sexta-feira, 28 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 7/7)

...continuação
O ônibus deixou a Transamazônica e retomou o leito não pavimentado da BR-163, a Cuiabá/Santarém. Atravessou as cidades de Trairão e Caracol, antes de mergulhar na noite escura. Os passageiros tentavam dormir. Cochilei em meio aos solavancos do ônibus, entre o asfalto esburacado e os trechos de chão enlameado.
Antes do amanhecer o ônibus parou em Moraes de Almeida. Clareou lentamente com névoa e cerração, cobrindo parcialmente a estrada e os campos próximos. Mais pastos e monoculturas sem fim. A floresta se distanciava bastante do leito da rodovia. A chuva fina continuava firme e forte umedecendo tudo e todos. No sentido oposto, a monótona procissão de carretas duplas, todas iguais, entupidas de soja transgênica e de agrotóxicos, vindas do Mato Grosso, com destino aos terminais e navios em Itaituba e Santarém. As mesmas carretas duplas retornariam vazias para novos carregamentos de soja unicamente para exportação.
Ainda a chuva insistente na parada em Novo Progresso, cidade feia, mais uma cidade com cara de provisória. Mais servia de depósito de gente desassistida e base aos pastos e monoculturas extensivas.
Pedaços de terra encascalhada se intercalavam com asfalto, ora bom, ora esburacado, naquele sul do Pará.
Parada na vila de Alvorada do Amazonas. Nas margens da estrada, imensas fazendas de gado, algum milho, vastas áreas improdutivas, desmatadas e abandonadas pelos especuladores de terra.
Mais adiante, a cidade com o doce nome de Castelo dos Sonhos. De cidade ela nada oferecia, como as demais, numa mistura de ruínas, escombros, construções inacabadas, lixo, desolação, gente também caindo aos pedaços. E, como as outras concentrações de povo mal tratado da região, a vila cresceu ao redor de enormes e trepidantes puteiros, numa infinidade de bares, boates, cabarés e afins.
Nas proximidades de Cachoeira da Serra, de novo nome atraente, mais pastos, áreas desmatadas e improdutivas. No horizonte, serras e serrotes cobertos de vegetação nativa.
A Cuiabá/Santarém atravessou a serra, em traçado sinuoso e acidentado, margeando a PCH Alto Curuá e a PCH Alto Buriti, além de cachoeiras e quedas d’água. Nos sobes e desces da serra em ziguezague, flores amarelas e roxas nas copas das árvores. Em frente, nos terrenos baixos, mais áreas improdutivas e desmatadas, latifúndios frutos da invasão e grilagem de terras públicas pelo grande capital. Nada cultivado ou criado.
No meio da tarde do segundo dia, a divisa interestadual entre o Pará e o Mato Grosso. A BR-163 serpenteou a serra do Cachimbo. Depois a troca de ônibus na rodoviária de Guarantã do Norte. O novo ônibus, de dois andares, partiu lotado.
Entramos de jeito no norte do estado do Mato Grosso. Planícies e mais planícies. Nenhum, absolutamente nenhum, vestígio da floresta amazônica, nem de longe, apesar de ali ainda pertencer à Amazônia. Somente as monoculturas extensivas a perder de vista, sobretudo de soja. Ao longo da BR-163, uma cidade atrás da outra, planejadas, com ruas e avenidas largas, rotatórias em série, tudo espalhado e distante. Ninguém a pé. Tudo triste. Cidades tipicamente agropecuárias, com silos, lojas de equipamentos agrícolas, tratores, fertilizantes, agrotóxicos, muitos agrotóxicos. Abundância de caminhonetes cabine-dupla. Muitos rostos sulinos. Poucos sorrisos. Cidades com cara de nada, nada acolhedoras, formavam paisagem monótona, repetitiva, a cada entrada do ônibus. Nada mudava entre o tédio de Matupá, Peixoto de Azevedo, Terra Nova do Norte, Nova Santa Helena, Itaúba, Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Nobres, Rosário Oeste, Jangada. O pé d’água que desabou em Nova Santa Helena e o razoável sinal de vida humana em Sinop, a maior cidade daquele trecho, quebraram a mesmice sonolenta do norte do Mato Grosso. Pelo menos à noite, Sinop, cidade que leva o nome de uma sociedade imobiliária do norte do Paraná, me despertou curiosidade. Havia amplos canteiros centrais da avenida principal arborizada, com ciclovia, jardins, bancos para sentar e namorar, prestigiado pela população em noite do meio da semana.
Conversas entre os passageiros do ônibus, nenhuma. Silêncio sepulcral pelos assentos.
Até que consegui cochilar bastante, a despeito do frio exagerado vindo do ar condicionado, contra o qual os passageiros reclamaram e nada foi feito.
Em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, intenso desembarque de passageiros. Ao amanhecer do terceiro dia, após sucessão de avenidas, viadutos, mais avenidas, o ônibus estacionou na rodoviária de Cuiabá, trinta e nove horas e meia desde a partida de Santarém.
Embarquei em micro ônibus à Chapada dos Guimarães, cidadezinha erguida no topo da chapada de mesmo nome, a menos de duas horas de Cuiabá, em pleno cerrado mato-grossense e com temperaturas mais amenas do que a caldeira da capital. O motorista do micro voou feito suicida pela pista sinuosa e acidentada da MT-251, encurtando perigosamente o tempo do trajeto.
Eu estava sujo, cansado, com sono, com fome. Mas feliz da vida de ter percorrido de ônibus mais uma estrada cheia de histórias, boas e más, a BR-163, a Cuiabá/Santarém. E retornava à Chapada dos Guimarães dezenove anos depois.
À noite encontrei três hóspedes nas proximidades da recepção da pousada. O capixaba que viajou de moto por mais de um mês pela América do Sul e preparava a volta pra casa na manhã seguinte. O casal paulistano passava pouquíssimos dias na Chapada dos Guimarães. Seguimos a bar no centrinho da cidade onde encontramos guias e outros moradores.
A chuva fina persistia do lado de fora.
Durante o dia, no amplo quarto da pousada, li bastante o terceiro volume de Memórias do Fogo, de Eduardo Galeano. Andei lentamente pela cidade. E mais nada.
À noite, sob o céu escandalosamente estrelado, e ao longo de ruas desertas e com rara iluminação pública, caminhei ao centrinho de Chapada dos Guimarães e repeti o mesmo bar da noite anterior. Uma caipirinha medíocre, duas doses de cachaça e vários copos de caldos bem temperados em diversos sabores. Movimento discreto nas outras mesas.
Após o café da manhã, decidi visitar o parque nacional da Chapada dos Guimarães, cuja portaria se localizava na estrada para Cuiabá. Fui e voltei de ônibus de linha.
Em trilha curta visitei as cachoeiras dos Namorados e a Cachoeirinha, ambas de beleza média e águas ainda turvas pelas recentes chuvas. Depois trilha curta ao cartão postal da Chapada dos Guimarães, a cachoeira Véu de Noiva. As águas despencavam de dezenas de metros sobre vale profundo e extenso, limitado por escarpas íngremes de arenito e mata atlântica nas partes baixas. Conjunto impressionante, pela beleza estonteante, pelas dimensões horizontais e verticais do vale, pelas escarpas rochosas de coloração ocre, pela densa floresta tropical verde-escura.
E o tempo virou na manhã seguinte. A frente fria trouxe nuvens escuras e carregadas, chuvas, ventos fortes. À medida que avançava o dia, rajadas de vento, chuva intensa, água, muita água, tempestade de impor respeito. A bruma e a neblina logo cobriram tudo, limitando a visibilidade a poucos metros.
A sensação de andar nas ruas à noite, envoltas pela neblina espessa, com visibilidade pouco acima de dois metros, se tornou excitante. Ninguém, absolutamente ninguém, a pé pelas bandas afastadas do centro da cidade. No centro, esparsos veículos iam e vinham pelas ruas turvas pela cerração.
Ao andar ao longo das ruas vicinais e mais afastadas do centro de Chapada dos Guimarães me lembrei de La Paloma, cidade litorânea do Uruguai. Lá como cá, dezenas de casas vazias pela baixa temporada. Lá como cá, cães ferozes guardavam os quintais e se aproximavam do muro frontal, espumando de raiva, latindo agressivamente à minha passagem. A diferença, para meu alívio, é que na Chapada dos Guimarães nenhum escapou para a rua e me atacou a dentadas, como aconteceu com o pastor alemão uruguaio. Cá, dois enormes cães, aos pulos e babando de ódio, certamente, se soltos, me reduziriam a pedaços de carne sem vida.
Embora as temperaturas se mantivessem baixas no dia seguinte, o sol acabou por se impor e proporcionar tarde luminosa e colorida. Sorte dos cuiabanos que subiram a serra. Muitas roupas quentes, casacos, botas, cachecóis, itens que jamais vestiriam na capital mato-grossense, o caldeirão sem disfarces.
De manhãzinha peguei o ônibus para Cuiabá, com direito às últimas vistas das escarpas ocres da Chapada dos Guimarães. Na rodoviária da capital mato-grossense esperei o segundo ônibus.
Na saída da zona urbana de Cuiabá a assembleia de caminhoneiros sob a tenda improvisada em rotatória preparava a paralisação nacional. Protestavam contra os sucessivos aumentos dos combustíveis praticados pela ditadura originada no golpe de Estado de 2016. E estavam em vias de bloquear rodovias.
Sobes e desces em ziguezagues pela serra de São Vicente, no município de Jaciara. Depois, monoculturas sem fim, entupidas de agrotóxicos, empregando pouca mão de obra. Praticamente tudo para exportação a preços ínfimos.
Após Rondonópolis, a subida da serra ao planalto central. Nos altos, a cidade de Alto Garças e a divisa interestadual entre Mato Grosso e Goiás, atravessando o estreito rio Araguaia correndo sobre lajes de pedra, ali não muito distante das cabeceiras. Do lado mato-grossense, a cidadezinha de Alto Araguaia, do lado goiano, Santa Rita do Araguaia. O frio batia no fundo dos ossos. Era difícil permanecer do lado de fora do ônibus durante as paradas.
Amanheceu no segundo dia na divisa entre Goiás e Minas Gerais, após cruzar as cidades goianas de Jataí, Rio Verde, Itumbiara. O frio se mantinha cortante, mesmo sob o sol. A rodovia atravessou o triângulo mineiro, cruzando Uberlândia e Uberaba, por entre terrenos levemente ondulados.
Depois da divisa entre Minas Gerais e São Paulo, canaviais sem fim, nenhuma plantação de alimentos. Me lembrei dos idos tempos do Brasil colonial. Talvez nem tão idos assim. Minúsculas cidades paulistas ofereciam mão de obra barata, quase de graça, aos senhores de engenho do século XXI. Sem falar nos migrantes, sobretudo do norte de Minas Gerais, que afluíam à região nos períodos de colheita e se entregavam a trabalhos praticamente de escravos, pessimamente remunerados, sem os mínimos direitos trabalhistas.
Em Ribeirão Preto, cidade outrora exibindo opulências, agora oferecia miséria, moradores de rua, prostituição escancarada pelas ruas do centro, inclusive de menores, em pleno meio-dia.
O estado de São Paulo também indignava pela infinidade de pedágios, um atrás do outro, caríssimos, extorquindo dinheiro da população via a ilegal bitributação, todos nas rodovias irregularmente privatizadas pela quadrilha que ditava as regras havia mais de vinte anos no estado.
E mais canaviais, nada de alimentos cultivados, mais pedágios, mais assaltos legalizados.
No começo da noite do segundo dia, naquele fim de maio, o ônibus estacionou na rodoviária da Barra Funda, em São Paulo.
Aquela estupenda exploração pela Amazônia, do rio Juruá ao rio Tapajós, via a Transamazônica, mais a famigerada Cuiabá/Santarém, ainda reverberaria por muito tempo em minha mente.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 6/7)

...continuação
O terminal hidroviário de Itaituba era construção eficiente, limpa, organizada e confortável de ficar, dentro ou fora, em bancos sob a brisa refrescante que soprava do rio. A lancha alongada, com capacidade para duzentos e doze passageiros, corredor largo, altura interna em que eu podia andar sem me curvar, quatro assentos reclináveis de cada lado, permitindo esticar as pernas livremente, partiu no meio da manhã de Itaituba, rio Tapajós abaixo.
Na embarcação a alimentação servida não estava incluída no preço da passagem, como decentemente ocorre nas lanchas do estado do Amazonas. Belisquei o que guardava na mochila. Entre os filmes transmitidos seguidamente, sem intervalos, nos televisores espalhados internamente, todos vinham daquele país terrorista ao norte do México. Doeram de tão ruins.
Quatro as paradas da lancha, Barreiras, Brasília Legal, Fordlândia, Aveiro. Fordlândia ainda guardava resquícios de construções utilizadas durante o funcionamento do enclave estadunidense na região em meados do século XX.
Ainda não escurecera quando a imensa lancha atracou no calçadão da orla de Santarém.
Me instalei em bar no deck de madeira sobre as águas do Tapajós. Beberiquei, apreciei o movimento e, sobretudo, matei a fome em dia sem almoço.
Bati papo com o mato-grossense de Sinop, caminhoneiro que transportava querosene para aeronaves agrícolas de Roraima. Me mostrou no celular vídeos de aviões borrifando agrotóxicos nas monoculturas extensivas e pastos de gado no norte do Mato Grosso, e nos entornos da cidade amazonense de Boca do Acre. Assustador! Veneno nas plantações, nas criações, nos funcionários, nas populações do entorno. O Brasil detinha o triste título de maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Em outro tema, sobre técnicas de aviação, ele afirmou categoricamente que eram falsas as estórias de garimpeiros que, na falta de pista suficiente para decolar, amarravam corda com tronco pesado à aeronave e a cortavam assim que os motores atingiam o pico. Eu ouvira tais façanhas de garimpeiros durante a viagem pela Transamazônica, entre Jacareacanga e Itaituba. Os garimpeiros tinham assegurado que isso acontecia com frequência, especialmente nas pistas ilegais, curtas e abertas às pressas para evitar a interdição pelos órgãos policiais.
O sono e o cansaço bateram em cheio. Tive que interromper as instrutivas conversas com o envenenador mato-grossense.
Pela manhã tomei ônibus urbano com destino à cidade de Belterra. A cidade fora construída artificialmente para abrigar funcionários que trabalhavam em Fordlândia, enclave estadunidense no Brasil durante a segunda guerra mundial, a fim de produzir borracha a baixo custo, usando e abusando da barata mão de obra brasileira, para o doce exército daquele país. A iniciativa partira do cabeça de corporação automobilística, daí o nome da cidade.
A cidade era toda espalhada em ruas e avenidas retas, compondo traçado quadriculado. Casas padronizadas e absolutamente iguais, feitas de madeira. Escritórios privados e da administração pública, padronizados e de madeira. Todas as construções isoladas e distantes umas das outras em meio a vias arborizadas. Praça ampla, verde e vazia em frente à igreja Matriz. O rio Tapajós corria longe da cidade. Quase ninguém pelas ruas e calçadas. Movimento nulo na prefeitura, câmara de vereadores, secretarias municipais. Desolador. As praias da região, tão elogiadas em Santarém, ficavam distantes para ir a pé, mesmo a quem adora andar como eu.
Circulei mais um pouco naquela tristeza padronizada e tomei ônibus de volta a Santarém, à civilização, à cidade com cara de cidade.
Estava nublado à tarde e a brisa branda soprava do rio. Andei a esmo na direção norte, rumo ao encontro das águas do Tapajós com as do Amazonas. Penetrei em trecho bucólico e tranquilo de Santarém. Não tinha pressa. Avançava lentamente. Admirava ruazinhas, casinhas, barquinhos na beira do rio, aves, árvores com as raízes sob as águas. Permaneci um tempão contemplando as águas do Tapajós, a linha irregular do encontro com o rio Amazonas, eventuais barcos em circulação. Postos de combustíveis flutuantes navegavam rumo aos barcos e navios maiores para o abastecimento solicitado. Muita calma, paz, silêncio, pela paisagem ao infinito das águas amazônicas.
À noite, caminhei ao fim do calçadão do lado sul, ao badalado restaurante frequentado pela elite mocoronga. E todos seguiam à risca as regras da etiqueta. Elas, exageradamente produzidas, vestidas para matar, se equilibrando sobre altíssimos saltos agulha. O casal entrava de mãos dadas, mostrando quem era dono de quem, soltando-as somente ao aterrissar na mesa, onde se sentavam lado a lado. Tomei duas caipirinhas enormes e soberbamente temperadas, antes de cair de cabeça em filhote frito com legumes, camarões, jambu, arroz e farofa. O primeiro terço do prato caiu bem. O segundo, enjoativo pelo travo adocicado. O terceiro, eu já enfastiado, comi para não desperdiçar e fazer jus ao preço paulistano.
Dormi pouco e mal. No quarto ao lado, o hóspede que deu entrada perto da meia noite pigarreava de modo explosivo, parecendo fera selvagem, em volume alto, a madrugada inteira, de maneira esquizofrênica. Engasgava, roncava, tossia. Nem parecia ser humano. A besta fera emitia rugidos guturais em intensidade assustadora. Eu não sabia se reclamava a um funcionário do hotel, apelava aos órgãos ambientais, ao resgate de animais selvagens, aos bombeiros, à ambulância, ao IML. Só sei que o ser ali ao lado era o próprio apocalipse em putrefação.
Encerrei a leitura de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, de maneira arrastada. Torcia para que a última página aparecesse o quanto antes. O livro envelhecera. Não a distopia contida no romance. Mas sim a forma, os detalhes sobre os avanços tecnológicos dos anos 1930, década em que fora escrito, a mensagem ingênua embutida no enredo. Os mais de oitenta anos da primeira edição não serviam como desculpa. O próprio autor prefaciou criticamente o livro quinze anos depois do lançamento. Ainda um clássico, mas clássico datado, desbotado, enfraquecido do impacto inicial.
Retirei o terceiro livro, o volume três de Memórias do Fogo, de Eduardo Galeano. Batizado de O Século do Vento, o livro se concentrava na análise da história da América ao longo do século XX.
Na rodoviária esperei pouco a partida do ônibus. A BR-163, a famosa Cuiabá/Santarém, no caso em sentido contrário, começou pavimentada, em terras planas, entre monoculturas e pastos, empurrando a floresta para o derradeiro horizonte.
Após a primeira parada a Floresta Nacional do Tapajós perfilou a oeste da estrada, exibindo mata de grande porte e bem preservada. Acima dos vales subia concentrações de névoa compondo cenário encantador.
No município de Rurópolis, em trecho curto em depressão, sem asfalto, a estrada enlameada e escorregadia por pouco não causa o tombamento de carreta. O extenso veículo ficou atravessado na pista. Demandou tempo e paciência para se movimentar e, finalmente, liberar o tráfego. Situada no entroncamento entre a BR-163, a Cuiabá/Santarém e a BR-230, a Transamazônica, a cidade de Rurópolis reservava rascunho de rodoviária. Os ônibus estacionados permaneciam parte na plataforma curta e parte no meio da rua. Começou chuva fina e teimosa.
O ônibus seguiu um trecho pela Transamazônica, no sentido oeste, a fim de buscar a continuidade da Cuiabá/Santarém perto de Trairão. A chuva transformou o leito em ainda mais molhado e escorregadio. No meio do caminho, ainda na Transamazônica, batemos de frente à fila de caminhões e carretas, atolados ou impedidos de prosseguir. O motorista descalçou os sapatos sociais e engraxados, se enfiou em botas de borracha de cano longo, desceu à lama para avaliar se dava ou não para passar por passagem estreita. Nesse momento um trator em sentido contrário puxava carreta que atolara mais adiante. E obtinha trocados em cima do desespero dos outros. O motorista voltou, avançou o ônibus, mas atolou menos de um quilômetro depois. Alternando a primeira marcha com a ré, por diversas e insistentes vezes, o veículo se libertou do atoleiro afundado pelo peso das carretas na quarta tentativa, em meio a fumaça do escapamento. Poucos quilômetros à frente, no terceiro atoleiro daquele trecho curto da Transamazônica, outra carreta no sentido oposto atravessara na pista, no meio da lama, bloqueando o tráfego nos dois sentidos. Os motoristas dos demais veículos, aí incluído o do ônibus, teriam que colaborar a puxar a carreta e liberar a passagem, sob o risco de passar a noite inteira por ali. O ônibus se posicionou de frente à cabine da carreta. Na enésima troca dos sapatos pelas botas de borracha, o motorista do ônibus, auxiliado pelos condutores das demais carretas, engatou o cabo de aço na frente do ônibus e na frente da cabine da carreta. As lanternas dos celulares iluminaram os delicados procedimentos em ambos os veículos. De volta ao volante do ônibus, e novamente com os sapatos, o motorista engatou a ré e, com a ajuda do carreteiro também com o motor ligado, apelou para a força máxima. Minutos depois, com toda a torcida ao redor, mais muita fumaça do escapamento, e de ré, conseguiu desencalhar a carreta e liberar meia pista da Transamazônica. Aplausos e apupos de todos ao redor. E tudo isso no negrume da noite, com céu nublado, sem lua.
O ônibus avançou a oeste, por estrada em péssimas condições, aos trancos e barrancos. A chuvinha fina que teimava em cair contribuía para piorar a situação do leito da rodovia. Ainda na Transamazônica passou por Divinópolis, ou Km70, pelo Km30, até atingir Miritituba, margem direita do Tapajós. Na margem oposta, as luzes e o perfil refletido nas águas da familiar e redimida cidade de Itaituba. Novos embarques, sem lotar o ônibus.
O passageiro mato-grossense de Alta Floresta era tagarela, ansioso, levemente desequilibrado. Não perdoava ninguém sem puxar assunto, qualquer assunto. Quando jovem achava divertido sumir da casa dos pais. Nada avisava e desaparecia por três ou quatro anos. Teve cinco filhos de cinco mulheres diferentes e morava, naquela época, com a quarta delas. Tinha trinta e seis anos e trabalhava com construção civil. Em pouco tempo se tornava maçante e todos o evitavam.
continua...

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 5/7)

...continuação
Cidade de garimpeiros e indígenas da etnia Munduruku, Jacareacanga tinha tudo de vila provisória. Feia, desmantelada, desorganizada, suja, com construções inacabadas, ou caindo aos pedaços, em ruínas, muitas de madeira podre, no centro urbano. Funcionando na prática como escala temporária de pessoas de fora, garimpeiros e indígenas, as administrações públicas pouco se lixavam para os moradores permanentes. O próprio prédio da prefeitura exibia aspecto desolador. E ainda havia os piuns para atacarem sem dó, em qualquer parte da cidade.
Num dos muitos braços do rio Tapajós, cujo leito principal corria a mais de dois quilômetros da cidade, voadeiras se amontoavam ao lado do barro arenoso. Em terra, botecos, puteiros, bares, tudo barra-pesada, de estilo bem garimpeiro, do jeito que eles gostam. E lá estavam eles, embriagados logo pela manhã, agarrados ou não a mulheres, maiores e menores de idade, elas também caindo aos pedaços. Ambiente e cenas mais autênticas e emblemáticas, impossível. Pelas demais ruas da cidade, revestidas de asfalto, lajotas de cerâmica ou areia, inúmeros grupos de Munduruku, perambulando pelo comércio, nas unidades de saúde, nos centros de assistência social e médica, específicos para eles, mas em construções podres, imundas, escuras. Os responsáveis por tal situação, todos brancos, mais destratavam e humilhavam os legítimos donos de todas aquelas terras do que prestavam os serviços previstos na Constituição do Brasil. Tais desserviços só se agravavam com o regime que assaltou o governo federal através do golpe de Estado de 2016.
Estabelecimentos comerciais especializados atendiam garimpeiros, comprando ouro. Dentro, balanças, peças e assistência técnica, sem falar na segurança triplamente reforçada. Pelas ruas também se viam lojas de joias fabricadas localmente.
Desde que o rio Tapajós corria longe da zona urbana, e inacessível a pé pelos vários braços alagados durante as cheias, Jacareacanga não apresentava nada de atraente, sob qualquer aspecto. Permanecer ali somente pelo motivo de descansar, comer e dormir bem, se recuperar dos dois longos trechos anteriores pela rodovia Transamazônica, e se preparar para o terceiro daí uns dias.
À noite comi em local coberto, mas sem paredes e naturalmente ventilado, em frente ao rascunho de praça de lazer dotada de quiosques de lanches, espetinhos, sorvetes. Noutra esquina, bar de sinuca genuinamente frequentado por garimpeiros, putas, indígenas desfigurados, em ambiente também aberto. Mais bares de bebuns e com música em volume alto conviviam democraticamente com locais familiares e ingênuos.
Aquelas cenas lembraram as noites de Oiapoque, cidade do norte do Amapá, mais populosa, mais agitada e muito mais perigosa. Lá também havia grande concentração de garimpeiros e putas, então em trânsito para a Guiana Francesa e o Suriname.
Comi o café da manhã na mesa da cozinha do hotel junto à proprietária, e um casal jovem, ele garimpeiro e calado, ela submissa e calada. Falante, sessentona, separada, a dona era boa companhia e tocava com capricho e asseio o hotel básico.
Circulei pelas periferias de Jacareacanga, silenciosas naquela manhã de domingo. Moradias de alvenaria e madeira. Ruas não pavimentadas. A floresta muito perto. De volta ao centro, permaneci um tempão sentado na arquibancada de madeira do campo de futebol municipal, sem muros, aberto, vazio, ventilado, quieto, ideal para relaxar e refletir.
Almocei galinha caipira mais os acompanhamentos de praxe em restaurante ajeitado, limpo e arejado, sem as paredes laterais e a frontal. Em outra mesa, três clientes. Uma trintona cheinha, um indígena ou descendente próximo, um homem corpulento, moreno claro, cabelos pretos, lisos e com franjinha. O grandalhão vestia camiseta regata, pulseira de ouro, correntinha de ouro no pescoço e mais um pingente feito de várias peças de ouro em formatos variados, com dimensões ao redor de cinco centímetros cada uma delas. Todos os ouros polidos e resplandecentes à luz diurna. Exibia expressão sisuda, de poucos amigos. O grupo, sobretudo o agigantado, atuava direta ou indiretamente nos garimpos da região do alto Tapajós.
Os passageiros apareceram em cima da hora e o micro partiu no meio da manhã. Sentei na primeira fileira, de cara à paisagem da estrada. Ao meu lado sentou jovem com filha de cerca de três anos, provavelmente caso e filha de garimpeiro da região. A criança não parava quieta e a mãe, de expressão e movimentos abobados, não dava conta. A todo instante eu tinha que empurrar a pequena que se derretia sobre meus ombros. Aos poucos fui perdendo a paciência e passei a empurrar ambas para o outro lado, com gestos cada vez menos delicados.
Dos três trechos percorridos da Transamazônica naquela viagem, desde Humaitá, aqueles últimos quatrocentos quilômetros apresentavam melhores condições de tráfego. Porém, como os demais, raríssimos veículos nos dois sentidos. O leito da estrada estava mais marcado, os trilhos sinuosos dos pneus se avistavam ao longe. Havia estirões mais largos, alguns terraplanados recentemente. Até placas de sinalização apareciam de quando em vez. Longe do paraíso para os veículos transitarem, aquele intervalo da Transamazônica, praticamente paralelo ao rio Tapajós, era o mais bem conservado desde o rio Madeira. No entanto, surpreendentemente, foi nesse pedaço paraense, entre Jacareacanga e Itaituba, que a floresta amazônica mais se fez presente nas beiras da rodovia, inclusive nos momentos em que se alargava ligeiramente. Árvores de pequeno, médio e grande porte praticamente tocavam no micro ônibus. Em certas partes os galhos das árvores das margens se encontravam acima, formando impressionantes túneis de coloração verde-escuro. Avistei aves diversas, macaquinhos, jabutis, cruzando a pista. Os olhos e a alma agradeciam tamanho impacto visual da exuberante Amazônia.
A maioria dos passageiros do micro, assim como os das esparsas caminhonetes cabine-dupla que passavam voando em ambos os sentidos, era de pessoas ligadas às atividades do garimpo de ouro. Durante as paradas de embarque e desembarque as conversas giravam invariavelmente sobre as centenas de garimpos espalhados pelo alto Tapajós. Eles atuavam, atuaram ou iriam atuar num daqueles pontos no curto prazo. Elas, enrabichadas ou não com alguém, salvo exceções isoladas, trabalhariam como cozinheiras ou putas.
Parada para almoçar no isolado restaurante na beira da estrada. Assim que desembarcaram os passageiros foram atacados impiedosamente por nuvens de piuns famintos por sangue novo. Insuportável. Apelei para o repelente guardado estrategicamente no fundo da mochila de ataque e apliquei nos braços e mãos, descobertos então. E emprestei o frasco aos colegas próximos. Amenizou parcialmente a fúria dos insetos.
Mais adiante da Transamazônica, na parada denominada Sol Nascente, o micro parou para desembarque de um casal jovem. Ali era ponto de partida para inúmeras áreas de garimpo na região. E o mais impressionante, aquela clareira repentina no meio da floresta amazônica abrigava vários aviões monomotores, todos estacionados na beira da estrada, ao lado de galpões e oficinas. Visão apocalíptica e preocupante.
Seguindo em frente na rodovia, menos de uma hora depois, o motorista recolheu moço que caminhava pela borda da estrada carregando mochila pequena às costas. Assim que entrou passou a contar a própria história recente, ao motorista e a quem mais quisesse ouvir. Atacado de malária, o coitado abandonara o emprego em determinado garimpo, embora a patroa o obrigasse a trabalhar mesmo tiritando de febre. Recebera 2,3 gramas de ouro por duas semanas de trabalho, mas ia procurar e reivindicar os direitos trabalhistas contra a opressão da tal patroa. Descrevia os infortúnios de maneira emocionada e com os olhos vidrados, pelo cansaço, sede, fome, pela febre da malária. Desembarcou em outro ponto base de garimpo de ouro.
Poucos quilômetros à frente, a sudeste da rodovia Transamazônica, enorme barranco era derrubado por retroescavadeira. O material desagregado era recolhido e lavado logo ao lado. Mais um garimpo ilegal de ouro, só aguardando a interdição pelos órgãos policiais e consequente destruição dos equipamentos, ação semelhante à ocorrida no rio Madeira tempos antes e que incitou a reação explosiva e incendiária por parte dos garimpeiros.
O micro ônibus rodou mais meia hora e entancou no meio de outra pista de pouso na margem da Transamazônica, com aviões, oficinas, dormitórios, galpões, tudo novo e recém-pintado de branco e azul. Era a base do cearense que, segundo depoimento dos passageiros, chegou na região anos antes como vendedor de redes para dormir de porta em porta e, em pouco tempo, se tornou um dos reis do garimpo do alto Tapajós.
Eu mais ouvia do que falava com os demais passageiros. E aprendia muito. O mercúrio ainda era usado indiscriminadamente nos garimpos de ouro a fim de lavar o metal, conforme ressaltaram os colegas. Garantiam que não havia outro jeito para o ouro fino. Somente para o ouro grosso outros métodos, sem mercúrio, se adequavam à lavagem. Afirmaram ainda que a maioria dos afluentes, e o próprio Tapajós, apresentavam contaminações significativas de mercúrio. A deficiência nas espinhas e costelas dos peixes, tornando-as frágeis e quebradiças, além de sintomas leves e graves em humanos, dentro e fora das áreas de garimpo, eram o sinal amarelo, ou mais precisamente o sinal vermelho, diante da calamidade socioambiental.
Porém, exceto essas clareiras mencionadas, repentinas e ilegais, que alertavam sobre a situação social desesperadora de parte da população brasileira, a floresta parecia preservada e imponente aos olhos dos passageiros. O rio Tapajós corria ao sul da Transamazônica, paralelo e não muito distante, podendo ser avistado de relance em trechos mais altos da estrada.
A Transamazônica passou a percorrer área do parque nacional da Amazônia. Se a floresta e a natureza encantavam antes, ali no meio do parque nacional ainda mais, impressionando e deslumbrando até os que por ali trefegavam regularmente.
No começo da noite, onze horas e quase quatrocentos quilômetros depois de deixar Jacareacanga, o micro entrou nas ruas escuras de Itaituba.
A pequena janela do quarto do hotel permitia vislumbrar parte do rio Tapajós e da margem oposta, onde se erguia a vila de Miritituba.
Itaituba cresceu em quinze anos, desse minha visita anterior. Ganhou ares de cidade grande, com trânsito, semáforos, ruas comerciais de intenso movimento, gente com pressa. A orla do Tapajós foi reurbanizada do ponto da balsa até pouco além do terminal hidroviário. Quiosques, bancos, áreas livres, se perfilavam. Tipos físicos bem diversos pelas ruas, inclusive grupos indígenas. O Tapajós se encontrava cheio, largo, caudaloso, batendo no paredão da orla.
Uma após a outra, balsas transportavam veículos leves e pesados, pedestres, motos e bicicletas, à margem direita do rio, à cidadezinha de Miritituba. Motoristas de micro ônibus gritavam os destinos para eventuais novos passageiros, emitindo os bilhetes ali mesmo sobre a balsa. Mais à frente da cidadezinha, para o leste, prosseguia a rodovia Transamazônica, no rumo das infames cidades de Altamira, na margem do Xingu, e Marabá, na margem do Tocantins, entre outros aglomerados urbanos, bucólicos e deveras seguros para o gênero humano. Ao percorrer aqueles trechos vários anos antes, me deparara com o descalabro social, cultural e ambiental. Jamais pretendia repetir tal façanha da qual sobrevivera milagrosamente.
Pouco ou nada para observar em Miritituba. Bares, agências de transportes, filas de veículos para a balsa, poeira, poluição sonora, gente trançando para lá e para cá. Embarquei na primeira balsa e retornei a Itaituba.
Almocei bem e acompanhado do inseparável copo de suco de cupuaçu. E emendei com tigela de açaí fresco, de lamber os beiços, em estabelecimento típico localizado em rua transversal.
Razoável movimento na orla urbanizada do Tapajós na noite de terça-feira. Na balaustrada da beira do rio, pescadores de linha tentavam algum brinde fluvial. Nas barracas de tacacá, de sanduíches, de pasteis, de comes e bebes em geral, a mídia burguesa idiotizava pelos televisores a plateia que deitava os olhares bovinos na tela luminosa. Cenas deprimentes. Mas alguém lhes oferecia outras formas acessíveis de informação, formação, lazer? Realidade nua e crua. E ainda tem gente que culpa o povo pelas escolhas!
Jantei peixe ensopado de frente ao vaivém suave dos itaitubenses. Andei de leve, para cá e para lá, sob o céu escandalosamente estrelado.
Pela manhã andei pela orla do Tapajós no sentido sul, bem depois da igreja Matriz. Ruas calmas, casas simples ao lado de mansões de mau gosto, muitas destas obstruindo a passagem para a margem do Tapajós. De qualquer forma, refúgio bucólico em trecho não urbanizado da orla de Itaituba.
A simpática orla urbanizada, na margem esquerda do Tapajós, mostrava o orgulho que Itaituba tinha do rio que a banha, não lhe dando as costas conforme outras cidades amazônicas desgraçadamente faziam. Sempre havia alguém correndo ou caminhando para se exercitar. Em cidade com muita imigração, rostos e corpos dos mais variados. As filhas da própria terra ganhavam em beleza, simpatia, sensualidade, se comparadas com as desajeitadas e branquelas sulistas.
continua...

terça-feira, 18 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 4/7)

...continuação
Após substancioso café da manhã caminhei ao ponto da balsa que cruza o rio Madeira. Na margem oposta, três bares precários, cobertos de palha, perigosamente fascinantes. Mais adiante, duas ou três casas de madeira. E só. Depois apenas o leito de terra encascalhada, castanho-avermelhada, penetrando na floresta logo após a primeira curva. Eu pisava na BR-230, a Transamazônica, no início do trecho entre o rio Madeira e a cidadezinha de Apuí.
A estrada e a floresta me convidavam a avançar. Sons de pássaros, insetos, o vento brando, o farfalhar das folhas das árvores mais altas. Durante o longo tempo em que explorei a estrada, não mais que três veículos cruzaram por mim, uma moto, um carro e um caminhão. Emocionante avançar pelo leito da Transamazônica, cuja reta se perdia no horizonte leste. Nos lados da estrada, igapós, lagos, cobertos ou não por vegetação aquática, um igarapé de águas escuras e cristalinas, aves de todas as cores e tamanhos pousando aqui e acolá na busca por alimentos. Peixes pequenos saltavam acima da linha das águas. Ruídos mais altos e mais graves se ouviam do meio da floresta, longe da visão. Num dos igapós, escuros, espelhados, cujos troncos das árvores alagadas se refletiam na linha da água, o pescador numa canoa a remo se movimentava lentamente por entre os troncos, em silêncio, na busca da refeição do dia. Andei bastante pela estrada. Por mim, eu prosseguiria até me faltarem as pernas, bater a fome ou a sede.
De volta à margem do rio, me sentei no boteco mais bem posicionado. Matei a sede e conversei com a gordinha que atendia os eventuais clientes e estava cheia de amor para dar.
De volta a Humaitá pela balsa caminhei pela avenida Transamazônica e parei em restaurante básico para comer tambaqui assado com baião e farinha.
Circulei por bairros marginais ao Madeira, a jusante da igreja Matriz, antes de atingir o centro da cidade novamente. No terminal hidroviário, atracado à balsa flutuante, navio da marinha prestava atendimento médico e odontológico gratuito para a população de Humaitá e arredores.
Mais adiante me sentei na escadaria do prédio antigo da prefeitura, fechada naquele feriado nacional. À minha frente, as águas do Madeira, à direita a praça e a igreja Matriz. Silêncio absoluto. Tranquilidade total. Eventualmente o sossego era quebrado por esparsas motos, bicicletas elétricas ou comuns. Carros, para meu alívio, ainda mais raros. Paz muito bem-vinda. Paz para refletir sobre tudo. Paz pela paz mesmo.
Almocei caldeirada de tambaqui na beira da avenida Transamazônica. A delícia, preparada na hora, veio com arroz, pirão grosso, farinha d’água, pimenta malagueta moída no pilão, produto proveniente, segundo o proprietário, de São Gabriel da Cachoeira, no alto rio Negro, bem distante dali.
Fui à rodoviária pouco antes da meia noite. O ônibus partiu lotado. E logo se posicionou para subir na balsa e atravessar o rio Madeira. Do outro lado, a Transamazônica, a BR-230, inteiramente de chão, esperava para ser percorrida. Entre solavancos suaves adormeci pelo horário avançado. Ao meu lado, senhor idoso com traços sulinos e de chapéu, gordo, bem gordo, dormia profundamente se esparramando no banco. O braço divisor entre os assentos me salvou de ser soterrado.
Antes de clarear parada em estabelecimento precário, cercado pelas imensas árvores da floresta, para banheiros, lanches, descanso do motorista. Andei para esticar as pernas, em meio a poças d’água, à terra avermelhada e grudenta. A escuridão da noite com lua permitia entrever as copas das arvores majestosas em ambos os lados da estrada. Segundo os mapas, a rodovia margeava a área indígena Tenharim-Marmelos que se estendia na direção sul. Por isso a natureza tão preservada, a mata ainda de pé.
Começou a amanhecer entre névoas, cerração, tímidos raios de sol. O ônibus parou nos vilarejos de Matupi, mais conhecido como 180, e em Maravilha, ambos decrépitos, típicos de beira de estrada, de zona de fronteira agrícola, de terra sem lei, de pobreza, sem direitos sociais, sem preocupações ambientais. Tudo parecia inacabado, interrompido, abandonado, em ruínas antes de envelhecer. Moradias e postos de serviços e comércio abandonados, ao lado de outros similares em funcionamento, mas não inteiramente construídos, sujos, tristes.
A Transamazônica oferecia boas condições de tráfego, mesmo nos trechos mais estreitos e sobre precárias pontes de madeira para atravessar rios ou igarapés de águas escuras, límpidas e convidativas. Não mais se via a floresta nas margens da rodovia. Apenas pastos sem fim, muitos rebanhos, pouca gente. Mais adiante o ônibus atravessou o rio Manicoré.
Nova parada no meio da manhã sob o sol ardendo os miolos. Pequeno vilarejo antecedia a travessia do rio Aripuanã, caudaloso e de forte correnteza. A partir da margem oposta o relevo se tornou levemente acidentado, entre vales com igarapés, mais mata, menos pastagens que só retornaram firmes e fortes, desgraçadamente, pouco antes do destino final.
Poucos quilômetros após as águas com corredeiras do rio Juma, atraentes para banhos refrescantes e reconfortantes, eu desembarquei na cidade de Apuí, ainda no estado do Amazonas. Foram quase treze horas desde Humaitá, para percorrer menos de quatrocentos quilômetros.
Larguei as coisas no hotel e fui procurar almoço. Encontrei prato feito decente, na qualidade e no preço, servido na varanda de uma casa pela mãe jovem que ajudava o filho pequeno nas tarefas escolares.
Circulei pela avenida principal da cidade, a própria rodovia Transamazônica que a dividia ao meio, ao longo da qual a sequência de árvores não garantia a sombra tão desejada por conta da mutilação geométrica, chamada criminosamente de poda.
Ao final da tarde o mundo caiu em Apuí. O céu escureceu. Raios, relâmpagos e trovões estouravam de todos os lados. A chuva pesada, daquela bem amazônica, equatorial, desabou sobre a cidade. Nada como quarto no térreo da construção para ver e ouvir os sons deliciosos da água derramada dos céus. O quarto vibrava a cada pancada mais forte. Nem por isso o carro de som do município deixou de funcionar e circular pelas ruas, convocando pelo alto-falante os familiares e amigos para o velório do último finado. A vida e a morte continuavam.
Nas cadeiras estrategicamente posicionadas do lado de fora do hotel, sob a marquise protetora, encontrei o mineiro de Unaí, morador entre Vilhena e Colorado do Oeste, no sul de Rondônia, e montando fazenda a oeste de Apuí para criação de novilhas de corte. Matamos bem a fome, acompanhados de enorme jarra de suco de cupuaçu. O mineiro era hipocondríaco, maníaco por saúde em cada atividade do dia a dia, e agropecuarista convicto, mas sem as bravatas fascistas da classe.
A chuva fina insistia em cair, aumentando ainda mais o sono.
Acordei despreocupado, sem pressa. Depois das treze horas de ônibus pelo primeiro dos três trechos da Transamazônica que pretendia percorrer, eu merecia folga de estrada, em dias despretensiosos e sem projetos. Comi o razoável café da manhã do hotel, ao lado de hóspedes do tipo agronegócio.
Apuí era pequena, de traçado quadriculado, entupida de paranaenses e de gaúchos, ou seja, enclave sulista na Amazônia, mas sem características amazônicas. Nenhum charme na cidade ou nos moradores. Decidi seguir em frente na estrada.
O ônibus partiu com apenas mais um passageiro pela BR-230, a rodovia Transamazônica. Paisagem monótona de imensos pastos cercados, muitas vezes ociosos, raros os com cabeças de gado. Da floresta, empurrada para os horizontes, se via apenas a linha difusa verde-escura, longe, bem longe. Pontes estreitas e frágeis de madeira sobre igarapés e rios. Na sobre o Acari o motorista parou para retirar água de poço.
O leito da estrada estava seco e encascalhado. Muitas valetas e crateras alongadas em razão da erosão avançada. O sol inclemente eliminava os poucos vestígios de água e lama. Por ser transversal a quase totalidade dos cursos d’água, a rodovia se compunha de sobes e desces suaves, em ondulações se perdendo nos horizontes leste e oeste. Ao lado, lagos e buritizais com árvores carregadas de cachos de frutos alaranjados e brilhantes. Pássaros, vez ou outra, voavam dos buritis com um dos frutos no bico. Dava para contar nos dedos os veículos nos dois sentidos.
No meio da tarde, o vilarejo de Sucunduri, ao lado do rio do mesmo nome e atravessado somente pela única balsa ali encostada. Parada em bar e restaurante decrépito e sujo na ponta do vilarejo também decrépito e sujo.
Após a travessia da balsa sobre o Sucunduri, mais pastos e cercas. Uma hora antes de cruzar a fronteira estadual, a Transamazônica se estreitou, dando passagem para apenas um veículo. A floresta, finalmente, se aproximou da estrada. Os olhos e os sentidos agradeceram tamanha beleza. Árvores de médio e grande porte impressionavam e fascinavam. E mais igarapés e rios de águas cristalinas.
E o ônibus cruzou a fronteira estadual entre o Amazonas e o Pará, em trecho ainda mais estreito e margeado pela exuberante floresta amazônica.
Em terras paraenses a situação se manteve. A floresta sempre presente e colada ao leito estreito da estrada. O território indígena Munduruku se estendia ao sul da rodovia. Durante quilômetros da estrada sem manutenção, repleta de crateras e valetas surgidas com a erosão galopante, o ônibus mal ultrapassou a velocidade de dez quilômetros por hora.
Era noite quando o ônibus estacionou na rua asfaltada do centro de Jacareacanga, cidade sem terminal rodoviário. Foram dez horas para percorrer cerca de duzentos e oitenta quilômetros daquele trecho da Transamazônica.
Pensei que encontraria com facilidade hotel com quartos vagos. Tanto que dispensei a ajuda dos moto-taxistas postados ao lado do ônibus. Ledo engano. Tentei vários hotéis, distantes entre si. Todos lotados. Eu caminhava pelas ruas escuras carregando as bagagens. Minhas roupas estavam encharcadas de suor. Andei muito. Na última tentativa, depois de percorrer ruas desertas e escuras, com cachorros antissociais latindo e babando atrás de muros nem tão altos, a balconista do bar prestes a fechar, me ofereceu ajuda, além de água do bebedouro do qual tomei cinco grandes copos. Até propus enrolar pelas mesas durante a madrugada se o bar não fosse fechar. Me sugeriu armar a rede do lado de fora do bar. Achei demais me expor tanto ao azar. Ela telefonou a colega moto-taxista, consultando sobre vagas em outros hotéis e o convocando para me resgatar. Ele apareceu e me levou ao tal hotel.
Típica espelunca. Por fora e por dentro. O moto-taxista usara o quarto horas antes para abater uma donzela, mas não dormiria lá à noite. Então me ofereceu o quarto pela metade do valor da diária. Uma das duas camas de solteiro estava toda revolvida, é claro. A outra aparentemente não. Havia banheiro minúsculo, mas em funcionamento. Era quase meia noite. Eu não aguentava mais andar e procurar hotel às cegas. Era pegar ou largar. Topei na hora. Só pedi à responsável que, entreabrindo assustada a porta do quarto, fornecesse toalha limpa. Paguei a corrida e a metade da diária ao moto-taxista. Tranquei a porta do quarto. Encontrei camisinha usada no chão do banheiro e a embalagem sobre a cama usada. Sexo seguro é essencial. Os lençóis, toalhas e outros itens indefinidos sobre aquela cama eu embrulhei e larguei num canto qualquer. Tomei banho frio, apenas para tirar o suor. Caí imediatamente na cama.
Acordei cedo e belisquei o pão, margarina e café preto, largados em cima da mesa da cozinha alongada, vazia e sombria da espelunca.
Saí às ruas, decidido a trocar urgentemente de hotel.
O primeiro que entrei era limpo, quarto amplo e arrumado, com cama de casal e banheiro decente. Voltei à espelunca, peguei minhas coisas e deixei a chave na porta do quarto.
continua...

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 3/7)

...continuação
Sem café da manhã embarquei no ônibus de manhãzinha.
Antes da partida o motorista comunicou aos passageiros as normas de segurança, o tempo aproximado da viagem e acrescentou que:
“Atenção, o banheiro do ônibus é só para o número 1”
“O que é número 1?”, perguntou um passageiro.
“É o xixi, mijo, urina”.
O motorista acrescentou: “Se precisar fazer o número 2, me avisa que eu paro e o apertado entra na mata e se vira”
“Tá certo”. Todos concordaram.
O ônibus cruzou a ponte da União, sobre o rio Juruá, e seguiu pela BR-364. Inicialmente um pouco de floresta preservada em ambas as margens da estrada. A oeste do rio Liberdade, a rodovia cruzou o território indígena Katukina, distribuído em comunidades distintas. Dentro do território, os indígenas respeitavam a natureza. A floresta estava toda de pé e preservada, para alegria da fauna, flora e dos próprios moradores, os mais beneficiados. Os indígenas aprenderem em milênios de vida a conviver harmonicamente com a natureza. Eles ainda tentam ensinar os brancos, que raramente aprendem a lição. O sistema econômico e político a qual os brancos pertencem é predatório e devastador. Tanto que, após cruzar o rio Liberdade e o território Katukina ficar para trás, pouco se via da floresta, apenas pastos e mais pastos. Muito gado, cabras e porcos. Raras e esparsas plantações de banana, mandioca, macaxeira.
No começo da tarde, depois de atravessar a extensa ponte sobre o rio Tarauacá e, em seguida, o rio Envira, o ônibus entrou na cidade de Feijó. Desembarquei no centro da cidade.
Feijó adormecia profundamente naquele começo de tarde ensolarada de domingo. Admirei as águas do rio Envira que corria bem ao lado do centro da cidade. Na margem, lamaçal até os flutuantes e pontões, barcos precários, voadeiras. Em terra, a pequena praça arborizada e mal cuidada, com bêbados e comércio popular. Percorri ruas e avenidas planejadas, longas, retas, planas, na parte mais moderna da cidade, oferecendo sorveterias, pontos de açaí, lanchonetes, prédios públicos e administrativos. Indígenas circulavam pelas ruas, em grupos.
À noite Feijó renasceu e exibiu moradores circulando em muitas bicicletas pelas ruas. Belas imagens das magrelas, silenciosas e sustentáveis. Arrisquei espetinho servido na varanda de casa de família. Escolhi o de carne de porco, acompanhado de tigela com arroz, farofa, macaxeira, vinagrete. Feijó e o Acre, a cada dia, a cada fato, a cada rosto, se mostravam mais cearenses. Definitivamente, a capital do estado, Rio Branco, era a segunda maior cidade cearense do Brasil, perdendo apenas para Fortaleza.
Não notei miséria evidente na cidade, mas simplicidade, como se os moradores tivessem o suficiente para viver. Casas de madeira, perto da margem do Envira, caprichavam nos adornos e detalhes para compensar a monotonia das ripas de madeira. Vasos de flores de tamanhos e formatos diferentes, no chão, sobre os móveis ou pendurados, flores coloridas alegrando o ambiente, e as onipresentes bicicletas que sempre harmonizam cenários.
Diversas etnias indígenas circulavam a pé pelas ruas de Feijó. Se deslocavam das tendas provisórias montadas na margem do rio oposta à cidade. Reconheci imediatamente os Ashaninka pelas túnicas de cores vivas usadas por elas e, ali, também pelos homens, de todas as idades. Outros povos, dotados de pinturas faciais e corporais, além das pulseiras e colares de tecidos estampados, também marcavam presença na cearense Feijó.
O restaurante anexo ao hotel era o principal restaurante da cidade, dado a frequência, entre engravatados, policiais fortemente armados, profissionais liberais. O picolé de buriti e outro de açaí coroaram a refeição do meio do dia. O sol estava de rachar a cuca. Estanquei sob as sombras e de frente para o rio Envira.
No básico quarto do hotel encerrei o informativo e formativo A Elite do Atraso, de Jessé Souza, que deveria se tornar livro de cabeceira dos brasileiros.
O ônibus partiu do posto de gasolina no começo da tarde.
Nas margens da rodovia, fazendas de gado e alguma floresta preservada, sobretudo ao longo dos cursos d’água. Após o trevo de acesso à cidade de Manoel Urbano, a várzea coberta pela floresta ciliar e, em seguida, a extensa e alta ponte sobre o meu querido rio Purus, ao longo do qual, subindo ou baixando, durante dias e dias, percorri de barco mais de uma vez. Lá estava ele, caudaloso e imponente, como sempre.
O tempo fechou e a chuva caiu com vontade.
Ocorreram problemas mecânicos no motor do ônibus, obrigando o motorista a parar várias vezes no acostamento para arranjos provisórios. Nesses momentos, com o ônibus parado e desligado, brotavam entre os passageiros mais propensos os sintomas da famosa síndrome de caminhão-baú. Os portadores dessa síndrome da pós-modernidade ansiavam por serem rastreados. Ansiavam compulsivamente. Agarravam os celulares e avisavam deus e o mundo onde estavam, até com detalhes do quilômetro da estrada. As cenas se repetiam a cada enguiço do motor. E foram inúmeros.
O veículo passou sem parar pelas cidades de Sena Madureira e Bujari. Antes da meia noite entrou numa das plataformas do moderno e internacional terminal rodoviário da capital Rio Branco. A chuva se mantinha firme e forte.
Cenas tragicômicas durante o café da manhã do hotel. Lá estava o televisor ligado. A maioria dos hóspedes chegava e ocupava desesperadamente as mesas bem de frente para aquilo. E deitavam os olhares bovinos diante da programação embrutecedora. Todos na busca da dose diária de distorção de realidade transmitida pela telinha. E assim rasteja a humanidade!
Dei ampla volta pelo centro comercial e administrativo de Rio Branco, nas margens do rio Acre. O Mercado Velho, o Palácio Rio Branco, inúmeros prédios públicos, praças arborizadas e bem cuidadas, muitas escolas públicas, estaduais e municipais, repletas de estudantes uniformizados, o comércio popular, o camelódromo. A capital acreana se mantinha limpa, organizada, bem administrada, pelo menos naquela região, graças à série de governos populares e democráticos, encabeçados pelo PT, tanto no estado do Acre, como na prefeitura de Rio Branco.
À noite tomei tacacá, cujo jambu fez jus à fama e adormeceu a ponta da língua.
O ônibus confortável e não exageradamente gelado saiu ao anoitecer. Os três haitianos que também esperaram na rodoviária embarcaram.
Paradas nas cidades acreanas de Senador Guiomard e Acrelândia. Logo depois a divisa entre Acre e Rondônia. Antes da meia noite, a demorada operação da travessia da balsa sobre o rio Mamoré, com direito a longa fila de caminhões e ônibus.
Depois da balsa, a rodovia BR-364 margeou o distrito de Abunã, situado em trecho dos mais difíceis tecnicamente durante a construção da finada ferrovia Madeira/Mamoré. Inúmeros trabalhadores, em regime de quase escravidão, morreram durante as obras mais de um século antes. Carcaças parciais de vagões e locomotivas se viam ao longo do que foi a ferrovia, atualmente soterrada por camadas de asfalto. A ditadura do transporte rodoviário, de cargas e passageiros, mais uma vez, tinha esmagado a eficácia e a eficiência da ferrovia.
E caí no sono sobre o assento acolchoado do ônibus.
O ônibus estacionou na apertada rodoviária de Porto Velho antes do amanhecer. O segundo ônibus partiu quase vazio. Resgatou ainda uns gatos pingados pelas ruas da capital de Rondônia. Atravessou a imensa ponte sobre o rio Madeira, construída nos tempos progressistas de Lula e Dilma. Antes a população ficava à mercê da máfia das balsas para mudar de lado do rio.
O ônibus pegou a BR-319, rodovia reta e plana. Ao lado, fazendas de gado, pequenas propriedades, ramais a noventa graus permitindo a penetração na floresta, esta quase toda desmatada. Exceção foi a Estação Ecológica do Cunha, já em território do estado do Amazonas.
No meio do dia desembarquei na rodoviária de Humaitá, a velha conhecida de quinze anos antes. Identifiquei o hotel menos que básico onde na época fiz boas amizades enquanto aguardava durante dias o caminhão que me levaria a Lábrea via o último trecho da rodovia Transamazônica.
Jantei em restaurante com música ao vivo baseada nos clássicos da MPB. A fina flor da elite de Humaitá marcava presença, com os respectivos e as respectivas. A péssima decoração do ambiente, cujas mesas se separavam por altos encostos no estilo das antigas lanchonetes estadunidenses, isolando a clientela em células de quatro ou seis pessoas, entretanto, não integrava. Os músicos, no fundo, praticamente não viam os clientes e não eram vistos por esses.
Pela manhã caminhei lentamente ao centro, na margem esquerda do rio Madeira. Ali era a Humaitá amazônica, ribeirinha, equatorial. O feriadão esvaziou a cidade. A área na beira do rio atraiu os olhares e os sentidos, ainda mais sob aquele sossego sedutor.
Morando em ônibus velho, mas em funcionamento, o hippie paulista de Leme vivia solto no mundo e da venda de artesanatos esotéricos em tecido, varetas, penas, etc. O setentão já foi casado, teve quatro filhos com a finada japonesa nascida na Coreia, e duas filhas com Ashaninka do rio Breu. Foi caminhoneiro, paraquedista do exército, comerciante. Criado na FEBEM de Batatais, conheceu os pais apenas acidentalmente. Já rodou a América toda dentro de uma Besta, ida e volta ao Canadá, por terra. Era marginal por opção, adepto sem exageros de alguma filosofia mística, e muito bom de conversa. Expôs o artesanato na praça central de Humaitá, entre a prefeitura, a igreja Matriz e a escola mais tradicional da cidade.
Eu desejava tomar creme de açaí. Não o congelado e adoçado da maioria dos centros urbanos do Brasil. Mas o creme fresco, centrifugado horas antes. E detonei o litro sem açúcar, sem farinha, sem mais nada. Sorvi aquela preciosidade amazônica em menos de cinco minutos. Néctar dos deuses! Delícia das delícias!
Repeti a noitada no restaurante com música ao vivo. Havia ali mais gente que na noite anterior, mas gente escondida pela esdrúxula divisão entre as mesas, escondendo os músicos do público, o público dos músicos e o público do próprio público. Nas mesas, grupos, casais, praticamente todos ostentando o celular, o tempo todo. Quase nem se olhavam ou se falavam. Nos raros momentos de interação trocavam fotos tiradas ali mesmo ou outras imagens engrandecedoras para o destino da humanidade. Elas invariavelmente vestidas para matar. Eles mais à vontade. No palco, o repertório se restringia ao assim chamado sertanejo universitário. Letras e melodias pavorosas e parecidíssimas entre si. Se o sertanejo universitário era daquele nível, mais baixo que cu de cobra, eu nem queria conhecer o sertanejo médio ou o sertanejo fundamental.
No final da tarde seguinte, o nascer da lua cheia, bem cheia, imensa e amarelada, na margem oposta do rio Madeira, se tornou espetáculo indescritível de tão belo. Nenhuma luz vinha do outro lado. À medida que aquela bola enorme subia, aumentavam as dimensões e o efeito luminoso do reflexo nas águas, formando cauda prateada. As imagens paralisavam de encantamento os poucos moradores que se encontravam no centro de Humaitá naquele horário. Ninguém pronunciava uma palavra sequer. E nem precisava. Aquela pintura dizia tudo.
continua...