quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Norte de Minas-6 (parte 5/5)

...continuação
Descobri restaurante distante para o jantar, animado, servindo churrasco honesto em ambiente composto de grupos de amigos, casais, famílias. Embora bem mais feio e desordenado que o centro, aquele pedaço urbano aparentava mais vida.
Mas depois do jantar bem jantado no outro extremo da cidade, foi bom voltar ao sossego da beira do rio Jequitinhonha. Ideal para ficar, dormir, relaxar, contemplar a vista, diurna e noturna, liberando a mente para viagens pela imaginação.
Na entrada da cidade, a placa abusiva: “Jequitinhonha pertence ao senhor Jesus”. Armação da prefeitura, do cartel das empresas evangélicas, lei estapafúrdia que passou pela câmara de vereadores, ou o quê? O Brasil e a constituição não são laicos? Então, porque o crime organizado do comércio da fé alheia impôs aquela excrecência diante de todos, moradores e visitantes? Mais um horror fundamentalista!
Sem o café da manhã, embarquei cedo na rodoviária. Montanhas a leste expunham escarpas impressionantes, apesar de não tão altas quanto na Serra Geral. Meia hora depois, o ônibus entrou em Joaíma, cidade ocupando o alto da colina rodeada em mais da metade do perímetro pelo ribeirão da Anta Podre.
Menor que Jequitinhonha, Joaíma compunha-se de ruas e becos em ladeiras, calçamento em pé-de-moleque do século XIX e XX, mas quase nada de histórico ou de maior interesse arquitetônico. De mais atraente, o urbanismo adensado e concentrado em pequena área sobre a colina.
Tratei logo de batalhar algo para enganar o estômago naquele começo de manhã em jejum. Encontrei padarias, mas daquelas no significado original, onde se fabricam e vendem pães, somente pães. Enquanto comia sobre o banco de uma das praças sombreadas da cidade, os passantes me analisavam da cabeça aos pés. O mesmo fazia o padeiro que me vendeu os pães. Vira e mexe ele ia à frente do estabelecimento e esticava o pescoço na minha direção. Afinal, não era todo começo de manhã que um alienígena mastigava pães doces sentado no banco da praça central.
Circulei bastante pelas ruas e ruelas da cidade, subindo e descendo. Tudo de bom aspecto, com praças arborizadas e limpas, mansões opulentas ao redor da igreja Matriz, esta moderna e sem graça, prédios públicos conservados, comércio sem escandalizar ouvidos ou calçadas.
Acabei conversando um tempão com o proprietário de um boteco legítimo. Pequeno, simples, com fotos, mensagens, piadas, garrafas pelas paredes. Litros de pinga curtida com diferentes raízes, sementes, folhas, se enfileiravam na prateleira improvisada. Muita velharia, madeira podre, aranhas de inúmeros tipos, formatos e tamanhos perambulando impunemente. O falante dono do pedaço criticou ferrenhamente a administração municipal de plantão, assunto ao qual retornava qualquer que fosse o tema levantado pelos assíduos. Instalou o som, com caixas e tudo, na calçada em frente, passando os fios pelo nível da rua. Ligou em volume civilizado. Assim não incomodaria a escola ao lado.
Comi em frente ao mercado municipal, antes de descer à estação rodoviária para esperar o ônibus de volta a Jequitinhonha.
Em dia de feira na cidade, cruzei o rio Jequitinhonha de balsa e peguei a estradinha para leste. Muita água brotava em córregos, olhos d’água, riachos. A vegetação, monótona, verde acastanhada. A surpresa ficou por conta da cascavel com cabeça proeminente e três anéis no guizo bem à vista. No final da estradinha, a partir da qual a cancela me impedia o avanço, uma meia-dúzia de vira-latas me cercou. Nenhuma pedra ou paus acessíveis para espantá-los. E dali eu voltei, claro.
Passei horas deliciosas sob a sombra dos coqueiros, sentado na murada da beira do rio, bem em frente ao hotel. Me deixei levar pela brisa constante, o som suave vindo do restaurante triste, o silêncio preguiçoso envolvendo aquela tarde ensolarada.
E chegou a noite de sábado, a mais movimentada da semana. A maior animação ocorria por entre os trailers perfilados atrás da rodoviária de Jequitinhonha. Os comes e bebes contavam com a sonoplastia de cantores e instrumentistas ao vivo interpretando o comercial de sempre.
E os tais da cidade saíram da toca no sábado à noite. O meu ponto infalível de todas as noites funcionou como principal destino da fina flor da sociedade local. Vinham em casais ou em família completa. Antes de entrarem, passavam em frente, de carro. Apenas o homem se virava olhando para o restaurante, enquanto a mulher mantinha o olhar para frente, pescoço imóvel. Retornavam um quarteirão depois. Reapareciam estacionando o carro o mais próximo possível do estabelecimento. O casal descia invariavelmente de mãos dadas, explicitamente, ostentando a posse. Ele vestido mais à vontade, ela no último da produção, ora com bons resultados, ora espalhafatosamente. Se sentavam, pouco conversavam, muito olhavam, analisando tudo e todos.
          O escritor Lima Barreto, com a atualidade que lhe é peculiar, já estudara esse curioso fenômeno. O autor de Numa e a Ninfa e Os Bruzundangas diagnosticara um século antes, em outras palavras evidentemente, que para essas castas que se consideram superiores, a aparência é tudo, o conteúdo, nada.
           Eu, entre goles e garfadas, conversava com os comunicativos garçons. E assistia às cenas da sociedade do norte de Minas Gerais.
Pela manhã, funcionários do hotel se reuniam entristecidos na recepção comentando o acidente fatal de casal amigo deles, após baterem o carro em animal na BR-367, durante a madrugada anterior. Denunciaram o crescente número de casos similares, sobretudo na estreita e sinuosa rodovia para Joaíma. Ainda lembraram outro acidente envolvendo dois colegas, dessa vez de moto, que morreram de igual maneira.
O ônibus acompanhou o rio Jequitinhonha, entre morros e montanhas, até cruzar a ponte e entrar nas ruas de Almenara. Esperei o segundo transporte, enrolando e enganando o estômago com bolachas e barras de cereais.
O percurso da tarde, em estrada de chão, parou no povoado de Pedra Grande, ao lado da bizarra, imensa, estupenda formação rochosa de mesmo nome, em domo, impressionantemente vertical. Entre outras elevações rochosas das imediações, a Pedra Grande era de cair o queixo, assim como o povoado, autenticamente sertanejo, na beira do riacho São Francisco.
Desci em Pedra Azul na tarde seguinte ao encerramento de duas semanas de comemorações pelo centenário da cidade, reservando apresentações musicais, gastronômicas, artísticas em geral, pelas ruas e praças.
Fiquei na mesma pousada de cinco anos antes, de frente para a rua principal, vista a partir dos janelões altos do quarto. E fora ali que se hospedara durante as festas o compositor Geraldo Azevedo.
Pedra Azul, cinco anos depois, parecia continuar igual. Pelo menos no quesito alimentação em restaurantes. Os mesmos estabelecimentos, pessimamente instalados em ambientes inóspitos, mal acabados, mal cuidados, mal tudo. No que arrisquei para o jantar, serviu cachaça medíocre, tanto a versão branca como a amarela. E o dono ainda enfatizou como se fosse elogio inquestionável: “É de Salinas!”. As cidades de Jequitinhonha e Joaíma, apenas para citar duas bem mais próximas, produzem cachaças artesanais de qualidade, infinitamente superiores, com sabor e aroma de cachaça de verdade.
Na televisão do quarto da pousada, além dos canais abertos, a antena sintonizava o da assembleia legislativa de Minas Gerais e três canais do comércio da fé alheia, os três fundamentalistas. Os respectivos locutores sorriam como em comerciais de creme dental, falavam suavemente, lançavam olhares doces, de profunda compaixão. Tocante!
Embora dotada de conjunto arquitetônico belíssimo, bem conservado, conforme descrevi nos relatos da minha viagem de cinco anos antes, o descaso em Pedra Azul não se resumia aos bares e restaurantes decrépitos. As mercearias e supermercados, os estabelecimentos comerciais em geral, guardavam aparência desanimadora. Dava pena o desarranjo das gôndolas, caixas, disposição dos produtos oferecidos. No “supermercado” situado na rua mais bonita de Pedra Azul, assustavam as prateleiras tenebrosas, erguidas sem qualquer cuidado, exibindo meia dúzia de itens em meio ao vazio desolador. Nos fatídicos momentos de refeição, era preciso muita coragem e abstração para enfrentar o horror visual e gastronômico.
Não dava para entender como as administrações públicas e os moradores de Pedra Azul agissem com tamanha apatia diante do definhamento da cidade. Catástrofe que não ocorria, vale salientar, na maioria das cidades da região, nem com os municípios menores ou menos acessíveis. E não era questão de modernizar, descaracterizando a vocação cultural do município, mas de motivar, respirar fundo, erguer a cabeça, assumir a cidade como de cada um, sacudir o marasmo, tocar em frente, com gosto.
A conversa com o funcionário da pousada, pelo menos com o que não andava para baixo e para cima com a bíblia fantasiosa debaixo do braço, confirmou em palavras o que eu já desconfiara. Segundo o colega, praticamente tudo em Pedra Azul, sobretudo serviços e comércio em geral, é tratado com desleixo. Os proprietários não se interessam em investir na aparência e no conteúdo. Parece que as paredes, fachadas, portas, balcões, mesas, cadeiras, prateleiras, pratos, talheres, estão prestes a ruir, a se desfazer, pelo abandono e descaso. O funcionário não questionava a antiguidade, a tradição, e sim a velharia, a teimosia. No ramo de supermercados, bastou uma rede de outra cidade montar filial em Pedra Azul, ágil, barata, com mais e melhor oferta de produtos e serviços, para quebrarem três supermercados ou mercearias empoeiradas. Garantiu que a quebradeira seguiria atingindo outros, chacoalhando o marasmo. Que Pedra Azul não perca a personalidade e vocação, mas que incremente qualidade na prestação de serviços.
Subi novamente a Pedra da Conceição, no topo da qual se ergue o cruzeiro e o cercado de antenas. Na ponta, a escadaria de concreto discreta me levou ao cume, após centenas de degraus. Lá em cima, o mesmo descaso que ocorre nas ruas de Pedra Azul. Mato, muito mato crescido, dificultando a orientação pelas trilhas abandonadas. Permaneci na beira da encosta mais aberta, da qual se descortinava a amplidão dos vales ao sul, somente descontinuada por mais formações rochosas que brotavam aleatoriamente. Os imensos blocos de rocha maciça, de paredões quase verticais, davam à paisagem estranheza e beleza. Estradinhas e caminhos de terra serpenteavam por entre as rochas e sítios cercados. Algum gado se arrastava para lá e para cá. Não notei nada plantado para alimentar os moradores dos arredores. Sentei no lajedo inclinado, próximo ao abismo, e liberei a mente diante do cenário iluminado pelo sol.
O ônibus me deixou em Almenara no começo da tarde. Ainda deu tempo de almoçar em churrascaria por quilo, bem próxima ao hotel.
A noite do feriado aglomerou pós-adolescentes ao longo de sequência de lanchonetes, sorveterias e afins, dispostas na avenida principal. E os carros, tocando o lixo comercial de sempre, em volumes ensurdecedores, não poderiam faltar.
Repeti a subida ao topo do morro das antenas, acessado pela margem direita do rio Jequitinhonha. Atingi os altos, onde existe rampa de saltos de asa delta e similares, ao lado do cercado com inúmeras antenas. Conversei com um solitário pago pela prefeitura para vigiar as instalações. Morando naquelas alturas, ele comentou do pavor das noites de tempestade, das rajadas de vento, das cascavéis, jararacuçus, entre outras belezinhas que o rondam durante os dias e as noites. A vista do alto era magnífica. A cidade de Almenara, a estrada para Pedra Azul, com a deslumbrante Pedra Grande ao fundo, o vale do rio Jequitinhonha, a leste e a oeste, os vales e montanhas para sul, a estrada para Rubim.
Eu encerrara meu último livro em Jequitinhonha. De lá para cá eu vinha improvisando com as palavras cruzadas, ou me segurando para não vomitar diante da programação lamentável em todos os canais de televisão, abertos ou fechados. Em cidades sem livrarias, em hotéis sem bibliotecas, nem dá para exigir muita coisa. As eventuais bibliotecas municipais teriam que dar conta do recado à população.
E tinha começado a Festa da Mandioca no parque de exposições de Almenara, entre comes e bebes, derivados ou não da mandioca, comércio, brinquedos do tipo de parques de diversão. Mais tarde da noite, subiriam ao palco aquelas figurinhas do circuito comercial e descartável.
Perguntei ao recepcionista do hotel se ele iria à festa ao final do turno. Prontamente respondeu que não porque era evangélico. Óbvio. Evangélico não aproveita a vida, somente sofre e dá dinheiro para os comerciantes da fé. Quem se diverte são os donos das empresas evangélicas, torrando a dinheirama arrecadada das mãos de trouxas como ele.
O trajeto do ônibus, a maior parte em estrada de chão encascalhada, atravessou pontes de madeira, estreitas, velhas, frágeis, sobre córregos secos. A vegetação também se ressecava, entre arbustos, rasteira, cactáceas, muito espinho. O rio Jequitinhonha, revelava raros trechos enriquecidos por pedras, corredeiras, praias. No meio do trajeto, a cidadezinha de Jacinto. Nas beiras da estrada, absolutamente nada plantado, somente pasto, as mangas, com capim ralo para gado. Duas carcaças na beira da estrada, ainda com a pele do animal, eram degustadas por bandos de urubus e cachorros.
Desci em Salto da Divisa, cidade na fronteira com a Bahia, na margem do lago artificial da represa no rio Jequitinhonha. Anos antes, o local guardava gargantas estreitas, corredeiras, quedas d’água, encostas íngremes, vales profundos, conforme fotos no hotel em Almenara e depoimentos de moradores.
A pequena e acidentada Salto da Divisa, com menos de sete mil habitantes, foi readequada em função do alagamento de parte da zona urbana. Restavam poucos testemunhos da arquitetura dos séculos XIX e começo do XX. O trecho urbanizado na margem do lago, com pista de caminhada, áreas de lazer e descanso, mercado para tratamento de peixes e derivados, caía aos pedaços, completamente abandonado. Verdadeiro descaso com a população e com o dinheiro gasto nas obras, provenientes de impostos cobrados dessa mesma população.
Tanto Jacinto como Salto da Divisa revelavam mais sujeira, desleixo, ausência do poder público, indiferença da população. Bêbados caídos dormiam nas calçadas. As músicas ouvidas das casas e dos porta-malas ensurdecedores dos carros descarregavam o lixo comercial baiano. Aquela pontinha de Minas Gerais, distante uma eternidade da capital Belo Horizonte, vivia na órbita dos municípios baianos, como Eunápolis e a zona turística de Porto Seguro, para onde iam e vinham ônibus cheios.
E à noite, na Festa da Mandioca de Almenara, os frequentadores se produziram para uma festa de verdade, sobretudo as mulheres. Ninguém ia de bermudas, como eu. Os homens de calças compridas, as mulheres revelando terem passado horas em frente ao espelho. E todas, acompanhadas ou não, vestidas para matar.
Na manhã seguinte, perambulei despretensiosamente pelo trecho de Almenara da beira do rio Jequitinhonha. Praticamente nada restou da história da cidade. Um bar antigo, um ou outro casarão, mais nada. Não havia calçadão, murada, área de lazer, passeio ou descanso. Apenas um banco de areia que a cidade chama de praia. Mato, areia, lixo, água poluída a jusante do centro da cidade.
E a regra que constatei durante viagens pelas cidades ribeirinhas na Amazônia, entre as pequenas, médias e grandes, era perfeitamente válida ali também. As cidades que dão as costas para os rios, ignorando, se distanciando e abandonando as margens deles ao acaso, como Almenara, todas elas são feias, sujas, sem personalidade, desprovidas de políticas públicas.
Mas festas sempre têm. O poder público as organiza com frequência, para faturar, alienar, embebedar a população, sempre sob os auspícios de um único e exclusivo patrocinador de bebidas. E de popular, típica, cultural, essas festas nada oferecem.
Embarquei no ônibus via minha velha conhecida de décadas e décadas, a famigerada BR-116.
Após a cidade de Padre Paraíso, deixamos o vale do Jequitinhonha e entramos na microrregião do vale do Mucuri, cruzando relevo bastante acidentado, úmido e verde. Na beira da rodovia federal, barraquinhas expunham produtos à venda. Frutas, queijos, doces, cachaça? Nada disso. Dezenas de variedades de pedras preciosas, brutas ou trabalhadas, em pequenas obras de arte artesanais, no formato de árvores ou flores, feitas a partir de pedras de diversas cores e formatos. Nas imediações de Catuji, enormes formações rochosas se erguem para deleite dos olhos. De lá até Teófilo Otoni, incluindo Itambacuri, ramais de estradas levam a cidadezinhas pertencentes ao Circuito de Pedras Preciosas.
Na parada ao sul de Governador Valadares, uma biboca dirigida por evangélicas fundamentalistas, cabeludas e bigodudas, assaltava os passageiros desavisados cobrando preços exorbitantes por itens de má qualidade. Faturando mais, as cabeludas teriam mais a entregar aos comerciantes das empresas evangélicas que lucram horrores com a fé alheia. Atravessei a BR-116, com bastante cuidado para não ser esmagado pelo mar de caminhões e carretas, e paguei um terço do preço cobrado pelas fundamentalistas bigodudas.
Na manhã seguinte o ônibus foi recebido pelo rotineiro congestionamento ao longo da rodovia duplicada cortando a cidade de Guarulhos.
Desembarquei no terminal rodoviário do Tietê, em São Paulo, em meados de junho. E, após o metrô rápido e eficiente, entrei em casa, satisfeitíssimo pela minha sexta exploração ao fascinante norte de Minas Gerais.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Norte de Minas-6 (parte 4/5)

...continuação
Itacambira anoiteceu de ressaca pela movimentação da feira mensal. Após a partida dos ônibus e demais veículos levando de volta a população rural, as ruas ficaram quietas. O comércio baixou as portas mais cedo. O restaurante costumeiro não serviu jantar. A lotação durante todo o dia pelo povo da roça não permitiu um segundo sequer de descanso ao casal. A cansada Itacambira dormia ainda mais cedo naquela noite.
Amanheceu claro, com céu azul e sol forte, sem a tradicional cerração cobrindo as montanhas e umedecendo o ar. Pendurei tudo quanto era roupa, molhada ou não, para expor ao sol.
Repeti a subida a Serra Resplandecente, até o cume das antenas, desta vez com sol, céu azul, visibilidade total.
Subindo o asfalto, antes da primeira curva ascendente, notei a aglomeração na beira da rodovia. Meia hora antes, um caminhão procedente de Londrina, carregado de móveis e utensílios domésticos, perdeu controle, saiu da pista e capotou barranco abaixo. Sei lá como conseguiu parar a vinte metros da estrada, interrompendo o voo. O pai, preso nas ferragens, foi retirado com pé-de-cabra pelos moradores, antes que os bombeiros, vindo da distante Montes Claros, prestassem socorro adequado. Ele sofreu escoriações e fraturou a perna. O filho, sentado no banco do carona, saiu ileso.
Ao contrário da primeira oportunidade, aquele dia brilhante e resplandecente como o nome da Serra me permitiu apreciar nitidamente a paisagem, por trezentos e sessenta graus. Itacambira, as serras próximas e distantes, igualmente estupendas, os vales, as nascentes do rio Itacambiruçu, as estradas de chão, os horizontes esverdeados e azulados.
No topo, me sentei numa pedra projetada sobre a escarpa. Relaxei, contemplei aquela maravilha da natureza, observei pássaros e lagartos. O mocó exibicionista do outro dia não deu as caras. Minha mente vagava sem freios pela imaginação sem limites.
Após a missa noturna, parte dos moradores montaram barracas atrás da igreja como parte das novenas de Santo Antônio. Os fieis vendiam vaca atolada, beiju, canjica, chá de amendoim. Músicas típicas juninas gravadas animavam os frequentadores. Acenderam fogueira, leiloaram prendas. Os leiloeiros circulavam entre os moradores, gritando todos ao mesmo tempo a prenda e o preço alcançado até então. Teciam brincadeiras de duplo sentido com objetos de formatos e significados maliciosos, incitando lances mais altos entre os interessados. Todas as prendas foram arrematadas. Nada sobrou sobre a mesa.
Tracei duas saborosas vacas atoladas e encerrei com copo de chá de amendoim. Os itens eram vendidos invariavelmente pelo preço de um real.
Depois enrolei em boteco da pracinha ao lado de conhecidos. Todos ali se enfureciam diante das implicâncias do novo padre na cidade que queria vetar isso e aquilo durante as futuras festas juninas. Os assuntos até podiam migrar para outros temas, mas retornavam logo em seguida com mais malhações ao padre censor.
Adormeci mirando o céu absurdamente estrelado pelos amplos vidros do janelão do quarto.
Almocei galinha caipira, arroz, feijão, legumes, salada, na própria pousada, tudo preparado e servido pelo dono e a filha. Devorei com gosto, saciei a fome, conversei descontraidamente.
Me despedi calorosamente de todos e embarquei para Montes Claros. A rodovia percorreu todo o alto da serra ao redor do vale de Itacambira, permitindo observá-lo durante bastante tempo. E novamente os vinte quilômetros do deserto verde dos eucaliptos, cuja monocultura tinha o cinismo de chamar aquele crime ambiental de reflorestamento. E de colocar cartazes ao longo da plantação da praga, em ambos os lados da estrada, alardeando a defesa da natureza.
Mais próximo à cidade de Juramento, as barrigudas esplendidamente floridas forneciam tons lilases e vivos em meio ao verde pálido do cerrado.
Apesar do terminal rodoviário organizado e do horário marcado das partidas, o ônibus embarcava e desembarcava por toda a cidade de Montes Claros. Ocorriam várias paradas pelas ruas, pontos, ou no terminal de apoio da própria empresa, se tornando assim um segundo, terceiro, quarto, quinto ponto de partidas e chegadas das linhas. Os ônibus percorriam ruas estreitas, entupindo o trânsito, poluindo a cidade, atrasando o trajeto.
No trecho entre Montes Claros e Salinas, muitos passageiros incorporaram um caminhão baú, sendo literalmente rastreados. Eram celulares de pessoas diferentes tocando a todo instante. E vinham as respostas padrão: “Estou no ônibus”, “Saí de Montes Claros agora”, “Devo chegar em Salinas tal hora”, “O ônibus está entrando em Francisco Sá agora”, “O ônibus está subindo a serra”, “Daqui a uma hora chego em Salinas”. Será que eram passageiros importantíssimos, carregando cargas supersecretas, numa urgência urgentíssima, ou, o mais provável, apenas deslumbrados com os brinquedinhos eletrônicos, adorando serem rastreados?
Desembarquei no meio da tarde na tórrida Araçuaí, verdadeiro contraste térmico com Botumirim e Itacambira. Me hospedei em quarto com banheiro sem cortinas na janela de vidro transparente. Os vizinhos mais altos e os hóspedes vindos do estacionamento se deliciariam com os espetáculos gratuitos durante meus banhos.
Próximo ao restaurante onde jantei em mesas ao ar livre, eu notei um imóvel de dois andares, com controle de portaria, muro alto, cerca elétrica, arame farpado em espiral, entre outros itens de segurança máxima, no melhor estilo de penitenciária. O garçom comentou que já lhe questionaram outras vezes se ali era um presídio. Mas era apenas um hospital. O controle de segurança de última geração se devia aos constantes roubos de aparelhos, remédios, equipamentos, ou do que estivesse pela frente. Roubos para sustentar a dependência em drogas, verdadeira epidemia em Araçuaí. Reparei em outros imóveis a mesma paranoia de segurança, muros altos, cerca elétrica, arame farpado em espiral. Vi também menores pelas ruas ou próximos a estabelecimentos comerciais pedindo esmolas. Ali não era capital ou cidade grande, mas Araçuaí, com menos de 40 mil habitantes. Muita polícia pelas ruas, mas nada soube sobre o combate ao tráfico de drogas, sobretudo aos grandes fornecedores.
Não era minha primeira vez em Araçuaí. Também não era a primeira vez que eu denunciava as injustiças sociais da cidade em relatos neste blog. E proliferavam as ONGs pela região, recebendo dinheiro de não sei quais empresas e servindo a não sei quem.
O ônibus para Itaobim passou pela aconchegante cidade de Itinga, na margem esquerda do rio Jequitinhonha.
Na caatinga prevalecia a vegetação invariavelmente ressecada, exceto nos fundos de vales, mais úmidos, esverdeados, cultivados. A despeito disso, no meio do cinza, apareciam árvores floridas, escandalosamente coloridas, lilás, rosa, amarela, realçando-as pelo escandaloso contraste.
Na beira da estrada, diversas barracas de palha vendiam objetos artesanais de cerâmica, a maioria de utilidade doméstica. Tudo muito parecido, feitos em série, espalhafatosos, com acabamentos e pinturas berrantes. Aquilo definitivamente não representava a arte popular, livre, criativa, tão marcante do vale do Jequitinhonha.
Na terrível cidade de Itaobim, na beira da também terrível BR-116, esperei dentro do ponto de apoio da empresa de transporte. Local sujo, com bar sujo, banheiro sujo e pago. Aliviei a bexiga atrás de muro mais afastado.
No segundo ônibus, a rodovia acompanhou a margem direita do rio Jequitinhonha, entre serras e serrotes, algumas exibindo paredões rochosos, tendo aos pés casas precárias e esparsas. Pouco ou nada plantado, vegetação ressecada. Um acampamento de trabalhadores rurais sem terra aguardava havia anos por terra para plantar.
Desci em Jequitinhonha e caminhei até o esplêndido hotel na margem do rio. Da sacada do quarto, vista estupenda das águas do Jequitinhonha serpenteando entre as pedras, gramados e bancos de areia. Bodes e cabras pastavam nos trechos secos. Raros pescadores arriscavam alguma coisa. Homens carregavam canoas com areia extraída da várzea seca. Montanhas mais esverdeadas emolduravam a margem oposta. A balsa à montante transportava passageiros, veículos leves e pesados, de quando em vez. Pássaros em revoadas cantavam. Moradores circulavam calmamente. Beleza e tranquilidade.
A parte alta do centro da cidade guardava concentração de casario antigo, datado do começo do século XX. Imponentes mansões da elite local circundavam a praça inclinada, em frente à igreja matriz modernosa, pesadona, sem cara de nada. Um dos casarões que abrigou membros do coronelismo do norte de Minas Gerais foi reaproveitado, sabe-se lá em quais condições, para sedear a prefeitura do município.
Apesar do começo da noite, as ruas estavam praticamente vazias, silenciosas, fascinantes para andar, sentir, observar.
Acompanhei a margem do rio, passando por bairros precários, o ponto da travessia da balsa, então em manutenção temporária. Pedestres, bicicletas, motos, cruzavam o rio por passarela estreita, rio acima, a montante das obras da futura ponte de concreto.
Atravessei a passarela tomando todo cuidado nos momentos em que vinham motos nos dois sentidos. Eu tinha que me afastar, me segurando nos corrimões baixos, batendo na altura de meus joelhos. O nível baixo das águas permitia o aparecimento de ilhas de pedra, com ou sem vegetação arbustiva. Corredeiras agitavam o curso e provocavam sons agradáveis de água em movimento.
Na margem oposta, um punhado de casas simples, ao lado de roças básicas, e a estrada de chão serra acima, rumo ao povoado de Brejão, onde brilhavam plantações variadas nos assentamentos de pequenos produtores rurais, conforme depoimento de um deles que aguardava carona no fim da passarela. Mais adiante ficava a vila de Estiva e, no final da estradinha, a cidade de Pedra Azul.
Durante o almoço no restaurante anexo ao hotel, tive que ouvir o arrendatário defender a execução de jovens pela polícia militar. Refutei com argumentos contrários às matanças, obviamente. Embora não concordando comigo, hesitou em manter os dele. Menos mal.
Ao entardecer me deslumbrei diante da vista da sacada do quarto do hotel, valorizada pelo brilho do sol realçando cores e detalhes. Os pássaros em revoadas ao entardecer esbarravam nas águas do rio, cantando, na busca de comida, antes de se entocarem, em bandos, nos abrigos noturnos.
Se o bar e restaurante anexo ao hotel não se animava, tomei a iniciativa. Encostado no balcão, entre goles da divina cachaça regional, eu puxei assunto com quem passava por ali. Qualquer tema valia desde que descontraísse e quebrasse o ritmo sonolento de pegar comida, pesar, sentar à mesa, comer com os olhares bovinos na televisão, levantar, pagar, subir ao quarto do hotel para se idiotizar mais horas em frente à televisão.
Até que surgiram companhias para prosear. O funcionário antigo da Cemig descreveu os horrores sanitários do norte de Minas Gerais até a década de 1980, então infestada de doenças tropicais. Entre elas, a doença de Chagas, cujo transmissor, o barbeiro, brotava indiscriminadamente nas moradias, pensões, comércio, construções em geral. Nos temas de comida e alimentação, todos concordaram que o restaurante precisava urgentemente variar aquelas opções previsíveis, triviais, insípidas. Insistiam que faltava a galinha caipira, ao molho pardo ou não, peixes ensopados, assados ou fritos, diferentes preparos nas carnes, legumes, cereais, verduras, capricho nos temperos, enfim, culinária mais típica da região. Um dos colegas ressaltou, com propriedade, que precisávamos prestigiar as comidas e bebidas regionais. Certíssimo. E para por em prática a opinião tão calorosamente emitida, o indivíduo pediu, não a cachaça artesanal, mas uísque, e dos mais vagabundos, provavelmente feitos na base de álcool e corante. Nada com unir o discurso à prática!
Caminhei sob a temperatura amena da noite. Nada aberto nos arredores do centro da cidade. E aquela calma noturna era bem-vinda demais da conta.
Atravessei pela manhã o Jequitinhonha pela passarela e encarei a estradinha de chão, em bom estado, encascalhada, serra acima. Poucos veículos, leves e pesados, transitavam por ali. A árdua subida jamais dava tréguas.
Após as casas esparsas da parte baixa, cercadas de roças em zona abundante de água, de interessante nos altos, a panorâmica de Jequitinhonha, da extensão do vale, das montanhas mais ao sul, da BR-367, das demais estradas. A serra ao lado, coberta integralmente pela vegetação original, compunha a Reserva Biológica da Mata Escura.
No ramal que levava ao cercado contendo várias antenas, vira-latas metidos a cães de guarda me receberam com hostilidade. Latiam histericamente, mas não passou disso.
Entrei em trilha sinuosa morro abaixo, do qual se descortinava o vale do Jequitinhonha à montante da cidade. A trilha descia abruptamente aos pés dos paredões rochosos, à zona coberta por mata fechada.
A tarde avançava quando me sentei no boteco ao lado da balsa para matar a sede. Quatro mulheres enxugavam garrafas de cerveja e lançavam olhares profissionais aos ocupantes do recinto. O ambiente suspeito fazia jus ao entorno.
Tomei sorvete e uma jarra de suco de goiaba numa lanchonete. E me considerei almoçado. Fome, só mais tarde.
continua...

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Norte de Minas-6 (parte 3/5)

...continuação
Os sinos da igreja, mudos nos dias anteriores, convocaram o povo ao anoitecer. Precisaria muita fé ou submissão às hierarquias religiosas para sair de casa numa noite daquelas e encarar discursos dogmáticos.
De minha parte, assaltei a cozinha do hotel, sem recepção ou portaria, engoli dois sanduíches de pão murcho com presunto enlatado, quatro bolachas, uma maçã.
O dia mais feio da viagem se encerrava melancolicamente.
Acordei antes das 5h. Do lado de fora do hotel, tudo escuro e quieto. Desci para a cozinha deserta de almas, comi pão murcho com queijo fresco, maçã, bolachas.
E esperei o ônibus.
Não havia transporte regular nos oitenta quilômetros entre Botumirim e Itacambira. Tive que dar volta absurda de mais de duzentos e cinquenta quilômetros, com direito a conexão de seis horas na minha sina no norte de Minas Gerais, a tremida cidade de Montes Claros.
Assim que entrou na estrada de chão, recentemente patrolada em época teoricamente seca, o ônibus deslizou, andou de lado, sobretudo nas descidas. A terra removida pelas máquinas virou lama escorregadia com as chuvas e garoas. Mais adiante, a tranquilidade voltou com a estrada encascalhada e aderente.
No alto da serra, já na asfaltada e terrível BR-251, a neblina cobriu a visão. O frio que não era pouco piorou. As janelas fechadas do ônibus não garantiram o conforto. À medida que a rodovia descia o relevo, a cerração se dissipava, o sol ameaçava brilhar, a temperatura se tornava mais agradável, especialmente após Francisco Sá.
Desembarquei na trepidante Montes Claros. Deixei a mochila no guarda-volumes da rodoviária e fui bater pernas para esquentar o corpo e ajudar o tempo passar mais rápido.
Depois da cidade de Glaucilândia, o segundo ônibus do dia ônibus trilhou estrada de terra estreita. Passou raspando fazendas, sítios, povoados minúsculos, como Tabocal, Rio das Pedras I, Rio das Pedras II, Pandóleo, a partir do qual a rodovia voltou à asfaltada, novinha em folha. Nos altos da serra, cruzamos vinte quilômetros de monocultura de eucalipto infestando ambos os lados da estrada. Ali brotam ou brotavam milhares de nascentes, certamente ressecadas por aquele deserto verde entupido de agrotóxicos, que não traz nenhum benefício para a população do entorno.
Fui o último a desembarcar em Itacambira. Era noite ao me hospedar na pousada bem ao lado da casa do motorista, em frente da qual ele estacionou o ônibus.
E nem saí mais naquela noite. Lavei roupas, tomei banho, engoli uma barra de cereais. Os carrapatos das trilhas de Botumirim começavam a causar estragos. Mas nada de localizar um danadinho sequer.
Pela manhã, as roupas lavadas à noite continuavam ensopadas. Da camiseta, cujo tecido normalmente seca em poucas horas, ainda escorria água.
Atravessei a cidade, descendo a única via de deslocamento pela pequena Itacambira. A cidade contava com mil e duzentos habitantes na zona urbana, e menos de cinco mil em todo o município. Passei ao lado da igreja Matriz, dos órgãos públicos municipais, correios, hospital, prefeitura, câmara de vereadores, duas pensões, comércio discreto, ou seja, por toda a cidade. Em minutos eu já pisava na estrada de chão na outra extremidade.
Praticamente de todos os lados se erguiam escarpas rochosas, imponentes, pertencentes a Serra do Espinhaço.
Peguei ramal mais estreito, ainda na descendente. Margeei descampado côncavo, repleto de ossadas e carcaças de animais mortos. Urubus e cachorros se deleitavam naquele depósito fedorento.
No fundo do vale, o rio Itacambiruçu, estreito e transponível a pé nos trechos com pedras. Na margem oposta, dei com afluente, córrego que corria entre pedras, formando poço batizado de Encantado, área de lazer em dias quentes. Encontrei vereda marcada, bombardeadas de bosta de animais, acompanhando a drenagem rio abaixo. Rebanho de gado, duas casas na margem direita, mais nada.
Subi pelas pedras em outro vale ao longo do leito de córrego quase seco. Mais acima, a estreita e seca cachoeira, de frente ao morro de blocos rochosos. Subi por entre as pedras e galhos secos dos arbustos do cerrado. E dei de frente à Lapa do Bugre, em cuja parede inclinada pinturas rupestres em cor ocre chamaram minha atenção. Imagens abstratas, de animais, de pessoas em pé e com os braços erguidos, sequências de pontos alinhados, figuras geométricas.
Flores pequenas e coloridas, arbustos, vegetação rasteira, mangas para animais, olhos d’água, blocos de rochas soltas, escarpas da serra, vales menores e maiores, pouca gente e criações, compunham parte do cenário explorado.
Dei meia volta e repeti o caminho da ida.
Averiguei possíveis bares e restaurantes para almoçar na cidadezinha. Em estabelecimento novo, pequeno, de bom aspecto, uma mesa ocupada por animado grupo de amigos. Comi bem pirá cozido, arroz, feijão, legumes.
Na ausência da responsável pelas visitas, a própria dona do restaurante obteve as chaves e me abriu as portas da igreja Matriz.
Datada do mesmo século XVIII da fundação de Itacambira, a igreja de Santo Antônio guardava interior simples, utilizando bastante madeira, em especial no teto e altar, montado com peças isoladas, torneadas e pintadas separadamente. Nos fundos, sob o alçapão no piso de ripas de madeira, um caixote de crâneos e pedaços de esqueleto, preservados. Seculares, segundo ela.
Em recente roubo de imagens dos interiores da igreja, os ladrões não perdoaram nem a imagem do padroeiro da cidade, Santo Antônio. Mais um crime ligado ao tráfico internacional de antiguidades, tendo a frente organizações de fora do Brasil que lucram com delitos semelhantes em vários países. Bastaria verificar lojas, galerias e museus renomados pelo mundo afora para fechar o ciclo criminoso.
Voltei cedo ao hotel para tomar banho antes do frio apertar e aproveitar a claridade e a vista das serras vindas do janelão de vidro.
Sob a garoa fina, saí para jantar no bar, mercearia e restaurante tocado por um casal. Verdadeiramente O lugar. Seis mesas se distribuíam perto do pesado balcão, atrás do qual o fogão a lenha esquentava a comida autenticamente caseira em panelas e caldeirões. A parca iluminação fornecia atmosfera nostálgica ao armazém rodeado de prateleiras contendo bebidas, grãos, alimentos e afins. A frequência interiorana, conversando em voz alta, para todos ouvirem e participarem, ou cochichando ao pé do ouvido para ninguém meter o bedelho na vida alheia, ocupando o interior do espaço, lembrava as imagens dos interiores do Brasil de antigamente. Só faltava entrar o tropeiro apeado do cavalo preso à porta, vestido todo em couro, esporas, chapéu e demais itens pertinentes, por as armas sobre a mesa e fazer o pedido, impositivo. Cenário de Guimarães Rosa.
A garoa fina que caía do lado de fora espantava os poucos pedestres das ruas. Tomei duas doses caprichadas de cachaça artesanal, purinha, branquinha, a fim de abrir o caminho já aberto para arroz, feijão, carne desfiada na panela de ferro, salada de tomate e alface. Tudo fresquinho, vindo da roça do casal, e recém-preparado no fogão à lenha. E, para coroar a refeição, a pergunta que todos os que amam comer bem adoram ouvir, vinda da cozinha: “quer ovos fritos?”. Melhor que essa pergunta mágica somente a que vem em seguida do assentimento: “um ou dois?”.
Nem precisei beber nada hidratante. Não pretendia tirar o gosto divino na boca. As duas doses da estupenda cachaça abriram, enobreceram, fecharam com chave-de-ouro o banquete. Entre os assuntos do ambiente do restaurante, o destaque ficou por conta dos dois recentes tremores de terra em Montes Claros.
Acessei pela manhã o topo da mais alta serra próxima à cidade, a mesma com diversas antenas instaladas e vista da janela do quarto da pousada.
Caminhei pela contramão do asfalto sem acostamento que sobe a serra acentuadamente. Nos altos da serra, após imagem de santa e antes do asfalto se perder nas planuras do chapadão, entrei na Área de Proteção Ambiental da Serra Resplandecente. A neblina fechada pouco me deixava ver as rochas e a vegetação arbustiva nas margens. Mal enxergava o leito por onde eu caminhava. No topo da serra, apenas imagens turvas das antenas. Nada além de três metros de distância. E logo me lembrei de quando atingi o cume do Pico da Neblina no alto rio Negro doze anos antes. Também lá, no topo da divisa do Brasil com a Venezuela, o lugar fez jus ao nome, não se enxergando absolutamente nada além de alguns metros.
Nos altos da Serra Resplandecente, o sol brilhava atrás da espessa cerração. De quando em quando, pela ação do vento e do aumento gradual da temperatura, dissipando parte da neblina, surgia a pequenina Itacambira lá embaixo, antes que fechasse tudo novamente. Outras serras, escarpas, morros, vales, apareciam e desapareciam em segundos. Um mocó cinzento, gorducho e exibicionista, fez pose sobre a pedra.
Flores coloridas, minúsculas, se destacavam na vegetação acinzentada, no meio da qual, sobretudo nos campos de altitude, reinavam absolutas as sempre-vivas em arranjos solitários ou em grupo. Em trecho mais vazio da estradinha, antes do asfalto, e com marcas de pneus, embalagens vazias de camisinha indicavam o motel da moçada, gratuito, sem filas, naturalmente ventilado, mais perto das estrelas.
Novos pontos de irritação e coceira pelo corpo, geralmente avermelhados e em relevo, reconfirmavam a ação dos carrapatos de Botumirim. Por mais que tentasse, eu não conseguia ver nenhum em atividade.
Novas e boas conversas no restaurante eleito para os jantares. Proseei com o chefe dos Correios, dois técnicos em eletricidade, moradores itacambirenses, o casal que tocava o estabelecimento, a filha adotiva. Ela caminhava para a formatura em Pedagogia, na modalidade de ensino à distância, no qual havia aulas presenciais apenas uma vez por mês. E somente chegou até ali graças à bolsa de estudos.
Duas doses da branquinha artesanal arrombaram o apetite, abrindo o caminho à comida quentinha, sempre preparada e mantida nas panelas sobre o fogão a lenha. Repeti duas vezes as delícias caseiras, enchendo o prato fundo.
Ainda cedo da noite em Itacambira, as ruas desertas não afastavam o prazer de estar em cidadezinha tão acolhedora e tranquila. Aquele silêncio aconchegava demais.
Durante a madrugada observei o céu sereno e estrelado através do janelão do quarto. Ao amanhecer, novamente tudo fechado, com a neblina cobrindo do topo ao pé das serras. As roupas, mesmo as secas, estavam umedecidas. As lavadas, então, encharcadas.
No meio da manhã a luz se fez. O sol veio para brilhar, iluminar, colorir, esquentar, realçar as belezas naturais.
Foi uma hora desconfortável na garupa da moto por estradinhas locais, repleta de buracos, lajedos, bicos de pedra, córregos, riachos, pedras soltas, sobes e desces, entre campos rodeados de serras estupendas. Precisei descer para ele romper os obstáculos mais complicados. Descia daquele troço aliviado, recolocando os músculos e a ossatura no lugar.
Ele encostou a moto na margem do riacho que atravessamos sobre pinguela oscilante. Do outro lado, o terreno e o barraco no qual viviam o pai e a irmã dele. A moradia se sustentava sobre paus separados, sem argamassa de barro, permitindo a entrada de tudo, sobretudo do vento frio dos altos da serra. Garimpeiro de cristais de rocha no passado, o pai plantava banana, abacaxi, maracujá, limão, além de criar dezenas de porcos ao lado de cachorros, galináceos, cavalos. Dentro do barraco, a cozinha improvisada se separava do quarto, também improvisado, por pedaços de pano velho e de cor indefinida. A apertada cozinha abrigava prateleiras sobre caixotes e um legítimo fogão a lenha.
Caminhamos a partir dali por veredas, campos, margeando escarpas rochosas, buritizais, nascentes, córregos fluindo por entre as pedras, quedas d’água. A principal e mais bela delas, a cachoeira do Curiango, continha poço escuro e convidativo, não fossem as temperaturas de maio. Exploramos a cachoeira por cima e por baixo. Cruzamos a pé as águas límpidas de uma margem à outra. Matamos a sede em nascentes frescas e sombreadas. Avançamos riacho abaixo aos campos repletos de buritizais na esperança de avistar araras. Tímidas ou em repouso no começo da tarde, elas não deram o ar da graça.
As serras ao redor, sob a luz da tarde, davam espetáculos de beleza e imponência. Ao descer da moto em Itacambira, a bunda começava a pedir trégua de tanto desconforto pelos solavancos. A mente e o resto do corpo, no entanto, vibravam pelas explorações em região tão preservada.
No dia seguinte, houve a feira livre mensal em frente à igreja Matriz. Discreta, com poucas barracas montadas, oferecia reduzida variedade de produtos para a reduzida freguesia. No entanto, como ocorre pelo Brasil afora, essas feiras revelam momentos de alegria, aparente fartura, confraternização entre moradores, da cidade e do campo, horas de otimismo e planos para o futuro. Não por acaso, em todas as cidades de pequeno porte por onde passei nesses anos todos, os moradores aguardam esse dia com expectativas, transmitindo-as aos visitantes.
Perambulei horas pela feira, observando o vaivém, os sorrisos, os cumprimentos, trocando frases com os meus conhecidos daqueles dias, assistindo a tudo passar sem afobação.
Doei o livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, já lido e guardado no fundo da mochila.
Além do pai do motoqueiro, outros ainda mantinham o garimpo como meio de sobrevivência na região de Itacambira. Enfatizavam pertencerem à categoria desunida e traiçoeira. Os garimpeiros comercializam os produtos separadamente com os compradores, rebaixando os preços pela competição desenfreada. A ausência de qualquer tipo de cooperativismo fazia com que vendessem cristais de rocha e outras pedras preciosas para uns chineses por verdadeiras ninharias. Um quilo de quartzo prismático, ou cristal de rocha, bruto, chegava a ser entregue aos tais compradores por somente um real. Além da degradação ambiental, largando crateras medonhas pela natureza, e pelo trabalho pesado e desumano, sem garantias, proteções, segurança, direitos trabalhistas, previdenciários ou assistência médica, esses garimpeiros passavam os produtos finitos quase de graça a compradores, estrangeiros ou não. Quem comprava, sim, lucrava horrores em cima da miséria e da estúpida desunião dos outros.
continua...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Norte de Minas-6 (parte 2/5)

...continuação
Na volta a Serranópolis de Minas, no veículo do prestativo agente ambiental a serviço no parque estadual da Serra Nova, debatemos as queimadas criminosas, a criação de gado, a impunidade às agressões ambientais. E o processo de implantação e planejamento socioambiental, ambos em andamento naquela unidade de conservação de quase cinquenta mil hectares, mas com apenas doze funcionários.
Antes do jantar, tive tempo de degustar uma dose da cachaça artesanal no comércio ao lado da pensão, cujo dono vestia peruca pretíssima, inconfundível a quilômetros de distância. Perucas tão escandalosamente óbvias somente as das judias fundamentalistas do bairro de Higienópolis em São Paulo. Degustei a segunda dose da branquinha no próprio restaurante da praça, como antessala ao lauto jantar. Pedia um ovo frito e vinham dois ovos fritos. Pedia dois pedaços de carne e vinham cinco. E assim por diante. Acho que a dona me achou fraco e raquítico.
Na mesa do restaurante, conversei com a jovem sentada à minha frente. Magérrima, cheia de bexigas pelo rosto, deprimida, vestindo saia comprida e blusa de mangas longas em plena noite quente. Sofria intermináveis dores de cabeça. Era escrava de uma dessas empresas lucrativas em cima da fé dos outros, mais conhecidas como evangélicas. Ela não falava coisa com coisa, se esquivava de minhas perguntas, olhava obsessivamente para os lados, sempre com expressão desconfiada. Talvez aterrorizada com a possível visita do capeta. Mais uma ovelhinha de rebanho em crise.
Outra ovelha de rebanho era um operador de máquina de terraplanagem. Sempre vestindo camisetas com dizeres fundamentalistas, o indivíduo se recusava a conversar com a gentalha, grupo ao qual me incluiu tão logo notou eu pedindo pinga antes do jantar. Exibindo expressão de pedra, o tal vegetava escondido atrás de textos de ficção que prefere denominar de sagrados.
E, para alegria geral dos trabalhadores rurais, animais, habitantes em geral da região, choveu durante a noite toda. Embora sem tempestades ou ventos ameaçadores, a água caiu constantemente. Amanheceu nublado, fresco, entre garoas ocasionais. As nuvens cobriam a extensão superior da Serra do Talhado, deixando tudo cinzento e úmido.
Embarquei em jejum no ônibus para Porteirinha. Desci na rodoviária a tempo de pegar o segundo ônibus para Montes Claros. Só na parada em Janaúba comprei algo para beber e ajudar a empurrar as bolachas secas.
Na segunda metade do trajeto as nuvens adensaram e voltou a chover firme.
Desembarquei na rodoviária de Montes Claros depois de ultrapassar a lentidão do trânsito central da cidade. Esperei por mais de duas horas e meia a partida do ônibus para Botumirim.
Depois de cruzar lentamente Montes Claros, pegar mais passageiros em ponto ainda na zona urbana, finalmente o veículo entrou na perigosa rodovia BR-251, em trecho de serra, sinuosa e estreita, passando por Francisco Sá. O ônibus acessou estrada local para Botumirim, os primeiros vinte quilômetros de chão, margeados pela monocultura de eucalipto, o deserto verde espantando a flora e a fauna, sugando e secando nascentes e o lençol freático. As serras rochosas apareceram mais próximas à chegada, já em trecho asfaltado recentemente. A estrada passou por Adão Colares, no alto do Espinhaço, justamente no momento em que o por do sol sanguinolento dava espetáculos no horizonte.
Entre conversas divertidas com os poucos passageiros e o cobrador, o trajeto até que passou rápido. Uma senhora embriagada, o normal dela segundo a maioria, discursava frases sem nexo, alternadas com juras de ter parado de beber. Uns davam linha ao palavrório, outros riam ou olhavam a paisagem na janela.
Desembarquei no centro elevado de Botumirim ao anoitecer, praticamente em frente ao hotel, cuja sacada do quarto dava face ao calçadão pobre de árvores e ao pequeno palco do lado direito.
Sem banho, saí para jantar vestindo a malha a fim de me proteger do frio serrano. E imediatamente concluí que o cobertor grosso e o edredom do quarto não eram peças de decoração. Mesmo com o frio, grupos de amigos, se reuniam em bares ou ao ar livre para prosear, beber umas e outras, passar o tempo.
Terminei o livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. E retirei do fundo da mochila o próximo da lista, História da Amazônia, de Márcio Souza.
Amanheceu nublado com a neblina cobrindo a serra. O povo agasalhado se encolhia pelas ruas. Mas a visão dos paredões rochosos e da crista das serras, após a dissipação da cerração, me animou para explorações a pé.
Subi a rua do hotel, passei em frente à igreja erguida no alto da colina, em frente à praça minúscula e sem graça. Logo o calçamento deu lugar à estradinha de terra. O caminho era circundado por imponentes serras escarpadas, cortadas por vales profundos e férteis.
Em pouco tempo avistei a cachoeira no fundo do vale, de onde corriam fios esbranquiçados da água pela parede rochosa. E cachorros, muitos cachorros, vindos de casas mais afastadas, atacaram aos montes, latindo, rosnando, uivando histericamente. Atirei pedras no mais assanhado. Os danados se afastaram um pouco, mantendo os latidos, rosnados, uivos, sem parar um segundo. Dei de frente a cerca com cancela flexível, de arame e paus horizontais. Não avistei um ser humano sequer para confirmar o caminho ou me liberar o acesso.
Peguei ramal morro acima. O caminho subiu bem, fornecendo vista privilegiada da cidade lá embaixo e das montanhas ao redor. Lá no alto, sob o vento frio, a estrada mergulhou rumo ao vale de São Domingos. Vale fértil, belíssimo, ocupado por casinhas esparsas, plantações, palmeiras e coqueiros, protegido de ambos os lados pelas escarpas acinzentadas da Serra Geral. De ser humano, apenas um cavaleiro com quem cruzei no sentido oposto.
Notei as pernas das calças cheias de pontinhos claros em contraste com o escuro do tecido. Grãos de areia, carrapichos, ou outro tipo de vegetação aderente? Mas areia, carrapicho ou afins, não se movimentam sozinhos. Eram dezenas, centenas de carrapatos. Chacoalhei, bati com as mãos, esfreguei. Retirei os restantes e os esmaguei com as unhas, pelo menos os que consegui identificar.
À tarde, andei para os lados do cemitério de Botumirim, de onde saía estrada em direção ao lago artificial formado pelas águas do rio Jequitinhonha para a hidrelétrica de Irapé. No caminho cruzei com mais um daqueles deploráveis conjuntos habitacionais, chamados cinicamente de populares. Não passavam de amontoado de cubículos claustrofóbicos colados uns nos outros, com janelas e portas minúsculas. Programas habitacionais que viram moeda eleitoral, mas purgatórios para as vítimas que neles eram obrigados a sobreviver.
Sentei em frente ao pesado balcão da venda ao lado do hotel no final da tarde para prosear e bebericar. Branquinha, artesanal, descansada em vasilhames neutros, a saborosa cachaça descia macia, sem queimar. O comerciante comprara mil e quinhentos litros daquele néctar divino, compartilhando-a com os mais chegados, eu entre eles. O prazer de apreciá-la crescia junto às conversas sobre tudo e todos, levadas descontraidamente, sem pressa, sem objetivo, sem intenções. Até o vereador apareceu, embora os temas políticos raramente viessem à baila. Apenas me respondeu que havia somente duas sessões por mês na câmara de vereadores de Botumirim.
Enquanto o papo e os goles corriam soltos, clientes picados apareciam no balcão, procurando isso ou aquilo. A maioria pendurava a conta nas famosas cadernetas, no caso em cadernos em espiral. O comerciante garantiu que eles quitariam as dívidas em um, dois, três, seis meses, ou mais. Preocupações? Nem de longe! E enchia o copo, pois a garganta secava com a conversa emendada.
Circulei levemente pelas ruas quase vazias da cidade. Um ou outro bar com meia dúzia de fregueses. E o frio apertando.
Amanheceu sob um céu baixo, cinzento, garoando, molhando ruas e calçadas. As montanhas se escondiam parcialmente pela neblina.
Mas nesse frio úmido do amanhecer, quem se pôs a trabalhar primeiro nas ruas daquela cidade mineira? Os paraibanos. O grupo que veio de caminhão estendeu os produtos à venda pela calçada, bancadas, ou pendurados na própria carroceria do caminhão. E todos de bermudas e camiseta, parecendo não sentir o frio matinal da Serra Geral.
Parti para explorar os altos da serra. Na curva elevada da estradinha de terra, peguei a trilha logo após a cancela com mata-burro.
Antes de começar a subida intensa, centenas de minúsculos carrapatos de cor clara saltaram para as pernas de minhas calças, na altura dos tornozelos. Novamente bati, esfreguei, expulsei pontinha por pontinha, semelhante a grãos de areia. Uns conseguiram me driblar, fazendo festa na minha pele, entre coceiras e pequenas feridas.
A trilha passou sob uma das escarpas rochosas da serra e começou a subir sem dó nem piedade. Margeou lapa estreita e profunda, com areia revolvida nas imediações. À medida que ascendia no relevo, o vale de São Domingos se descortinava à esquerda, em visão longitudinal, diversa do dia anterior.
Alcancei o primeiro patamar, sobre solo arenoso entre blocos de rocha, coberto por vegetação de altitude. A trilha ladeou nascente fresca com água pingando dentro de gruta esverdeada e escura. Em nova subida, atingi o patamar superior da serra, a mesma que servia de paredão ao vale do São Domingos.
O vento e o frio castigavam. A trilha se tornou vereda estreita. Surgiram inúmeros olhos d’água, minadouros. Flores minúsculas de coloração variada brotavam esparsamente, ao lado de formações rochosas inusitadas, mandacarus, areais, vegetação arbustiva em leves aclives.
Me deparei com amplidão desolada, justamente o início das infinitas campinas verdejantes. Havia menos rochas, menos vegetação de porte, apenas o verde chapado a perder de vista.
O frio, o vento, a garoa intermitente, provocavam perdas de temperatura no corpo. Sem maiores paradas para não esfriar ainda mais, voltei pelo mesmo caminho da ida, atento para não me perder em campo repleto de veredas de animais. Nos areais conferia o rumo pelas marcas da minha bota em sentido contrário. Redobrei a atenção nos trechos mais sujeitos a carrapatos.
Encontrei vaqueiros montados a cavalo, indo ou vindo da conferência de rebanhos soltos. Faziam questão de desmontar e me cumprimentar com apertos de mão e prosa ligeira.
As roupas que eu lavara completavam quarenta e oito horas ainda úmidas, mesmo com o solzinho tímido das tardes, em cujos momentos eu as pendurava na grade da janela do quarto.
Embora formada por ruazinhas estreitas em ladeiras, a igreja Matriz no topo da colina, rodeada de serras escarpadas e imponentes, a cidadezinha de Botumirim, com mais de sete mil habitantes, carecia de beleza, charme, interesse arquitetônico. A maioria das construções, moderna e sem personalidade. Raras as antigas e atraentes, muitas delas desfiguradas. Não oferecia sequer uma praça decente e digna do nome. Os pontos de lazer mostravam falta de carinho e desprezo das administrações públicas. A população, aparentemente apática e indiferente. Ainda bem que abundavam hospitalidade, acolhimento, calor humano, simpatia do povo.
O armazém ao lado do hotel era legítimo representante das antigas casas comerciais de décadas ou séculos atrás. Ali se encontrava de tudo. Comida fresca ou industrializada, artigos de quitanda, bebidas, alcoólicas ou não, laticínios refrigerados, artigos eletrônicos e elétricos, ferramentas, itens de papelaria, farmácia, bicicletas, sapataria e afins, roupas e tecidos, armarinho, miudezas, entre outros milhares de opções. Nem sei como se controlava o estoque, a validade dos artigos perecíveis, a localização nas dezenas de extensas e escuras prateleiras, os preços. E com atendimento exclusivamente no balcão, no estilo das antigas vendas mesmo.
Mas, porém, contudo, todavia, a cachaça artesanal, purinha, branquinha, vinda do fundo do armazém, bebericada infalivelmente após o anoitecer, configurava ritual imperdível, pela degustação daquela preciosidade, pelas companhias, pela prosa solta e descompromissada. A depender de quem parava em frente ao balcão pesado, os temas variavam vertiginosamente. Entre tantos, os recentes tremores de terra em Montes Claros, combate às saúvas nas monoculturas de eucalipto, piadas e gozações, como se preparar mocó ensopado, origem, distinções e qualidade das cachaças regionais, passeios ao Rio do Peixe, a hidrelétrica de Irapé, costumes de ontem e de hoje.
Amanheceu ainda mais nublado, frio e úmido. Não se via nada das montanhas, inteiramente cobertas pela neblina compacta. Ruas e calçadas, molhadas e desertas, apontavam para um domingo morto, triste, soturno.
Vi a manhã passar dentro do quarto, sob o cobertor, lendo capítulos da História da Amazônia, de Márcio Souza. Alternava os registros escritos de minhas sensações e impressões com olhadelas àquela paisagem que lembrou a vila de Paranapiacaba, no trecho paulista da Serra do Mar. Neblina, umidade, frio, ruas desertas, cortadas por uma ou duas pessoas apressadas, recurvadas, encolhidas, às vezes cochichando frases curtas, fugindo da garoa fina que teimava em impregnar tudo e todos.
À tarde, circulei sem pretensões pelas ladeiras da cidade. Ainda menos gente que durante a manhã. E voltou a chover. Por mais que me esforçasse, não reprimi o sono debaixo do cobertor quentinho da cama do hotel. E a tarde trouxe mais neblina baixa, cobrindo ruas, casas, montanhas. Absolutamente ninguém pelas ruas. Muito menos eu.
continua...

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Norte de Minas-6 (parte 1/5)


O norte de Minas Gerais ainda ficara na minha mente, conforme as frases finais dos relatos da última viagem àquela região. Faltaram destinos a explorar e vontade jamais faltou para percorrê-los.
Embarquei no começo de maio para Monte Azul. O ônibus da empresa Gontijo, que monopoliza as linhas para o norte de Minas Gerais e várias cidades do nordeste do Brasil, saiu quase vazio. A parada noturna na sempre terrível garagem da empresa na periferia de Belo Horizonte não poderia faltar. Usei apenas o banheiro e olhe lá.
Amanheceu entre Porteirinha e Mato Verde sob um céu cortado por nuvens ameaçadoras e restos de lua.
No restaurante da praça da Matriz de Monte Azul, escolhi mesa recuada e protegida do vento da noite fria. Devorei picanha fatiada, acompanhada de mandioca cozida, farofa e vinagrete picante. O atendimento pelo próprio dono do estabelecimento, me tratando de doutor para lá, doutor para cá, me situou no norte de Minas Gerais.
Circulei pelas ruas escuras e desertas para auxiliar na digestão. O vento frio se acentuava quanto mais eu subia de volta ao hotel.
Pela manhã, botei os pés na estradinha de chão em suave declive. Ao fundo, a linha de montanhas pertencentes a Serra Geral.
Casas de plantações esparsas se dispunham em ambos os lados do caminho que, entre sobes e desces, avançava na direção das montanhas. Os moradores, em atividades nas roças e mangas para criação de animais, dificilmente eram vistos. As habitações permaneciam vazias e fechadas.
Cruzei três ou quatro cursos d’água, todos secos, embora num deles houvesse sistema de captação de água subterrânea. Cisternas de vários tipos e tamanhos apareciam próximas às moradias.
O visual das montanhas, composto de escarpas rochosas, encantava mais à medida que eu me aproximava das encostas. Vales profundos e férteis se ocupavam de casinhas e roças. Próximo aos paredões rochosos, senti aroma de café e ruídos de grãos sendo espalhados para secar ou torrar.
As poucas pessoas com quem cruzei acenavam e sorriam. Certamente eu seria bem recebido em visitas para uma prosa, um gole de café ou de pinga, um salgadinho ou docinho regional. Talvez em dias ou horários que os encontrasse em casa.
Encerrei a caminhada bem ao lado do paredão rochoso, entre vegetação rala, seca, espinhosa. Do alto, panorama exuberante dos vales abaixo e de parte das distantes construções de Monte Azul.
Cinco horas depois da partida eu retornava à cidade. Sentei no bar tocado pela mãe do dono do restaurante da noite anterior. Detonei em segundos um litro e meio de água, sem me sentir saciado. O silêncio das ruas naquele começo de tarde indicava que Monte Azul ainda não encerrara a sesta sagrada.
E fiquei o resto da tarde no quarto, sob a iluminação natural vinda do janelão. Reli dezenas de páginas de Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, autor do estupendo Não És Tu, Brasil. Ambos os livros mostram a mesma naturalidade da escrita, o mesmo vigor das frases, a mesma contundência no resultado final.
Repeti o restaurante no jantar, cuja seleção musical mantinha o gênero da virada da década de 1960 para a de 1970. Predominavam as canções que douraram os bailes mela-cueca, com destaque para o hino daqueles tempos, Je T’aime, quando os casais atingiam o píncaro da glória, se agarrando, se esfregando, ou o que mais aqueles tempos conservadores e moralistas permitissem aos dançantes.
O que restou de construções antigas em Monte Azul se localizava abaixo do centro, além do leito seco do rio Tremedal. Entre as casas ainda não demolidas, testemunhos dos começos de século XX, exibindo platibandas modestas, abrigando moradores pobres ou quase isso.
E era nessa parte da cidade que os trilhos da ferrovia cortavam o terreno de norte a sul. Somente composições de carga circulavam. Estação de linhas retas, galpões abandonados, mais composições velhas, enferrujadas e também abandonadas. Do lado oposto da ferrovia, casebres e barracos precários erguidos em terrenos ondulados, cobertos por vegetação seca e acastanhada.
Permaneci sentado horas e horas no portal da pequena capela na entrada da cidade, sob a sombra refrescante e ventilada, bem em frente à BR-122, apreciando o movimento leve dos veículos e a linha de montanhas da Serra Geral mais adiante.
Enquanto eu utilizava o computador da recepção do hotel, gentilmente liberado pelo funcionário, chegou uma nova hóspede. Cinquentona, expressão autoritária, sorrisos mal ensaiados. Na camiseta, em destaque pelas letras garrafais, balelas do fundamentalismo religioso. O escravo que a acompanhava carregou a volumosa e pesada bagagem até o quarto. E a dita cuja ficaria na cidade por dois meses. Dois meses cooptando trouxas, domando-os a cooptar mais trouxas, os chamados fiéis, aumentando o faturamento da empresa que ela representava. O comércio da fé alheia lançava os tentáculos sobre a população.
Ao redor da praça da Matriz, o desfile de carros e roupas cresceu naquela noite. As mulheres, acompanhadas dos namorados ou maridos, vestiam modelos escolhidos a dedo. Do carro ao interior do restaurante, andavam sem olhar para ninguém, comumente de cabeça baixa. O macho, porém, erguia a cabeça, observando e avaliando, tudo e todos.
Embarquei de manhã em ônibus para Porteirinha. Do lado da rodovia se erguia o espigão da Serra Geral.
Do terminal rodoviário, partiria um ônibus para Serranópolis de Minas. E o motorista da linha seria o único a me garantir sobre a existência de hospedagem na cidadezinha. Dito e feito. O asfalto em bom estado me deixou no centro de Serranópolis de Minas, cidadezinha de menos de quatro mil habitantes.
Caminhei até a pensão improvisada. A porta estava fechada, as luzes apagadas, nenhum sinal de vida. Fiquei esperando e batendo papo com o comerciante da loja ao lado.
A nora da dona apareceu e me levou até os interiores da casa. Eram seis quartos com apenas um banheiro coletivo. Escolhi um a esmo e larguei a mochila encostada na parede. E esperei a dona a fim de acertas preços e condições.
Chegaram dois topógrafos a trabalho na região. Ficaram na mesma que eu.
A dona só apareceu ao anoitecer. Embriagada e esgotada da feijoada na zona rural, ela mal comentou dos valores e condições da hospedagem.
No restaurante da única praça da cidade, arrombei o apetite já escancarado com goles de cachaça artesanal, branquinha, purinha, vinda dos alambiques da região. Os topógrafos e eu caímos de cabeça em refeição caseira, na base de carne de porco e de boi, ovo frito, abóbora, arroz, feijão, alface. Ainda cedo da noite, a dona, a mesma da pensão, alegando cansaço, nos implorou para sairmos e fechar o estabelecimento.
O movimento da praça era pequeno, os preparativos da missa ainda lentos. Havia o leve vaivém dos moradores na praça, o silêncio absoluto nas demais partes da cidade.
Eu pendurara a toalha úmida no varal do quintal da pensão. Mas alguém fechara o acesso àquela parte da casa. Meu quarto possuía grade na janela. Me lembrei de outro quarto vago, também com janelas, mas sem grades. Escalei a janela e me joguei do outro lado, no corredor. Alcancei o quintal e a toalha tão desejada. Para pular a janela no sentido contrário foi mais difícil em razão do maior desnível. Enfiei a cabeça para dentro e dei o impulso. Amorteci a queda no colchão da cama. Me soltei lentamente para não capotar ou me espatifar no chão. Toalha recuperada.
Os sons da praça não afetavam o quarto, garantindo o silêncio mais que bem-vindo.
Bem que sentira cheiro de mofo azedado no quarto. Imaginei que, por estar fechado havia dias, pela ausência de luz e ventilação, velhos odores tivessem se concentrado. Espiei debaixo da cama. Havia pedaços de plástico, um copo amassado, outro contendo líquido amarelado. Era urina de sei lá quantos dias e noites. Derramei o líquido na privada do banheiro coletivo e joguei o copo no lixo. Esparramei água limpa no piso do quarto. Passei o rodo e me dei por satisfeito. Não haveria serviço de quarto naquele nobre hotel. Nem sequer ficava qualquer funcionário por ali.
Dei uma volta matinal pelo mercado e feira semanal, alegre e discreto. Dezenas de ônibus despejavam os oriundos das comunidades rurais para vender e comprar. Aproveitei para perambular entre as barracas e fazer hora enquanto o café da manhã não era servido no restaurante da praça.
O café da manhã veio composto de uma travessa de biscoitos de polvilho, dois pães de queijo, café e leite, ambos já adoçados. E nada mais foi servido.
Pus nos bolsos bolachas e barras de cereais antes de partir para caminhada a Serra do Talhado e ao vale do rio Mosquito. Apesar de andar contra a luz do sol, impressionava a imagem dos paredões rochosos e do vale estreito e profundo mais adiante.
A estradinha se acidentava, cruzava mata-burros, se aproximando da serra. Acessei a entrada do parque estadual da Serra Nova, a partir da qual era proibida a circulação de carros, motos e afins. A área de lazer da entrada, composta por sombras pobres, lago artificial desprovido de beleza e quedas d’água, também artificiais, decepcionariam os olhares minimamente exigentes. As regras socioambientais, contra veículos, som alto, lixo, garantiam mais conservação juntamente, assim eu esperava, com a participação ativa da comunidade.
Depois da área de lazer, vale do rio Mosquito acima, somente a trilha estreita. Segui por dentro da garganta profunda, ladeada por paredões rochosos altos e íngremes. O ruído gostoso das corredeiras do rio relaxava, mesmo sem formarem quedas d’água significativas. Passei por duas imagens de santa, guardadas dentro de grutas gradeadas. Na margem oposta, discreto cruzeiro se erguia sobre a plataforma rochosa.
Muita sede ao voltar à cidade, mas nada de fome. Fora uns poucos jogando e bebendo num bar da praça, as ruas mergulhavam em profundo silêncio naquela tarde quente de domingo.
Comi feito animal no jantar servido antes de escurecer. A missa na igreja matriz, bem em frente ao restaurante, sequer iniciara. Arroz com pequi, feijão, frango ensopado, carne de porco frito, batatas cozidas, salada de tomates, forraram meu estômago sem almoço. E me hidratei bastante com o refrigerante de Mate-Couro.
Assisti às movimentações para o início da missa de domingo. Coroinhas, anjinhos e anjinhas acompanhavam a entrada do recém-empossado padre, pernambucano, na pequena igreja. Em evento religioso, as mulheres, de todas as idades, vestiam a melhor roupa. As mais jovens punham modelos da moda, se produziam dos pés à cabeça, se equilibrando em sandálias altíssimas, quase a noventa graus do chão.
Consegui a proeza de extrair dois ovos fritos e dois pãezinhos durante o café da manhã. O resto, porém, veio igual à manhã anterior.
Reservei o dia em horas de bate-papo e fotos com os funcionários do Instituto Estadual de Florestas. Um sessentão, lendário amante da natureza e das serras, se juntou ao grupo. A prosa parecia não ter fim, tal a quantidade e a qualidade das informações sobre os ecossistemas pertencentes ao parque estadual da Serra Nova. As formações rochosas inusitadas, a fauna, a flora, as pinturas rupestres, as águas, mas também os problemas como queimadas propositais nos campos para formação de capim para gado.
Serranópolis de Minas, mesmo em dia útil, permanecia calma e silenciosa. Após o jantar cedo, a praça da Matriz estava completamente vazia.
Engoli o café da manhã e peguei carona em direção ao povoado aos pés da Serra Geral, bem de frente às quedas da Cachoeira do Serrado. Lá subi na garupa da moto até o início da subida à segunda queda da cachoeira.
Pegamos trilha exageradamente íngreme, entre muitas pedras, areia, raízes, dezenas de canos captando água das alturas para abastecer as comunidades rurais próximas. Atravessamos aos pulos trechos recheados de formigas. As partes mais verticais requeriam maiores cuidados, exigindo bastante das pernas, braços e mãos, nos momentos de apoio ou alavanca para os saltos.
A visão tanto do vale abaixo como dos paredões de ambos os lados da garganta estreita encantava os olhos, superando o cansaço, o calor, o suor. À medida que surgiam as primeiras imagens da queda superior, os ânimos iam às alturas, afastando o desconforto ao longo do trecho de capim-gordura, fechado, medindo mais de dois metros de altura.
Contemplamos o visual da queda d’água, do pequeno poço, dos paredões úmidos e cobertos de vegetação, do vale estreito que se alargava morro abaixo. Pulamos de pedra em pedra para apreciar tudo de diferentes ângulos.
Na parte baixa, caminhamos até a queda principal da Cachoeira do Serrado sobre poços mais amplos e águas mais convidativas.
Saímos da área do parque rumo ao ponto de lazer chamado Riacho Doce, às margens do mesmo rio Serrado. Bastante frequentado nos finais de semana e feriadões, o local carecia de beleza, expondo lixo e degradação ambiental. Naquele exato momento chegava um casal rumo a sexo ardente na beira do rio, em plena tarde de terça-feira útil. Ao nos verem, a menina abaixou a cabeça e olhou de lado, enquanto o rapaz sorriu amarelo.
Reencontramos outros colegas em bar de comes e bebes da zona rural. Tomei duas doses generosas de cachaça artesanal, branquinha, entre goles de água para repor os líquidos perdidos na empreitada da Cachoeira do Serrado. Relaxamos entre conversas, piadas, causos, risadas, prosa solta de mesa de boteco.
continua...