segunda-feira, 13 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 2/7)

...continuação
Acordamos cedo e caminhamos na parte oeste do topo do Monte Roraima que mede noventa quilômetros quadrados. As abruptas mudanças de tempo, entre sol, névoas, nuvens passando em velocidade, várias luminosidades, configuraram surpreendentes e esquisitas belezas, formatos, cores, vales, planícies, quedas d’água, morros, pilares, concentrações de cristais de quartzo.
A fronteira tríplice entre Venezuela, Brasil e Guiana guardava o marco geográfico piramidal, em cujas três faces apareciam os nomes de cada país, exceto a da Guiana devido a pendências fronteiriças com a Venezuela. Mais adiante, o poço arredondado que se ornamentava com colunas esculpidas pelas águas caídas de pequenas cachoeiras para depois sumirem no vazio escuro.
Dia para os lados das escarpas da Guiana e da Janela.  Subimos pico Maverick, o ponto culminante do monte Roraima com 2875 metros de altitude. De lá, visão privilegiada de parte do topo e, em dias claros, das savanas e campos.
Tomávamos nossos banhos nos lagos formados entre as pedras ou em pequenos riachos.
Na terceira noite no topo, o céu ficou simplesmente perfeito, limpo, cheio de estrelas. Era o final de ano. Eu passava a virada para o ano 2000. Sem o bug do milênio, mas com muita emoção e deslumbramento, acampado no topo do belo e esquisito Monte Roraima. A beleza esquisita ou a esquisitice bela da paisagem ao redor fascinava, envolvia tudo e todos.
Acordamos ao amanhecer para desmontar as barracas, refazer as mochilas e iniciar o retorno. A descida extenuou agravada pelo peso da mochila cargueira e pelos escorregões. Mas eu contemplava sempre, mil vezes mais, o paredão do monte Roraima. Nova parada inadequada para dormir em casebre apertado às margens do rio Kukenan. Após o banho refrescante e preguiçoso, logo me vesti para evitar os insaciáveis piuns e me deliciar diante do fantástico pôr-do-sol dourando o monte Roraima, seguido de linda noite estrelada.
Aquele que se nomeou guia do grupo agiu como militar, sisudo e duro, insistindo no casebre da beira do rio, exagerando nos horários, invariavelmente de mau humor e sem descontrações. Desrespeitava as diferenças. Se mantinha sempre intolerante e irritadiço.

A maioria dos estrangeiros na trilha não entendia e nem queria entender espanhol. Racistas, grosseiros e mal educados, os loiros se recusavam a cumprimentar e a se comunicar em outras línguas. Já uma bióloga venezuelana me esclareceu sobre a situação política e social do país. O início do processo político conduzido democraticamente e com a participação do povo pelo governo Hugo Chavez estava revolucionando as estruturas sociais da Venezuela em favor dos pobres. Daí a irritação dos ricos capitalistas e dos grandes meios de comunicação pelo mundo afora. Através da assembleia constituinte eleita pelo voto direto a população discutia e escolhia o melhor caminho para o país.
Conversei com os índios na chegada à vila de Paraytepui. Bebi cachere, o fermentado de mandioca e batata roxa. Os guias locais com as famílias, na base da chantagem emocional, nos pressionaram a lhes dar presentes. Foram mal acostumados pelos turistas que os tratam como indigentes, promovendo e incentivando a mendicância.
Em Santa Helena de Uairén nos hospedamos em outra pousada, bem decorada e mais confortável que a anterior. E com jantar farto e saboroso. 
Nas paisagens pelo norte de Roraima, cerrado, focos de queimadas, lindas faixas de buritizais, áreas alagadas com garças e seriemas. A rodovia cruzava reservas indígenas e, exceto pelas cabanas cobertas de folhas de buriti, nada se notava.
Tivemos o jantar de despedida no restaurante da margem do rio Branco, em Boa Vista. Detonei quatro caipirinhas e a deliciosa caldeirada, entre bons papos. Sempre haveria divergências em grupos e com aquele não foi diferente, sobretudo devido ao tipo carrancudo de Belo Horizonte. Mas a caminhada correspondeu e o visual encantou.
Acordei cedo e fui de ônibus urbano à estação rodoviária de Boa Vista. O percurso até Manaus durou o dia inteiro. Não seria exagero dizer que perto de duzentas pessoas subiram e desceram do ônibus antes de cruzar a fronteira estadual. À medida que o ônibus avançava para o sul a paisagem evoluía de cerrado para floresta tropical, ou o pouco que restou dela. E onde o desmatamento foi total, nada de plantações, apenas o triste cenário cercado de desolação e abandono. Os vilarejos eram feios e sujos. Nem parecia que ali viviam seres humanos. Nos carros e caminhões de transporte de passageiros, várias e longas faixas saudavam e adulavam os políticos locais com frases do tipo “apoio do deputado fulano”, “este serviço é graças ao deputado sicrano”, e outras excrescências.

A parte mais fascinante de todo o percurso rodoviário ocorreu na travessia da reserva indígena Waimiri-Atroari, criada em 1987 depois de anos de conflitos gerados pela abertura da estrada no início dos anos de 1970. Inúmeros massacres que dizimaram parte da população indígena provocaram reações não menos violentas. Relatos descreviam diversas crueldades dos brancos, como amarrar famílias inteiras indígenas com arame farpado, ensopá-los de combustível e atear-lhes fogo. Após a verificação dos documentos de cada passageiro pela Polícia Federal, o ônibus percorreu, sem paradas, toda a extensão da reserva. Placas no acostamento reforçavam sobre a área de proteção e que ninguém deveria parar. Na reserva indígena a floresta amazônica estava preservada. Ao contrário dos invasores brancos, os indígenas convivem harmoniosamente há milênios com a natureza. Sem destruí-la, garantem a boa qualidade de vida das comunidades. Pouco se via da janela do ônibus, além da floresta, raras cabanas e escritórios da FUNAI alertando a proibição da entrada.
Desembarquei em Manaus no início da noite. Nas imediações do hotel, diversos níveis de hospedagem, da luxuosa a simples, prostituição aberta nas ruas ou quase camuflada nos bares e restaurantes. Um morador afirmou que “muita menina nova envolvida com o consumo de drogas cobrava dez ou até cinco reais por programa”.
Manaus estava quente, feia, suja, confusa, com esgotos a céu aberto, trânsito caótico, engarrafamentos, buzinas ensurdecedoras. Passei pelo porto flutuante e pelo mercado municipal, construído em estrutura metálica no auge do ciclo da borracha, quando a minoria rica da cidade vivia em pleno luxo e ostentação. Na parte interna, além do comércio de peixes e carnes frescas, secos e molhados, artesanato e quinquilharias, vários restaurantes, muito simples e baratos, serviam pratos feitos na base de peixe frito, arroz e feijão ou baião-de-dois.
A navegabilidade do rio Negro, na parte mais alta, estava comprometida pelo baixo nível das águas. Ficaria para outra vez. Acordei antes do amanhecer e segui direto ao aeroporto local. Fui chamado no último minuto para o voo do pequeno avião da empresa regional. Do alto, as águas escuras do rio Negro se realçavam com as ilhas alongadas, formando interessantes labirintos e arquipélagos.
De nome original Uaupés, São Gabriel da Cachoeira guardava relevo acidentado, ladeiras asfaltadas entre morros, belíssima visão do rio Negro, das corredeiras, praias de areias brancas, pedras, ilhas. A pacata e discreta população da cidade era composta basicamente de indígenas e mamelucos, com rostos arredondados, olhos puxados, estatura baixa e quadris largos. A intensa presença militar se notava em todos os cantos. A energia elétrica vinda da pequena central termoelétrica provocava poluição sonora e do ar com constantes nuvens de fumaça. E estava paralisada. A população, há dias sem energia, sobrevivia com dificuldades.
Nada melhor que o refrescante banho nas águas escuras, transparentes e mornas do rio Negro, permanecendo com o corpo imerso até o pescoço, percebendo o tempo passar lentamente. A acidez das águas do rio dificulta a formação das larvas e impede o aparecimento de mosquitos.   
Conversas longas e elucidativas com o funcionário do IBAMA referentes ao parque nacional Pico da Neblina. Eram apenas dois funcionários para proteger, fiscalizar e cuidar de mais de dois milhões de hectares da então segunda maior unidade de conservação do Brasil.

No final da tarde, agora em companhia de quase toda a população da cidade, outro banho no rio Negro, desta vez de roupa e tudo. Com o sol mais baixo e a temperatura levemente mais amena, os moradores se banhavam, lavavam roupas, louças e afins.
Decidi ir à vila de Cucuí na fronteira tríplice com Colômbia e Venezuela.
O percurso durou o dia inteiro por caminho generosamente denominado de estrada. O ônibus velho e podre, batizado de “Profeta”, lotou o tempo todo, mais as cargas variadas espalhadas pelo corredor. O motorista pedia para os passageiros descerem nas travessias de antigas e frágeis pinguelas. Dois ou três troncos alinhados longitudinalmente à estrada metiam medo até de atravessar a pé. A floresta margeava bem próximo da estrada, com lagoas de águas escuras, ornamentadas de arbustos de folhas verdes de mais de um metro de comprimento e quase o mesmo de largura. Serras e colinas surgiam pelo caminho. Os passageiros despejavam pela janela restos de comida, papéis, garrafas, latas, pilhas usadas.
Pequena vila encravada no meio da floresta na margem esquerda do rio Negro, Cucuí vivia em função dos postos militares, ainda mais que São Gabriel da Cachoeira.  Mais ao norte, se erguendo firme e elegante no horizonte, muito acima das copas das árvores, destaca-se a pedra do Cucuí. O formato, coloração e luminosidade ao entardecer impressionaram. Fiquei em pensão precária de madeira e sem água encanada. E permaneci mergulhado nas águas do rio Negro por longo tempo a fim de tirar o calor e a poeira da estrada.
A presença de militares, circulando com uniformes por toda a cidade, constrangia e sufocava, sobretudo pelas atitudes prepotentes. Em um bar tive que aguentar o exibicionismo de autoridade dos milicos que, sem justificativas, insistiam em me revistar. Em pequena elevação da vila às margens do rio Negro, o posto de observação do exército se constituía de pequena tenda coberta de palha de buriti protegendo a metralhadora sobre o tripé fixo no chão. Um soldado montava guarda nas 24 horas do dia apontando a arma para a fronteira da Colômbia. Outro pequeno grupo ao lado fortemente armado também se voltava para a mesma direção. Todos orgulhosos alegavam proteger o Brasil do inimigo. Perguntei qual inimigo e, após se atrapalharem na resposta mal decorada, os militares acusaram a guerrilha colombiana. Mas de nada servia aquela encenação patética. Moradores comentavam que havia grande movimentação de pessoas na fronteira, principalmente durante a noite. Contrabandeavam combustível, mantimentos, trocavam mercadorias de ambos os lados.
Entrei embaixo do mosquiteiro no quarto da pensão. Com o ventilador ligado, adormeci sem muito esforço, mesmo com os estrondos causados quando frutas caíam das árvores sobre o frágil telhado. 
O ônibus voltou mais vazio a São Gabriel da Cachoeira. O radiador furado do “Profeta” obrigava o motorista a parar periodicamente enquanto o auxiliar o preenchia com incontáveis garrafas d’água. Deparamos com um caminhão caído no buraco. A carroceria atravessada na estrada impedia o fluxo dos demais veículos. Só foi possível retirá-lo após o “Profeta” guinchá-lo com o cabo de aço. Mais adiante, o homem parado na beira da estrada pediu ao motorista para parar. Entregou-lhe saco cheio de peixes como pagamento das passagens anteriores. Diante da alegação do motorista de ser muita quantidade, o senhor garantiu que havia peixe demais na região.

A ostensiva televisão em São Gabriel da Cachoeira irritava nas lojas, restaurantes, bares, barraquinhas, casas, ruas. E o povo parava, sentava e assistia com expressão bovina. E praticamente tudo se jogava nas ruas, calçadas, terrenos, praias, rio. Nenhuma lata ou cesto nas calçadas. O recolhimento municipal não funcionava. Nas margens do rio abundavam garrafas, cacos de vidro, plásticos, copos, roupas velhas, latas, restos de comida.
A cidade não plantava ou criava nada. Alimentos em geral, grãos, verduras, carne, ovos, leite, combustível vinham de Manaus ou de outras regiões do país. E com a navegabilidade do rio Negro prejudicada, começavam a surgir sinais de desabastecimento. A situação gerava exaltados comentários pelas ruas, muitas vezes precipitados e equivocados. Negavam a rica herança e sabedoria milenar indígena. Insistiam em encarar a floresta como inimiga e obstáculo. Recusavam-se a enxergar e admitir os erros cometidos em outras partes da Amazônia. Apontavam a falta de estradas e do progresso como causas dos problemas regionais. Lamentavam a interrupção da abertura da rodovia perimetral que ligaria São Gabriel da Cachoeira a Boa Vista e esta ao Pará e ao Amapá. Mas a situação de Rondônia e da rodovia transamazônica no sul do Pará demonstravam o desastre humano e ambiental derivados desses projetos criminosos. Doía ouvir de engenheiros a trabalho na região que a “saída para melhorar a vida na cidade seria a construção de vários hotéis nas margens do rio e de estradas pavimentadas por toda a região para incrementar o turismo”. Nenhum comentário sobre lixo, desmatamento, miséria, carência de serviços públicos essenciais, ausência de agricultura familiar de alimentos, descaso administrativo na educação e na saúde com a população.
Ainda tive que enrolar muitos dias sob o calor abafado até a chegada dos demais integrantes da expedição. Permanecia sob as sombras mais fresquinhas e observava o vaivém dos moradores. E assisti, de repente, um motorista de táxi, depois de forte espirro, lançar a dentadura, como um projétil, a dois metros de distância.
continua...

8 comentários:

  1. Viajo junto nos seus relatos, sempre de muita qualidade. Funcionou como mais um reforço que farei essa trip logo-logo.

    Abraço!

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  2. Obrigado...leia sempre e comente os relatos...Abraços!

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  3. Amigo,
    Excelente post, excelente fotos, excelente site. Estou em um período corrido, mas vou voltar para ler tudo com calma, pois este é um site que merece ser apreciado com atenção. Parabéns!
    Altamiro

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  4. Altamiro, obrigado pelo comentário.
    Espero sempre suas contribuições para eu melhorar meu blog cada vez mais.
    Também farei mais pesquisas pelos seus relatos, pois valem e muito o aprendizado.
    Abraços!

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  5. A clareza com que você conta suas aventuras e visões, iluminam minha imaginação. Estou adorando! Um relato cheio de oportunidades de conhecimento e aprendizado. Roteiro bem interessante feito por você viajante. Além de tudo, um lugar cheio de mistérios e lendas que me encantam. Claro que você conhece a lenda, mas eu acho tão linda...
    “Uma lenda indígena diz que o Monte Roraima, na tríplice fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana, é a morada de Makunaima, uma entidade sagrada . Os índios Macuxis dizem que Makunaima foi fecundado no topo do monte durante um eclipse, quando raios dourados do Sol refletiram em um lago com os raios prateados da Lua. De curumim, cheio de magia, Makunaima cresceu forte e tornou-se um índio guerreiro. Guardião do monte, faz o tempo nublar e chover se alguém gritar em seu topo, pois é lá que repousam os espíritos dos pajés. Quando um deles morre, seu espírito penetra na terra e se transforma em cristal.
    Com toda certeza você sabe por que vai e o que deseja ver. E mesmo que, às vezes, alguma coisa não corresponda à suas expectativas, você sabe encontrar a energia. Aquele algo a mais que existe em tudo.
    E sobre aquelas belezas naturais que você conta... “Depois, as abruptas mudanças de tempo, entre sol, névoas, nuvens passando em velocidade, várias luminosidades, que configuraram surpreendentes e esquisitas belezas, formatos, cores, vales, planícies, quedas d’água, morros, pilares, concentrações de cristais de quartzo.” que te encantam além do que você imaginava e estava preparado, estas te libertam! Restauram suas forças.
    É diante das coisas lindas que surpreendem os nossos olhos, que existe a reflexão de que aquela emoção, embora seja suave e breve, não é efêmera e nem vulnerável. Ficará fortemente gravada no arquivado das lembranças do para sempre, em nossas vidas. Causando o vicio pelo vislumbre. Refinando os conceitos, as escolhas e modo de viver. Não é?

    “Na terceira noite no topo, o céu ficou simplesmente perfeito, limpo, cheio de estrelas. Era o final de ano e eu passara a virada do ano 2000 sem o bug do milênio, com muita emoção e deslumbramento.”

    Isso foi divino! É disso que eu falava.

    Fiquei profundamente decepcionada, com a jovem turista que decidiu viajar por recomendação de uma outra pessoa sendo ela esotérica ou não. Perdendo a oportunidade de se encontrar, e de aproveitar as possibilidades dessa viagem. Que mundo pequeno vive as duas mulheres. Porém, fiquei orgulhosíssima da senhora, a mineira que se sentou ao seu lado. Por tudo que você relatou, me pareceu uma pessoa nobre e agradável, contudo.
    E que premio isso aqui depois do passeio em... “A refrescante chuva nos pegou na trilha e durante a carona de volta na carroceria da caminhonete”.
    ...

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  6. Lorena, diante desses textos tao belos e profundos como esse que escreveu em seu comentario, voce enriquece ainda mais o que pensamos e o que fazemos.
    Adorei o comentàrio e suas reflexoes.
    Comente sempre, divague sempre, escreva sempre, muito e mais.
    Obrigado!!!!!

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  7. Texto muito bom, suas viagens fascinante. Adorei volto mais vezes pra ler mais, pois seus relatos continua atual.

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  8. Oi Maria, obrigado pela visita e pelos comentários.
    Realmente me sinto lá novamente quando releio esses relatos. Refaço os caminhos, ouço os mesmos sons, sinto os mesmos cheiros, me deslumbro com as mesmas luzes e cores.
    Espero que continue lendo e gostando.
    E comente sempre.
    Abraços.

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