quinta-feira, 15 de maio de 2014

Paraná e Santa Catarina (parte 2/4)



...continuação

Subimos a pequena serra a leste de Pomerode a caminho de Timbó, cidadezinha conhecida por abrigar atividades em meio à natureza ao redor. A cidade em si, aplainada, modernizada, com ruas largas, sem um centro com cara de centro, sem arquiteturas dignas de nota, em nada atraía os olhares.
Seguimos em frente até Indaial e pegamos a BR-470, rodovia que corta todo o estado de Santa Catarina, do litoral até a divisa com a Argentina. Tomamos o sentido oeste e nos deparamos com trânsito intenso. Eram filas e mais filas, de automóveis e caminhões.
Nos livramos daquela tortura rodoviária na cidade de Rio do Sul, onde dobramos para sul, avançando novamente em estrada local, sinuosa, tranquila, bucólica, em meio a pequenas propriedades, casinhas de madeira, plantações, araucárias, alguma mata atlântica ainda intacta. Passamos por Aurora, Ituporanga, distritos menores, antes de arriscar restaurante de beira de estrada para encher a pança. Quem nos atendeu foi o filho dos proprietários, adolescente loiro e gorducho. Também, pudera, ele recolhia os restos de refrigerantes que os clientes largavam nas garrafas das mesas, juntava em outras garrafas e bebia tudo depois.
Na cidade de Alfredo Wagner não pudemos evitar outro inferno rodoviário, a BR-282, via ascendente e perigosa, de tráfego pesado, que liga Florianópolis a Lages. Mas por pouco tempo. Em Bom Retiro, escapamos para outra estrada local, no sentido sul. Menos veículos, mais cenas rurais, menos ocupação humana, natureza menos depredada. Avistamos araucárias, mata atlântica, em meio a relevo acidentado, muitas curvas, aclives e declives, casinhas de madeira, hortas familiares.
Entramos em Urubici, cidade que se espalhava ao longo do vale cortado pela avenida principal e por curtas transversais. Fazia um sol agradável e a luz de fim de tarde tingia o cenário de amarelo e laranja.
Jantamos comida de verdade depois de dois dias e meio na base de sanduíches e salgados. E nos hidratamos com o saboroso vinho catarinense produzido a partir de uvas cujos nomes eu jamais ouvira.
O tempo virou radicalmente à noite, com direitos a ventos e chuva.
Mergulhamos de cabeça no bufê farto e variado do café da manhã do hotel.
Um casal quarentão chamou a atenção entre os demais hóspedes. Ela trazia tudo para ele na mesa, que se mantinha sentado, de boné e expressão emburrada, como um menininho mimado e cheio de vontades. E ele pedia mais isso e mais aquilo. Ela praticamente não parava na mesa, ia e vinha do bufê o tempo todo. Nem tinha tempo de comer. As cenas patéticas atingiram o ápice quando ela trouxe um canudo para ele tomar o café com leite. Não sabíamos se riamos ou chorávamos diante daquela cena na qual um adulto, saudável física e mentalmente, recebia tudo na mão e ainda tomava café com leite de canudinho. Ela não parecia reclamar da situação. Fazia tudo correndo e sorrindo. Ao final saíram do salão. Ela, elétrica e sorridente, ele, é claro, de cara fechada.
Percorremos estradas locais impecavelmente conservadas e sinalizadas, cortando pequenas propriedades com casinhas de madeira, entre macieiras, milharais, plantações de tomate, trechos de mata atlântica preservada e muitas araucárias.
A subida íngreme e repleta de curvas ao Parque Nacional de São Joaquim abria cenários naturais belíssimos. No topo do morro, ventava e fazia frio suave. Nuvens se movimentavam com rapidez impressionante, encobrindo e descobrindo as escarpas basálticas. Do alto do Morro da Igreja, quando as nuvens permitiam, podíamos avistar abaixo a Pedra Furada.
Dezenas de motoqueiros, vestido a caráter, também pararam ali. Mas nada ou quase nada da estupenda paisagem eles olhavam. Estavam mais preocupados em olhar as próprias motos, os outros motoqueiros e as motos dos outros motoqueiros. E conversavam sobre as próprias motos, sobre os outros motoqueiros e sobre as motos dos outros motoqueiros. As paisagens por onde eles passavam eram apenas pretexto para adorarem as próprias motos, os outros motoqueiros e as motos dos outros motoqueiros.
Descemos o Morro da Igreja e pegamos novamente a estrada local impecavelmente conservada e sinalizada. Seguimos adiante até outra estradinha, encascalhada e esburacada, umedecida pela chuva da noite anterior.
Subimos acentuadamente até a Serra do Corvo Branco. A estradinha cortava a montanha rochosa compondo uma garganta estreita, extensa e profunda, de quase cem metros de altura. Ao final da garganta, o asfalto voltava, mas mal cabendo um carro e em condições precárias. Em declives e sinuosidades violentas, a estrada ziguezagueava serra abaixo, rumo às cidadezinhas de Grão Pará e Braço do Norte.
As nuvens e a névoa em constante movimento, as garoas finas e ocasionais, forneciam uma atmosfera misteriosa e instigante ao conjunto da Serra do Corvo Branco.
Na beira da estrada asfaltada, impecavelmente conservada e sinalizada, que nos levaria de volta a Urubici, paramos para almoçar em estabelecimento harmoniosamente decorado em madeira. Nos empanturramos de picanha grelhada ao ponto, acompanhada do bufê de saladas e grãos. O senão ficou por conta da caipirinha, aguada, mal temperada, insípida. Mudei para água com gás.
Mas o dia estava longe de terminar.
Pegamos estradinha de terra até a propriedade particular que abrigava o Morro do Campestre. Dali, somente a pé ou de trator, morro acima. No meio da primeira subida acentuada, no entanto, encontrei um carro tracionado empacado na lama. Os turistas ignoraram as advertências dos moradores, se deram mal e tiveram que ser rebocados de trator.
À medida que eu subia o relevo, os vales abaixo se abriam e, naquela tarde nublada, exibiam tons de um verde pálido e esmaecido, demarcando as plantações, as araucárias, a mata nativa, formando um mosaico cortado por cursos d’água. Talvez a ausência da luz direta do sol tenha realçado tão elegantemente essas nuances do verde. Eu parava e me voltava para, não só recuperar a fôlego, mas me deleitar com as imagens.
No topo, a visão de trezentos e sessenta graus de vales, formações rochosas, se destacando uma delas cuja cavidade se abria como um portal. Era local privilegiado para se sentar por horas, relaxar, deixar os pensamentos livres, alinhar as ideias, pensar em tudo, não pensar em nada.
Mas os borrachudos mostraram quem mandava no pedaço. Pontos de sangue apareceram em minhas pernas e braços, acompanhados de coceiras irritantes. Registrei o que tinha para registrar. Peguei o caminho de volta e desci quase sem parar.
À noitinha, uma sopa de legumes com pãezinhos caiu mais que bem para encerrar aquele dia repleto de espetáculos visuais.
Amanheceu nublado e com garoa intermitente.
Comemos a valer no farto café da manhã do hotel. E lá estava o adulto emburrado e mimado, sempre de boné, servido na boquinha pela companheira, feito uma escrava sorridente.
Alguns motoqueiros se hospedaram no mesmo hotel. Um deles, já bem maduro, tinha a cara, o resto de cabelo amarrado atrás, o corpo, sobretudo a barriga, tudo igualzinho ao personagem Wood do cartunista Angeli. Ou seria o Stock?
Rumamos pela estrada asfaltada rumo a São Joaquim. As sinuosidades da rodovia cruzaram relevo serrano entre muito verde, pequenas plantações e criações de animais, araucárias, pinheirais, alguma mata atlântica primária. Placas avermelhadas alertavam para gelo na pista.
Se a paisagem durante o percurso encantou, a cidade de São Joaquim, tão comentada pelo Brasil afora, decepcionou profundamente. Feia, sem personalidade, mal cuidada, sem qualquer atrativo arquitetônico. Talvez o termômetro instalado na praça da insípida Matriz restasse como a única atração aos visitantes, mas somente no inverno.
Na volta a Urubici pegamos o acesso à cachoeira do Avencal por propriedade privada que costumava barrar os visitantes. A trilha nos levou aos pés da escarpa rochosa e da cascata exibindo grande vazão de água ao longo de mais de cem metros de queda. Araucárias e mata atlântica abrigando imensa variedade de plantas e pássaros, pitangueiras e xaxins, uma ou outra aranha arisca sobre as pedras, compuseram o cenário durante a caminhada.
À noite, encontramos apenas um restaurante aberto. Empurramos goela abaixo truta grelhada, insossa, sem tempero, com acompanhamentos também insossos e sem tempero. E era o prato típico da casa. A clientela lançava olhares bovinos para os televisores instalados nos cantos estratégicos. Praticamente nem se conversavam, ingerindo passivamente a dose diária de embrutecimento mental.
Acordamos cedo para o dia que seria longo, cansativo, mas estupendo e deslumbrante descendo a famosa Serra do Rio do Rastro.
Do alto do mirante, logo após cruzarmos a cidadezinha de Bom Jardim da Serra, nos deliciamos com vista panorâmica da serra, as escarpas rochosas, a estrada ziguezagueando violentamente montanha abaixo, os vales íngremes, o verde intenso das encostas, o verde azulado do horizonte nas partes baixas na direção do litoral catarinense.
Iniciamos a descida abrupta pela estrada radicalmente sinuosa. Sequências intermináveis de curvas em U, em S, ou ainda mais fechadas. Acostamento, nem pensar.
Ocasionalmente os caminhões mais longos se viam obrigadas a invadir a pista contrária. Em uma curva de mais de cento e oitenta graus me deparei com uma carreta que subia tentando contornar a absurda sinuosidade. No momento em que eu iniciava a curva, a carreta abriu, invadiu a pista descendente, a que eu estava, e se manteve assim, em ritmo lento e constante. Deixei o caminhoneiro trafegar subindo na pista descendente, enquanto me desviei para a esquerda e desci a curva pela pista ascendente. Ambos na contramão das respectivas faixas.
Ninguém ultrapassava ninguém. Fora sustos passageiros, a emoção e o visual das curvas, das escarpas, das encostas, eventuais quedas d’água, muito verde, flora abundante e variada, as imagens vista de cima e de baixo, garantiam o prazer de percorrer um dos caminhos mais espetaculares do Brasil.
continua...

2 comentários:

  1. Percebo que a viagem está valendo a pena, a leitura mais ainda. Adorei: - À medida que eu subia o relevo, os vales abaixo se abriam e, naquela tarde nublada, exibiam tons de um verde pálido e esmaecido, demarcando as plantações, as araucárias, a mata nativa, formando um mosaico cortado por cursos d’água. Talvez a ausência da luz direta do sol tenha realçado tão elegantemente essas nuances do verde. Eu parava e me voltava para, não só recuperar a fôlego, mas me deleitar com as imagens. Sem comentários. Obrigada Viajante Sustentável. Continuo na carona. Abraços.

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  2. Oi Ivete!
    Claro que essa viagem valeu a pena. Vez ou outra, demonstro minha irritação com alguma coisa, mas logo em seguida me animo novamente. As alegrias, empolgações, deslumbres, superam com folga, os eventuais desgostos passageiros. Ainda mais diante daquela paisagem montanhosa e em contato com o povo tão acolhedor.
    Comente sempre!

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