segunda-feira, 19 de maio de 2014

Paraná e Santa Catarina (parte 3/4)


...continuação
No pé da serra atingimos uma sequência de cidades feias e mal cuidadas, invariavelmente construídas ao longo das rodovias vicinais, Lauro Muller, Orleans, Braço do Norte, Rio Fortuna. Mas nada como evitar o tormento rodoviário da infernal BR-101.
Alcançamos a charmosa Santa Rosa de Lima, pequena, ajeitada, simpática. Era hora do almoço e encostamos ao lado de padaria convidativa. Mas fomos vítimas de situação similar às piadas antológicas da Rádio Difusora de Camanducaia exibidas durante o saudoso Show de Rádio, transmitido após as partidas de futebol. A padaria, que vende alimentos, lanches e afins, estava fechada para almoço!
Percorremos o intervalo entre Santa Rosa de Lima e Anitápolis em estrada de chão. Os raros veículos em sentido contrário nos forçavam a nos aproximar do barranco. Apaixonado por estradas de terra, eu não tinha do que reclamar. A paisagem ao redor só gerou alegrias.
Anitápolis chegou, e com ela o asfalto. Em Rancho Queimado nos contentamos com salgados e doces caseiros da padaria. Evitamos a pesada BR-282 e seguimos no rumo norte, até a cidade de Angelina.
Mais puteiros explícitos na beira da estrada, de aspectos óbvios, nas frentes, na iluminação, nos nomes, nas fotos para atraírem clientes. Paranaenses e catarinenses pareciam mais afeitos a esse ramo de atividade que os colegas de outros interiores brasileiros. E irrompiam mais cemitérios com mania de aparecer, bastante chamativos nas encostas.
Novamente estrada de chão entre as cidades de Angelina e Major Gercino. Depois, asfalto até a cidade de São João Batista, em cuja rotatória as confusas sinalizações catarinenses me fizeram errar o acesso a Brusque e cair no inferno rodoviário da BR-101. Demos adeus às estradinhas vicinais, ao pequeno movimento de veículos, ao bucolismo rural, às casinhas de madeira perto de araucárias, hortas familiares, mata atlântica primária. E haja caminhões, carretas, veículos em geral, ultrapassando uns aos outros.
Assustavam de tão feias as cidades pelos quais passávamos. Inúmeros carros com placas da Argentina e do Paraguai viravam à direita e desapareciam nas infindáveis barreiras de altos edifícios na beira do mar. Como pioraram com o tempo os balneários do litoral norte de Santa Catarina!
Da BR-101 até propriamente a cidade de São Francisco do Sul, enfrentamos interminável fila indiana de veículos. Anoitecia. Optamos por hospedagem no centro histórico, não sem antes pechincharmos até o limite.
A chuva caiu com tudo no começo da noite. Arriscamos o restaurante do próprio hotel, completamente vazio. Os preços de tudo eram estratosféricos. Demos o fora.
Corremos até o restaurante na beira da água do canal, cujas obras internas estavam inacabadas, restando material de construção perto das mesas. Os garçons exibiam semblantes cansados e desencorajadores. O prato veio bem servido, mas o sabor desanimaria o mais famintos dos flagelados.  
Servido no amplo e triste salão, o café da manhã do hotel valeu somente pelos iogurtes e cereais. Os uniformes das funcionárias, feios, velhos, puídos, lembrando os de reformatórios, ajudaram a tirar o apetite.
E lá fomos para as praias da ilha, distantes do centro da cidade. Começamos pela praia da Enseada, sem graça, lotada, familiar, voltada para o continente, de ondas fracas. Seguimos à Prainha, de mar aberto, com ondas fortes, cercada de pedras em ambas as extremidades, também cheia de turistas. Mais adiante, praticamente vazia, a extensa Praia Grande, a perder de vista, de mar bravo, areias limpas e desertas. Atrás, as dunas do Parque Estadual Acaraí.
Após rápidos mergulhos, voltamos à urbanizada praia da Enseada para nos hidratar e forrar o bucho. Carros com placas do interior do Paraná e Santa Catarina, e obviamente da Argentina, abundavam nas transversais e paralelas à praia. Loiros e ruivos predominavam nos rostos.
No bar e restaurante instalado na própria avenida da praia, as caipirinhas vieram saborosas, bem temperadas, na base de cachaça branca, como deve ser. O abadejo, ou congro, grelhado e acompanhado de arroz, fritas e salada, chegou farto e com boa aparência, elogiadíssimo pelo garçom e pelo dono. Mas, porém, contudo, todavia, como parecia ser regra nos restaurantes em Santa Catarina, nada tinha gosto de nada. Alho, cebola, temperos em geral, ou mesmo sal, passaram longe do peixe e do arroz. A salada temperada por nós e as fritas acrescidas do sal se tornaram iguarias se comparadas ao peixe insípido.
Perambulamos pelo centro histórico de São Francisco do Sul. Mercado Municipal antigo transformado em área de lazer. Construções da passagem dos séculos XIX para o XX. Vista dos trapiches projetados sobre as águas, a linha do casario antigo erguido na rua frontal, dourado pela luz do entardecer, desenhava imagem digna de registros caprichados.
Antes do anoitecer as nuvens baixas e ameaçadoras cobriram tudo e a chuva caiu com força.
Pela manhã, depois de horas pela BR-101, devolvemos o carro na locadora em Curitiba.
Almoçamos bem e bastante no Mercado Municipal, regado a espumante paranaense para nos refrescarmos do calor curitibano.
E na manhã seguinte finalmente conseguimos descer a Serra da Graciosa na tão famosa, cantada em verso e prosa, viagem de trem. A empresa privada monopolizava o passeio turístico, utilizando a ferrovia da empresa que abocanhou trechos da estatal privatizada a preço de banana durante o regime neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.
As três horas e meia de viagem de Curitiba a Morretes eram realizadas em três classes diferentes de vagões e serviços. Em cada vagão uma guia descrevia a paisagem, a história da ferrovia, dava as explicações necessárias, inclusive apontando, como professora infantil, as cenas e os momentos a serem fotografados.
Entre as falas da guia, uma vendedora oficial oferecia inutilidades da empresa privada ao estilo de camelôs de esquina. A maioria ignorava a tagarela inoportuna e virava o rosto.
Apesar de contar com imagens bastante familiares para os moradores do sudeste brasileiro, a natureza da serra do mar paranaense encantou. As montanhas do maciço do Marumbi, os túneis, cascatas, pontes, precipícios, mata atlântica preservada e colorida de manacás-da-serra, bromélias, araucárias, construções antigas, abandonadas e parcialmente cobertas pela mata.
Ao desembarcarmos em Morretes, praticamente ao nível do mar, a cidade torrava sob o sob do meio do dia. Mas enchia os olhos e a mente pelo bucolismo da arquitetura da virada dos séculos XIX e XX em ambas as margens do rio Nhundiaquara.
E caímos de cabeça no Barreado, o saboroso prato típico da região. Duas caipirinhas bem temperadas com a cachaça artesanal alambicada em Morretes arrombaram o apetite já aberto. A carne desfeita e cozida por horas, soltando molho enriquecedor, a farinha de mandioca posta no prato para ligar e engrossar, o arroz branco, a banana cortada em fatias na hora, compuseram a delícia.
A preguiça preencheu parte da tarde sob as sombras das pracinhas de frente para o rio.
Voltamos de ônibus de linha até a estação rodoferroviária da capital paranaense.
Na manhã seguinte embarcamos de ônibus para o balneário de Pontal do Sul em cujo ponto final nós alcançamos o porto de embarque para a Ilha do Mel.
Desembarcamos na praia de Encantadas, em ilha sem nenhum tipo de veículo motorizado, para alegria de quem ama a natureza e a tranquilidade.
Escolhemos para o almoço o bar e restaurante nas areias da praia. Apesar da caipirinha e da batida de maracujá não virem estupendas, comemos bem o comercial de peixe e camarão acompanhado de arroz, feijão preto, fritas e salada. O ambiente descontraído e levemente bagunçado garantiu o bem-vindo relaxamento físico e mental.
Andamos no rumo da Gruta de Encantadas e da praia do Mar de Fora, ambas de frente ao mar aberto com ondas fortes e águas esverdeadas. Margeei alagadiços habitados por gaviões corpulentos. Subi o morro e avistei a belíssima praia do Miguel, a praia Grande, o farol das Conchas, desenhando cenário colorido sob o céu azul e o intenso sol da tarde. Me banhei na praia do Mar de Fora, de águas límpidas e violentas, formando ondas irregulares e traiçoeiras.
continua...

2 comentários:

  1. Viajante sustentável toda vez que leio seus relatos fico impressionada com sua capacidade de repassar tudo o que viu e sentiu no percurso de suas viagens. Como você, as estradinhas de chão, a paisagem, o bucolismo rural, praias desertas, a imensidão do mar...me atraem. Lendo, percebo como a Região Sul é rica em atrativos naturais, aliás como todos os lugares distantes dos grandes centros. Ler você é uma saudável aventura. Continuo, só na carona virtual. Um baita abraço. Até.

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  2. E você não imagina como gosto dê ler seus comentários. Assim continuarei relatando cada vez mais e sempre refletindo o que vejo e sinto. Viajar, relatar e publicar para vocês são fontes de inspiração para mim. Comente sempre, amiga Ivete.... Abraços!

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