terça-feira, 4 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 1/7)

Crescia a vontade de percorrer novamente os interiores do Brasil. E mais uma vez a Amazônia brotou como principal candidata. O oeste do Acre e o alto rio Juruá caíam como luva para o ponto de partida. E lá eu desenharia o prosseguimento do roteiro.
No começo de abril o avião pousou em Cruzeiro do Sul. Passava da meia noite, horário local, mais de duas horas da madrugada segundo meu relógio biológico. E despenquei na cama do hotel.
Ao amanhecer, pela janela do quarto do hotel, a visão da curva do Juruá a jusante do centro da cidade. Vista animadora para começo de viagem repleta de ideias e carente de planos definidos.
A uma quadra do hotel, a construção de Unidade de Pronto Atendimento, ligada ao Ministério da Saúde, obra do governo federal dos tempos progressistas de Lula e Dilma. No entanto as obras estavam paradas, abandonadas, num desserviço a população, resultado da ditadura iniciada com o golpe de Estado de 2016.
Cruzeiro do Sul continuava sem beleza e sem urbanismo definido, conforme eu verificara na visita quatorze anos antes. O Tribunal de Justiça no alto do morro mais alto da cidade, de costas para o rio. A ponte da União, construída nos tempos progressistas de Lula e Dilma, atravessava o Juruá, levando à margem direita e à continuidade da BR-364 no sentido leste, ao restante do estado do Acre. Antes, apenas balsas atravessavam o rio.
Na rampa de terra, a jusante da ponte, o que seria o porto da cidade. Para o local ser chamado de precário teria que melhorar muito ainda. Amontoados, acessados por frágeis pinguelas ou pranchas de madeira, flutuantes caindo aos pedaços ofereciam passagens de lanchas rio acima e rio abaixo. Barcos nada convidativos, a maioria de somente um piso, transportavam cargas e passageiros nos dois sentidos, em viagens mais lentas e mais baratas.
Cruzeiro do Sul, ao contrário do costume em cidades quentes, sobretudo as amazônicas, se encontrava deserta de almas no começo da noite. Comi muita carne na churrascaria de gaúcho natural de Arvorezinha, cidade serrana do Rio Grande do Sul. Apenas duas mesas ocupadas. O proprietário, vestido a rigor, sugando a cuia de chimarrão e tudo mais, se ressentia das noites vazias da cidade. A situação contrastava com até três anos antes, quando o estabelecimento vivia cheio e com espera de mesas. Segundo ele, os altos índices de violência na cidade, com pelo menos um assassinato por dia, afastavam os moradores da vida noturna. E alertou dos perigos de circular pelas ruas após o anoitecer. Resolvi não arriscar. Mesmo porque não haveria aonde ir diante daquele clima de cemitério.
Nem bem clareou o dia e a cidade despertou. Pedestres, bicicletas, motos, carros, circulavam pelas ruas e calçadas. Voadeiras zanzavam em todas as direções pelas águas do Juruá. A Cruzeiro do Sul que se recolhia no começo da noite em pânico pela insegurança pulava da cama bem cedo.
O Acre era o estado brasileiro que mais demarcou territórios indígenas, não obrigando as populações originais a perambularem pelas cidades por falta de terras para viverem e manifestarem as culturas tradicionais. As duas campanhas da borracha, no final do século XIX e em meados do século XX, deslocaram multidões dos sertões nordestinos, sobretudo do Ceará, para regimes de quase escravidão na coleta e defumação do látex proveniente das seringueiras. Desse modo, o Acre, especialmente Cruzeiro do Sul, parecia filial do Ceará, apesar de deveras distante daquele estado.
Em meia hora o ônibus urbano cruzou a divisa entre o Acre e o Amazonas e me deixou na pacata Guajará. A cidadezinha amazonense se erguia também na margem esquerda do Juruá. Contava com orla fluvial urbanizada, calçadão, quiosques, árvores, sombra, tudo bem de frente às águas do rio. As ruas transversais ou paralelas ao rio, majoritariamente de terra ou com restos de asfalto velho, primavam pelo sossego e tranquilidade. Muitas moradias e comércios construídos em madeira e levemente acima do solo. O porto, dotado de ampla balsa flutuante acessado por rampa asfaltada, humilhava o lamaçal de Cruzeiro do Sul, cidade no mínimo quatro vezes maior que Guajará.
Andei e me sentei em banco do calçadão, sob as sombras da orla, com direito à vista privilegiada do Juruá, da margem oposta, praticamente desabitada, das poucas canoas em circulação.
Perto da modernosa igreja de São Francisco de Assis, com discreta praça e coreto em frente, almocei no restaurante familiar. Fui de frango ensopado, arroz, feijão, saladinha. E caminhei lentamente ao ponto do ônibus de volta a Cruzeiro do Sul.
Perambulei pela zona do mercado e pelo principal trecho comercial da cidade. Apesar de dinâmicos e vibrantes, os vários setores do mercado, dispostos em construções separadas, compunham conjunto feio de doer. Nada, absolutamente nada, chamava visualmente a atenção.
Em quiosque do canteiro central da avenida Rodrigues Alves preenchi o estômago vazio. Inúmeros cachorros e pedintes ziguezagueavam pelas mesas de plástico. E, em cidade esvaziada à noite, retornei ao hotel para ler bastante A Elite do Atraso, livro de Jessé Souza.
Sem o café da manhã do hotel me dirigi a pé ao flutuante precário de onde partiria a lancha Juruá acima. Sentei na última fileira da embarcação. Atrás de mim o cubículo do banheiro e o motor de 200 HP. A lancha, coberta, mas sem proteção lateral fixa, apenas com lonas plásticas móveis, comportava vinte e oito passageiros, distribuídos em sete fileiras. Não havia corredores laterais ou centrais. No meio de cada uma das fileiras havia encosto móvel, com trincos, para que os passageiros da frente pudessem acessar o banheiro, atrás. Imaginem a operação de guerra para que os mijões atingissem o cubículo da popa. Um passageiro de cada fileira, o sentado no centro, se levantava. Alguém abria o encosto móvel deslocando os trincos nada lubrificados. Assim, o mijão se deslocava, lentamente, fileira por fileira, da proa até a popa. Na volta tudo se repetia no sentido contrário. E usei o dito cubículo. Eu não conseguia ficar de pé devido ao teto de cerca de um metro e meio de altura. Agachado também não em razão da altura do vaso sanitário. Sentado, nem pensar pelas condições de higiene. Acabei ficando numa posição desconfortável, nem de pé, nem de cócoras, nem sentado, com os músculos tensionados, a cabeça prensada no teto.
Nas primeiras horas fez frio, sensação agravada pela chuva fina e pelo deslocamento da lancha. As lonas plásticas laterais foram arriadas. Aí não dava para ver nada do lado de fora, apenas as cabeças dos passageiros à frente. Os assentos não eram dos piores anatomicamente, acolchoados, num bloco contínuo para cada fileira. Inacreditável era o volume do motor da popa. O piloto o exigia ao máximo. Na primeira parada, para desembarcar passageiro numa comunidade ribeirinha, o motor foi desligado e logo percebi que estava quase surdo. Eu pouco ouvia o que acontecia ao meu redor. As vozes, inclusive a minha, além de baixas, pareciam vir de um pato, por ondas curtas, de um rádio amador antigo. E ali ainda era o comecinho do percurso. Definitivamente a opção mais apropriada de navegar pelos rios era em barco tradicional, lento, com espaço para andar, circular, apreciar a natureza do entorno da maneira desejada.
O Juruá se estreitava rio acima e a vazante avançava com rapidez. Se sucediam as famosas curvas do rio, sem perdão, algumas perto de cento e oitenta graus.
Parada em Porto Walter no meio do dia, cidade erguida também na margem esquerda do rio. Os passageiros interessados teriam meia hora para encomendar almoço em pensão no centro, a poucas ruas dali. O motor da lancha foi desligado. Alívio dos alívios, mesmo sem ouvir nada ao meu redor. Subi a alta escada de madeira do porto, alcancei a rua da beira do rio, caminhei ao centro da cidade. Estiquei as pernas.
Passageiros almoçados, lanchados, descansados. E a viagem prosseguiu Juruá acima. A chuva passou. O sol ameaçava furar o bloqueio das nuvens carregadas. As lonas laterais foram recolhidas e a paisagem das margens do rio se descortinou. A floresta, comunidades isoladas, placas indicativas dos limites do parque nacional da Serra do Divisor na margem esquerda.
Vez ou outra a lancha se encostava à margem para que o piloto pudesse desenroscar folhas e raízes da hélice ou entregar encomendas aos ribeirinhos. Nesses momentos, de maneira fulminante, os piuns atacavam em bloco, visando especialmente carne e sangue novo. Os braços ficaram pontilhados de picadas que coçavam barbaridade logo de cara.
Ao final da tarde, após curva acentuada, mais uma entre as milhares do sinuoso Juruá, surgiu no alto do barranco da margem esquerda a cidadezinha de Marechal Thaumaturgo, exatas nove horas depois da partida de Cruzeiro do Sul.
Desembarquei no flutuante, subi a longa escada de madeira, avancei a rampa asfaltada e, logo no começo da rua beira-rio, entrei no hotel sem recepção. O funcionário do mercado embaixo me indicou quarto básico, limpo, amplo, suficiente. Antecipei o banho frio em local nem tão quente assim. Estava quase surdo, é verdade, mas bem disposto.
 Saí cedo para jantar bem no único restaurante da cidade. Em ambiente caseiro comi filé e picanha grelhada na chapa, acompanhados de arroz, feijão, macaxeira cozida, purê de macaxeira, farofa. E um generoso copo de suco de cupuaçu para não perder o costume.
Silêncio na cidade naquela noite de sábado. Adolescentes se olhando na praça alta, em desnível e de frente para o Juruá. Outros nas janelas. Poucas motos e carros. Poluição sonora quase zero. Delícia das delícias. Meus ouvidos, ainda zunindo terrivelmente, agradeciam a folga. As ladeiras sobre o barranco alto e de frente para o rio atraíram logo de cara.
Me lembrei das imagens pela internet da impressionante passeata, toda vermelha de bandeiras e bandeirolas, feito cobra comprida e sinuosa, pelas ruas de Marechal Thaumaturgo durante a campanha eleitoral municipal de 2016. A luta dos moradores era para manter a administração da prefeitura pelo PT. Pela diferença de menos de um por cento nos votos, porém, venceu o representante das classes dominantes, com apoio da grande mídia que participou do golpe de Estado de 2016.
Uma das muitas ações arbitrárias, desumanas e ilegais do novo prefeito empossado em 2017 foi deixar de pagar os salários dos funcionários públicos municipais. A categoria corretamente se revoltou, ocupou a prefeitura e trancou o prefeito no interior do prédio. Somente quando o dito cujo liberou a metade do valor devido, os funcionários soltaram o meliante. Na pequena câmara dos vereadores apenas um parlamentar ainda o apoiava. Para auxiliar a população, a limpeza das ruas estava por conta do governo estadual, encabeçado pelo PT.
Na margem do rio Juruá oposta à cidade, indígenas do povo Ashaninka montavam acampamentos provisórios enquanto duravam os afazeres na cidade. De voadeira vinham a Marechal Thaumaturgo para compras, assistência médica, social, entre outras tarefas urbanas. Elas vestiam as tradicionais túnicas folgadas e coloridas. Eles, mais comumente usando calção e camiseta, cumprimentavam e conversavam. Os Ashaninka eram trilíngues e fluentes em ashaninka, espanhol e português. As principais aldeias se localizavam Juruá acima, tanto em território peruano como brasileiro.
Reparei também em casal jovem na praça central. Ele, de calção e camiseta, rosto pintado de vermelho. Ela, de vestido acima dos joelhos. Ambos sorridentes e sempre me cumprimentavam. Eram da etnia Kashinawa. Vez ou outra circulavam em grupos maiores.
continua...

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