segunda-feira, 13 de abril de 2026

Rússia (ferrovia Transiberiana), Mongólia e China (parte 4/8)

 ...continuação

O avião permaneceu em voos circulares durante quase uma hora sobre o aeroporto Sheremetievo (SVO) em Moscou. A cidade sofrera ataques com drones na noite anterior, vindos do regime nazista da Ucrânia, armado pelos países europeus do Otanistâo, subordinados ao regime dos Estados Unidos. Na noite anterior os aeroportos de Moscou permaneceram fechados por horas para pousos e decolagens.

Moscou apresentava céu nublado, frio e chuviscos do início do outono. Haja desequilíbrio do sono em meio a tantas alterações de fusos horários, para frente e para trás! Foram seis horas na ida de São Paulo a Moscou, de uma só vez, sete horas na ida da ferrovia Transiberiana, de maneira gradual, e sete horas na volta de Vladivostok a Moscou, de modo abrupto. Acordei ainda na madrugada e nada de adormecer novamente.

Em compensação comi feito condenado no café da manhã do hotel. Eu nem acreditava nas seguidas repetições que eu fazia nas idas ao bufê. Saí do salão pra lá de satisfeito e alimentado.

Ao lado do casal amigo circulei pelo centro de Moscou e arredores. Inicialmente de metrô, via duas linhas, passando por estações inacreditavelmente estilizadas e decoradas, com lustres imensos, pinturas, mosaicos, altos-relevos, esculturas, vitrais. Pareciam mais galerias de arte, e dotadas de curadores de bom gosto, que estações de transporte coletivo.


Desembarque na famosa rua Arbat, atualmente calçadão decorado com jardins, flores, bares, restaurantes, lojas, cafés. Nas demais ruas e avenidas, calçadas largas, arborizadas, praças, parques pequenos e grandes, bancos para relaxar a todo instante. O urbanismo de Moscou, longe da perfeição, priorizava o ser humano e não o tráfego de veículos ou o comércio. Claro, havia as horrorosas torres de vidro, construídas na década de 1990, após o fim da União Soviética, quando o país ficou à deriva nas mãos das quadrilhas do crime organizado, e portanto antes da era Putin, quando a Rússia se reergueu parcialmente e a qualidade de vida do povo melhorou sensivelmente. Moscou agradava bastante aos olhos, a despeito do trânsito congestionado, do outono frio, com vento gelado e chuviscos de minutos de duração.

Almoço razoável no restaurante de culinária armênia. Simpático e comunicativo, o garçom, armênio legítimo de Ierevan, falava também russo, inglês, coreano e arranhava outras tantas línguas.

À noite, a ópera Carmen, no famosíssimo teatro Bolshoi, no centro de Moscou. Longas filas em vários pontos internos do teatro para pendurar casacos. Elas traziam em sacolas sapatos novos, brilhantes, de salto agulha, e os calçavam em substituição aos usados nas ruas que temporariamente iriam para as mesmas sacolas. As vestimentas dos frequentadores variavam, mas predominavam os trajes mais sóbrios.

Sentei na plateia, em cadeiras soltas e estofadas de veludo vermelho, mas de encosto reto de madeira, a noventa graus do assento, nadinha anatômico.

O teatro Bolshoi era arrebatador internamente. As cortinas estampadas em vermelho e dourado do palco, os camarotes, em especial o das altas autoridades ocupando o centro do primeiro balcão. No teto, pinturas coloridas e o lustre gigantesco. Iluminação e acústica perfeitas. A ópera, porém, como todas as óperas, provocou desconcentração e sono na maioria, apesar dessa mesma maioria aplaudir efusivamente. Foram três longas horas de espetáculo. Os dois colegas ao meu lado mais cochilaram que assistiram. Mas aplaudiram com fervor ao final. As mulheres da plateia e das galerias, essas sim, valeram a noite teatral.


O frio gelado das ruas atravessava o tecido das calças, sem o providencial minhocão, e arrepiava as pernas. O peito e os braços, porém, ficaram bem protegidos.

No dia seguinte percorri as alamedas do parque Gorky, extensa área alongada numa das margens do rio Moscou. Em determinado trecho do parque, ao redor do Museu de Arte Contemporânea Russa, diversas esculturas, em bronze, pedra, metais, dispostas nos gramados ao ar livre. Predominavam imagens de líderes da União Soviética. Mais pareciam abandonadas, largadas em qualquer lugar, do que expostas sistematicamente para exibição ao público. Pelas águas do rio Moscou, barcos de passeios turísticos e de carga. Mesmo em tarde de dia útil, gelada sob o céu cinzento e espesso, moscovitas e visitantes perambulavam por ali. Tudo muito limpo, organizado, bonito, aconchegante.

O inconveniente, mas imprescindível, de vestir roupas grossas e quentes em ambientes externos, era encarar o calor dos ambientes internos, normalmente climatizados acima dos vinte e cinco graus. Não bastava abrir os casacos. Muitas vezes era inevitável tirá-los e pendurá-los em cabides coletivos para não ficar empapado de suor.

Que maravilha paradisíaca viajar pelos distintos lugares da Rússia sem a presença de estadunidenses e dos europeus do Otanistão, em grande parte arrogantes, prepotentes, racistas, ignorantes, porcos. As pesadas e criminosas sanções aplicadas por esses países, a serviço do imperialismo estadunidense, contra a Rússia, pelos menos permitia esse delicioso efeito colateral. Vivas! E havia os turistas oriundos dos países da América Latina, África, Ásia. Vivas!

Usando e abusando daquele meio de transporte circulei por quatro linhas do sempre eficaz metrô de Moscou, partindo da estação Oktyabrskaya, perto do hotel, rumo a três estações das periferias da cidade. Primeiro, a última estação no extremo sul da linha 6, laranja, mais precisamente a estação Novoyasenevskaya. Nada de periferia barra pesada. Avenidas, conjuntos de edifícios altos residenciais, extenso e limpo parque para lazer e descanso.

Retornei algumas estações na mesma linha, até a Kaluzhakaya, integrando com a Vorontsovskaya, da linha 11, verde clara, uma das linhas circulares. Desembarquei no extremo leste da cidade, na estação Nizhegorodskaya, onde havia outra integração, com a linha ferroviária. Na superfície, avenidas largas e arborizadas e um xópin. Aproveitei para usufruir de umas das poucas coisas úteis nesse tipo de lugar, o banheiro.

De volta ao metrô, pela mesma linha, mas no sentido anti-horário do círculo, desci na estação Elektrozaovdskaya, para baldear para a linha 3, azul escura. Nela segui até a estação Ploshad Revolyutsii, bem em frente a pracinha do teatro Bolshoi, no centro de Moscou.

Caminhei até o miolo da região central, nos arredores do Kremlin, da praça Vermelha, da igreja ortodoxa de São Basílio. O sol brilhava forte. Os turistas se fotografavam e admiravam a imponência das construções ao redor.

Observando os muros do Kremlin me lembrei de antigas cenas da televisão, ainda em preto e branco, quando das comemorações do aniversário da revolução russa, em sete de novembro. Desfiles militares, neve caindo impiedosamente, frio polar, os líderes soviéticos, vestindo pesados casacos de pele de urso, perfilados no alto e acenando para o povo que costumava lotar a praça Vermelha. Na época, Leonid Brejnev era o número um da então União Soviética. Desde aqueles tempos, há mais de cinco décadas, muita água gelada passou por debaixo das pontes sobre o rio Moscou.

Perambulei sem pressa por toda aquela região histórica. Atravessei a ponte sobre o rio Moscou logo atrás da igreja de São Basílio. Margeei o rio para alcançar outra ponte mais a oeste e, dela, caminhei na avenida no sentido do hotel, por muitos e extensos quarteirões, sempre por amplas, limpas e aconchegantes calçadas.


Almocei bem, mas não o suficiente. Emendei em padaria artesanal que atendia diretamente na calçada da avenida e levei dois generosos pães doces com geleia vermelha e preta. Devorei ambos no banco da praça sob a grande estátua do Lenin.

Não havia chaleira no quarto, como em hotéis ao longo da ferrovia Transiberiana. Porém, o bebedouro do saguão dos elevadores disponibilizava água fria ou quente, bem quente, ideal para chás.

Despertei novamente ainda no escuro. Se cochilei um pouco depois disso até o amanhecer foi muito.

A chuva fina e teimosa atrapalhou parcialmente o prazer da caminhada diurna. Por fim, metrô até as proximidades do local de encontro com outros colegas. Encontrar a saída correta da estação Komsolmolskaya foi uma verdadeira guerra labiríntica que durou quase uma hora. Análise de mapas, nas paredes do metrô e no aplicativo da internet. Uso e abuso do bom senso. Entre tentativas e erros, e foram muitos, meio que por acidente, surgiu, finalmente, a tão desejava saída 14. Renascimento das profundezas da estação na rua certa. Dali, em menos de cinco minutos, o complexo de restaurantes de diversas nacionalidades, lojas de comes e bebes, dentro de ambiente que lembrava praça de alimentação de xópin.

Nem todos haviam chegado. Matei a fome em dia sem almoço com comida grega. Numa lojinha comprei por uma pechincha duzentos e cinquenta mililitros de vodca. Assim que todos se fizeram presentes, sentamos em mesa coletiva para conversar muito, bebericar, beliscar os pedidos de todos.

No meio da madrugada despertei para não dormir mais. Levantei antes do amanhecer. Peguei tudo e desci à recepção.

Lá estava o guia privativo durante parte do roteiro. De metrô até a estação ferroviária correta. Embarque em trem com duas duplas de assentos separadas por corredor central. Comi o pobre café da manhã fornecido em caixinha pelo hotel de Moscou por conta do horário antecipado da saída. Acrescentei a última maçã verde para lavar e equilibrar o organismo.

Pela janela do trem, após sair da região metropolitana de Moscou, cidadezinhas e vilarejos com casas de madeira, amplas janelas, hortas, rodeadas por florestas de bétulas, abetos e pinheiros, amarelados a alaranjados nos trechos onde o outono marcava presença.

Desembarque ainda pela manhã em Rostov Veliky, cidade calma e simpática na margem do lago Nero. Guardamos as bagagens nos armários da estação ferroviária.

Saímos para explorar a pé a cidade naquela manhã gélida. O minhocão térmico e a malha, dentro da mala, fizeram muita falta. Pelas ruas do centrinho, comumente tranquilas e silenciosas, havia maratona entre os moradores da região. O trânsito foi reorientado para liberar as vias do trajeto. Moradores assistiam os atletas passarem.

Entrei no Kremlin, a fortaleza de Rostov, uma das cidades mais antigas da Rússia, cuja fundação vinha do século VIII. Perambulei pelos interiores, o pomar, a horta dos fundos, as galerias superiores da muralha, onde afrescos de santos e imagens sacras ornamentavam partes das paredes.

Pela estradinha na beira do lago Nero, longa e bucólica caminhada ao lado de casas antigas de madeira com terrenos parcialmente cultivados. À frente, a igreja e mosteiro de São Jacó, onde explorei os jardins, muralhas, apreciando a vista do lago sob o céu cinzento.

Almoço bem almoçado antes da volta à estação ferroviária para percorrer em trem o trajeto de menos de uma hora até Iaroslavl. Lá pegamos carro de aplicativo ao hotel, distante da estação, mas próximo do centro, dos restaurantes, do rio Volga.

Retirei da mala e vesti o minhocão térmico sob as calças, a malha sobre a camiseta térmica de mangas longas e sob o casaco duplo. E ainda coloquei nos bolsos do casaco o gorro e o par de luvas térmicas. Aí sim preparado para sair à noite pela cidade.

Dormi mais e melhor que na noite anterior. Levantei animado e disposto. O céu azul e o sol brilhante, a despeito do frio seco e intenso, a beleza e o aconchego da cidade, contribuíam para a empolgação geral.

Fui bater pernas pela cidade de Iaroslavl em meio a urbanismo, como de regra nas cidades russas visitadas, humano, harmonioso, arborizado, bonito, de dar inveja em muitas cidades do mundo, em especial nas degradadas cidades brasileiras, então sequestradas pela ditadura das construtoras.

Entrei na igreja do Profeta Elias, construção milenar, rica em afrescos em ótimo estado de conservação, ícones desenhados e pintados com fios de ouro, representando variadas imagens religiosas pertencentes ao cristianismo ortodoxo.

Percorri ruas com esparsas casas antigas de madeira, invariavelmente charmosas, com janelas grandes, envidraçadas e emolduradas, ao lado de conjuntos residenciais construídos durante a era soviética, gigantescos na horizontal, cujas entradas, na forma de túnel abobadado, conduziam a pátios centrais comunitários onde os moradores, naqueles tempos revolucionários, conviviam e administravam a vida de modo coletivo.

Numa dessas entradas, o pátio central homenageava o cinema soviético dos anos 1960 e 1970, composto de comédias e dramas sobre o cotidiano da época. Lá estava o bar legitimamente soviético, com decoração soviética e produtos soviéticos, e ainda em funcionamento, tendo sido cenário de famoso filme daqueles tempos.

Caminhada ao longo de extenso parque linear criado na margem esquerda do rio Volga. Mais uma vasta e aconchegante opção de lazer e descanso para os moradores.

Retorno pelo calçadão de pedestres do centro da cidade para entrar em loja de produtos comestíveis típicos da região, entre eles o mundialmente famoso caviar. Em destaque o caviar preto, o único preparado a partir das ovas do esturjão, o mais cobiçado, o mais saboroso, o mais caro. Os demais tipos de caviar, de coloração amarela, vermelha e outras, eram produzidos a partir das ovas de salmão, entre outros peixes. Saboreei o caviar de cor preta, obviamente, acompanhado de torradas neutras e taça de sidra espumante e seca. Eu ficaria ali eternamente pedindo às solícitas atendentes mais torradas, mais sidra e, principalmente, mais e mais caviar preto.

Subimos em carro de aplicativo para o curto trajeto até a cidade de Kostroma, também na margem do rio Volga.

Pelas ruas da adorável Kostroma, casas de madeira com imensas janelas envidraçadas, o centro comercial e administrativo da cidade com construções suntuosas ao redor da ampla, bela e imponente rotatória.

Almoço em restaurante de culinária russa na sobreloja de casarão. Tomei sopa de repolho azedo com carne moída e queijo típico de Kostroma, seguido de almôndegas de peixe do rio Volga com purê e legumes. Hidratei a refeição, tão iluminada pelos olhares e sorrisos da atendente, com chá de ervas cultivadas no monastério dos arredores da cidade.


Ao longo de extenso e largo calçadão, entre duas fileiras de árvores frondosas, era possível alcançar o centro histórico, o mercado municipal, a estátua de Lenin e, mais abaixo, via alameda com árvores formando corredor sombreado, a margem esquerda do rio Volga. No parque linear ricamente gramado e arborizado o amarelamento outonal das folhas embelezava ainda mais a orla fluvial. Tons laranja e rosado despontavam na vegetação. O sol bem baixo no poente dourava as águas do rio, as árvores, a grama, as embarcações atracadas, os transeuntes vespertinos. O bar, café e restaurante flutuante, sobre robusta estrutura de madeira amarrada à margem, aguardava clientes para o jantar.

O frio anoitecer trouxe as estrelas no céu. A lua quarto crescente brilhava no quadrante leste. Moradores circulavam pelas ruas ou sentavam no inúmeros bancos distribuídos pelas ruas, calçadas, praças e parques da cidade, prestigiando os espaços públicos, democráticos, gratuitos. Até então, para felicidade geral da nação, nada de xópins, templos do consumo ou outros locais embrutecedores.

As águas do rio Volga me fizeram lembrar de várias passagens da trilogia autobiográfica escrita por Maxim Gorky, composta pelos volumes Infância, Minhas Universidades e Ganhando Meu Pão. Estava mais que na hora de reler os três livros, verdadeiras obras-primas de história, de humanismo, da cruel realidade da vida durante a Rússia tsarista e pré-revolucionária.

O termômetro nas ruas marcava um grau negativo no meio da noite.

Amanheceu três graus abaixo de zero, sob o céu incrivelmente azul, sem nuvens. Dos telhados das construções, inclusive do hotel, que eu avistava da claraboia do quarto no sótão, a água escorria e pingava nos pisos externos, em razão do derretimento de neve fresca ou geada formada na madrugada.

continua...

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