os restaurantes de comida mineira cobravam caro por pratos individuais e, não por acaso, estavam às moscas. Na praça do Mercado Velho ocorria evento ecumênico celebrando a semana de meio ambiente, cercado por barracas de comes e bebes juninos. Alternando com apresentações musicais variadas, cada facção religiosa teve tempo e espaço para se manifestar dentro do tema proposto.
Amanheceu com baita cerração e frio terrível, justificando os quase mil e duzentos metros de altitude de Diamantina, ainda mais em junho. Mesmo com cerração e gotículas de água no ar, fui dar uma volta na cidade. A sensação térmica se acentuava pelo vento. Circulei sob o céu esbranquiçado, encobrindo parcialmente as construções mais altas e as montanhas.
Tentei atingir o início da trilha do Caminho dos Escravos que seguia serra acima. Desisti antes das últimas casas da periferia. Iria pegar vento gelado lá em cima. E boatos de roubos e assaltos pelo caminho me desestimularam a prosseguir. A funcionária da pousada confirmou casos afins naquela e demais trilhas dos arredores, inclusive na região das cachoeiras, para onde eram designados policiais escoltando os visitantes.
Perambulei mais e mais pelo centro histórico. De tantos locais atraentes, me encantei com a paz, o silêncio e a beleza bucólica dos arredores da igreja do Rosário, permanecendo ali por bom tempo, absorvendo a atmosfera local.
O sol deu as caras somente após o meio-dia e chegou a esquentar. A cidade se iluminou e tudo brilhou. As cores realçaram a magia do conjunto arquitetônico. Não resisti e repeti as idas e vindas pelas ruas, becos e ladeiras já percorridas.
Evitei Diamantina durante os dias em que ocorriam as Vesperatas, quando os hotéis, restaurantes, bares, comércio em geral, aumentavam absurdamente os preços. Porém, mesmo fora desses períodos, o descontrole do turismo se fazia sentir nos preços exagerados. Jantei em restaurante caro, com comida cara, cachaça cara, atendimento demasiadamente formal.
E me dei por satisfeito nessa minha terceira visita a Diamantina. Acordei ainda no escuro e saí de fininho para não acordar ninguém. Encarei a ladeira íngreme até a rodoviária e embarquei em ônibus quase vazio.
Peguei o nascer do sol em paisagem de tirar o fôlego. A rodovia desceu a encosta oeste do Espinhaço por traçado sinuoso, repleto de ziguezagues, entre escarpas rochosas, vales profundos, planaltos pedregosos, vegetação oscilando entre cerrado e mata tropical. As luzes da alvorada pintaram o cenário de tons avermelhados, amarelados, dourados, azulados. Nas depressões mais acentuadas, a cerração cobria os vales de espuma branca. E, para brindar todo o conjunto, a rodovia cruzou novamente o rio Jequitinhonha, com menos de dez metros de largura, águas escuras, praias em curvas de areias claras.
Após a primeira hora do trajeto fazendo bem aos olhos, a rodovia atingiu relevos altos e chapados, envenenados pelas monoculturas do eucalipto. Sugando e secando os cursos d’água e o lençol freático, aquele deserto verde se estendia a perder de vista, em ambos os lados da estrada. Como de praxe nessa desolação da paisagem envenenada, nada da fauna ou da flora original e diversificada, expulsas pela árvore exótica que somente gera lenha para as siderúrgicas e lucros para meia dúzia de coronéis do agronegócio. As vilas e cidadezinhas próximas afundavam na miséria e abandono, típicos efeitos das monoculturas extensivas.
Após subidas e descidas de serras, estradas de chão, dezenas de embarques e desembarques pelo caminho, de tal maneira que me tornei o único passageiro do início ao fim do trajeto, desci à noite em Manga, a última cidade mineira na margem do São Francisco.
Fui averiguar o primeiro hotel na beira do rio, em sobrado velho, decadente, mal cuidado, sujo. E a segunda opção não era muito melhor. O adiantado da noite, porém, me fez aceitar, após conseguir abaixar o preço da diária, e a promessa de trocar no dia seguinte para o primeiro andar. O quarto tinha teias de aranha e as próprias aranhas perambulando pelo teto. Pernilongos voavam para lá e para cá. O repelente de tomada e o ar condicionado precário não fizeram efeito. Os lençóis e fronha da cama de solteiro instalada sobre o concreto exibiam manchas suspeitas de cores indefinidas.
Jantei qualquer coisa na praça e voltei para dormir cedo.
continua...