quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Norte de Minas-6 (parte 2/5)

...continuação
Na volta a Serranópolis de Minas, no veículo do prestativo agente ambiental a serviço no parque estadual da Serra Nova, debatemos as queimadas criminosas, a criação de gado, a impunidade às agressões ambientais. E o processo de implantação e planejamento socioambiental, ambos em andamento naquela unidade de conservação de quase cinquenta mil hectares, mas com apenas doze funcionários.
Antes do jantar, tive tempo de degustar uma dose da cachaça artesanal no comércio ao lado da pensão, cujo dono vestia peruca pretíssima, inconfundível a quilômetros de distância. Perucas tão escandalosamente óbvias somente as das judias fundamentalistas do bairro de Higienópolis em São Paulo. Degustei a segunda dose da branquinha no próprio restaurante da praça, como antessala ao lauto jantar. Pedia um ovo frito e vinham dois ovos fritos. Pedia dois pedaços de carne e vinham cinco. E assim por diante. Acho que a dona me achou fraco e raquítico.
Na mesa do restaurante, conversei com a jovem sentada à minha frente. Magérrima, cheia de bexigas pelo rosto, deprimida, vestindo saia comprida e blusa de mangas longas em plena noite quente. Sofria intermináveis dores de cabeça. Era escrava de uma dessas empresas lucrativas em cima da fé dos outros, mais conhecidas como evangélicas. Ela não falava coisa com coisa, se esquivava de minhas perguntas, olhava obsessivamente para os lados, sempre com expressão desconfiada. Talvez aterrorizada com a possível visita do capeta. Mais uma ovelhinha de rebanho em crise.
Outra ovelha de rebanho era um operador de máquina de terraplanagem. Sempre vestindo camisetas com dizeres fundamentalistas, o indivíduo se recusava a conversar com a gentalha, grupo ao qual me incluiu tão logo notou eu pedindo pinga antes do jantar. Exibindo expressão de pedra, o tal vegetava escondido atrás de textos de ficção que prefere denominar de sagrados.
E, para alegria geral dos trabalhadores rurais, animais, habitantes em geral da região, choveu durante a noite toda. Embora sem tempestades ou ventos ameaçadores, a água caiu constantemente. Amanheceu nublado, fresco, entre garoas ocasionais. As nuvens cobriam a extensão superior da Serra do Talhado, deixando tudo cinzento e úmido.
Embarquei em jejum no ônibus para Porteirinha. Desci na rodoviária a tempo de pegar o segundo ônibus para Montes Claros. Só na parada em Janaúba comprei algo para beber e ajudar a empurrar as bolachas secas.
Na segunda metade do trajeto as nuvens adensaram e voltou a chover firme.
Desembarquei na rodoviária de Montes Claros depois de ultrapassar a lentidão do trânsito central da cidade. Esperei por mais de duas horas e meia a partida do ônibus para Botumirim.
Depois de cruzar lentamente Montes Claros, pegar mais passageiros em ponto ainda na zona urbana, finalmente o veículo entrou na perigosa rodovia BR-251, em trecho de serra, sinuosa e estreita, passando por Francisco Sá. O ônibus acessou estrada local para Botumirim, os primeiros vinte quilômetros de chão, margeados pela monocultura de eucalipto, o deserto verde espantando a flora e a fauna, sugando e secando nascentes e o lençol freático. As serras rochosas apareceram mais próximas à chegada, já em trecho asfaltado recentemente. A estrada passou por Adão Colares, no alto do Espinhaço, justamente no momento em que o por do sol sanguinolento dava espetáculos no horizonte.
Entre conversas divertidas com os poucos passageiros e o cobrador, o trajeto até que passou rápido. Uma senhora embriagada, o normal dela segundo a maioria, discursava frases sem nexo, alternadas com juras de ter parado de beber. Uns davam linha ao palavrório, outros riam ou olhavam a paisagem na janela.
Desembarquei no centro elevado de Botumirim ao anoitecer, praticamente em frente ao hotel, cuja sacada do quarto dava face ao calçadão pobre de árvores e ao pequeno palco do lado direito.
Sem banho, saí para jantar vestindo a malha a fim de me proteger do frio serrano. E imediatamente concluí que o cobertor grosso e o edredom do quarto não eram peças de decoração. Mesmo com o frio, grupos de amigos, se reuniam em bares ou ao ar livre para prosear, beber umas e outras, passar o tempo.
Terminei o livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. E retirei do fundo da mochila o próximo da lista, História da Amazônia, de Márcio Souza.
Amanheceu nublado com a neblina cobrindo a serra. O povo agasalhado se encolhia pelas ruas. Mas a visão dos paredões rochosos e da crista das serras, após a dissipação da cerração, me animou para explorações a pé.
Subi a rua do hotel, passei em frente à igreja erguida no alto da colina, em frente à praça minúscula e sem graça. Logo o calçamento deu lugar à estradinha de terra. O caminho era circundado por imponentes serras escarpadas, cortadas por vales profundos e férteis.
Em pouco tempo avistei a cachoeira no fundo do vale, de onde corriam fios esbranquiçados da água pela parede rochosa. E cachorros, muitos cachorros, vindos de casas mais afastadas, atacaram aos montes, latindo, rosnando, uivando histericamente. Atirei pedras no mais assanhado. Os danados se afastaram um pouco, mantendo os latidos, rosnados, uivos, sem parar um segundo. Dei de frente a cerca com cancela flexível, de arame e paus horizontais. Não avistei um ser humano sequer para confirmar o caminho ou me liberar o acesso.
Peguei ramal morro acima. O caminho subiu bem, fornecendo vista privilegiada da cidade lá embaixo e das montanhas ao redor. Lá no alto, sob o vento frio, a estrada mergulhou rumo ao vale de São Domingos. Vale fértil, belíssimo, ocupado por casinhas esparsas, plantações, palmeiras e coqueiros, protegido de ambos os lados pelas escarpas acinzentadas da Serra Geral. De ser humano, apenas um cavaleiro com quem cruzei no sentido oposto.
Notei as pernas das calças cheias de pontinhos claros em contraste com o escuro do tecido. Grãos de areia, carrapichos, ou outro tipo de vegetação aderente? Mas areia, carrapicho ou afins, não se movimentam sozinhos. Eram dezenas, centenas de carrapatos. Chacoalhei, bati com as mãos, esfreguei. Retirei os restantes e os esmaguei com as unhas, pelo menos os que consegui identificar.
À tarde, andei para os lados do cemitério de Botumirim, de onde saía estrada em direção ao lago artificial formado pelas águas do rio Jequitinhonha para a hidrelétrica de Irapé. No caminho cruzei com mais um daqueles deploráveis conjuntos habitacionais, chamados cinicamente de populares. Não passavam de amontoado de cubículos claustrofóbicos colados uns nos outros, com janelas e portas minúsculas. Programas habitacionais que viram moeda eleitoral, mas purgatórios para as vítimas que neles eram obrigados a sobreviver.
Sentei em frente ao pesado balcão da venda ao lado do hotel no final da tarde para prosear e bebericar. Branquinha, artesanal, descansada em vasilhames neutros, a saborosa cachaça descia macia, sem queimar. O comerciante comprara mil e quinhentos litros daquele néctar divino, compartilhando-a com os mais chegados, eu entre eles. O prazer de apreciá-la crescia junto às conversas sobre tudo e todos, levadas descontraidamente, sem pressa, sem objetivo, sem intenções. Até o vereador apareceu, embora os temas políticos raramente viessem à baila. Apenas me respondeu que havia somente duas sessões por mês na câmara de vereadores de Botumirim.
Enquanto o papo e os goles corriam soltos, clientes picados apareciam no balcão, procurando isso ou aquilo. A maioria pendurava a conta nas famosas cadernetas, no caso em cadernos em espiral. O comerciante garantiu que eles quitariam as dívidas em um, dois, três, seis meses, ou mais. Preocupações? Nem de longe! E enchia o copo, pois a garganta secava com a conversa emendada.
Circulei levemente pelas ruas quase vazias da cidade. Um ou outro bar com meia dúzia de fregueses. E o frio apertando.
Amanheceu sob um céu baixo, cinzento, garoando, molhando ruas e calçadas. As montanhas se escondiam parcialmente pela neblina.
Mas nesse frio úmido do amanhecer, quem se pôs a trabalhar primeiro nas ruas daquela cidade mineira? Os paraibanos. O grupo que veio de caminhão estendeu os produtos à venda pela calçada, bancadas, ou pendurados na própria carroceria do caminhão. E todos de bermudas e camiseta, parecendo não sentir o frio matinal da Serra Geral.
Parti para explorar os altos da serra. Na curva elevada da estradinha de terra, peguei a trilha logo após a cancela com mata-burro.
Antes de começar a subida intensa, centenas de minúsculos carrapatos de cor clara saltaram para as pernas de minhas calças, na altura dos tornozelos. Novamente bati, esfreguei, expulsei pontinha por pontinha, semelhante a grãos de areia. Uns conseguiram me driblar, fazendo festa na minha pele, entre coceiras e pequenas feridas.
A trilha passou sob uma das escarpas rochosas da serra e começou a subir sem dó nem piedade. Margeou lapa estreita e profunda, com areia revolvida nas imediações. À medida que ascendia no relevo, o vale de São Domingos se descortinava à esquerda, em visão longitudinal, diversa do dia anterior.
Alcancei o primeiro patamar, sobre solo arenoso entre blocos de rocha, coberto por vegetação de altitude. A trilha ladeou nascente fresca com água pingando dentro de gruta esverdeada e escura. Em nova subida, atingi o patamar superior da serra, a mesma que servia de paredão ao vale do São Domingos.
O vento e o frio castigavam. A trilha se tornou vereda estreita. Surgiram inúmeros olhos d’água, minadouros. Flores minúsculas de coloração variada brotavam esparsamente, ao lado de formações rochosas inusitadas, mandacarus, areais, vegetação arbustiva em leves aclives.
Me deparei com amplidão desolada, justamente o início das infinitas campinas verdejantes. Havia menos rochas, menos vegetação de porte, apenas o verde chapado a perder de vista.
O frio, o vento, a garoa intermitente, provocavam perdas de temperatura no corpo. Sem maiores paradas para não esfriar ainda mais, voltei pelo mesmo caminho da ida, atento para não me perder em campo repleto de veredas de animais. Nos areais conferia o rumo pelas marcas da minha bota em sentido contrário. Redobrei a atenção nos trechos mais sujeitos a carrapatos.
Encontrei vaqueiros montados a cavalo, indo ou vindo da conferência de rebanhos soltos. Faziam questão de desmontar e me cumprimentar com apertos de mão e prosa ligeira.
As roupas que eu lavara completavam quarenta e oito horas ainda úmidas, mesmo com o solzinho tímido das tardes, em cujos momentos eu as pendurava na grade da janela do quarto.
Embora formada por ruazinhas estreitas em ladeiras, a igreja Matriz no topo da colina, rodeada de serras escarpadas e imponentes, a cidadezinha de Botumirim, com mais de sete mil habitantes, carecia de beleza, charme, interesse arquitetônico. A maioria das construções, moderna e sem personalidade. Raras as antigas e atraentes, muitas delas desfiguradas. Não oferecia sequer uma praça decente e digna do nome. Os pontos de lazer mostravam falta de carinho e desprezo das administrações públicas. A população, aparentemente apática e indiferente. Ainda bem que abundavam hospitalidade, acolhimento, calor humano, simpatia do povo.
O armazém ao lado do hotel era legítimo representante das antigas casas comerciais de décadas ou séculos atrás. Ali se encontrava de tudo. Comida fresca ou industrializada, artigos de quitanda, bebidas, alcoólicas ou não, laticínios refrigerados, artigos eletrônicos e elétricos, ferramentas, itens de papelaria, farmácia, bicicletas, sapataria e afins, roupas e tecidos, armarinho, miudezas, entre outros milhares de opções. Nem sei como se controlava o estoque, a validade dos artigos perecíveis, a localização nas dezenas de extensas e escuras prateleiras, os preços. E com atendimento exclusivamente no balcão, no estilo das antigas vendas mesmo.
Mas, porém, contudo, todavia, a cachaça artesanal, purinha, branquinha, vinda do fundo do armazém, bebericada infalivelmente após o anoitecer, configurava ritual imperdível, pela degustação daquela preciosidade, pelas companhias, pela prosa solta e descompromissada. A depender de quem parava em frente ao balcão pesado, os temas variavam vertiginosamente. Entre tantos, os recentes tremores de terra em Montes Claros, combate às saúvas nas monoculturas de eucalipto, piadas e gozações, como se preparar mocó ensopado, origem, distinções e qualidade das cachaças regionais, passeios ao Rio do Peixe, a hidrelétrica de Irapé, costumes de ontem e de hoje.
Amanheceu ainda mais nublado, frio e úmido. Não se via nada das montanhas, inteiramente cobertas pela neblina compacta. Ruas e calçadas, molhadas e desertas, apontavam para um domingo morto, triste, soturno.
Vi a manhã passar dentro do quarto, sob o cobertor, lendo capítulos da História da Amazônia, de Márcio Souza. Alternava os registros escritos de minhas sensações e impressões com olhadelas àquela paisagem que lembrou a vila de Paranapiacaba, no trecho paulista da Serra do Mar. Neblina, umidade, frio, ruas desertas, cortadas por uma ou duas pessoas apressadas, recurvadas, encolhidas, às vezes cochichando frases curtas, fugindo da garoa fina que teimava em impregnar tudo e todos.
À tarde, circulei sem pretensões pelas ladeiras da cidade. Ainda menos gente que durante a manhã. E voltou a chover. Por mais que me esforçasse, não reprimi o sono debaixo do cobertor quentinho da cama do hotel. E a tarde trouxe mais neblina baixa, cobrindo ruas, casas, montanhas. Absolutamente ninguém pelas ruas. Muito menos eu.
continua...

4 comentários:

  1. Poxa, o sr sempre com roteiros legais não?Aposto que deve usar ônibus em viagens e a minha dica é http://www.autoviacoes.com.br. Continue as aventuras ! Airton Luppi

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  2. Oi Airton, obrigado pela visita e pelo comentário.
    Raramente viajo de carro ou avião. Prefiro os ônibus, os trens, barcos e navios regulares pelos rios e mares, caminhonetes, etc. Assim mantenho contato com a população e aprendo um pouquinho mais sobre as respectivas culturas.
    Valeu a dica.
    Aguardo seus comentários.
    Abraços!

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  3. Parabéns pelos textos! Especialmente pelo trecho em que relata seus dias em Botumirim, minha cidade natal. Você exprimiu com clareza e, ao mesmo tempo, com bela poesia, as características do povo e da geografia da cidade. Serras e rios fascinantes. Povo acolhedor, apesar de ser tão maltratado pelas administrações (todas) da história do município. Espero um dia poder desfrutar de boas viagens como as suas. Conhecer lugares novos, quase que sem nenhum compromisso, também é uma paixão pra mim. Abraços!

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  4. Olá Guilherme, obrigado pelos comentários, pelos elogios.
    Embora relatos de viagem carreguem o subjetivo, o olhar do viajante que varia sempre, eu procuro ser fiel ao que presenciei, sem inventar ou distorcer nada.
    E vocë pode reparar isso nos demais relatos que publiquei e ainda publicarei neste blog. Já leu os das viagens pelos interiores da Amazönia?
    Torço para que vocë consiga viajar do seu jeito e que depois nos conte como foi.
    Abraços!

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