terça-feira, 25 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 6/7)

...continuação
O terminal hidroviário de Itaituba era construção eficiente, limpa, organizada e confortável de ficar, dentro ou fora, em bancos sob a brisa refrescante que soprava do rio. A lancha alongada, com capacidade para duzentos e doze passageiros, corredor largo, altura interna em que eu podia andar sem me curvar, quatro assentos reclináveis de cada lado, permitindo esticar as pernas livremente, partiu no meio da manhã de Itaituba, rio Tapajós abaixo.
Na embarcação a alimentação servida não estava incluída no preço da passagem, como decentemente ocorre nas lanchas do estado do Amazonas. Belisquei o que guardava na mochila. Entre os filmes transmitidos seguidamente, sem intervalos, nos televisores espalhados internamente, todos vinham daquele país terrorista ao norte do México. Doeram de tão ruins.
Quatro as paradas da lancha, Barreiras, Brasília Legal, Fordlândia, Aveiro. Fordlândia ainda guardava resquícios de construções utilizadas durante o funcionamento do enclave estadunidense na região em meados do século XX.
Ainda não escurecera quando a imensa lancha atracou no calçadão da orla de Santarém.
Me instalei em bar no deck de madeira sobre as águas do Tapajós. Beberiquei, apreciei o movimento e, sobretudo, matei a fome em dia sem almoço.
Bati papo com o mato-grossense de Sinop, caminhoneiro que transportava querosene para aeronaves agrícolas de Roraima. Me mostrou no celular vídeos de aviões borrifando agrotóxicos nas monoculturas extensivas e pastos de gado no norte do Mato Grosso, e nos entornos da cidade amazonense de Boca do Acre. Assustador! Veneno nas plantações, nas criações, nos funcionários, nas populações do entorno. O Brasil detinha o triste título de maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Em outro tema, sobre técnicas de aviação, ele afirmou categoricamente que eram falsas as estórias de garimpeiros que, na falta de pista suficiente para decolar, amarravam corda com tronco pesado à aeronave e a cortavam assim que os motores atingiam o pico. Eu ouvira tais façanhas de garimpeiros durante a viagem pela Transamazônica, entre Jacareacanga e Itaituba. Os garimpeiros tinham assegurado que isso acontecia com frequência, especialmente nas pistas ilegais, curtas e abertas às pressas para evitar a interdição pelos órgãos policiais.
O sono e o cansaço bateram em cheio. Tive que interromper as instrutivas conversas com o envenenador mato-grossense.
Pela manhã tomei ônibus urbano com destino à cidade de Belterra. A cidade fora construída artificialmente para abrigar funcionários que trabalhavam em Fordlândia, enclave estadunidense no Brasil durante a segunda guerra mundial, a fim de produzir borracha a baixo custo, usando e abusando da barata mão de obra brasileira, para o doce exército daquele país. A iniciativa partira do cabeça de corporação automobilística, daí o nome da cidade.
A cidade era toda espalhada em ruas e avenidas retas, compondo traçado quadriculado. Casas padronizadas e absolutamente iguais, feitas de madeira. Escritórios privados e da administração pública, padronizados e de madeira. Todas as construções isoladas e distantes umas das outras em meio a vias arborizadas. Praça ampla, verde e vazia em frente à igreja Matriz. O rio Tapajós corria longe da cidade. Quase ninguém pelas ruas e calçadas. Movimento nulo na prefeitura, câmara de vereadores, secretarias municipais. Desolador. As praias da região, tão elogiadas em Santarém, ficavam distantes para ir a pé, mesmo a quem adora andar como eu.
Circulei mais um pouco naquela tristeza padronizada e tomei ônibus de volta a Santarém, à civilização, à cidade com cara de cidade.
Estava nublado à tarde e a brisa branda soprava do rio. Andei a esmo na direção norte, rumo ao encontro das águas do Tapajós com as do Amazonas. Penetrei em trecho bucólico e tranquilo de Santarém. Não tinha pressa. Avançava lentamente. Admirava ruazinhas, casinhas, barquinhos na beira do rio, aves, árvores com as raízes sob as águas. Permaneci um tempão contemplando as águas do Tapajós, a linha irregular do encontro com o rio Amazonas, eventuais barcos em circulação. Postos de combustíveis flutuantes navegavam rumo aos barcos e navios maiores para o abastecimento solicitado. Muita calma, paz, silêncio, pela paisagem ao infinito das águas amazônicas.
À noite, caminhei ao fim do calçadão do lado sul, ao badalado restaurante frequentado pela elite mocoronga. E todos seguiam à risca as regras da etiqueta. Elas, exageradamente produzidas, vestidas para matar, se equilibrando sobre altíssimos saltos agulha. O casal entrava de mãos dadas, mostrando quem era dono de quem, soltando-as somente ao aterrissar na mesa, onde se sentavam lado a lado. Tomei duas caipirinhas enormes e soberbamente temperadas, antes de cair de cabeça em filhote frito com legumes, camarões, jambu, arroz e farofa. O primeiro terço do prato caiu bem. O segundo, enjoativo pelo travo adocicado. O terceiro, eu já enfastiado, comi para não desperdiçar e fazer jus ao preço paulistano.
Dormi pouco e mal. No quarto ao lado, o hóspede que deu entrada perto da meia noite pigarreava de modo explosivo, parecendo fera selvagem, em volume alto, a madrugada inteira, de maneira esquizofrênica. Engasgava, roncava, tossia. Nem parecia ser humano. A besta fera emitia rugidos guturais em intensidade assustadora. Eu não sabia se reclamava a um funcionário do hotel, apelava aos órgãos ambientais, ao resgate de animais selvagens, aos bombeiros, à ambulância, ao IML. Só sei que o ser ali ao lado era o próprio apocalipse em putrefação.
Encerrei a leitura de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, de maneira arrastada. Torcia para que a última página aparecesse o quanto antes. O livro envelhecera. Não a distopia contida no romance. Mas sim a forma, os detalhes sobre os avanços tecnológicos dos anos 1930, década em que fora escrito, a mensagem ingênua embutida no enredo. Os mais de oitenta anos da primeira edição não serviam como desculpa. O próprio autor prefaciou criticamente o livro quinze anos depois do lançamento. Ainda um clássico, mas clássico datado, desbotado, enfraquecido do impacto inicial.
Retirei o terceiro livro, o volume três de Memórias do Fogo, de Eduardo Galeano. Batizado de O Século do Vento, o livro se concentrava na análise da história da América ao longo do século XX.
Na rodoviária esperei pouco a partida do ônibus. A BR-163, a famosa Cuiabá/Santarém, no caso em sentido contrário, começou pavimentada, em terras planas, entre monoculturas e pastos, empurrando a floresta para o derradeiro horizonte.
Após a primeira parada a Floresta Nacional do Tapajós perfilou a oeste da estrada, exibindo mata de grande porte e bem preservada. Acima dos vales subia concentrações de névoa compondo cenário encantador.
No município de Rurópolis, em trecho curto em depressão, sem asfalto, a estrada enlameada e escorregadia por pouco não causa o tombamento de carreta. O extenso veículo ficou atravessado na pista. Demandou tempo e paciência para se movimentar e, finalmente, liberar o tráfego. Situada no entroncamento entre a BR-163, a Cuiabá/Santarém e a BR-230, a Transamazônica, a cidade de Rurópolis reservava rascunho de rodoviária. Os ônibus estacionados permaneciam parte na plataforma curta e parte no meio da rua. Começou chuva fina e teimosa.
O ônibus seguiu um trecho pela Transamazônica, no sentido oeste, a fim de buscar a continuidade da Cuiabá/Santarém perto de Trairão. A chuva transformou o leito em ainda mais molhado e escorregadio. No meio do caminho, ainda na Transamazônica, batemos de frente à fila de caminhões e carretas, atolados ou impedidos de prosseguir. O motorista descalçou os sapatos sociais e engraxados, se enfiou em botas de borracha de cano longo, desceu à lama para avaliar se dava ou não para passar por passagem estreita. Nesse momento um trator em sentido contrário puxava carreta que atolara mais adiante. E obtinha trocados em cima do desespero dos outros. O motorista voltou, avançou o ônibus, mas atolou menos de um quilômetro depois. Alternando a primeira marcha com a ré, por diversas e insistentes vezes, o veículo se libertou do atoleiro afundado pelo peso das carretas na quarta tentativa, em meio a fumaça do escapamento. Poucos quilômetros à frente, no terceiro atoleiro daquele trecho curto da Transamazônica, outra carreta no sentido oposto atravessara na pista, no meio da lama, bloqueando o tráfego nos dois sentidos. Os motoristas dos demais veículos, aí incluído o do ônibus, teriam que colaborar a puxar a carreta e liberar a passagem, sob o risco de passar a noite inteira por ali. O ônibus se posicionou de frente à cabine da carreta. Na enésima troca dos sapatos pelas botas de borracha, o motorista do ônibus, auxiliado pelos condutores das demais carretas, engatou o cabo de aço na frente do ônibus e na frente da cabine da carreta. As lanternas dos celulares iluminaram os delicados procedimentos em ambos os veículos. De volta ao volante do ônibus, e novamente com os sapatos, o motorista engatou a ré e, com a ajuda do carreteiro também com o motor ligado, apelou para a força máxima. Minutos depois, com toda a torcida ao redor, mais muita fumaça do escapamento, e de ré, conseguiu desencalhar a carreta e liberar meia pista da Transamazônica. Aplausos e apupos de todos ao redor. E tudo isso no negrume da noite, com céu nublado, sem lua.
O ônibus avançou a oeste, por estrada em péssimas condições, aos trancos e barrancos. A chuvinha fina que teimava em cair contribuía para piorar a situação do leito da rodovia. Ainda na Transamazônica passou por Divinópolis, ou Km70, pelo Km30, até atingir Miritituba, margem direita do Tapajós. Na margem oposta, as luzes e o perfil refletido nas águas da familiar e redimida cidade de Itaituba. Novos embarques, sem lotar o ônibus.
O passageiro mato-grossense de Alta Floresta era tagarela, ansioso, levemente desequilibrado. Não perdoava ninguém sem puxar assunto, qualquer assunto. Quando jovem achava divertido sumir da casa dos pais. Nada avisava e desaparecia por três ou quatro anos. Teve cinco filhos de cinco mulheres diferentes e morava, naquela época, com a quarta delas. Tinha trinta e seis anos e trabalhava com construção civil. Em pouco tempo se tornava maçante e todos o evitavam.
continua...

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