quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Três Anos no Sertão da Bahia (parte 6/6)

...continuação

AS FÉRIAS
 
Em quase três anos de trabalho e diversão na Bahia, eu só tirei férias de verdade uma vez, além de uma pequena folga de fim de ano. A desvantagem de se trabalhar longe da família e da própria cidade natal é que, durante as férias, o destino da viagem será sempre lá.

Fui de ônibus, carregando as amostras de minerais e rochas, as antigas moradas dos escorpiões do meu quarto no alojamento. Permaneci em São Paulo a maior parte do tempo, sobrando poucos dias para dar um pulo no Rio de Janeiro e rever colegas da universidade. Mas valeu a pena. Senti que adorava a cidade de São Paulo, apesar de toda a feiúra, falta de cor, falta de verde, falta de humanismo.

Escolhera o mês de agosto para a viagem, justamente a época fria e seca em São Paulo, quando abundam no ar a poluição e a enorme quantidade de doenças em suspensão. Não deu outra. Peguei uma gripe de matar. Creio que em minha última semana de férias, ia da cama ao sofá da sala, dali para a mesa comer, antes de novamente voltar à minha cama. Terrível. O peito congestionara pesadamente e a coisa parecia que não iria mais embora.

Embarquei de volta ainda muito gripado. Sofri bastante os efeitos da descida do avião na chegada em Salvador. Minhas vias respiratórias estavam entupidas, tudo congestionado. Senti forte pressão nos ouvidos no momento mais intenso da perda de altitude do avião. Quando as rodas da aeronave tocaram o chão eu instintivamente coloquei as mãos nas orelhas. Senti algo pegajoso brotando delas. Enchi minha mão de pedaços de cera escura. Ainda bem que havia guardanapos à mão. Senti tonturas no momento de descer as escadas do avião.

O clima seco do sertão baiano, os chás e xaropes à base de casca de angico e a paciência foram fundamentais para superar mais uma gripe, daquelas que a gente pega de vez em quando e jamais esquece.

A FESTA DE SÃO PEDRO

Além do excelente São João em Senhor do Bonfim, valiam as festas de Santo Antônio em Campo Formoso e, em menor grau, pelo isolamento e acesso difícil, a festa de São Pedro na vila de Andorinha. Sempre passava por ali a caminho do trabalho, às segundas-feiras pela manhã, ou voltando às sextas-feiras à tarde. Em uma dessas sextas, a caminho de Senhor do Bonfim, era véspera de São Pedro. Decidimos parar e aproveitar a festa em meio às barracas ao redor da praça. Era apenas aquela noite e o dia seguinte. E ali vinham somente os sertanejos, homens e mulheres, que sobreviviam às duras penas espalhados pela caatinga ao redor. Chegavam de roupas engomadas, cabelos penteados, exageradamente perfumados, com toda a família, felizes e esperançosos.

Naquele fim de tarde em Andorinha, começamos a beber cachaça com lascas de bode assado. Muito mais cachaça que bode. Eu conversava com vários sertanejos de cujos assuntos sempre recaíam sobre ocorrências minerais na região. Sugeriam que eu fosse verificar no local. Eu concordava com a ideia e dava outro gole. As horas passaram. Era muita conversa e muita cachaça forte e de qualidade medíocre, apesar da origem mineira, de Januária. De repente o mundo caiu. Apaguei.

Acordei na manhã seguinte, deitado no sofá de uma casa desconhecida. O monte de vômito fedia sobre o tapete ao lado. Os donos da casa estavam acordados e me cumprimentaram sorrindo. Funcionário da mesma empresa de mineração, ele me encontrara deitado, sozinho, de barriga para cima e de braços abertos, em uma das vielas na noite anterior. Ainda brincou que os cachorros me lambiam o rosto no momento em que me achou. O casal pouco falava, apenas sorria e me observava com curiosidade. Agradeci, desculpei-me pela sujeira no tapete da sala e saí à procura do carro para voltar a Senhor do Bonfim com o insuportável gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

O FIM

Meu trabalho na empresa de mineração se arrastava sem grandes prazeres profissionais. A relação com o gerente, o famigerado perdigueiro frustrado, ia de mal a pior. Por outro lado, minha vida social na região, Senhor do Bonfim, Salvador, Juazeiro, melhorava com o tempo. Mais e melhores amigos e amigas, mais e melhores mulheres. Sem dúvida eu me enraizava na Bahia, sensação que me alegrava tremendamente.

Não via no lado profissional, no entanto, luz no fim do túnel. Matutara bastante, aventara as possíveis saídas, ponderara os prós e contras, e nada de solução. A despeito das insatisfações quanto à monotonia de minhas atividades, a empresa e o fiel perdigueiro frustrado nem pensavam em alterar a situação, tão confortável a eles. Então me enchi de tudo e chutei o pau da barraca.

Viajei a cidade de Pojuca, sede administrativa da empresa, e entreguei a carta de demissão pessoalmente ao diretor de pesquisa, aquele mesmo das evacuações sofridas e ruidosas. Impassível, fingindo mal a preocupação pela minha saída, prometeu acelerar o processo.

Peguei ônibus de volta a Salvador e, de lá, outro até Senhor do Bonfim, aliviado pela decisão certa tomada no momento oportuno. Era final de junho e os festejos de São João na cidade atingiam o ápice. O ônibus de Salvador a Senhor do Bonfim, por essa razão, não podia estar mais lotado. Lugar sentado, impossível. Sem alternativas, aceitei o desserviço da empresa e me conformei em ir em pé, no corredor do ônibus, literalmente espremido, entalado no meio de dezenas de outros viajantes. Eu mal conseguia colocar meus pés no piso do ônibus tal a quantidade de pessoas na mesma situação. Pisava e era pisado pelos outros. Foram mais de sete horas de tortura naquela lata de sardinhas.

Desembarquei mancando devido às posições incômodas. Não lembro se comi algo. Desabei na cama do quarto da pensão sem banho e só saí no dia seguinte.

Ainda voltei à sede do alojamento na caatinga para me despedir dos colegas de trabalho.

Mas havia os dias de festa de São João na cidade e não podia desperdiçar minha última oportunidade de aproveitá-la. Circulei bastante pelas barracas. Vi e revi todos os de quem desejava me despedir com classe. Não faltou ninguém. Peregrinei à vontade pelos pontos altos da festa, inclusive pela noite da Guerra de Espadas.

Junho terminou. Com ele as festas juninas e minha estadia de quase três anos pelo sertão norte da Bahia. Tentaria sem sucesso outras empresas de mineração das imediações. Entristecido por deixar lugar e pessoas de quem me apegara, embarquei em ônibus para São Paulo no início de julho de 1981.

Deixava para trás a região da cidade de Senhor do Bonfim, aonde eu retornaria somente uma infinidade de anos depois, a passeio.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Três Anos no Sertão da Bahia (parte 5/6)

...continuação

JUAZEIRO

Situada a 120 quilômetros de Senhor do Bonfim, a cidade de Juazeiro tinha o dobro da população e tornava-se opção para os finais de semana. Sem falar nas charmosas águas do rio São Francisco que a separavam da vizinha cidade pernambucana de Petrolina, de porte semelhante à irmã baiana. O que mais chamava a atenção ao observar as peculiaridades das duas cidades, mais que as semelhanças, eram as diferenças marcantes entre elas. A despeito de certa rivalidade que houve de outros tempos, as duas cidades se completavam nas variações. Alguns metros acima, Petrolina se livrava dos mosquitos que infestavam Juazeiro. O comércio brilhava em Juazeiro, a indústria em Petrolina. Juazeiro era mais feia e mais suja, pior para morar. Petrolina, mais limpa, arrumada e arborizada, vencia pela qualidade urbanística. Juazeiro reinava absoluta na alegria, lazer e diversão, contrastando com o silêncio e a tristeza das ruas de Petrolina. Tanto que não havia carnaval em Petrolina. Todos, pernambucanos e baianos, afluíam a Juazeiro a fim de se deliciarem com um dos melhores carnavais do interior da Bahia. E menos entupido de turismo predatório, mais voltado a carnavalescos da região, ausente de violência e criminalidade, mais espontâneo e autêntico, enfim mais humano que o exageradamente famoso carnaval de Salvador. E bem mais perto de Senhor do Bonfim.

Foi para lá que me dirigi nos carnavais daqueles anos. E me hospedava num quarto qualquer da casa do amigo dos amigos de Senhor do Bonfim. Nem sabia o nome dos donos da casa. Me recebiam bem, me deixavam totalmente à vontade, podendo entrar e sair a qualquer hora. Não trancavam as portas da rua à chave, às vezes nem sequer as encostavam. Nunca me perguntavam nada, apenas sorriam com minha presença. Não se importavam com meu estado de embriagues. Nada censuravam ou aconselhavam. Liberdade completa.

A maior parte do dia e da noite, eu passava fora da casa, pelas ruas de Juazeiro, perto da margem do rio, de bar em bar, atrás do único e animado trio elétrico da cidade, junto ou separado dos amigos. Nada de regras, a não ser me divertir até não poder mais. Não me lembro de como me alimentava. Algumas mulheres renderam frutos, outras apenas uma companhia temporária, sem contar as que me despachavam logo de cara. O trio elétrico funcionava apenas de dia. Os clubes ferviam durante a noite e madrugada. As águas do rio São Francisco funcionavam como intervalos para refrescar os corpos do calor. Ou então para os casais mais chegados que, sob a proteção da escuridão da noite, nos redutos mais afastados, namoravam impunemente dentro ou fora das águas. Os sertanejos sabiam viver, em que pesem as inúmeras adversidades durante o restante do ano. E eu aprendia com eles, mais precisamente com elas.

AS FESTAS JUNINAS

Festas Juninas com “F” e “J” maiúsculos eram as que aconteciam na região de Senhor do Bonfim na segunda metade do mês de junho, mais precisamente a partir da Festa de Santo Antonio, dia 13 de junho, na vizinha cidade de Campo Formoso, até a Festa de São Pedro, dia 29 de junho, no povoado próximo de Andorinha. Entre as duas datas a cidade de Senhor do Bonfim reinava absoluta durante duas semanas, oferecendo o mais famoso São João do sertão baiano. Às vezes as festas começavam no início de junho e ficávamos quase um mês em estado de graça. Tive o prazer e a honra de participar, e mergulhar na autêntica cultura sertaneja, em três festas juninas daquela virada da década de 1970 para a de 1980. As impressões deixadas não poderiam ter sido melhores. Os momentos passados nas festas, ao lado de pessoas tão especiais, permaneceriam para sempre nas lembranças, entre as mais intensas e importantes.

Armavam-se barracas de palha ao redor da praça Nova do Congresso e nelas se vendiam comidas e bebidas típicas, se apresentavam pequenos grupos musicais da legítima música sertaneja, organizavam atividades de lazer para crianças, se ofereciam bugigangas ligadas às festas juninas. O grande palco era montado entre as barracas. Nele se apresentavam as principais atrações musicais e artísticas em geral, sobretudo à noite, e também se realizava a concorrida cerimônia do casamento sertanejo no dia 24 de junho, dia de São João. Por entre as estreitas passagens em meio às barracas circulavam um mar de gente vindo de todas as cidades e vilas vizinhas, inclusive da distante Salvador.

Porém, para alegria e felicidade geral, as festas juninas de Senhor do Bonfim não se tornavam atração turística a ponto de se desfigurarem como costuma acontecer com tantos eventos populares pelo Brasil e mundo afora. As festas populares da região, pelo menos até aquelas datas, permaneciam intactas do turismo predatório e das garras dos capitalistas ávidos por lucros fáceis. Melhor para os que degustavam de legítimas manifestações da cultura popular. As festas tinham imperfeições, merecedoras de críticas, claro, mas nem de longe perdiam as marcas regionais.

A cidade e as redondezas praticamente paravam nessas semanas de festejos. Mas o máximo que eu e os demais colegas de trabalho conseguíamos eram um ou dois dias a mais nos picos das festas, além dos finais de semana e do feriado de 24 de junho, dia de São João. Eu contava os dias da semana enquanto caminhava pelas picadas da caatinga na torcida para que voassem e pudesse voltar à animação com os amigos e amigas.

Entrávamos em várias barracas, conversávamos, ouvíamos música, tomávamos goles, beliscávamos petiscos, topávamos com mais gente conhecida. Vez ou outra eu cruzava com tipos atraentes. Trocava olhares convidativos, chamava-as para se juntarem ao grupo ou me refugiava com elas em locais mais escuros, antes de retornar à companhia da turma. A música e a dança brotavam em todas as partes da praça. Casais ou grupos abriam a roda e de maneira improvisada começavam a dançar. Embora preferisse apenas ver e ouvir, nem sempre eu conseguia escapar aos assédios das baianas que me arrastavam para o meio da roda. Eu arriscava uns passos e não dava tanto vexame. Tomava contato com mulheres que jamais vira, eventualmente evoluindo para algo mais picante. Mas não era regra, nem o objetivo principal. Todos queriam se divertir entre velhos e novos amigos ao som e ao sabor da cultura sertaneja.

A véspera de São João, noite de 23 de junho, reservava evento especial e inusitado, a famosa Guerra de Espadas. Os organizadores isolavam algumas ruas do centro da cidade, longe das barracas da festa, permitindo aos participantes guerrearem à vontade, sem o risco de ferir os desavisados. E havia sim perigo de ferimentos, leves e graves, e até de morte. A Espada tratava-se de pedaço de bambu, com cerca de trinta centímetros de comprimento e cinco de diâmetro. Vedava-se firmemente uma das extremidades com espessa massa de argila. Preenchia-se o cilindro com pólvora, mais, eventualmente, limalha de ferro e pó de vidro. Introduzia-se um pavio na boca e a cobria de papel colorido como decoração.

Os participantes plantavam um tronco no meio do quarteirão com as prendas penduradas no topo. E a Guerra começava. Dois grupos, vindos dos lados opostos do quarteirão, tentavam disputar a prenda. Cada grupo expulsava o outro lançando as Espadas já previamente acesas pelo pavio. Aqueles objetos partiam como foguetes malucos, em alta velocidade, perfazendo rotas espirais, irregulares e imprevisíveis, mas agressivamente na direção dos oponentes. Os dois lados lançavam-nas ao mesmo tempo, em quantidade, de tal maneira que a rua, o ar, a paisagem, se impregnavam de inúmeros foguetes cortando o espaço do quarteirão. Mais pareciam mísseis em miniatura, traçando desenhos desvairados em ambos os sentidos, compondo sons e imagens belíssimas no meio da noite. De vez em quando elas caíam nas proximidades do grupo oposto, ainda acesas, o que forçava o integrante a agarrá-las em movimento e devolvê-las aos adversários.

E as cenas prosseguiam por duas horas ou mais, pelo menos enquanto as dezenas, ou centenas, de Espadas ainda possuíam pólvora para queimar. No final das contas, as prendas eram divididas por todos ou simplesmente abandonadas para a alegria das crianças da rua. Ninguém ousava passar por ali durante a Guerra, exceto os membros dos grupos em ação. Os moradores das casas do quarteirão assistiam a tudo pelas janelas e portas, sempre atentos a, de repente, terem que fechá-las para não serem presenteados com alguma Espada perdida que invadia a casa, enfurecida, queimando o que via pela frente. Não eram raros os casos de perdas de sofás, cortinas, móveis, roupas.

Curioso de acompanhar aquelas cenas inéditas, eu entrava em determinada casa, sem ser convidado ou mesmo conhecer quem lá morava, e me protegia ao lado dos sorridentes e também assustados anfitriões.

Os participantes da rua invariavelmente vestiam chapéus e roupas grossas a fim de se precaverem dos acidentes. No dia seguinte nos informavam sobre quem saíra ferido, quem se hospitalizara com queimaduras graves e outros casos mais sérios. Em dada noite eu tentei mudar de casa no meio da Guerra e uma Espada me pegou de leve no braço protegido por casaco de brim. A marca circular escura na manga serviu de troféu durante anos, enquanto aquele casaco me serviu. Apesar dos perigos, a Guerra de Espadas era espetáculo digno de se ver. Os riscos luminosos e coloridos na escuridão, os ruídos de foguetes, o cheiro de pólvora queimada, a gritaria dos participantes, os olhares vidrados da plateia refugiada nas casas, compõem imagens inesquecíveis.

A cidade de Cruz das Almas, nas proximidades do recôncavo baiano, rivalizava com Senhor do Bonfim a grandiosidade na Guerra de Espadas. Porém naquela cidade eles utilizavam bambus mais grossos, causando acidentes mais graves, e até mortes. A imprensa baiana noticiava os casos no dia 24 e as informações de Cruz das Almas não eram das mais agradáveis.

Porém, exceto parte da noite de 23 de junho e, ainda assim, em poucas ruas, as festas juninas brilhavam pela alegria, descontração, solidariedade, bastante comida, bebida, música, dança. Além de Luiz Gonzaga, mestre dos mestres no baião, xote e xaxado, animavam os festeiros daqueles tempos o Trio Nordestino, Genival Lacerda, Zenilton. O primeiro se caracterizava por letras leves e simples, a enaltecer as festas juninas e o jeito sertanejo de ser. Já Genival Lacerda e Zenilton criaram fama e escola com as letras de duplo sentido, extremamente bem construídas, sobretudo no caso de Zenilton, autor de letras antológicas e engraçadas, bem distintas e superiores ao lixo comercial que os sucederam anos depois. Os artistas lançavam discos no início do ano e nos davam aperitivos de quais e como as músicas das festas juninas emplacariam.  
continua...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Três Anos no Sertão da Bahia (parte 4/6)

...continuação

SENHOR DO BONFIM
Eu passava a maioria dos fins de semana na cidade de Senhor do Bonfim. Inicialmente me hospedei em hotel, em seguida numa pensão, em quarto individual com cama de solteiro e armário. Minúsculo e sem janelas, é verdade, mas individual, qualidade imprescindível em pensões. Oficialmente ninguém o utilizava durante a semana, período no qual eu lá deixava roupas e objetos pessoais.

Administrado por duas irmãs gêmeas, idosas e solteironas, o pensionato contava com mais três quartos coletivos, um banheiro coletivo, copa, cozinha, pequeno quintal, dispostos em imóvel térreo, estreito e alongado, com corredor interno, lateral, portão diretamente na calçada. Instalaram telefone apenas dois anos depois que entrei. Uma das gêmeas possuía filha deficiente, permanentemente em cadeira de rodas, que emitia ruídos pela boca, embora reconhecesse os hóspedes e demonstrasse alegria ou tristeza ao vê-los.

Fora o café da manhã, comível e com a opção de ovos sempre que solicitado, as demais refeições, incluídas na mensalidade, mal davam para engolir de tão mal preparadas, a partir de ingredientes exageradamente baratos. Comportando-se tipicamente como donas de pensão, as gêmeas economizavam em tudo e mais um pouco. Agrediam a carne de segunda ou terceira com pancadas intensas e demoradas sobre os bifes, a fim de estendê-los e fazê-los parecerem maiores, ainda que finos e insípidos. Adoravam se meter na minha vida pessoal. Minha noiva sentiu na pele a pressão das intrigas quando se hospedou lá. E mesmo depois do término do noivado, se mantinham vigilantes, querendo saber quem era aquela ou a outra, aonde eu fora de dia ou de noite, porque eu ia à festa ou porque eu não ia à festa. Deixá-las a par do fútil e superficial funcionava perfeitamente. O importante e essencial passavam longe delas. Não eram más pessoas, mas a vida vazia de solteironas, sozinhas, em contato com hóspedes sempre em atividades sociais, as conduzia às fofocas, mexericos e intromissões. Entrei em contato com pessoas simpáticas entre os que residiam nos quartos coletivos, alguns de longos anos de permanência, outros por meses somente.

Minha vida social, porém, se ligava aos demais moradores da cidade, fora da pensão. Senhor do Bonfim era habitada por gente simples, comunicativa, acolhedora. O tempo me concentrou junto aos colegas que giravam em torno da loja de discos ou da principal casa noturna. Quando não fincava o pé em frente à loja, especialmente nas manhãs de sábado, eu me encontrava com eles na praça, no bar do canto da praça, na casa de alguém, antes de a maioria se juntar na casa noturna erguida no bairro chique da cidade. Apesar de eu quase nunca dançar, por total falta de interesse e habilidade, o local tornava-se ponto de encontro dos amigos para tomar umas e outras, ouvir música, conversar e rir bastante, paquerar.

Nas oportunidades em que visitou a cidade, minha noiva chegou a conhecer os amigos e os principais pontos que eu frequentava. Sem ela na cidade, eu me comportava bravamente, sem ceder às tentações das baianas do interior, perversamente simpáticas e envolventes. Conversava com todas, ia para lá e para cá na companhia delas, dava corda às provocações e brincadeiras sobre minha aliança na mão direita, ríamos muito, mas não passava disso. A noiva me bastava em tudo, a despeito da distância e dos encontros espaçados. Ao terminarmos o noivado e nos separarmos definitivamente é que comecei a reparar com outros olhos nas baianas ao redor. E deixei rolar da maneira mais deliciosa possível, sendo carinhosamente recebido por elas. Não havia cobranças. Queríamos ser felizes. Ciúmes infantis e sentimentos de posse seriam descabidos.

Sei lá como, mas eu me incluía aos mais diversos grupos de pessoas, aterrissando em algum bar, deixando a coisa correr por horas e horas. Apareciam homens e mulheres que jamais vira antes, virávamos íntimos do nada.

Às vezes excedíamos na quantidade de álcool e, de estômago vazio, depois do grupo se dispersar, sobrar eu e mais um ou dois, vagueávamos pelas ruas a procura de algo para matar a fome e tentar reverter o efeito das bebidas. Havia o botequim que servia carne de mocotó, iguaria ideal para rebater a bebedeira. Sentávamos nos bancos do balcão e pedíamos a salvação que vinha em porção generosa, em prato fundo, com caldo, farinha, o ovo frito no topo. Eu mergulhava de cabeça naquela delícia, lambendo os beiços. Suava pelo corpo todo, sentindo o alimento no organismo se contrapondo ao álcool. Era prazeroso demais. Mas não suficiente para quem comia horrores. Insatisfeito, chamava o balconista e pedia outro igual. O garçom, os colegas, os demais clientes do bar paravam o que estavam fazendo e me olhavam estupefatos. É que eu cometia a heresia de repetir aquele prato tão forte e pesado. E sob o calor tórrido do sertão baiano. O garçom ainda me olhava hesitante e esperava a minha confirmação, certo que não viria. Mas minha fome desesperadora exigia a segunda rodada de carne de mocotó, caldo de mocotó, mais farinha, o ovo frito coroando aquela maravilha da culinária sertaneja. Os olhos esbugalhados dos funcionários e frequentadores se mantinham voltados ao meu prato e a mim, incrédulos que um ser humano conseguisse a proeza, ou a ousadia, de comer dois pratos daquele petardo. O suor em cascatas, o calor me queimando do dedão do pé ao fio do cabelo, nada disso me importava, mas sim o prazer de matar a fome, matar o porre, saborear a comida. E jamais me fez mal. Ao contrário, a bebedeira passava e o sono vinha a galope. Despencava na cama da pensão até o início da noite, quando a vida social recomeçaria, a todo vapor.

Dois irmãos paraibanos, residentes em Senhor do Bonfim, ganharam fama pela valentia, ou melhor, pela falta de cérebro e excesso de violência. Andavam sempre armados, desafiavam deus e o mundo, se metiam em brigas, se envolviam em mortes, assassinatos, à faca ou à bala. Aconteceu de um deles, então com trinta e poucos anos, estar com a esposa grávida. O grande herói da mão armada cismou de abandoná-la em casa e aprontar pelas ruas. Passou aqui e ali antes de atracar no puteiro da cidade. Estava lá o sujeito ocupado com a escolhida no quarto quando bateram na porta. Ele saiu da cama e abriu a porta. Nem deu tempo de perguntar nada. O visitante que o procurava descarregou a arma de fogo sobre o corpo do valentão. Morreu ali mesmo, pateticamente nu, no quarto do puteiro, enquanto a mulher, grávida, o esperava em casa.

Os baianos levavam a sério e comemoravam a rigor as festas de Cosme e Damião, em meados de setembro. O caruru com arroz e farofa não faltavam na maioria das casas. Diz a lenda que a cada ano, para se alcançar as graças pretendidas, a quantidade de quiabos usados no caruru deveria ser maior que a das festas passadas. Ano após ano e as casas serviam carurus cada vez maiores. Primeiro serviam as crianças para somente depois liberarem os pratos para os adultos. As portas das casas mantinham-se abertas para as calçadas. Podia-se entrar em qualquer uma delas, conhecendo ou não os moradores. Era só sentar e esperar ser servido. Acontecia de eu passar em frente a uma casa, com a barriga para lá de cheia, não entrar, apenas passar, mas ser chamado lá de dentro para sentar e comer. Às vezes não conseguia me desvencilhar dos convites e fazia mais uma boquinha, mesmo sem fome. A cidade se iluminava e se alegrava. Era a abundância de comida pelas cidades, pelo menos no dia de Cosme e Damião.

A amiga mais próxima e íntima que conheci logo após o término de meu noivado, uma baiana tornou-se companheira de todas as horas nos fins de semana em Senhor do Bonfim.

E ela me apresentou à amiga de Salvador, então a passeio pelo interior do estado. A soteropolitana logo notou em mim parceiro ideal para conversas mais culturais e filosóficas. Não ficamos somente nos debates teóricos à cerca de autores ou correntes de pensamento. A atração recíproca nos conduziu a outros mundos, mais terrenos e imediatos. Começamos a namorar naquele primeiro fim de semana. A empatia surgiu rapidamente e nos entregamos. Mas o fim de semana terminou. Ela foi de volta a Salvador, eu rumo às prospecções minerais no sertão baiano. Passei os fins de semana seguintes na capital baiana, na companhia de minha nova paixão, ou pelo menos o que parecia ser no início. O entusiasmo mútuo, no entanto, não durou muito. A chama se apagou com a mesma rapidez com que se acendera. Apesar de transbordar em charme e simpatia, ela guardava outros planos na linda cabecinha. Casamento. E casamento no curto prazo. Nem queimei a pestana tentando entender as razões. Era tudo o que eu não desejava naquele momento. Situações e opiniões postas à mesa, clareza completa no impasse. Planos inconciliáveis. Prazer em conhecer, foi bom enquanto durou. Votos de felicidades. Fim de papo.

Soube pela amiga que, menos de um ano depois, a soteropolitana se casara e engravidara do primeiro de muitos filhos. E me percorreu forte sensação de alívio.

SALVADOR

Antes e depois da moça casadoira, eu reservava uns fins de semana em Salvador. Afinal queria manter contato com a vida cultural de cidade grande, ir ao cinema, teatro, apresentações musicais, renovar meu estoque de livros, variar minha alimentação, curtir as praias da capital. E cortar meu cabelo. Desde que reparei os barbeiros de Senhor do Bonfim cortarem os cabelos dos fregueses olhando o movimento da rua, conversando com passantes na calçada, raramente voltando os olhos para a cabeça da vítima sentada na cadeira do salão, achei melhor não correr o risco, praticando aquela atividade trimestral em Salvador.

E havia meus colegas da universidade, do mesmo ano de formatura, que moravam e trabalhavam na capital. Ficava sempre no apartamento de um deles. Até tinha cópia da chave, evitando acordá-los quando eu desembarcava na cidade antes do amanhecer do sábado. Eu abria a porta e entrava de mansinho, enquanto corpos masculinos e femininos dormiam abraçados no quarto e na sala, baqueados da noitada da sexta-feira.

Assim que levantavam e tomavam banho frio, decididos a acordar de vez, seguíamos às praias mais atraentes de Salvador, que naqueles anos se concentravam em Pituaçu, Piatã e Placafor. Eu bebia batida de tamarindo, comia acarajé, peixe frito, mergulhava no mar, observava as baianas desfilando pelas areias. O ambiente descontraído com os colegas geólogos, recheado de boas conversas, sérias ou engraçadas, me satisfaziam e me acomodavam naquela irresistível preguiça baiana. Mais descompromissos se seguiam à noite, depois de cochilos reparadores no final da tarde.

Pegava o ônibus de volta a Senhor do Bonfim na noite de domingo e desembarcava sonolento no meio da madrugada de segunda-feira, em tempo de dormir três ou quatro horas no quarto da pensão, antes de me preparar para me dirigir ao sertão pesquisar minério de cromo.

Aconteciam coisas estranhas nos ônibus entre Salvador e Senhor do Bonfim. Viagens noturnas, luzes apagadas, breu total, a maioria dos passageiros dormindo pesado. Algumas, então, se sentiam à vontade para manifestarem os desejos contidos, de realizarem fantasias. Ocorria que a mulher sentada no assento ao meu lado, de quem eu não recebera sequer o cumprimento no embarque, se soltava assim que o veículo penetrava a estrada e a escuridão tomava conta do ambiente. Cada uma revelava estilo próprio, variando na ousadia, afoiteza, delicadeza, carinhos. Faziam uso das mãos, pernas, lábios, ou línguas, combinação de dois ou mais desses recursos. Atacavam e gostavam que as coisas evoluíssem sob o comando delas. Em ritmos bastante diferenciados, roçavam as pernas, passavam as mãos, avançavam sobre o zíper, me puxavam, usavam e abusavam. Jamais falavam, apenas emitiam gemidos, respirando aceleradamente. E continuavam agindo, cada vez mais ousadamente. Tudo muito discreto e sem a intenção de criar mal estar ou bate-bocas no interior do ônibus. Bem antes do destino final, ela retornava à posição original no respectivo assento, às vezes até cochilava, como se nada tivesse acontecido. Nada comentava e nem se despedia no momento do desembarque. Jamais as encontrei novamente. Pelo menos não que as reconhecesse. Não foram em todas as viagens, mesmo porque nem sempre se sentavam mulheres ao meu lado, mas sei que não se tratavam de casos isolados.          
continua...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Três Anos no Sertão da Bahia (parte 3/6)

...continuação

AS VISITAS 

Os dois quartos livres da casa onde eu e o gerente dormíamos eram reservados a visitas esporádicas, mas principalmente um antigo funcionário, posteriormente dono de modesta empresa prestadora de serviços de sondagens rotativas, de presença frequente e bastante divertida.

Quando ele começava a contar casos, dos quais não nos importávamos com a suposta veracidade, todos se calavam e prestavam atenção, certos de que gargalhadas não faltariam. Mesmo descritas repetidas vezes, as estórias eram garantias de riso certo.

Comumente vinha acompanhado do sócio, alcoólatra contumaz, também engraçado e animado.

Ambos participaram de concorrência de serviços de sondagem em outra região da Bahia, bastante disputada por empresas maiores e mais tradicionais. Indiferentes à impossibilidade de vencerem a oferta das demais, os dois compareceram ao refinado coquetel realizado em Salvador, munidos dos devidos crachás. Entre os comes e, principalmente, para eles, os bebes, circulavam pelo amplo recinto na espera dos resultados da concorrência. Um concorrente de peso cruzou o caminho, leu o nome da empresa deles no crachá, de quem jamais ouvira referências, e perguntou onde ficava e atuava a empresa. Não satisfeito com as vagas respostas de ambos, o interlocutor queria saber quantas sondas a empresa possuía. Para lá de embriagado, nosso antigo funcionário respondeu: ”Bem, parada, temos uma”. No que o curioso insistiu: “E funcionando?”. Na bucha, sem titubear, esclareceu: “No momento, nenhuma!”.

O diretor de pesquisa da empresa, a quem os capachos tratavam de Doutor, nos visitava duas a três vezes ao ano. De saúde precária, sofria de caroços pelo corpo, roncava feito trator na subida com afogador entupido, e padecia pelas manhãs quando tentava evacuar. No quarto ao lado do banheiro coletivo, eu acompanhava tudo assim que acordava para o novo dia. Ouvia-o ofegante, forçando a saída do barro, sem sucesso. Entre as frustradas tentativas de esvaziar o intestino, inspirava e expirava profundamente, ruidosamente, de boca aberta, parecendo sentir falta de ar. E transmitia a tortura que passava sobre o vaso sanitário para plateia dos outros quartos, que, sem forro no teto, não tinha outra escolha a não ser escutar aquela cena patética. Mas ninguém ousava comentar nada. Afinal, o tal doutor trazia as diretrizes da empresa, as boas e más noticias que nos comandariam daí em diante.

Certa vez aterrissou por ali geólogo canadense, pesquisador universitário especialista em rochas ultrabásicas, tão procuradas na região por hospedarem as concentrações de minério de cromo. O gringo vinha acompanhado de outro geólogo brasileiro, antigo funcionário da empresa, na época mestrando pela universidade federal da Bahia sobre a primeira mina a lavrar o minério de cromo na região. Gentilmente o pós-graduando abriu a porta do quarto onde o canadense dormiria. Deu-lhe passagem e, ajudado pelo sinal da mão, bradou orgulhoso em inglês: “Between!”. Impassível, o estrangeiro entrou.

Aproveitei para conversar com gringo, demonstrando meu interesse pelas concentrações minerais em rochas ultrabásicas. Trocamos diversas informações, anotei referências bibliográficas, aprendi. Percebendo minha empolgação e condições de me aprofundar no assunto, ele me passou endereços de contato, dele e da universidade canadense, me aconselhando a escrever e formalizar minhas intenções de ingressar no departamento de pesquisa coordenado por ele. Foi o que fiz anos depois, quando já não atuava naquela empresa baiana. Cheguei a trocar correspondências, preencher formulários de inscrição, avançar no processo da pós-graduação, me empolgando com a possibilidade. Mas não passou disso. Meu interesse não se manteve por muito tempo. Enfiei a papelada no fundo da gaveta e abandonei definitivamente a ideia.

A FAUNA E A FLORA
 
Vivíamos os dias da semana no meio da caatinga e a fauna local comumente vinha nos visitar. Não faltavam cobras, escorpiões, aranhas, sapos, rãs. Por bem ou por mal, todos ali precisavam conviver com isso. O auge da estação, mas longe de ser a única, de cobras e aranhas, era nos meses de abril, maio e junho. Os doces bichinhos circulavam impunemente pelo terreno, subiam em árvores, entravam pelas portas abertas. Não precisávamos entrar em pânico, apenas manter os olhos abertos, proceder uns cuidados especiais, ter atenção onde pisávamos e encostávamos.

Quando sentava do lado de fora para ler, eu avistava vez ou outra as temidas jararacuçus perambulando, além de procissões de aranhas caranguejeiras, nas respectivas rotinas diárias. O desenhista e o técnico de mineração se divertiam em jogar álcool nas aranhas e em seguida lançar fósforos acesos sobre elas, as quais torravam em chamas e sumiam em poucos segundos.

Certa feita, após o jantar, eu saía da copa quando percebi a cabeça da cobra coral encostada ao bico do meu chinelo de dedo, no exato momento que eu parara para observar o céu estrelado. Afastei suavemente o pé, contornei e continuei meu caminho, enquanto a dita cuja rastejava, lentamente, na direção oposta. Com veneno de efeito mortalmente rápido, mas de comportamento calmo e manso, raramente ocasionando acidentes, aquele ofídio listrado não fugiu à regra e me isentou das consequências.

Eu providenciara o recebimento, diretamente do Instituto Butantã de São Paulo, de soro antiofídico, da variedade polivalente, o qual, ao contrário da opinião de muitos, continha somente funções anticrotálicas (cascavéis) e antibotrópicas (jararacas). O soro antielapídico, específico contra picadas de cobra coral, não se encontrava com facilidade e o Instituto não liberou.

Em outra noite, eu lia na cama do meu quarto, quando levantei os olhos e notei algo móvel entre as telhas, de formato alongado, cilíndrico, se balançando, pendurado abaixo das telhas. Deixei o livro de lado, me levantei, apurei o olhar e não tive dúvidas. A onipresente jararacuçu queria porque queria entrar no meu quarto. A distinta escalara a umburana do quintal, seguira pelos galhos da árvore que avançavam sobre o telhado e resolvera arriscar os interiores. Deixei o quarto, fechei a porta e convoquei os colegas que jogavam dominó no outro alojamento. O desenhista prontamente se municiou de espingarda cartucheira calibre 12, canos duplos para lá de gordos. Carregou-a e lá fomos nós. Ele entrou no quarto, confirmou a visita indesejada pelas telhas, mirou a arma e disparou. Não sei o que foi mais escandaloso, o estrondo absurdo do tiro ou o rombo de mais de vinte centímetros de diâmetro que se abriu no telhado. Restos mortais dilacerados e queimados da pobre jararacuçu se espalhavam pelo chão, pelo menos do pouco que restou dela. O atirador gargalhou pelo serviço completo antes de, junto aos demais assistentes, retornar satisfeito ao dominó. Recolhi mais ou menos o lixo deixado pelo massacre, joguei no latão de lixo do lado de fora do quarto e tentei voltar às minhas atividades normais. O zelador do alojamento reporia as telhas no dia seguinte.

Meu quarto ficava ao lado do banheiro coletivo, separado pela parede, sem forro. Minha cama praticamente se encostava à parede comum. O banheiro vivia cheio de pequenas rãs que se deliciavam com a umidade constante. Eu as espantava quando precisava usá-lo, sob o risco de sustos dentro do vaso sanitário, durante o banho e assim por diante. Apenas mudavam de lugar, sem jamais abandonar o local. Vez ou outra eu assistia aos voos certeiros delas, ao abocanharem, no ar, moscas ou mosquitos.

E não é que uma delas resolveu aprontar para cima de mim?

Era tarde da noite, não muito depois do incidente com a jararacuçu no telhado. Eu dormia profundamente. A rã subiu a parede do banheiro comum ao meu quarto, atingiu o patamar que separava os dois cômodos. Não contente com a proeza, arriscou passos pela fina camada de parede. Excessivamente confiante, ela não percebeu que perdera o pé e despencou lá de cima. Justamente em cima de mim, mais precisamente sobre minha testa. Acordei apavorado com aquela coisa fria, úmida e escorregadia. Instintivamente espantei com tapa e a coisa, que até então não sabia do que se tratava, voou pelo golpe para o canto do quarto. O breu dominava o ambiente, o gerador da eletricidade estava desligado há horas. Em pânico, sempre lembrando a jararacuçu da outra noite, procurei de maneira atabalhoada as velas deixadas estrategicamente sobre o criado-mudo e a caixa de fósforos. Depois de várias tentativas infrutíferas, pela escuridão e pelo tremor das mãos, consegui, finalmente, acender a vela. O quarto se iluminou, olhei para todos os lados e avistei, na parede oposta à cama, exatamente na direção para a qual saíra o tapa, a responsável por tudo. A desgraçada da rã, e coitada também, se encolhia contra a parede, tão ou mais assustada que eu. E, assim como eu, ainda sem saber a razão dos recentes acontecimentos. Após verificar se o lado de fora do quarto estava livre de novas surpresas, abri a porta e enxotei aquele animalzinho. Voltei a fechar a porta, apaguei a vela, deitei na cama e tentei adormecer.

Numa manhã, após vestir as meias, peguei as botas e, antes de calçá-las, as bati contra o chão e as chacoalhei, de acordo com normas informais de segurança. Reparei em algo acastanhado saído da bota. Era pequeno e se movia ao redor dos meus pés. Os fortes óculos de míope ainda descansavam no criado-mudo. Eu via apenas manchas, imagens fora de foco. Não tive dúvidas e esmaguei com o calcanhar, ainda só de meia, o ser vivo que eu julgava se tratar de barata ou afim. Calcei as botas, me levantei e coloquei os óculos, pronto para deixar o quarto rumo ao café da manhã. Não desejava a invasão de formigas pelo quarto, então achei melhor, antes, expulsar o bicho pisado. Olhei melhor o cadáver, agora nítido pelos óculos. Não era barata ou inseto parecido, mas legítimo escorpião, daqueles castanhos, que impõem respeito. Por segundos, ou milímetros, o animal não me picara. E as meias, pouco ou nada me protegeriam.

Até então eu não descobrira o motivo do escorpião ter entrado no quarto.

Chegavam minhas primeiras férias, depois de mais de um ano e meio de nordeste. Desejava aproveitar a oportunidade e levar, entre tantas coisas, amostras de minerais e rochas recolhidas em meses de explorações pela região. Guardava-as amontoadas no canto do meu quarto, juntando uma pilha de quase trinta centímetros de altura, encostadas na parede. Preparava-me para retirá-las com as mãos quando hesitei e decidi usar o cabo de vassoura para espalhá-las pelo chão. Foi minha salvação. Atrás dos minerais e das rochas, bem no cantinho da parede, vivia nem um nem dois, mas uma família de escorpiões. Lá estavam os pais, maiores, os filhos, menores, somando oito membros. Eles correram assustados para os lados e eu, prontamente, os esmaguei com a bota e a vassoura. Não me esqueci de nenhum dos oito. Não queria mais surpresas à noite. Não descobri o grau de parentesco entre o escorpião que eu esmagara com o calcanhar no mês anterior e aqueles oito representantes unidos em família.

Mas o ecossistema da caatinga no sertão nordeste da Bahia não vivia apenas de animais peçonhentos. A beleza natural, com a qual me acostumei gradualmente para poder admirar, guardava vegetação fascinante, topografia aplainada cortada por serrotes pedregosos, rios e riachos com água corrente apenas nas épocas chuvosas, casebres de taipa esparsos, povo acolhedor e simpático, roças pequenas para subsistência de mandioca e feijão, plantações maiores e comerciais de sisal, criações de bodes e cabras.

A aparente ausência de vida da vegetação rala revelava fauna exuberante de lagartos, emas, veados, tatus, pacas, cotias, jaguatiricas, diversas variedades de pássaros que proporcionavam verdadeira sinfonia diária de cantos agudos e graves. Resistentes à seca, os bodes e as cabras chegavam a emagrecer e a se adoentarem nas chuvas, quando se abrigavam amontoados sob os alpendres das casas. Na longa estação seca, por outro lado, circulavam gordos e felizes a comer o que viam pela frente.

Eu me deliciava com o umbu, fruta ácida e suculenta do umbuzeiro, árvore que ao lado do juazeiro, tornavam-se as únicas esverdeadas durante a estiagem. Nessa época tudo se ressecava e adquiria coloração cinzenta e acastanhada. Mas bastava garoar, ou serenar como se dizia ali, para brotarem extensos tapetes de minúsculas flores coloridas no chão, minutos antes árido e incolor.
continua...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Três Anos no Sertão da Bahia (parte 2/6)

...continuação
 
O TRABALHO DE CAMPO
 
Minhas atividades profissionais naquela empresa da Bahia alternavam entre serviços de campo, nas quais passava a maior parte do dia, e trabalhos de escritório, quando estudava, planejava e analisava as informações coletadas, elaborando mapas e secções geológicas, relatórios legais aos órgãos competentes do governo federal.
No campo, eu caminhava por picadas previamente abertas pelos técnicos de mineração, descrevendo observações visuais e coletando amostras para análises posteriores. Lançava-as em mapas topográficos preliminarmente sobre papel vegetal. Fechava a malha das trilhas nas áreas consideradas positivas e as detalhava em mapeamentos subsequentes. Providenciava a abertura de trincheiras nas zonas com ocorrência mineral, acompanhadas de furos de sondagem rotativa a fim de investigá-las em profundidade.
Eu vestia perneiras de couro duplo até a altura dos joelhos, me precavendo contra as cobras muito comuns na caatinga. Os colegas do alojamento debochavam das perneiras e das minhas solicitações de soro antiofídico. Até riram nas duas ou três vezes que mostrei as marcas de presas nas perneiras decorrentes de botes de jararacuçu. A tal valentia sertaneja, porém, se calou quando o filho de um funcionário foi picado pela mesma variedade de cobra. Assim que soube do acidente, eu ordenei ao motorista que voasse à casa da família do menino, munido de soro e injeção. A aplicação em tempo do soro anulou a ação do veneno e salvou a vida do garoto.
Ziguezagueando pelas picadas, vez ou outra eu cruzava roças, pequenas propriedades, casebres paupérrimos, rios e riachos geralmente secos. A situação se agravava ao me deparar com plantações de sisal. Como contrapartida à permissão em entrar nas propriedades, a empresa de mineração preservava a plantação, interrompendo a picada ao longo da área plantada, retomando-a do outro lado.

Dificilmente eu encontraria a continuação da picada se contornasse a plantação, de grandes extensões e de formatos imprevisíveis. O jeito era percorrê-la por dentro, me orientando pelo bom senso, até reencontrar a picada. Mas era complicadíssimo atravessar por entre os pés de sisal, dotados de folhas enormes, rígidas e pontudas, que se entrelaçavam à altura e acima do meu corpo. Eu tentava afastar as folhas com os dedos de ambas as mãos. Mas as folhas escapavam e me chicoteavam com as pontas, me furando por cima da camiseta, ficando, ainda que superficialmente, cheio de pontos de sangue. Mais zonas críticas adiante, mais perfurações, mais sangue, mais ardor agravado pelo suor. Não restavam alternativas, senão ultrapassar o mais rápido possível, sem perder a orientação.

Além das plantações de sisal, surgiam, no meio da caatinga nativa, concentrações de calumbis, arbusto de galhos alongados e flexíveis, recheados de espinhos curvados no sentido contrário ao que eu caminhava. Assim que eu esbarrava em um galho, os espinhos me agarravam e me prendiam. Ao tentar me libertar, os demais galhos forrados de espinhos me abraçavam devido ao balanço que eu provocava naquele e nos arbustos ao redor. Era como numa armadilha. Pontas de sangue, riscos avermelhados pelos braços e pescoço, camiseta em farrapos. Haja calma para retirar os espinhos enfiados no meu corpo, afastar cuidadosamente os galhos flexíveis, executar acrobacias, avançar e, o mais rápido possível, me ver livre dali.

Abundavam também acidentes com espinhos de palmas e xique-xiques. Ou com espinhos e folhas que ardem na pele, vindas de arbustos e árvores como cansanção, urtiga e, sobretudo, favela. Eram comuns longos trechos onde não havia trilhas ou caminho confiável, apenas veredas de bodes e cabras. Enfrentava a vegetação no peito e na raça, atento a não perder a direção desejada. Meu estoque de camisetas sumia em três tempos, sem falar na sensação na irritação da pele suada sob aquele sol de rachar mamona.

De vez em quando eu cruzava com sertanejos circulando pela região. Afinal de contas, a empresa de mineração invadia e abria picadas na terra deles. Embora ouvisse casos de atritos pesados, eu jamais tive problemas ao encontrá-los. Quem mais criava obstáculos eram os latifundiários, os grandes fazendeiros, jamais os agricultores de subsistência. Os pequenos trabalhadores rurais cumprimentavam, me chamavam para conversar, curiosos em ver um tipo tão estranho caminhando por aquelas paragens. Eu aproveitava para descansar e absorver um pouco da sabedoria secular deles, a respeito do clima, terra, fauna, flora, fome, injustiça social, perseguição dos latifundiários e abandono pelos governos, mas principalmente a perseverança que as coisas iriam melhorar.

Também cruzava com crianças, assustadas ou intrigadas pela minha presença. Muitas me pediam a benção. Eu invariavelmente me atrapalhava e, sob a pressão de responder qualquer coisa, acabava falando besteira. Houve oportunidade em que, ao pedido da benção da criança, eu respondi: “obrigado!”. Tempos depois, levemente desconfiado de que aquela não tinha sido a resposta esperada, devolvi diante de outra criança que me pediu a benção: “para você também!”. Os passarinhos e as expressões embaralhadas das crianças me sinalizaram que eu novamente não acertara.

Eventualmente as áreas a serem pesquisadas se situavam distantes da sede do alojamento, impossível de ir, trabalhar, e voltar no mesmo dia. Nesses casos eu e o motorista nos transferíamos à cidade mais próxima do local, nos hospedando em hotéis ou em qualquer buraco onde fosse possível dormir. Entre as vilas e cidades nas quais me instalei esporadicamente, estão Curaçá, Queimadas, Santa Luz, Camandaroba. Vamos a elas.

Na margem direita do rio São Francisco, de frente ao estado de Pernambuco, a meio caminho entre Juazeiro e Paulo Afonso, a então pequena e pacata cidade de Curaçá logo me conquistou pelo jeito tranquilo e acolhedor. Logo na primeira noite, quando descansávamos o esqueleto nas cadeiras postadas na calçada em frente ao único hotel disponível, o delegado local nos visitou, nos entrevistando, nos investigando sobre o como e os porquês. De nada adiantou eu repetir que a empresa de mineração na qual eu trabalhava prospectava minério de cromo. Ele insistia que eu viera ali a fim de encontrar ouro. Mas mostrou-se simpático e agradável. Até nos convidou a conhecer a delegacia da cidade, com instalações impecáveis, destacando as celas, completamente vazias, sem ninguém detido. Segundo o delegado, Curaçá se orgulhava de comemorar um ano ou mais sem ocorrências policiais. Ou eu estava em oásis de doçura no meio do sertão nordestino ou o sujeito não prendia ninguém.

As águas azuladas do rio São Francisco forneciam atmosfera ainda mais bucólica à sempre limpa e bem cuidada cidadezinha de Curaçá. Mas o calor massacrava qualquer cidadão. Mesmo à noite, as temperaturas permaneciam acima dos 30 graus. A ausência de mosquitos permitia as janelas abertas no quarto do hotel, o que amenizava o calor, em dois por cento no máximo. Daí a população da cidade brotar às ruas e praças após o sol se pôr. Cadeiras nas calçadas, passeios pela margem do rio, mergulhos nas águas escuras, os raros bares animados. Todos queriam ficar ao ar livre durante a noite. Eu acompanhava os moradores e circulava pela cidade.

Nessas incursões, conheci duas lindas garotas, ali pelos dezoito ou dezenove anos de idade. Me entusiasmei e a recíproca parecia verdadeira. Uma delas aparentemente me escolheu. Quase como namorados, sentávamos coladinhos, aproximando nossos rostos e lábios. Mas foi exatamente aí que o problema começou. Um problema insolúvel. O rosto doce, o olhar terno, os cabelos soltos, os lábios carnudos, a voz suave, nada impediria o efeito devastador do hálito dela. Hálito de coisa podre. Nem precisava ela falar ou expirar, mas apenas abrir levemente os lábios e permitir que os interiores se comunicassem com os exteriores. Situação catastrófica, insuportável. Sabia que não aguentaria por muito tempo. Deixei a coisa esfriar, me afastando gradualmente, sem elas perceberem o motivo. Inevitável. Nunca nutri paixões por bueiros.

Outro destino de trabalho, Queimadas, se situava no sul do sertão de Canudos. Extremamente limpa, bem arrumada, a cidade de cerca de dez mil habitantes contava com as árvores nas ruas e praças desgraçadamente podadas geometricamente, mania absurda dos interiores brasileiros. Era a principal produtora de derivados de sisal do Brasil, sobretudo cordas e afins. E também o município recordista em manetas. Sim, pois as máquinas de beneficiamento da planta, desprovidas de normas de segurança, agarravam as mãos e braços dos trabalhadores. Bastava cochilarem ou permitirem segundos de desatenção, para perderem partes ou o todo dos membros superiores. Os fazendeiros e proprietários do maquinário pouco se lixavam para a carnificina. A impunidade e o descumprimento dos direitos trabalhistas lhes garantiam a tranquilidade de que nada aconteceria e os lucros continuariam.

Eu e o motorista nos hospedávamos em hotelzinho razoável no centro de Queimadas, cuja proprietária, orgulhosa com minha presença, preparava saborosos ensopados de tatu e de rim de porco. Pouco convivi com os moradores da cidade, mais retraídos e em casa à noite. As raras garotas vistosas não passaram de alucinações passageiras. Eu permanecia, então, na sacada da frente do hotel em meio aos outros hóspedes, excelentes contadores de histórias, invariavelmente apimentadas de machismos e valentias difíceis de engolir. Vez ou outra aparecia o ancião da cidade, com mais de oitenta anos. Ao contrário das lorotas dos demais, ele convencia com relatos de fatos da época de Lampião, de quem foi bem chegado e com quem estabeleceu laços comerciais e de amizade. Independente de favoráveis ou não ao capitão do sertão, Lampião inspirava a todos os presentes respeito e admiração, quase veneração divina.

Ainda mais ao sul que Queimadas, Santa Luz, cidade pouco maior, mais movimentada e praticamente fora da região sertaneja. Por vezes permaneci dias ali avaliando supostas ocorrências de cromita e também mapear áreas solicitadas para pesquisa mineral.

Acabei me relacionando com uma garota de Santa Luz. Sempre namorávamos quando eu voltava à cidade. Mesmo depois de eu deixar a empresa e me mudar da Bahia, o caso rendeu cartas e mais cartas, promessas de reencontros futuros, de formalização do namoro da parte dela, leia-se aí noivado ou algo mais grave. O tempo se encarregou de instigar reflexões e fazer com que, aos poucos, caíssemos na real, esquecendo os planos mirabolantes. E esquecendo um do outro.

Camandaroba era localidade mais próxima da sede do alojamento, mas pela grande quantidade de áreas de pesquisa, optamos por montarmos base na vila, pertencente a outro município. Contava com açude artificial, cultivo de peixes e nada mais de promissor. Além da rua principal, de terra, que também servia de eixo da barragem e de estrada entre Itiúba e Cansanção, Camandaroba revelava esparsas construções de madeira, muita poeira, miséria e abandono, sujeira atacada pelos urubus. Embora a melhor do vilarejo, a pensão na qual costumava ficar apavorava em todos os aspectos. Instalações precárias e sujas, banheiro coletivo repugnante, quartos em péssimo estado. A comida, repetitiva e mal preparada pela dona, mais chegada em intrigas e fofocas pesadas, tirava a fome de qualquer cidadão. Um danado de pedaço de bode, insistente como só ele, reaparecia a cada noite, no mesmo formato e posição, de aspecto nada convidativo. Ninguém tocava no tal pedaço de bode. O bode recorrente. E me obrigava a matar a fome de maneiras alternativas.

O marido da dona da pensão decrépita, idoso e bem mais velho que ela, sofria nas mãos da megera, inerte, inválido na cadeira de rodas. Ela o provocava diante dos homens, humilhando-o pelo fato de ele nada fazer, especialmente quanto ao sexo. De aparência física como a própria pensão, a dita cuja não conseguia nada com ninguém, enfurecendo-a ainda mais e atirando-a com mais ódio ao marido. Adorava cantarolar versos de canção de sucesso de Amado Batista, repetindo o refrão que ansiava voltar ao passado, aumentando a voz da cantoria, cutucando o pobre coitado por sobre o pijama velho e sujo. Naquele ano, Amado Batista explodia em vendagens de discos, enchia os bolsos de dinheiro, comprava fazendas e aviões, enquanto os fãs não se cansavam de ouvir letras chorosas e trágicas como na intitulada Amor Perfeito.

OS COLEGAS DE TRABALHO

Intercalado com os trabalhos de campo, eu permanecia no alojamento analisando as informações coletadas, elaborando mapas e relatórios no escritório, projetando novas explorações, ao lado dos colegas de trabalho. Nesses momentos travava maior conhecimento com o contador, o desenhista e, principalmente e infelizmente, com o gerente e geólogo.

Cearense do interior, o tal gerente exibia no aspecto físico, de ideias, comportamento e maneiras de se relacionar com os demais funcionários, o estereótipo do machista, autoritário, grosseiro, arrivista. Evitávamos confrontos abertos, mas jamais me deixei levar, como os demais funcionários, pela submissão e veneração às atitudes dele. Obedecia, é verdade, afinal era funcionário da empresa, mas não admitia os excessos de capataz do individuo. Fanático por caçadas, sempre acompanhadas de espingardas, cartuchos, garrafas de bebidas alcoólicas e dos inseparáveis cães perdigueiro, eu o batizara de perdigueiro frustrado. Somente com estômago forte, eu não vomitava nas manhãs de segunda-feira, ao ouvir as estórias monótonas das caçadas durante os finais de semana, contadas nos mínimos detalhes e recheadas de rompantes de grande sujeito. Tratava melhor aos cães perdigueiros que a mulher e a filha pequena. Presenciei tais cenas ao passar por Juazeiro, cidade onde moravam. Invariavelmente embriagado, ele enxotava violentamente as duas da sala, vociferando que ali não era lugar de mulher, obrigando-as a se refugiarem na cozinha ou nos quartos.

O desenhista, morador da cidade de Campo Formoso, puxava escancaradamente o saco do chefe nos assuntos de caçada, nas gargalhadas forçadas diante das piadas do chefe, até nos gostos e opiniões sobre tudo na frente do chefe. Na ausência do capo, no entanto, o desenhista posava de independente, dono das próprias ideias, até criticando certas posições da empresa. Se orgulhava de entender de diversos assuntos, inclusive aqueles com os quais jamais tomara contato. Mas ao ser questionado, pigarreava tentando retomar desesperadamente o fio da meada das balelas. Não era antipático, nem tampouco chato ou inconveniente, apenas exigia a cautela de todos no que e como falar. Como a maioria, fumava demais e se embebedava aos fins de semana. Como a maioria, raramente comia verduras ou frutas. Como a maioria, se entupia de café e adorava comida gordurosa pela manhã. Como a maioria, não conseguia entender porque vivia sob uns constantes sintomas de azia e demais problemas estomacais. E se regozijava durante as refeições assim que eu lhe oferecia a travessa de salada: “Não sou coelho para comer folha!”. Eu também ria, transferindo ao meu prato todas as verduras frescas.

Caso a parte era o contador, funcionário natural de Senhor do Bonfim. Alcoólatra que se continha sei lá como durante a semana, fumante inveterado, batia os beiços de modo intermitente, feito epilético, quando se debruçava sobre contas e notas fiscais, ao lado da calculadora eletrônica. No entanto, tornava-se boa companhia na ausência do perdigueiro frustrado. Soltava-se, ria, contava boas estórias. Naquela época o pagamento era feito em dinheiro vivo, dentro do envelope, e ele o entregava pessoalmente a cada funcionário. De vez em quando o contador se atrapalhava nas contas. Não conseguia fechá-las e se descabelava. Eu tentava auxiliá-lo, lendo os valores ou digitando-os na calculadora. Mesmo quando o total dava certo, ele mantinha-se encafifado e, sozinho, recomeçava a recontagem pela enésima vez. E os beiços chacoalhavam ainda mais.

Foi na presença dele, quando o perdigueiro frustrado encontrava-se de férias, que um funcionário apareceu no escritório e me pediu para folgar no dia seguinte. Perguntei a razão e o homem respondeu: “Meu renjo quebrou a cantalera”. Pedi em vão socorro com os olhos ao contador. Sem entender ou saber como proceder, eu autorizei a folga. Assim que o trabalhador saiu, me virei e solicitei a tradução ao colega. Rindo aos soluços me disse tranquilamente: “Ele quis dizer que o genro dele quebrou o ombro”.

O motivo mais comum do pedido de folga era, no entanto, para “tirar o piso”. O contador, ou quem mais estivesse presente no momento, comentava, às gargalhadas, somente para me provocar, logo após o funcionário deixar a sala: “Coitado, ganha pouco, mal dá para comer e todo o ano é a mesma coisa, retira o piso da casa e o substitui por um novo”. Ainda riu muito antes de me explicar que os funcionários precisavam ir à cidade para “retirar o PIS”.

Nem sempre eu conseguia evitar os encontros com o contador em Senhor do Bonfim, aos fins de semana. Invariavelmente embriagado e com os olhos úmidos e avermelhados, ele agia como legítimo bêbado chato. Abraçava-me na rua, insistia para que eu sentasse e bebesse com ele, exibia olhar perdido, jurava ser meu amigo do peito, perguntava se eu era amigo dele tanto quanto ele era meu, falava com o rosto bem próximo, repetia dezenas de vezes as virtudes da amizade, especialmente da nossa. Não adiantava eu avisar que ele já contara essa ou aquela estória. O alerta funcionava como combustível e ele a repetia novamente. E a cada repetição da estória, se aproximava mais, me abraçava forte e bradava “me escute, me escute, você é meu amigo, você é meu amigo, me escute, me escute...”. Me libertava daquela tortura somente quando ele ia ao banheiro ou se dirigia ao balcão do bar para pedir outra. Eu escapava dali sem me despedir, aliviado, virando a esquina rapidamente. Na segunda-feira, ao retornarmos ao alojamento da caatinga, ele me tratava normalmente, sem quaisquer referências ao acontecido. Certamente não se lembrava de absolutamente nada do que acontecera.
continua...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Três Anos no Sertão da Bahia (parte 1/6)


OS ANTECEDENTES

Assim que me formei em geologia, em 1978, enviei dezenas de currículos a empresas de mineração espalhadas pelo país. E me refugiei em Alagoas com a namorada.

Até saber de uma resposta de empresa da Bahia. O processo de entrevista incluía passagem área de ida e de volta, entrevista na sede da empresa na cidade de Pojuca, visita e entrevista técnica à região de atuação, situada no sertão norte do estado, contato com os futuros colegas, as instalações do alojamento incrustado na caatinga, a metodologia de pesquisa mineral.

O Brasil começava a entrar em processo de recessão e o setor de mineração, de altos investimentos puxados pelo Estado e de ausência de retornos garantidos, ainda que de longo prazo, sofria os primeiros impactos que prometiam intensos e duradouros. Aquela fora a segunda proposta que recebera em quatro meses e não era das piores. Seria no sertão do nordeste, destino que sempre me atraiu. Receberia salário ligeiramente acima da média para recém-formado. Teria todas as despesas pagas durante os dias úteis, aí incluídas as de transporte, hospedagem e alimentação. Dormiria em alojamento confortável para os padrões sertanejos, com água canalizada diretamente de açude próprio, água potável proveniente e carregada da cidade, equipe de motoristas, cozinheiras e ajudantes em geral, comida farta, sempre acompanhada de frutas e sobremesas. Entre contras e principalmente prós, eu não tinha porque não aceitar.

Retornei a São Paulo a fim de providenciar minha mudança definitiva para Senhor do Bonfim, a cidade decente mais próxima do alojamento e onde eu residiria nos finais de semana. Enfiei os itens básicos dentro de malas e mochilas, me despedi da família e rumei ao aeroporto.

Mas antes de me transferir ao local do trabalho, precisaria ir a Alagoas e cumprir a promessa de noivado que fizera à namorada. E nem doeu. Poucos dias depois do ato, eu seguia, agora em definitivo, à Bahia, com a aliança brilhando de tão nova no dedo da mão direita.

Desembarquei em Salvador, tomei ônibus noturno para Senhor do Bonfim, a sete horas da capital, sem a mínima ideia onde me instalaria na cidade que seria meu lar durante os fins de semana dali para frente. Optei pelo hotel mais apresentável. Espalhei as coisas no quarto e relaxei, pelo menos até encontrar alternativa mais conveniente.

O INÍCIO

Às segundas-feiras, bem cedo, eu me dirigia ao estacionamento da empresa onde duas caminhonetes aguardavam os empregados de nível médio e universitário. Seríamos levados ao alojamento situado no município de Monte Santo, a cerca de duas horas de Senhor do Bonfim por estradinhas locais, de terra e areia, com direito a irregularidades, buracos, bicos de pedra. Pelo caminho cruzávamos as vilas de Igara e Andorinha, tipicamente sertanejas e com o infalível odor de carne podre, pressentido de longe pelas concentrações de urubus planando baixo ao redor dos casebres.

A monótona disposição dos funcionários dentro das caminhonetes jamais variava. O motorista, eu e o gerente na frente; o técnico de mineração, o desenhista e outros atrás. Na segunda caminhonete seguiam, sempre mais tarde, pelas compras e tarefas bancárias a realizar, o contador e outro motorista. Na vila de Andorinha, invariavelmente, resgatávamos as cozinheiras mais um ou outro funcionário, os quais se amontoavam na carroceria da caminhonete junto aos imensos galões de água potável e outros itens a serem transportados ao alojamento.

O gerente, geólogo também e chefe mor da trupe, puxava os assuntos de sempre. Os demais sentados na cabine dupla o acompanhavam mais por respeito, temor ou bajulação, do que por real interesse naquelas conversas sonolentas. Os temas oscilavam entre reportagens de alto valor cultural da televisão no fim de semana, eventuais caçadas pelos matos, comportamento dos cachorros perdigueiros, marcas de espingardas e cartuchos, bebedeiras homéricas. Eu apenas olhava a paisagem, calado, sem intenções de me enveredar naqueles temas, ou de mudar a conversa para assuntos distintos. Apenas relaxava e torcia para chegarmos o mais rápido possível ao alojamento.

Deixávamos as bagagens nos respectivos quartos e, antes de pegarmos no batente, nos reuníamos na copa para o café da manhã reforçado.

Às sextas-feiras, encerrávamos as atividades mais cedo, no meio da tarde, e refazíamos o caminho de volta a Senhor do Bonfim, aí animados pelas perspectivas do final de semana.

O ALOJAMENTO

O alojamento no município de Monte Santo compreendia três construções térreas separadas em ampla área cercada, bem no meio da caatinga. Com funções exclusivas de prospecção e pesquisa mineral, abrigava dois geólogos (eu e o gerente), dois técnicos de mineração, um desenhista técnico, um contador responsável pelos pagamentos e compras de suprimentos, três motoristas, duas cozinheiras que também cuidavam da limpeza, dois zeladores que se alternavam semanalmente na vigilância, nos cuidados do terreno, dos jardins, do portão de entrada, do gerador ao lado do açude privado.

A primeira construção, voltada aos profissionais de nível universitário, continha quatro quartos grandes, um banheiro coletivo, alpendre, plantas penduradas e constantemente regadas que forneciam ao local aspecto de casa de campo.

A segunda construção funcionava, com duas salas, como escritório dos geólogos, técnicos e do desenhista, que preparava em sala separada a versão definitiva, em papel poliéster, de mapas e secções geológicas.

A terceira construção incluía o quarto coletivo dos demais funcionários, outro banheiro coletivo, a copa e a cozinha.

Do lado de fora da área cercada do alojamento, havia o motor para a eletricidade e o enorme açude que abastecia de água o alojamento em tudo, menos a de beber. O motor era acionado somente das 18h às 22h, ou em necessidades especiais. Nem sinal de ventiladores ou do insuportável ar condicionado, felizmente. A ventilação natural da caatinga, a providencial ausência de forro nos quartos, as árvores, as plantas, proporcionavam temperaturas agradáveis, especialmente à noite.

Constantemente varrido e regado, o amplo terreno tornava-se espécie de oásis no meio da terra ressecada do sertão baiano, ali conhecido como micro região de Canudos. Comida abundante, nem sempre variada, acompanhada de frutas e sobremesa, instalações limpas e espaçosas, conjunto bem cuidado, garantiam conforto e tranquilidade necessária. Eu fazia a festa com verduras e frutas abundantes, sobretudo quando o cardápio exagerava no irritantemente repetido, e nada saboroso, bode ensopado com abóbora e nas carnes gordurosas mal preparadas.

Acordávamos ao nascer do sol a fim de aproveitar a região antes de o sol massacrar. Eu lia bastante após o fim de expediente às 17h, encostado do lado de fora da parede do escritório, aproveitando a luz do fim da tarde e o vento refrescante. Jantávamos antes das 19h, após o qual, eu me dirigia ao meu quarto, lia mais, ouvia música ou escrevia, e adormecia bem cedo, quase sempre antes das 21h.

Os demais funcionários estranhavam minhas constantes leituras, especialmente de literatura, história, ensaios sociológicos e análises políticas, e a minha retirada logo após o jantar, ao contrário deles que se juntavam para jogar baralho ou dominó. Até que tentei acompanhá-los, jogando ou assistindo às partidas, mas logo me enfadava, começava a bocejar e não via a hora de poder voltar ao meu quarto. Raramente surgiam conversas interessantes nas quais eu quisesse participar. Contentava-me com os papos durante o dia e às refeições, em momentos mais descontraídos, quando invariavelmente ouvíamos estórias hilárias e ríamos muito.
continua...