terça-feira, 11 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 2/7)

...continuação
Domingo em Marechal Thaumaturgo, vazio, tranquilo, silencioso, relaxante. E com vista privilegiada, do alto, da curva do Juruá, da foz do rio Amônia à montante da cidade. Nem restaurante, lanchonete, sorveteria, venda de alimentos, comércio em geral, se encontravam abertos. Descanso merecido para todos, sem exceção. A maioria dos moradores se dirigia a passeios nos próprios barcos, Juruá e afluentes acima, a banhos em igarapés, lagos, sítios de famílias ou amigos.
Circulei bastante pela cidade quase deserta, subindo e descendo ladeiras revestidas de concreto, solução bem mais conveniente que o tórrido asfalto, ladeadas por casa na maioria de madeira, simples, mas não miseráveis. Chamaram atenção as singelas e fotogênicas barbearias instaladas em cubículos quadrados de madeira e pintadas com cores vivas.
Retornei à praça central, distribuída em patamares sobre o barranco alto em frente ao rio Juruá. Quase ninguém por ali. Um ou outro Ashaninka, um ou outro Kashinawa. Eu estava adorando aquela paz e sossego, sob a brisa fresca e o farfalhar das folhas das árvores.
Enquanto olhava o curso do rio, perdido em pensamentos, o comerciante natural da cidade acreana de Jordão apareceu e puxou papo. Em seguida surgiu outro colega, thaumaturguense, de moto, e se juntou ao debate.
O jordanense nos convidou para almoçar na casa temporária dele, na verdade um puxadinho nos fundos da loja de roupas, toda a construção em madeira, com cama, rede, fogão, geladeira, mesa estreita, banheiro sem descarga e sem água encanada.
Seguimos à palafita de frente para o Juruá, de propriedade do thaumaturguense. Antes passamos num dos mercados dele para pegar comes e bebes. Não me deixaram pagar nada. Sentamos na varanda da palafita, sob a sombra, diante da brisa constante e refrescante e da vista privilegiada do rio, da margem oposta, da curva acentuada a montante, da foz do Amônia. Vira e mexe retornavam ao mercado, quase ao lado, para trazer mais comes e mais bebes.
Acordei cedo. Em hotel sem café da manhã, experimentei o servido na praça, quase em frente à prefeitura, diante da senhora com a barraquinha. Opções entre tapiocas, mingau de banana, bolo, café com leite em pó acrescido na hora. Enrolei por ali, assistindo ao movimento do começo de manhã de segunda-feira, sob a árvore, ao lado de thaumaturguenses falantes.
Passei na loja do jordanense para os cumprimentos iniciais do dia antes de caminhar pelas ruas da cidade.
Percorri ruas nas bordas da zona urbana, margeando as águas do Amônia a sul, e a zona rural a oeste e norte. Sucessão de ladeiras pavimentadas com concreto, raras as de terra, perfiladas por casas de madeira coloridas, em sobrados ou térreas, assim como os esparsos pontos comerciais ou construções públicas. Os serviços de saúde, educação, infraestrutura, energia, todos com placas dos tempos progressistas de Lula e Dilma. Nada, absolutamente nada, para a população após a ditadura iniciada com o golpe de Estado de 2016. Aliás, como regra em todas as regiões visitadas no Brasil depois dessa data fatídica.
Na rampa que termina na escadaria de madeira descendo ao rio Amônia os Ashaninka, em maior quantidade, e os Kashinawa subiam e desciam as escadas, dos barcos para o comércio e vice-versa. Um dos Ashaninka, alto, cabeludo, com jeitão de cacique, vestia túnica tradicional de cor crua com listas verticais pretas. Os Kashinawa, mais magros e com outras pinturas em preto no rosto e corpo, entraram no mercado pedindo cerveja. Por ser proibido vender bebidas alcoólicas a indígenas, o dono regateou antes de ceder duas latinhas para cada um, solicitando a ambos que bebessem no fundo do estabelecimento. Os dois me cumprimentaram e, ao saber minhas origens, comentaram que queriam expor a cultura e os costumes do povo Kashinawa em São Paulo. Então comentei sobre a então recente exposição de culturas indígenas dos vales dos rios Jordão e Tarauacá em centro cultural da avenida Paulista.
Uns metros acima na rampa do mercado, grupo de bêbados, todos brancos e urbanos, entornavam garrafas e corotes de cachaça da pior qualidade. Mal conseguiam parar em pé ou pronunciar palavras.
A cidade cativava pelo silêncio e tranquilidade no começo da noite. Me sentei na pracinha em frente à prefeitura. Praticamente ninguém por ali. Um ou outro indígena ainda em circulação. Paz e sossego na noite estrelada. E as temperaturas frescas, quase frias. Perfeito.
De manhãzinha comi a tapioca com manteiga, queijo e presunto, mais o café com leite em pó, na senhora de sempre parada na praça.
Marechal Thaumaturgo, mantendo a triste regra dos interiores amazonenses, praticamente nada produzia para o consumo dos habitantes. Exceto farinha de mandioca, dependia em tudo de fora. Ninguém plantava verduras, legumes, frutas, ou criava galinhas para ovo e carne, etc. A indolência e o parasitismo ia às alturas diante da ausência de políticas públicas de incentivo agrícola. Na tentativa de quebrar a inércia improdutiva, o governo estadual do Acre, encabeçado por forças progressistas, desenvolvia produção de polpa de frutas.
Vistos com bons olhos e muitas esperanças pela população, contudo, eram os médicos estrangeiros, pertencentes ao Mais Médicos, programa social criado durante o governo progressista de Dilma Rousseff. Peruanos e cubanos ainda cobriam parcialmente o enorme déficit de assistência médica naquela região.
Passei parte da manhã com o jordanense na loja de roupas, conversando junto às funcionárias ociosas diante da falta de clientes. Outros entraram e se juntaram às conversas. Prevaleceu o tema da administração catastrófica do então prefeito de Marechal Thaumaturgo. O dito cujo alegava que a situação financeira do município era desesperadora, mas não mostrava os números a ninguém, nem mesmo aos vereadores. Agia de maneira arbitrária, se recusava a dialogar e a ceder, ainda que parcialmente, configurando o impasse administrativo. Funcionários sem receber os salários devidos, alunos sem escola em razão da paralização das obras de reforma do prédio, obras civis suspensas, colapso no atendimento ao público. Comentavam pelas ruas que o então prefeito inflexível mantinha ligações nebulosas com a rede Golpe de televisão e com ONG’s estrangeiras, daquelas que posam de defensoras da natureza e dos indígenas. A população se encontrava insatisfeita e indignada, próxima de uma revolta. Valeria lembrar que as administrações municipais anteriores, encabeçadas por forças progressistas, mais especificamente pelo PT, sempre privilegiaram os serviços públicos e o povo da cidade.
O marido da senhora miúda que atendia no restaurante não aparecia no estabelecimento para auxiliar a esposa, nem nos almoços, nem nos jantares. Menos de um mês antes, ele e mais dois colegas pescavam horas a montante da cidade, na localidade de Grajaú. Acidentalmente ele pisou em jacaré de médio porte. Em legítima defesa, o réptil abocanhou o tornozelo do sujeito e arrancou significativa quantidade de carne, do calcanhar à panturrilha. Estava imobilizado em casa, totalmente dependente da filha e da esposa para as atividades pessoais.
A vazante do Juruá avançava rapidamente. O que não passava de pequena ponta de areia na curva três dias antes, se estendeu formando istmo rio adentro. Larga faixa de areia úmida indicava trecho submerso dias antes.
Permaneci parte da tarde sentado na varanda do andar superior da construção que abrigava o mercado e o hotel, na sombra, de frente ao Juruá e ao vaivém dos moradores. Li mais A Elite do Atraso, de Jessé Souza.
À noite houve missa na discreta e pequena igreja matriz de São Sebastião, a qual os fiéis se dirigiam a caráter. Depois da volta deles para casa, Marechal Thaumaturgo mergulhou em delicioso silêncio. Três ou quatro gatos pingados permaneceram na praça aos cochichos. E nada mais. Sossego mais que bem-vindo.
E o barco programado para descer o Juruá na manhã seguinte não mais partiria. Segundo o comandante da embarcação a vazante acelerada do rio tornaria a navegação perigosa, sobretudo em trechos de pedras e corredeiras, muito comuns por ali. Só me restava novamente a lancha.
Evento no ginásio de esportes com a presença do governador Tião Viana (PT), deputados estaduais, o ex-prefeito de Marechal Thaumaturgo, secretário estadual de educação, coordenadores regionais, diplomou dezenas de idosos alfabetizados pelo programa Quero Ler. O programa de âmbito estadual atingia todo o Acre. Louvável iniciativa das administrações populares havia quatro mandatos no governo do Acre. Atitude que nenhuma das administrações estaduais anteriores tiveram para com o povo acreano.
Nas falas durante a cerimônia, os oradores enfatizaram os programas educacionais, que garantiram, em Marechal Thaumaturgo inclusive, escolas estaduais até o ensino médio, ausentes do município anos antes. A população da cidade compareceu em peso e prestigiou as ações governamentais progressistas.
Antes de clarear eu já me levantara. Amanheceu sob a forte cerração cobrindo a visão e compondo imagem inusitada em região não serrana.
Desci ao flutuante. A última etapa da rampa enlameada preocupou. Fui que fui e acabei não indo. Lama escorregadia, escada armadilha caindo na ponte de madeira estreita e também escorregadia. Minha preocupação era que o peso da bagagem me desequilibrasse e me fizesse despencar nas águas barrentas do rio.
E no começo da manhã a lancha partiu Juruá abaixo, deixando para trás a aconchegante cidadezinha de Marechal Thaumaturgo.
Eu me sentara, ao contrário da viagem de subida, na segunda fileira desde a proa. Tudo para evitar a surdez ao lado do ruído estratosférico do motor de popa. Estava então distante do banheiro minúsculo. Quando a situação apertou, me levantei e, de portinhola central dos assentos em portinhola central, de fileira em fileira, de obstáculo em obstáculo, de licença aos passageiros em licença, de sorrisos amarelos em sorrisos amarelos, alcancei o cubículo que fazia as vezes de banheiro na popa da lancha. O teto baixo me obrigou novamente à posição intermediária entre em pé e agachado, para lá de desconfortável e inadequada para relaxar.
Exceto curtos trechos em corredeiras, bancos de areia, tocos de madeira, exigindo mais cautela do piloto, o trajeto seguiu tranquilo.
No meio do dia, parada em Porto Walter, para descanso e refeição.
À jusante de Porto Walter o piloto precisou usar a ré numa manobra. O motor não respondeu. Tentou várias vezes e nada. Ele teve que entrar no rio e empurrar, no muque, a lancha para trás. Para ter ideia do avanço da vazante do Juruá, o nível das águas lhe bateu nas coxas. Desembarques em comunidades, em casas isoladas, no cais de Rodrigues Alves. Chegada em Cruzeiro do Sul no começo da tarde, sete horas após a partida de Marechal Thaumaturgo.
Feriadão nacional. Nada para fazer em cidade feia e conhecida. Ler mais e refletir sobre o conteúdo esclarecedor de A Elite do Atraso, de Jessé Souza, eram os planos principais para aquele dia em Cruzeiro do Sul.
No jantar, comi o espeto de carne no quiosque bem em frente ao hotel. Ambiente aberto com livre circulação de pessoas. E de cachorros, muitos cachorros, atraídos pelo cheiro das carnes grelhadas. Dois deles se estranharam justamente ao lado da mesa onde eu escolhera. Se pegaram a centímetros de mim. Ganiram, se enrolaram, se morderam, empurraram a mesa durante os movimentos bruscos. Por pouco não despencou no chão toda a comida que estava sobre a mesa. E por pouco, muito pouco, não me sobraram mordidas.
continua...

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