quinta-feira, 22 de maio de 2014

Paraná e Santa Catarina (parte 4/4)



...continuação
A sede veio a galope. Bebemos bastante água, seguida de mais sede e mais água. Tudo era caro na Ilha do Mel, sobretudo os líquidos. Levamos a do estabelecimento que doeu menos no bolso.
Desprovido de planos para o dia seguinte, optamos por passeio de lancha ao redor da ilha. Depois de voltear a extremidade sul, margear as praias de mar aberto, o farol, o vilarejo de Nova Brasília, paramos na praia da Fortaleza onde se erguia a Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, construída no século XVIII pelos invasores portugueses. Visitamos os interiores, os salões vazios e gradeados, as ameias acima, a fileira de canhões, o topo do morro oferecendo a vista panorâmica do nordeste da ilha.
Ao norte da Ilha do Mel, paramos na Ilha das Peças, onde moradores e turistas se agitavam para os festejos de São Sebastião. Lixo nas areias, águas e caminhos, bêbados caídos, muita gente, nenhuma atração digna de nota. Durante o trágico período da escravidão no Brasil, organizada e financiada durante séculos pelos países invasores da Europa, os africanos sequestrados eram largados ali e depois vendidos como peças, daí o nome da ilha. Fugimos de volta à Ilha do Mel.
Almoçamos no mesmo restaurante simples do dia anterior, atendido informalmente por garçons meio malucos, meio bêbados, meio chapados. A comida farta e saborosa não decepcionou.
A preguiça foi ao infinito em tarde ensolarada e tórrida. Nada de sombra na praia voltada ao poente. Água, muita água para hidratar o organismo e amenizar a sede.
O sol deu espetáculos de luzes e cores antes de se despedir. Por uns momentos esquecemos o calor, o suor pelo corpo, os mosquitos que punham as manguinhas de fora e começavam a atacar, para nos extasiarmos com aquelas imagens de cair o queixo. O sol já havia se escondido atrás das montanhas e no céu acima se formaram discretas faixas radiais e coloridas. O tom de metal fundido imprimia aspecto inesquecível às águas do mar.
Amanheceu novamente com o sol brilhando no céu azul desprovido de nuvens. E, logo pela manhã, quente, muito quente. Pegamos barco de linha ao trapiche de Nova Brasília, o segundo vilarejo da Ilha do Mel.
Nova Brasília, ao contrário de Encantadas, tinha as pousadas, bares, restaurantes, moradias, comércio discreto, voltados para dentro, por entre as trilhas e caminhos. Nada ficava de frente para o mar. O aspecto era de melhor infraestrutura das construções e instalações. E os preços, acompanhando a aparência, maiores, bem maiores que os de Encantadas.
Subimos pela trilha ao Farol das Conchas, de cujos altos tínhamos a vista estupenda de praias de ambos os lados da ilha.
Percorremos o istmo do meio da ilha, que as águas cobriam durante a maré alta em minha visita anterior à ilha. Naquela época, sobre a estreita faixa de areia, casas abandonadas, em ruínas, despencando, desmoronando, arrebentadas pelo avanço do mar. Dezenove anos depois o deslocamento do mar se invertera, o istmo de alargara, a vegetação crescia livremente.
Mergulhamos e nadamos nas águas mansas da praia do Farol, desprovida de qualquer nesga de sombra nas areias.
Conferimos mais uma vez os preços altos dos restaurantes de Nova Brasília, muitos dotados de som ao vivo, mesmo durante os almoços. Pegamos o próximo barco de linha e, sozinhos, apenas eu, ela e o barqueiro, fugimos para a informal praia de Encantadas.
E o calor não arrefecia. Andei cambaleante até o mar e entrei nas águas calmas e mornas. Boiei e nadei bastante. Despencamos nas cadeiras entre banhos refrescantes e reconfortantes na ducha do quintal da pousada. Até pensar cansava.
Saímos para dar voltas somente depois de escurecer, quando começava o discreto movimento noturno na beira do mar, a maioria com lanternas na mão. O céu estreladíssimo impressionava acima. Mas muitos moradores e turistas pareciam nem notar. Preferiam cutucar histericamente os celulares ou deitar os olhares bovinos na direção dos televisores instalados em alguns bares e restaurantes. Outros, mais felizes, se banhavam nas águas escuras do mar.
Mais sol, mais céu azul, mais calor ao novo amanhecer.
Caminhamos lentamente até a belíssima praia do Miguel, através do morro na parte norte da praia do Mar de Fora. Exceto os raros caminhantes em ambos os sentidos, a praia estava praticamente deserta em plena temporada de janeiro. E as areias e as águas, a despeito da ausência de sombras, nos convidavam a ficar e desfrutar. Nenhuma construção, nenhuma moradia, nenhum comércio. Ali permanecemos, contemplando e usufruindo da tranquilidade. Entramos na água transparente, contendo peixinhos ariscos, e nos refrescamos do sol ardente.
Ao bater a sede e a fome, vazamos à nossa velha conhecida praia de Encantadas. Regados a caipirinhas, comemos o farto e saboroso comercial com peixe, acompanhado do curtido, suculento e bem temperado feijão preto. Já nos tornáramos íntimos da casa.
E, para variar, após as caipirinhas e o lauto almoço, bateu aquele bode sob o sol fundindo tudo e todos. Caminhei perpendicular ao mar e caí nas águas mornas e com ondas pequenas. Mas não foi fácil, não. Devido à maré muito baixa, tive que andar mais de cem metros a fim de que o nível das águas alcançasse os meus quadris. Boiei, flutuei, com a cabeça para baixo e prendendo a respiração, para cima e olhando o céu incrivelmente azul.
Anoiteceu nublado com o céu sem indício de estrelas. Caíram oito ou dez pingos de chuva. Mais nada. Os pernilongos e borrachudos se assanharam atacando com mais fervor.
Amanheceu limpo, com céu azul, sol intenso e calor indescritível. Mas não era exatamente isso que buscávamos na Ilha do Mel?
Peguei trilha na extremidade norte da praia do Mar de Fora e subi o morro do Cruzeiro, em cujo topo um oratório a São Francisco de Assis e duas cruzes davam graças à praia do Miguel, à esquerda, e à praia do Mar de Fora, à direita. Paisagem exuberante numa ilha exuberante.
Nas imediações da Gruta de Encantadas, centenas de minúsculos caranguejos recém-nascidos se movimentavam desajeitadamente pelas areias úmidas, dando os primeiros passos independentes.
Mais mergulhos refrescantes diante de ondas bravas. Mais não fazer nada.
Cinzeiros feitos a partir de garrafas plásticas de água mineral e forrados de areia, inúmeros sacos plásticos, azuis ou pretos para diferenciar o lixo orgânico do lixo reciclável, distribuídos nas trilhas, caminhos e praias, garantiam a limpeza e o respeito à natureza por parte de moradores e visitantes. Pouco ou nada se via de lixo jogado fora dos recipientes apropriados. E em plena alta temporada de um janeiro ensolarado! Bem diferente da vizinha e emporcalhada Ilha das Peças, de passado sombrio, também na baía de Paranaguá. Eis um exemplo aos demais destinos turísticos brasileiros.
Noite abafada, mas de céu estrelado. Uma voltinha para cá, outra para lá. Assim encerramos nossa última noite na deslumbrante Ilha do Mel.
Acordamos cedo já sob o calor intenso. Abrimos o café da manhã da pousada. Fechamos tudo e nos despedimos do pessoal.
Barco para Pontal do Sul.
Ônibus para Curitiba, parando em cada ponto para embarque de novos passageiros, do começo do trajeto até atingir a rodovia que liga Paranaguá a Curitiba.
Ônibus ao aeroporto de Curitiba, em frente à estação rodoferroviária em obras, aos trancos e barrancos devido ao motorista afobado.
Avião e voo rápido em assentos desconfortáveis, somente com serviço de líquidos de transnacional estadunidense.
Ônibus comum para o metrô vindo do aeroporto de São Paulo. Raios, relâmpagos, trovões, estouravam no céu enegrecido e com nuvens pesadas a sudeste.
Metrô e caminhada até entrar em casa.
E assim, seis transportes ou nove horas depois, tudo num mesmo dia, naquele final de janeiro, nos deslocamos da repugnante Ilha do Mel à bela, arborizada e humana cidade de São Paulo. Quando é mesmo a próxima viagem?
 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Paraná e Santa Catarina (parte 3/4)


...continuação
No pé da serra atingimos uma sequência de cidades feias e mal cuidadas, invariavelmente construídas ao longo das rodovias vicinais, Lauro Muller, Orleans, Braço do Norte, Rio Fortuna. Mas nada como evitar o tormento rodoviário da infernal BR-101.
Alcançamos a charmosa Santa Rosa de Lima, pequena, ajeitada, simpática. Era hora do almoço e encostamos ao lado de padaria convidativa. Mas fomos vítimas de situação similar às piadas antológicas da Rádio Difusora de Camanducaia exibidas durante o saudoso Show de Rádio, transmitido após as partidas de futebol. A padaria, que vende alimentos, lanches e afins, estava fechada para almoço!
Percorremos o intervalo entre Santa Rosa de Lima e Anitápolis em estrada de chão. Os raros veículos em sentido contrário nos forçavam a nos aproximar do barranco. Apaixonado por estradas de terra, eu não tinha do que reclamar. A paisagem ao redor só gerou alegrias.
Anitápolis chegou, e com ela o asfalto. Em Rancho Queimado nos contentamos com salgados e doces caseiros da padaria. Evitamos a pesada BR-282 e seguimos no rumo norte, até a cidade de Angelina.
Mais puteiros explícitos na beira da estrada, de aspectos óbvios, nas frentes, na iluminação, nos nomes, nas fotos para atraírem clientes. Paranaenses e catarinenses pareciam mais afeitos a esse ramo de atividade que os colegas de outros interiores brasileiros. E irrompiam mais cemitérios com mania de aparecer, bastante chamativos nas encostas.
Novamente estrada de chão entre as cidades de Angelina e Major Gercino. Depois, asfalto até a cidade de São João Batista, em cuja rotatória as confusas sinalizações catarinenses me fizeram errar o acesso a Brusque e cair no inferno rodoviário da BR-101. Demos adeus às estradinhas vicinais, ao pequeno movimento de veículos, ao bucolismo rural, às casinhas de madeira perto de araucárias, hortas familiares, mata atlântica primária. E haja caminhões, carretas, veículos em geral, ultrapassando uns aos outros.
Assustavam de tão feias as cidades pelos quais passávamos. Inúmeros carros com placas da Argentina e do Paraguai viravam à direita e desapareciam nas infindáveis barreiras de altos edifícios na beira do mar. Como pioraram com o tempo os balneários do litoral norte de Santa Catarina!
Da BR-101 até propriamente a cidade de São Francisco do Sul, enfrentamos interminável fila indiana de veículos. Anoitecia. Optamos por hospedagem no centro histórico, não sem antes pechincharmos até o limite.
A chuva caiu com tudo no começo da noite. Arriscamos o restaurante do próprio hotel, completamente vazio. Os preços de tudo eram estratosféricos. Demos o fora.
Corremos até o restaurante na beira da água do canal, cujas obras internas estavam inacabadas, restando material de construção perto das mesas. Os garçons exibiam semblantes cansados e desencorajadores. O prato veio bem servido, mas o sabor desanimaria o mais famintos dos flagelados.  
Servido no amplo e triste salão, o café da manhã do hotel valeu somente pelos iogurtes e cereais. Os uniformes das funcionárias, feios, velhos, puídos, lembrando os de reformatórios, ajudaram a tirar o apetite.
E lá fomos para as praias da ilha, distantes do centro da cidade. Começamos pela praia da Enseada, sem graça, lotada, familiar, voltada para o continente, de ondas fracas. Seguimos à Prainha, de mar aberto, com ondas fortes, cercada de pedras em ambas as extremidades, também cheia de turistas. Mais adiante, praticamente vazia, a extensa Praia Grande, a perder de vista, de mar bravo, areias limpas e desertas. Atrás, as dunas do Parque Estadual Acaraí.
Após rápidos mergulhos, voltamos à urbanizada praia da Enseada para nos hidratar e forrar o bucho. Carros com placas do interior do Paraná e Santa Catarina, e obviamente da Argentina, abundavam nas transversais e paralelas à praia. Loiros e ruivos predominavam nos rostos.
No bar e restaurante instalado na própria avenida da praia, as caipirinhas vieram saborosas, bem temperadas, na base de cachaça branca, como deve ser. O abadejo, ou congro, grelhado e acompanhado de arroz, fritas e salada, chegou farto e com boa aparência, elogiadíssimo pelo garçom e pelo dono. Mas, porém, contudo, todavia, como parecia ser regra nos restaurantes em Santa Catarina, nada tinha gosto de nada. Alho, cebola, temperos em geral, ou mesmo sal, passaram longe do peixe e do arroz. A salada temperada por nós e as fritas acrescidas do sal se tornaram iguarias se comparadas ao peixe insípido.
Perambulamos pelo centro histórico de São Francisco do Sul. Mercado Municipal antigo transformado em área de lazer. Construções da passagem dos séculos XIX para o XX. Vista dos trapiches projetados sobre as águas, a linha do casario antigo erguido na rua frontal, dourado pela luz do entardecer, desenhava imagem digna de registros caprichados.
Antes do anoitecer as nuvens baixas e ameaçadoras cobriram tudo e a chuva caiu com força.
Pela manhã, depois de horas pela BR-101, devolvemos o carro na locadora em Curitiba.
Almoçamos bem e bastante no Mercado Municipal, regado a espumante paranaense para nos refrescarmos do calor curitibano.
E na manhã seguinte finalmente conseguimos descer a Serra da Graciosa na tão famosa, cantada em verso e prosa, viagem de trem. A empresa privada monopolizava o passeio turístico, utilizando a ferrovia da empresa que abocanhou trechos da estatal privatizada a preço de banana durante o regime neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.
As três horas e meia de viagem de Curitiba a Morretes eram realizadas em três classes diferentes de vagões e serviços. Em cada vagão uma guia descrevia a paisagem, a história da ferrovia, dava as explicações necessárias, inclusive apontando, como professora infantil, as cenas e os momentos a serem fotografados.
Entre as falas da guia, uma vendedora oficial oferecia inutilidades da empresa privada ao estilo de camelôs de esquina. A maioria ignorava a tagarela inoportuna e virava o rosto.
Apesar de contar com imagens bastante familiares para os moradores do sudeste brasileiro, a natureza da serra do mar paranaense encantou. As montanhas do maciço do Marumbi, os túneis, cascatas, pontes, precipícios, mata atlântica preservada e colorida de manacás-da-serra, bromélias, araucárias, construções antigas, abandonadas e parcialmente cobertas pela mata.
Ao desembarcarmos em Morretes, praticamente ao nível do mar, a cidade torrava sob o sob do meio do dia. Mas enchia os olhos e a mente pelo bucolismo da arquitetura da virada dos séculos XIX e XX em ambas as margens do rio Nhundiaquara.
E caímos de cabeça no Barreado, o saboroso prato típico da região. Duas caipirinhas bem temperadas com a cachaça artesanal alambicada em Morretes arrombaram o apetite já aberto. A carne desfeita e cozida por horas, soltando molho enriquecedor, a farinha de mandioca posta no prato para ligar e engrossar, o arroz branco, a banana cortada em fatias na hora, compuseram a delícia.
A preguiça preencheu parte da tarde sob as sombras das pracinhas de frente para o rio.
Voltamos de ônibus de linha até a estação rodoferroviária da capital paranaense.
Na manhã seguinte embarcamos de ônibus para o balneário de Pontal do Sul em cujo ponto final nós alcançamos o porto de embarque para a Ilha do Mel.
Desembarcamos na praia de Encantadas, em ilha sem nenhum tipo de veículo motorizado, para alegria de quem ama a natureza e a tranquilidade.
Escolhemos para o almoço o bar e restaurante nas areias da praia. Apesar da caipirinha e da batida de maracujá não virem estupendas, comemos bem o comercial de peixe e camarão acompanhado de arroz, feijão preto, fritas e salada. O ambiente descontraído e levemente bagunçado garantiu o bem-vindo relaxamento físico e mental.
Andamos no rumo da Gruta de Encantadas e da praia do Mar de Fora, ambas de frente ao mar aberto com ondas fortes e águas esverdeadas. Margeei alagadiços habitados por gaviões corpulentos. Subi o morro e avistei a belíssima praia do Miguel, a praia Grande, o farol das Conchas, desenhando cenário colorido sob o céu azul e o intenso sol da tarde. Me banhei na praia do Mar de Fora, de águas límpidas e violentas, formando ondas irregulares e traiçoeiras.
continua...

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Paraná e Santa Catarina (parte 2/4)



...continuação

Subimos a pequena serra a leste de Pomerode a caminho de Timbó, cidadezinha conhecida por abrigar atividades em meio à natureza ao redor. A cidade em si, aplainada, modernizada, com ruas largas, sem um centro com cara de centro, sem arquiteturas dignas de nota, em nada atraía os olhares.
Seguimos em frente até Indaial e pegamos a BR-470, rodovia que corta todo o estado de Santa Catarina, do litoral até a divisa com a Argentina. Tomamos o sentido oeste e nos deparamos com trânsito intenso. Eram filas e mais filas, de automóveis e caminhões.
Nos livramos daquela tortura rodoviária na cidade de Rio do Sul, onde dobramos para sul, avançando novamente em estrada local, sinuosa, tranquila, bucólica, em meio a pequenas propriedades, casinhas de madeira, plantações, araucárias, alguma mata atlântica ainda intacta. Passamos por Aurora, Ituporanga, distritos menores, antes de arriscar restaurante de beira de estrada para encher a pança. Quem nos atendeu foi o filho dos proprietários, adolescente loiro e gorducho. Também, pudera, ele recolhia os restos de refrigerantes que os clientes largavam nas garrafas das mesas, juntava em outras garrafas e bebia tudo depois.
Na cidade de Alfredo Wagner não pudemos evitar outro inferno rodoviário, a BR-282, via ascendente e perigosa, de tráfego pesado, que liga Florianópolis a Lages. Mas por pouco tempo. Em Bom Retiro, escapamos para outra estrada local, no sentido sul. Menos veículos, mais cenas rurais, menos ocupação humana, natureza menos depredada. Avistamos araucárias, mata atlântica, em meio a relevo acidentado, muitas curvas, aclives e declives, casinhas de madeira, hortas familiares.
Entramos em Urubici, cidade que se espalhava ao longo do vale cortado pela avenida principal e por curtas transversais. Fazia um sol agradável e a luz de fim de tarde tingia o cenário de amarelo e laranja.
Jantamos comida de verdade depois de dois dias e meio na base de sanduíches e salgados. E nos hidratamos com o saboroso vinho catarinense produzido a partir de uvas cujos nomes eu jamais ouvira.
O tempo virou radicalmente à noite, com direitos a ventos e chuva.
Mergulhamos de cabeça no bufê farto e variado do café da manhã do hotel.
Um casal quarentão chamou a atenção entre os demais hóspedes. Ela trazia tudo para ele na mesa, que se mantinha sentado, de boné e expressão emburrada, como um menininho mimado e cheio de vontades. E ele pedia mais isso e mais aquilo. Ela praticamente não parava na mesa, ia e vinha do bufê o tempo todo. Nem tinha tempo de comer. As cenas patéticas atingiram o ápice quando ela trouxe um canudo para ele tomar o café com leite. Não sabíamos se riamos ou chorávamos diante daquela cena na qual um adulto, saudável física e mentalmente, recebia tudo na mão e ainda tomava café com leite de canudinho. Ela não parecia reclamar da situação. Fazia tudo correndo e sorrindo. Ao final saíram do salão. Ela, elétrica e sorridente, ele, é claro, de cara fechada.
Percorremos estradas locais impecavelmente conservadas e sinalizadas, cortando pequenas propriedades com casinhas de madeira, entre macieiras, milharais, plantações de tomate, trechos de mata atlântica preservada e muitas araucárias.
A subida íngreme e repleta de curvas ao Parque Nacional de São Joaquim abria cenários naturais belíssimos. No topo do morro, ventava e fazia frio suave. Nuvens se movimentavam com rapidez impressionante, encobrindo e descobrindo as escarpas basálticas. Do alto do Morro da Igreja, quando as nuvens permitiam, podíamos avistar abaixo a Pedra Furada.
Dezenas de motoqueiros, vestido a caráter, também pararam ali. Mas nada ou quase nada da estupenda paisagem eles olhavam. Estavam mais preocupados em olhar as próprias motos, os outros motoqueiros e as motos dos outros motoqueiros. E conversavam sobre as próprias motos, sobre os outros motoqueiros e sobre as motos dos outros motoqueiros. As paisagens por onde eles passavam eram apenas pretexto para adorarem as próprias motos, os outros motoqueiros e as motos dos outros motoqueiros.
Descemos o Morro da Igreja e pegamos novamente a estrada local impecavelmente conservada e sinalizada. Seguimos adiante até outra estradinha, encascalhada e esburacada, umedecida pela chuva da noite anterior.
Subimos acentuadamente até a Serra do Corvo Branco. A estradinha cortava a montanha rochosa compondo uma garganta estreita, extensa e profunda, de quase cem metros de altura. Ao final da garganta, o asfalto voltava, mas mal cabendo um carro e em condições precárias. Em declives e sinuosidades violentas, a estrada ziguezagueava serra abaixo, rumo às cidadezinhas de Grão Pará e Braço do Norte.
As nuvens e a névoa em constante movimento, as garoas finas e ocasionais, forneciam uma atmosfera misteriosa e instigante ao conjunto da Serra do Corvo Branco.
Na beira da estrada asfaltada, impecavelmente conservada e sinalizada, que nos levaria de volta a Urubici, paramos para almoçar em estabelecimento harmoniosamente decorado em madeira. Nos empanturramos de picanha grelhada ao ponto, acompanhada do bufê de saladas e grãos. O senão ficou por conta da caipirinha, aguada, mal temperada, insípida. Mudei para água com gás.
Mas o dia estava longe de terminar.
Pegamos estradinha de terra até a propriedade particular que abrigava o Morro do Campestre. Dali, somente a pé ou de trator, morro acima. No meio da primeira subida acentuada, no entanto, encontrei um carro tracionado empacado na lama. Os turistas ignoraram as advertências dos moradores, se deram mal e tiveram que ser rebocados de trator.
À medida que eu subia o relevo, os vales abaixo se abriam e, naquela tarde nublada, exibiam tons de um verde pálido e esmaecido, demarcando as plantações, as araucárias, a mata nativa, formando um mosaico cortado por cursos d’água. Talvez a ausência da luz direta do sol tenha realçado tão elegantemente essas nuances do verde. Eu parava e me voltava para, não só recuperar a fôlego, mas me deleitar com as imagens.
No topo, a visão de trezentos e sessenta graus de vales, formações rochosas, se destacando uma delas cuja cavidade se abria como um portal. Era local privilegiado para se sentar por horas, relaxar, deixar os pensamentos livres, alinhar as ideias, pensar em tudo, não pensar em nada.
Mas os borrachudos mostraram quem mandava no pedaço. Pontos de sangue apareceram em minhas pernas e braços, acompanhados de coceiras irritantes. Registrei o que tinha para registrar. Peguei o caminho de volta e desci quase sem parar.
À noitinha, uma sopa de legumes com pãezinhos caiu mais que bem para encerrar aquele dia repleto de espetáculos visuais.
Amanheceu nublado e com garoa intermitente.
Comemos a valer no farto café da manhã do hotel. E lá estava o adulto emburrado e mimado, sempre de boné, servido na boquinha pela companheira, feito uma escrava sorridente.
Alguns motoqueiros se hospedaram no mesmo hotel. Um deles, já bem maduro, tinha a cara, o resto de cabelo amarrado atrás, o corpo, sobretudo a barriga, tudo igualzinho ao personagem Wood do cartunista Angeli. Ou seria o Stock?
Rumamos pela estrada asfaltada rumo a São Joaquim. As sinuosidades da rodovia cruzaram relevo serrano entre muito verde, pequenas plantações e criações de animais, araucárias, pinheirais, alguma mata atlântica primária. Placas avermelhadas alertavam para gelo na pista.
Se a paisagem durante o percurso encantou, a cidade de São Joaquim, tão comentada pelo Brasil afora, decepcionou profundamente. Feia, sem personalidade, mal cuidada, sem qualquer atrativo arquitetônico. Talvez o termômetro instalado na praça da insípida Matriz restasse como a única atração aos visitantes, mas somente no inverno.
Na volta a Urubici pegamos o acesso à cachoeira do Avencal por propriedade privada que costumava barrar os visitantes. A trilha nos levou aos pés da escarpa rochosa e da cascata exibindo grande vazão de água ao longo de mais de cem metros de queda. Araucárias e mata atlântica abrigando imensa variedade de plantas e pássaros, pitangueiras e xaxins, uma ou outra aranha arisca sobre as pedras, compuseram o cenário durante a caminhada.
À noite, encontramos apenas um restaurante aberto. Empurramos goela abaixo truta grelhada, insossa, sem tempero, com acompanhamentos também insossos e sem tempero. E era o prato típico da casa. A clientela lançava olhares bovinos para os televisores instalados nos cantos estratégicos. Praticamente nem se conversavam, ingerindo passivamente a dose diária de embrutecimento mental.
Acordamos cedo para o dia que seria longo, cansativo, mas estupendo e deslumbrante descendo a famosa Serra do Rio do Rastro.
Do alto do mirante, logo após cruzarmos a cidadezinha de Bom Jardim da Serra, nos deliciamos com vista panorâmica da serra, as escarpas rochosas, a estrada ziguezagueando violentamente montanha abaixo, os vales íngremes, o verde intenso das encostas, o verde azulado do horizonte nas partes baixas na direção do litoral catarinense.
Iniciamos a descida abrupta pela estrada radicalmente sinuosa. Sequências intermináveis de curvas em U, em S, ou ainda mais fechadas. Acostamento, nem pensar.
Ocasionalmente os caminhões mais longos se viam obrigadas a invadir a pista contrária. Em uma curva de mais de cento e oitenta graus me deparei com uma carreta que subia tentando contornar a absurda sinuosidade. No momento em que eu iniciava a curva, a carreta abriu, invadiu a pista descendente, a que eu estava, e se manteve assim, em ritmo lento e constante. Deixei o caminhoneiro trafegar subindo na pista descendente, enquanto me desviei para a esquerda e desci a curva pela pista ascendente. Ambos na contramão das respectivas faixas.
Ninguém ultrapassava ninguém. Fora sustos passageiros, a emoção e o visual das curvas, das escarpas, das encostas, eventuais quedas d’água, muito verde, flora abundante e variada, as imagens vista de cima e de baixo, garantiam o prazer de percorrer um dos caminhos mais espetaculares do Brasil.
continua...