sábado, 4 de setembro de 2010

do Acre ao Maranhão (parte 3/7)

...continuação
O barco embicava nas comunidades ribeirinhas. O comandante trocava mercadorias por mandioca e carne de caça. Também parou na boca de uma picada onde dois pequenos barcos estavam atracados e vendendo tartarugas. A picada dava acesso à serraria ilegal sob a responsabilidade do prefeito de Itamarati. Em campanha eleitoral, o prefeito trocaria madeira, ilegalmente cortada, pelos votos dos eleitores.
A passageira de 19 anos, morena cabocla, natural de Eirunepé, passava longas temporadas em Manaus. Estava no supletivo, mas pela viagem, parou. Adorava bandas de brega paraense e sabia todas as letras. A avó viúva já trabalhara como cozinheira em barcos pelo rio. A mulher de 28 anos teve apenas uma filha, já falecida. Era separada e, devido à operação, não pode mais engravidar.
Atracamos na minúscula cidade de Itamarati de madrugada. Pela manhã segui a rua principal da cidade, perpendicular ao rio. Atingi o alto da colina, com vista panorâmica da cidade, do rio Juruá e da floresta mais ao fundo. Mais alguns minutos e cruzei todas as ruas. O mercado municipal exibia poucos itens à venda.
Em pequeno espaço as fases de produção da fábrica de farinha de mandioca podiam ser observadas da calçada da rua. Desde a limpeza e trituração, passando pela feitura da massa branca e úmida, até ser torrada e secada em enormes frigideiras, ou chapas de ferro. Nesta última fase, utilizando espátula de madeira, o rapaz mexia constantemente para que a farinha não queimasse e nem grudasse no metal.
Houve jogo de futebol de salão na quadra próxima ao rio, com direito a uniformes, juiz e torcida. Era coisa séria. O comércio funcionou normalmente na parte da manhã. Com aumento do calor, os moradores voltaram às casas para aproveitar o domingo. O barco só saiu de Itamarati no meio da tarde.
As mulheres incomodaram-se com o peruano e um grupo de rapazes que não paravam de beber. E os acusavam de impedir o sono tranquilo durante a noite fazendo molecagens de vários tipos na rede. Começavam bem cedo na base de cerveja com sal e muito cigarro.

A passageira de 27 anos, separada e com um filho, embarcou em Itamarati. Trabalhava como vendedora e trouxe várias mercadorias a serem oferecidas aos passageiros. Contou que os pais se separaram quando ainda era criança. A mãe e todos os irmãos mais velhos trabalhavam e ficava para ela a responsabilidade de cuidar da casa e dos irmãos menores. Aos oito anos se cansou, fugiu de casa e foi morar com amigos. Concluiu durante a adolescência que precisava de marido e casou-se aos quinze anos. Com o tempo o sujeito se mostrou bêbado, violento e mulherengo. Ela apanhou muito, soube dos casos e até conheceu as amantes. Mas gostava muito dele e continuava em casa. Ele envolvia-se em brigas e voltava ferido para casa, muitas vezes a facadas. Depois de sete anos de casamento, chegou ao limite e alertou que o deixaria. Ele não deu importância e trouxe uma das amantes para morar junto do casal. Seguiram-se muitas idas e vindas, agressões e sangue. Finalmente saiu de casa a fim de iniciar vida independente junto aos quatro filhos pequenos. Somente depois de muita insistência reatou relações com a mãe.
As irmãs adolescentes iam para a casa dos pais na cidade de Carauari. A morena residia em Manaus e interrompeu os estudos na oitava série. A irmã interrompeu os estudos na quinta série, mas afirmou que terminaria, nem que fosse no “acelerado”.
Os botos apareciam com mais frequência, fazendo espetáculos próximos ao barco. A maioria era cinza e pequeno. Surgiam trechos no rio com muitos galhos e troncos de árvores flutuando na superfície da água, sobre os quais garças muito brancas pousavam na espera dos peixes que lhes servissem de alimento.
Longa parada em Carauari no meio da noite a partir de donde entramos no mesmo fuso horário de Manaus.
Irritante a dupla de gritadores no som do camarote ao lado. Os tripulantes nem sequer desligavam o equipamento, apenas esperavam o corte diurno da energia. E à noitinha, com a volta dela, o gravador ligava automaticamente no ponto exato que parou pela manhã. Os lados da fita tocavam alternadamente, sem a necessidade de virá-la. Era massacre recorrente, sem tréguas, sem variações. A parede fina de madeira mal encaixada, que separava os ambientes, nada protegia. 
O idoso comandante não se cansava de contar os casos sexuais nas viagens passadas. Eram sempre elas que se ofereciam e só lhe restava aceitar a situação. Num das noites quatro mulheres entraram no camarote dele, em momentos alternados. Na única oportunidade em que ele não usou camisinha, a esposa de um sargento da polícia transmitiu-lhe gonorreia. Segundo ele, porém, tudo mudou. Decidiu, para a decepção da longa fila de pretendentes, não mais se envolver nas viagens de baixada. Indo de encontro à esposa residente em Manaus, não queria lhe criar embaraços.

Araras e papagaios sobrevoavam o rio com cantos e cores vivas. O rio Juruá alargava-se. As casas e comunidades também reduziram em quantidade à medida que descíamos as águas. A floresta, as várzeas e as imbaúbas predominavam na paisagem. A sinuosidade extrema do rio Juruá, sem dar tréguas, fazia o sol vaguear por todos os lados. As águas mantinham-se calmas e espelhadas, situação interrompida apenas nos momentos de ventos fortes que precediam as pancadas de chuva.
Era o final da tarde quando parte do céu escureceu com nuvens espessas, baixas e ameaçadoras. Em seguida caiu a tempestade com ventos fortes, obrigando o barco a encostar por segurança na margem direita. Como sempre ocorre nessas situações de medo e pânico, não faltaram passageiros com estórias sobre trágicos naufrágios nos diversos rios da Amazônia.
O barco atracou à noite na cidade de Juruá, antiga Caetaú. Porto flutuante com vários barcos, lanchonete, longa escadaria de concreto e rampas para os veículos até a parte de cima, no nível da rua. Tudo em bom estado, organizado e limpo. Os adolescentes do barco vestiram as melhores roupas, se enfeitaram diante dos espelhos e saíram para dar voltas pela cidade.
Para muitos, o trajeto rio Juruá abaixo funcionava como viagem de retirante. Iam para Manaus tentar vida melhor em meio às falsas ilusões da cidade grande. Vindos de cidades sem emprego, educação de baixa qualidade e sem qualquer perspectiva animadora, seriam empurrados para as periferias das capitais.
De uma casinha de madeira e palha situada na margem direita, os moradores nos acenaram e se aproximaram com a canoa até atracar no barco. Ofereceram dois grandes tambaquis ao comandante, ainda se debatendo no chão da canoa. Acertaram o preço e o peixe foi levado para o refrigerador do piso inferior. A canoa afastou-se com o remador feliz e com dinheiro no bolso. O peixe seria vendido em Manaus por preço muito superior ao pago.
Atingimos a boca do rio Juruá no meio da manhã do sexto dia de viagem, entrando em seguida no mar de águas do rio Solimões. Ainda que com ilhas e sem poder avistar a outra margem, era enorme e com forte correnteza. O tempo abriu à tarde e o sol contribuiu para deixar as cores ainda mais vivas. Os furos ou paranás eram belíssimos, estreitos, com as árvores muito próximas. A sinfonia dos cantos dos pássaros, diversificada e forte, provinha de todos os lados.
Atracamos em Alvarães no início da noite, em porto flutuante sobre igarapé de águas escuras. Me despedi dos passageiros e tripulantes, que seguiriam ainda por mais dias até Manaus. Após os últimos acenos de mão, o barco desapareceu na noite escura. Dormi em hotel simples e em obras do outro lado da rua. O apertado banheiro do quarto, improvisado no canto originalmente sem instalações hidráulicas, exibia verdadeiras obras primas. A torneira de plástico possuía cano de mesmo comprimento da cuba da pia, também de plástico. A água ia para o chão e espirrava para todos os lados. O piso mais alto do banheiro fazia a água escorrer para dentro do quarto. Do chuveiro não saía água. Reclamei. Me pediram para esperar encher a caixa d’água. Encheu. E nada. Diagnosticaram que o chuveiro era pouco usado e a água não ia para aquele cano. Caía somente poucos pingos. Me banhei assim mesmo. Nas demais dependências do hotel tudo estava revirado. Quartos com móveis sobre móveis, trapos sobre trapos, lixo sobre lixo. As panelas, copos, talheres, alimentos e objetos velhos amontoavam-se na cozinha. Galinhas e patos ciscavam por entre caixas e mais caixas no quintal enlameado.

O café da manhã, com café preto e bastante pão e manteiga, foi servido pela dona do estabelecimento, envelhecida, simpática e acolhedora. A filha mais velha residia em flutuante miserável próximo ao porto. Com corpo marcado pela vida dura, sobrevivia da retirada do vinho de açaí.
No igarapé em frente ao hotel, flutuantes de madeira caindo aos pedaços faziam a função de residências, bares ou depósitos. Todos sujos e deteriorados. A influência indígena se evidenciava nos rostos, corpos e no jeito pacato dos moradores. Além dos caboclos e mamelucos, frutos da miscigenação, indígenas puros caminhavam pelas ruas, provenientes de inúmeros territórios das imediações.
Embarquei em moto-táxi rumo à Nogueira, vila localizada nas margens do lago de Tefé. A estrada cruzou restos de floresta ainda em pé, extensos buritizais, açaizeiros e outras árvores frutíferas. A vila lembrava cidadezinha à beira mar, com praia de areias brancas, barracas de comes e bebes, especialmente bebes.
A viagem de catraia cruzou as águas escuras do lago antes de desembarcar no centro de Tefé. No quarto do hotel, grande e mal cuidado, havia banheiro grande, armário grande abandonado e empoeirado, janela para a sacada comum, televisão modelo anos 1960 com seletor giratório de canais, aparelho de som completo com gravador para duas fitas, sintonizador de AM e FM, equalizador, tocador de CD, amplificador, toca-discos de vinil e mais duas grandes caixas acústicas.
Dei volta rápida pelas ruas sujas e feias da cidade, entre prédios velhos, infinidade de urubus, esgoto fedido a céu aberto pelas sarjetas. Tefé, a maior cidade região do Solimões com cerca de cem mil habitantes, oferecia apenas duas praças, pequenas, sujas e feias. A próxima ao mercado era a favorita dos bêbados e dos onipresentes urubus. A outra, ainda menor, com muito cimento e apenas uma árvore, localizada em frente à igreja desajeitada, era a escolhida pelos adolescentes no período da noite. Era apenas canteiro central entre duas ruas comerciais. Ao redor, barracas com carnes grelhadas no espeto, lanchonetes de má aparência, sorveterias. Nada acontecia nas margens do lago de Tefé durante a noite.
É praticamente regra. Cidades que dão as costas aos rios e lagos são feias, sujas e mal cuidadas. As que valorizam as águas são bonitas, organizadas, com orla urbanizada para o lazer dos moradores. Exemplos não faltam.

Traços indígenas predominavam nos moradores da cidade, normalmente mais reservados. Caminhei pelos bairros que margeiam o lago e outros mais afastados. Tudo feio, sujo, descuidado, com poucas e esburacadas calçadas. Tefé mais parecia periferia de qualquer grande cidade brasileira. O desnecessário e inadequado asfalto das ruas era de qualidade primorosa. Bastava parar uma moto e colocar o descanso que ele afundava em furo grande e definitivo. Extensas praias se formariam em toda a margem do lago durante o verão. O esgoto da cidade era jogado nas águas do lago, justamente de onde coletam a água para quem não possuía poço artesiano particular ou tratava a água coletada. A zona portuária de Tefé se movimentava febrilmente de barcos, navios, catraias, lanchas, comércio fixo e ambulante, muito lixo, muitos urubus, esgoto a céu aberto, bares imundos, hotéis podres, bêbados cambaleantes.
Inacreditável a quantidade de urubus em Tefé. Eles reviravam os lixos, comiam animais mortos, pousavam nas ruas, praças, árvores e fios elétricos. A falta de higiene, saneamento básico, coleta regular de lixo os atraíam aos bandos. Chegaram a se aproximar da mesa interna do restaurante onde eu costumava comer. E causavam sérios danos à aviação. Não por acaso existiam cartazes de advertência no aeroporto de Tefé proibindo os lixões nas imediações das pistas. Tiros para espantá-los eram disparados durante pousos e decolagens em Tefé e Carauari.
Calçadas nas cidades amazônicas eram raras. Quando existiam vinham descontinuadas, inclinadas, cheias de buracos de esgoto ou ocupadas por barracas, mercadorias de lojas em exposição, obras inacabadas. Restavam as ruas, cheias de motos, bicicletas e demais veículos.
O sol furou o bloqueio das nuvens, reapareceu no final da tarde e proporcionou deslumbrante pôr-do-sol. Os tons de cores variaram desde o amarelo, laranja, vermelho claro até o vermelho escuro, se refletindo nas águas do lago. Os flutuantes à esquerda e os barcos eventuais coroaram o incrível espetáculo.
continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário