sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Três Anos no Sertão da Bahia (parte 1/6)


OS ANTECEDENTES

Assim que me formei em geologia, em 1978, enviei dezenas de currículos a empresas de mineração espalhadas pelo país. E me refugiei em Alagoas com a namorada.

Até saber de uma resposta de empresa da Bahia. O processo de entrevista incluía passagem área de ida e de volta, entrevista na sede da empresa na cidade de Pojuca, visita e entrevista técnica à região de atuação, situada no sertão norte do estado, contato com os futuros colegas, as instalações do alojamento incrustado na caatinga, a metodologia de pesquisa mineral.

O Brasil começava a entrar em processo de recessão e o setor de mineração, de altos investimentos puxados pelo Estado e de ausência de retornos garantidos, ainda que de longo prazo, sofria os primeiros impactos que prometiam intensos e duradouros. Aquela fora a segunda proposta que recebera em quatro meses e não era das piores. Seria no sertão do nordeste, destino que sempre me atraiu. Receberia salário ligeiramente acima da média para recém-formado. Teria todas as despesas pagas durante os dias úteis, aí incluídas as de transporte, hospedagem e alimentação. Dormiria em alojamento confortável para os padrões sertanejos, com água canalizada diretamente de açude próprio, água potável proveniente e carregada da cidade, equipe de motoristas, cozinheiras e ajudantes em geral, comida farta, sempre acompanhada de frutas e sobremesas. Entre contras e principalmente prós, eu não tinha porque não aceitar.

Retornei a São Paulo a fim de providenciar minha mudança definitiva para Senhor do Bonfim, a cidade decente mais próxima do alojamento e onde eu residiria nos finais de semana. Enfiei os itens básicos dentro de malas e mochilas, me despedi da família e rumei ao aeroporto.

Mas antes de me transferir ao local do trabalho, precisaria ir a Alagoas e cumprir a promessa de noivado que fizera à namorada. E nem doeu. Poucos dias depois do ato, eu seguia, agora em definitivo, à Bahia, com a aliança brilhando de tão nova no dedo da mão direita.

Desembarquei em Salvador, tomei ônibus noturno para Senhor do Bonfim, a sete horas da capital, sem a mínima ideia onde me instalaria na cidade que seria meu lar durante os fins de semana dali para frente. Optei pelo hotel mais apresentável. Espalhei as coisas no quarto e relaxei, pelo menos até encontrar alternativa mais conveniente.

O INÍCIO

Às segundas-feiras, bem cedo, eu me dirigia ao estacionamento da empresa onde duas caminhonetes aguardavam os empregados de nível médio e universitário. Seríamos levados ao alojamento situado no município de Monte Santo, a cerca de duas horas de Senhor do Bonfim por estradinhas locais, de terra e areia, com direito a irregularidades, buracos, bicos de pedra. Pelo caminho cruzávamos as vilas de Igara e Andorinha, tipicamente sertanejas e com o infalível odor de carne podre, pressentido de longe pelas concentrações de urubus planando baixo ao redor dos casebres.

A monótona disposição dos funcionários dentro das caminhonetes jamais variava. O motorista, eu e o gerente na frente; o técnico de mineração, o desenhista e outros atrás. Na segunda caminhonete seguiam, sempre mais tarde, pelas compras e tarefas bancárias a realizar, o contador e outro motorista. Na vila de Andorinha, invariavelmente, resgatávamos as cozinheiras mais um ou outro funcionário, os quais se amontoavam na carroceria da caminhonete junto aos imensos galões de água potável e outros itens a serem transportados ao alojamento.

O gerente, geólogo também e chefe mor da trupe, puxava os assuntos de sempre. Os demais sentados na cabine dupla o acompanhavam mais por respeito, temor ou bajulação, do que por real interesse naquelas conversas sonolentas. Os temas oscilavam entre reportagens de alto valor cultural da televisão no fim de semana, eventuais caçadas pelos matos, comportamento dos cachorros perdigueiros, marcas de espingardas e cartuchos, bebedeiras homéricas. Eu apenas olhava a paisagem, calado, sem intenções de me enveredar naqueles temas, ou de mudar a conversa para assuntos distintos. Apenas relaxava e torcia para chegarmos o mais rápido possível ao alojamento.

Deixávamos as bagagens nos respectivos quartos e, antes de pegarmos no batente, nos reuníamos na copa para o café da manhã reforçado.

Às sextas-feiras, encerrávamos as atividades mais cedo, no meio da tarde, e refazíamos o caminho de volta a Senhor do Bonfim, aí animados pelas perspectivas do final de semana.

O ALOJAMENTO

O alojamento no município de Monte Santo compreendia três construções térreas separadas em ampla área cercada, bem no meio da caatinga. Com funções exclusivas de prospecção e pesquisa mineral, abrigava dois geólogos (eu e o gerente), dois técnicos de mineração, um desenhista técnico, um contador responsável pelos pagamentos e compras de suprimentos, três motoristas, duas cozinheiras que também cuidavam da limpeza, dois zeladores que se alternavam semanalmente na vigilância, nos cuidados do terreno, dos jardins, do portão de entrada, do gerador ao lado do açude privado.

A primeira construção, voltada aos profissionais de nível universitário, continha quatro quartos grandes, um banheiro coletivo, alpendre, plantas penduradas e constantemente regadas que forneciam ao local aspecto de casa de campo.

A segunda construção funcionava, com duas salas, como escritório dos geólogos, técnicos e do desenhista, que preparava em sala separada a versão definitiva, em papel poliéster, de mapas e secções geológicas.

A terceira construção incluía o quarto coletivo dos demais funcionários, outro banheiro coletivo, a copa e a cozinha.

Do lado de fora da área cercada do alojamento, havia o motor para a eletricidade e o enorme açude que abastecia de água o alojamento em tudo, menos a de beber. O motor era acionado somente das 18h às 22h, ou em necessidades especiais. Nem sinal de ventiladores ou do insuportável ar condicionado, felizmente. A ventilação natural da caatinga, a providencial ausência de forro nos quartos, as árvores, as plantas, proporcionavam temperaturas agradáveis, especialmente à noite.

Constantemente varrido e regado, o amplo terreno tornava-se espécie de oásis no meio da terra ressecada do sertão baiano, ali conhecido como micro região de Canudos. Comida abundante, nem sempre variada, acompanhada de frutas e sobremesa, instalações limpas e espaçosas, conjunto bem cuidado, garantiam conforto e tranquilidade necessária. Eu fazia a festa com verduras e frutas abundantes, sobretudo quando o cardápio exagerava no irritantemente repetido, e nada saboroso, bode ensopado com abóbora e nas carnes gordurosas mal preparadas.

Acordávamos ao nascer do sol a fim de aproveitar a região antes de o sol massacrar. Eu lia bastante após o fim de expediente às 17h, encostado do lado de fora da parede do escritório, aproveitando a luz do fim da tarde e o vento refrescante. Jantávamos antes das 19h, após o qual, eu me dirigia ao meu quarto, lia mais, ouvia música ou escrevia, e adormecia bem cedo, quase sempre antes das 21h.

Os demais funcionários estranhavam minhas constantes leituras, especialmente de literatura, história, ensaios sociológicos e análises políticas, e a minha retirada logo após o jantar, ao contrário deles que se juntavam para jogar baralho ou dominó. Até que tentei acompanhá-los, jogando ou assistindo às partidas, mas logo me enfadava, começava a bocejar e não via a hora de poder voltar ao meu quarto. Raramente surgiam conversas interessantes nas quais eu quisesse participar. Contentava-me com os papos durante o dia e às refeições, em momentos mais descontraídos, quando invariavelmente ouvíamos estórias hilárias e ríamos muito.
continua...

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