terça-feira, 18 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 4/7)

...continuação
Após substancioso café da manhã caminhei ao ponto da balsa que cruza o rio Madeira. Na margem oposta, três bares precários, cobertos de palha, perigosamente fascinantes. Mais adiante, duas ou três casas de madeira. E só. Depois apenas o leito de terra encascalhada, castanho-avermelhada, penetrando na floresta logo após a primeira curva. Eu pisava na BR-230, a Transamazônica, no início do trecho entre o rio Madeira e a cidadezinha de Apuí.
A estrada e a floresta me convidavam a avançar. Sons de pássaros, insetos, o vento brando, o farfalhar das folhas das árvores mais altas. Durante o longo tempo em que explorei a estrada, não mais que três veículos cruzaram por mim, uma moto, um carro e um caminhão. Emocionante avançar pelo leito da Transamazônica, cuja reta se perdia no horizonte leste. Nos lados da estrada, igapós, lagos, cobertos ou não por vegetação aquática, um igarapé de águas escuras e cristalinas, aves de todas as cores e tamanhos pousando aqui e acolá na busca por alimentos. Peixes pequenos saltavam acima da linha das águas. Ruídos mais altos e mais graves se ouviam do meio da floresta, longe da visão. Num dos igapós, escuros, espelhados, cujos troncos das árvores alagadas se refletiam na linha da água, o pescador numa canoa a remo se movimentava lentamente por entre os troncos, em silêncio, na busca da refeição do dia. Andei bastante pela estrada. Por mim, eu prosseguiria até me faltarem as pernas, bater a fome ou a sede.
De volta à margem do rio, me sentei no boteco mais bem posicionado. Matei a sede e conversei com a gordinha que atendia os eventuais clientes e estava cheia de amor para dar.
De volta a Humaitá pela balsa caminhei pela avenida Transamazônica e parei em restaurante básico para comer tambaqui assado com baião e farinha.
Circulei por bairros marginais ao Madeira, a jusante da igreja Matriz, antes de atingir o centro da cidade novamente. No terminal hidroviário, atracado à balsa flutuante, navio da marinha prestava atendimento médico e odontológico gratuito para a população de Humaitá e arredores.
Mais adiante me sentei na escadaria do prédio antigo da prefeitura, fechada naquele feriado nacional. À minha frente, as águas do Madeira, à direita a praça e a igreja Matriz. Silêncio absoluto. Tranquilidade total. Eventualmente o sossego era quebrado por esparsas motos, bicicletas elétricas ou comuns. Carros, para meu alívio, ainda mais raros. Paz muito bem-vinda. Paz para refletir sobre tudo. Paz pela paz mesmo.
Almocei caldeirada de tambaqui na beira da avenida Transamazônica. A delícia, preparada na hora, veio com arroz, pirão grosso, farinha d’água, pimenta malagueta moída no pilão, produto proveniente, segundo o proprietário, de São Gabriel da Cachoeira, no alto rio Negro, bem distante dali.
Fui à rodoviária pouco antes da meia noite. O ônibus partiu lotado. E logo se posicionou para subir na balsa e atravessar o rio Madeira. Do outro lado, a Transamazônica, a BR-230, inteiramente de chão, esperava para ser percorrida. Entre solavancos suaves adormeci pelo horário avançado. Ao meu lado, senhor idoso com traços sulinos e de chapéu, gordo, bem gordo, dormia profundamente se esparramando no banco. O braço divisor entre os assentos me salvou de ser soterrado.
Antes de clarear parada em estabelecimento precário, cercado pelas imensas árvores da floresta, para banheiros, lanches, descanso do motorista. Andei para esticar as pernas, em meio a poças d’água, à terra avermelhada e grudenta. A escuridão da noite com lua permitia entrever as copas das arvores majestosas em ambos os lados da estrada. Segundo os mapas, a rodovia margeava a área indígena Tenharim-Marmelos que se estendia na direção sul. Por isso a natureza tão preservada, a mata ainda de pé.
Começou a amanhecer entre névoas, cerração, tímidos raios de sol. O ônibus parou nos vilarejos de Matupi, mais conhecido como 180, e em Maravilha, ambos decrépitos, típicos de beira de estrada, de zona de fronteira agrícola, de terra sem lei, de pobreza, sem direitos sociais, sem preocupações ambientais. Tudo parecia inacabado, interrompido, abandonado, em ruínas antes de envelhecer. Moradias e postos de serviços e comércio abandonados, ao lado de outros similares em funcionamento, mas não inteiramente construídos, sujos, tristes.
A Transamazônica oferecia boas condições de tráfego, mesmo nos trechos mais estreitos e sobre precárias pontes de madeira para atravessar rios ou igarapés de águas escuras, límpidas e convidativas. Não mais se via a floresta nas margens da rodovia. Apenas pastos sem fim, muitos rebanhos, pouca gente. Mais adiante o ônibus atravessou o rio Manicoré.
Nova parada no meio da manhã sob o sol ardendo os miolos. Pequeno vilarejo antecedia a travessia do rio Aripuanã, caudaloso e de forte correnteza. A partir da margem oposta o relevo se tornou levemente acidentado, entre vales com igarapés, mais mata, menos pastagens que só retornaram firmes e fortes, desgraçadamente, pouco antes do destino final.
Poucos quilômetros após as águas com corredeiras do rio Juma, atraentes para banhos refrescantes e reconfortantes, eu desembarquei na cidade de Apuí, ainda no estado do Amazonas. Foram quase treze horas desde Humaitá, para percorrer menos de quatrocentos quilômetros.
Larguei as coisas no hotel e fui procurar almoço. Encontrei prato feito decente, na qualidade e no preço, servido na varanda de uma casa pela mãe jovem que ajudava o filho pequeno nas tarefas escolares.
Circulei pela avenida principal da cidade, a própria rodovia Transamazônica que a dividia ao meio, ao longo da qual a sequência de árvores não garantia a sombra tão desejada por conta da mutilação geométrica, chamada criminosamente de poda.
Ao final da tarde o mundo caiu em Apuí. O céu escureceu. Raios, relâmpagos e trovões estouravam de todos os lados. A chuva pesada, daquela bem amazônica, equatorial, desabou sobre a cidade. Nada como quarto no térreo da construção para ver e ouvir os sons deliciosos da água derramada dos céus. O quarto vibrava a cada pancada mais forte. Nem por isso o carro de som do município deixou de funcionar e circular pelas ruas, convocando pelo alto-falante os familiares e amigos para o velório do último finado. A vida e a morte continuavam.
Nas cadeiras estrategicamente posicionadas do lado de fora do hotel, sob a marquise protetora, encontrei o mineiro de Unaí, morador entre Vilhena e Colorado do Oeste, no sul de Rondônia, e montando fazenda a oeste de Apuí para criação de novilhas de corte. Matamos bem a fome, acompanhados de enorme jarra de suco de cupuaçu. O mineiro era hipocondríaco, maníaco por saúde em cada atividade do dia a dia, e agropecuarista convicto, mas sem as bravatas fascistas da classe.
A chuva fina insistia em cair, aumentando ainda mais o sono.
Acordei despreocupado, sem pressa. Depois das treze horas de ônibus pelo primeiro dos três trechos da Transamazônica que pretendia percorrer, eu merecia folga de estrada, em dias despretensiosos e sem projetos. Comi o razoável café da manhã do hotel, ao lado de hóspedes do tipo agronegócio.
Apuí era pequena, de traçado quadriculado, entupida de paranaenses e de gaúchos, ou seja, enclave sulista na Amazônia, mas sem características amazônicas. Nenhum charme na cidade ou nos moradores. Decidi seguir em frente na estrada.
O ônibus partiu com apenas mais um passageiro pela BR-230, a rodovia Transamazônica. Paisagem monótona de imensos pastos cercados, muitas vezes ociosos, raros os com cabeças de gado. Da floresta, empurrada para os horizontes, se via apenas a linha difusa verde-escura, longe, bem longe. Pontes estreitas e frágeis de madeira sobre igarapés e rios. Na sobre o Acari o motorista parou para retirar água de poço.
O leito da estrada estava seco e encascalhado. Muitas valetas e crateras alongadas em razão da erosão avançada. O sol inclemente eliminava os poucos vestígios de água e lama. Por ser transversal a quase totalidade dos cursos d’água, a rodovia se compunha de sobes e desces suaves, em ondulações se perdendo nos horizontes leste e oeste. Ao lado, lagos e buritizais com árvores carregadas de cachos de frutos alaranjados e brilhantes. Pássaros, vez ou outra, voavam dos buritis com um dos frutos no bico. Dava para contar nos dedos os veículos nos dois sentidos.
No meio da tarde, o vilarejo de Sucunduri, ao lado do rio do mesmo nome e atravessado somente pela única balsa ali encostada. Parada em bar e restaurante decrépito e sujo na ponta do vilarejo também decrépito e sujo.
Após a travessia da balsa sobre o Sucunduri, mais pastos e cercas. Uma hora antes de cruzar a fronteira estadual, a Transamazônica se estreitou, dando passagem para apenas um veículo. A floresta, finalmente, se aproximou da estrada. Os olhos e os sentidos agradeceram tamanha beleza. Árvores de médio e grande porte impressionavam e fascinavam. E mais igarapés e rios de águas cristalinas.
E o ônibus cruzou a fronteira estadual entre o Amazonas e o Pará, em trecho ainda mais estreito e margeado pela exuberante floresta amazônica.
Em terras paraenses a situação se manteve. A floresta sempre presente e colada ao leito estreito da estrada. O território indígena Munduruku se estendia ao sul da rodovia. Durante quilômetros da estrada sem manutenção, repleta de crateras e valetas surgidas com a erosão galopante, o ônibus mal ultrapassou a velocidade de dez quilômetros por hora.
Era noite quando o ônibus estacionou na rua asfaltada do centro de Jacareacanga, cidade sem terminal rodoviário. Foram dez horas para percorrer cerca de duzentos e oitenta quilômetros daquele trecho da Transamazônica.
Pensei que encontraria com facilidade hotel com quartos vagos. Tanto que dispensei a ajuda dos moto-taxistas postados ao lado do ônibus. Ledo engano. Tentei vários hotéis, distantes entre si. Todos lotados. Eu caminhava pelas ruas escuras carregando as bagagens. Minhas roupas estavam encharcadas de suor. Andei muito. Na última tentativa, depois de percorrer ruas desertas e escuras, com cachorros antissociais latindo e babando atrás de muros nem tão altos, a balconista do bar prestes a fechar, me ofereceu ajuda, além de água do bebedouro do qual tomei cinco grandes copos. Até propus enrolar pelas mesas durante a madrugada se o bar não fosse fechar. Me sugeriu armar a rede do lado de fora do bar. Achei demais me expor tanto ao azar. Ela telefonou a colega moto-taxista, consultando sobre vagas em outros hotéis e o convocando para me resgatar. Ele apareceu e me levou ao tal hotel.
Típica espelunca. Por fora e por dentro. O moto-taxista usara o quarto horas antes para abater uma donzela, mas não dormiria lá à noite. Então me ofereceu o quarto pela metade do valor da diária. Uma das duas camas de solteiro estava toda revolvida, é claro. A outra aparentemente não. Havia banheiro minúsculo, mas em funcionamento. Era quase meia noite. Eu não aguentava mais andar e procurar hotel às cegas. Era pegar ou largar. Topei na hora. Só pedi à responsável que, entreabrindo assustada a porta do quarto, fornecesse toalha limpa. Paguei a corrida e a metade da diária ao moto-taxista. Tranquei a porta do quarto. Encontrei camisinha usada no chão do banheiro e a embalagem sobre a cama usada. Sexo seguro é essencial. Os lençóis, toalhas e outros itens indefinidos sobre aquela cama eu embrulhei e larguei num canto qualquer. Tomei banho frio, apenas para tirar o suor. Caí imediatamente na cama.
Acordei cedo e belisquei o pão, margarina e café preto, largados em cima da mesa da cozinha alongada, vazia e sombria da espelunca.
Saí às ruas, decidido a trocar urgentemente de hotel.
O primeiro que entrei era limpo, quarto amplo e arrumado, com cama de casal e banheiro decente. Voltei à espelunca, peguei minhas coisas e deixei a chave na porta do quarto.
continua...

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