sexta-feira, 17 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 5/7)

...continuação
Embarquei pela manhã no porto de Parnaíba rumo à cidade maranhense de Tutóia, na margem ocidental do Delta do Parnaíba. A refeição foi servida no barco pequeno, limpo e confortável. O Delta constitui-se de carnaubais, canais, manguezais, baías e vilarejos esparsos. Pescadores de camarão, catadores de caranguejos e pequenos barcos circulavam pelas águas. O passageiro do barco e catador de caranguejos maranhense denunciou gravemente os proprietários da Ilha do Caju e da pousada do mesmo nome no Delta do Parnaíba. Além de cobrarem fortunas pela estadia dos turistas desavisados, os donos da ilha tratavam a população local de maneira arbitrária e violenta. Os pescadores nem sequer podiam encostar os barcos perto da ilha privada. Eram hostilizados com ameaças, agressões e tiros de espingarda. Mas nada acontecia aos ricos criminosos, protegidos pela classe dominante local e estadual. A miserável população maranhense, habitante há séculos da região, sofria humilhações e barbaridades. As autoridades ignoravam. Os proprietários da Ilha do Caju, afinal, eram estrangeiros.
A cidade de Tutóia nessa época do ano estava bem pacata, típica do interior, com ruas pouco iluminadas, calçamento pé de moleque. A maioria da reservada população era cafuza, com rostos alargados e pele escura. A miséria e a injustiça social no estado abundavam decorrentes de décadas de governos impostos pela família Sarney em aliança com empresários e latifundiários.
Foram quatro horas de ônibus de volta a Parnaíba com paradas em Barro Duro, Canabrava, Pirangi e Jandira. Lotado e barulhento, o veículo parava a todo instante para embarque e desembarque de passageiros sofridos, com sacolas, sacos e caixas. Do lado de fora, a paisagem maranhense desoladora. Casebres de taipa e tetos de palha, trechos áridos, com raras e minúsculas plantações de mandioca.
O ônibus parou assim que entrou no Piauí. Devido a surtos de febre amarela na região, os fiscais da Fundação Nacional de Saúde exigiram a vacinação para os não vacinados ou sem o certificado. Tentei convencer os resistentes da necessidade da proteção. Mais adesões para a imunização.

Em Parnaíba fui à praia da Pedra do Sal. No caminho, a imensidão de carnaubais, buritizais, lagoas, casas esparsas, dunas e finalmente a praia. Uma ponta cheia de pedras, com pequeno farol, separa duas simpáticas baías. A menor, à esquerda, guardava águas calmas e casas em estilo ousado. A outra baía, extensa, com areia inclinada e praia de tombo no início, aplainava-se à medida que se afastava das pedras. Totalmente desertas mais à frente, se tornavam o motel mais barato da região.
Incompreensíveis e inacreditáveis os nomes das pessoas da região. Mas um deles, embora conhecido, era para lá de absurdo. O jovem piauiense, campeão de artes marciais de Parnaíba, ganhou o nome estampado na página do jornal: Benito Mussolini Neto.
O ônibus confortável, mas com o irritante e supérfluo ar condicionado gelado chegou no meio do dia em Piripiri, cidade pequena, de bom aspecto e com calçamento pé de moleque, muito comum no estado do Piauí. Essa solução urbana, bonita e barata, não reflete tanto o calor e absorve a água, ao contrário do tórrido e impermeável asfalto.
Corri à praça central bem cedo para pegar o ônibus do IBAMA que levaria funcionários ao parque nacional de Sete Cidades. Esperei até o horário marcado e descobri que apareceria somente uma hora depois. Na verdade sairia no horário determinado, mas no horário velho, ou seja, uma hora depois, desconsiderando o horário de verão, o novo. O horário de verão, implantado à força na região, nem sempre era respeitado. Tinha que perguntar se era no horário novo ou no horário velho. Um turista de Sobral também se atrapalhou com o horário de verão.
O guia obrigatório do parque nos explicou o ecossistema regional, nos orientando sobre a preservação. O parque nacional de Sete Cidades vai do cerrado à caatinga. Compõe-se de formações rochosas, esculpidas pelo tempo e apresentando figuras variadas, inscrições rupestres, grutas e mirantes. As figuras surgidas nas rochas lembram rostos, cenários, objetos, situações diversas. O sol nos castigava e as sombras eram raríssimas. Apenas um ponto de água morna em todo o percurso, localizado em local sombreado, verde e agradável.

Infelizmente a administração do parque permitia a circulação de veículos pelas estradas internas do parque, como o caminhão transportando turistas ingleses. O trajeto completo não é tão extenso e o ecossistema agradeceria se os veículos motorizados ficassem do lado de fora da unidade de conservação. Um alemão circulava de bicicleta. Fluente em português alegava coletar informações para reportagens e provável organização futura de grupos turísticos.
Eu e o cearense subimos na caminhonete do IBAMA que nos levou até a portaria do parque nacional. Detonamos a saborosa galinha à cabidela no restaurante ao lado. Pegamos carona como dois clientes até a rodovia asfaltada. Ficamos no acostamento da estrada por mais de três horas. Tentamos em vão ônibus, caronas em carros, caminhões e caminhonetes. Ninguém parava, nem mesmo aqueles que vinham da estrada do parque nacional. A preocupação aumentava à medida que a noite se aproximava. De repente apareceu um caminhão rebocado por outro. Foram obrigados a parar para acertar os engates dos cabos. Sob a enorme desconfiança, consegui convencê-los a nos levar até a entrada de Piripiri. Devido a assaltos frequentes, caronas por ali eram assunto proibido. Em velocidade reduzida devido ao reboque, às olhadelas laterais em minha direção para prevenir possíveis ataques, ao difícil diálogo de monossílabos, eles nos deixaram na cidade, quase seis horas depois de encerrado o passeio no parque nacional. Tremenda falta de articulação de transportes entre a administração do parque nacional e a prefeitura de Piripiri.
Peguei o primeiro ônibus da manhã para Teresina, de onde comprei passagem para São Raimundo Nonato no ônibus noturno. Deixei a mochila no guarda-volumes da rodoviária da capital piauiense.
A reputação de Teresina ser uma das cidades mais quentes do país não convidava a caminhadas. Pensei em cinema e a única opção foi tomar ônibus até o xópin. Almocei qualquer coisa insípida em qualquer rede de comidas rápidas. Praticamente tudo se assemelhava a qualquer templo do consumismo pelo mundo afora. Membros da elite, ou almejando chegar lá, desfilavam conjuntinhos da moda, celulares nas mãos, expressões de enfado, olhares presunçosos, vaivém de consumistas alienados e outras tristezas. O filme veio com imagem pálida, cores fracas, som excessivamente agudo. E piorava a cada barulhenta mudança dos rolos.
Voltei ao mundo normal e humano do terminal rodoviário. Mesmo bem agasalhado, o frio do insuportável ar condicionado do ônibus noturno não me deixou adormecer.
Cheguei ao amanhecer em São Raimundo Nonato. Contratei o guia obrigatório para o parque nacional da Serra da Capivara com a moto incluída. A moto seria cansativa devido às distâncias e às estradas enlameadas naquela época do ano, porém muito mais barata que qualquer carro.

Definitivamente o horário de verão não era respeitado e, em muitas vezes, totalmente ignorado. Como no parque nacional. O sol, os animais, a chuva, o vento, as plantas não eram afetados por medidas administrativas. Apenas os ônibus intermunicipais seguiam o horário de verão.
O parque nacional da Serra da Capivara, bem estruturado, organizado, limpo, era administrado pelo IBAMA em conjunto com a Fundação do Homem Americano. Apenas a menor parte do parque estava aberta à visitação, mas bastante representativa e rica em belezas naturais e arqueológicas. A região, situada em área de caatinga, estava esverdeada e florida.
Pinturas rupestres em diferentes estados de conservação, vestígios de seres humanos, utensílios, restos de fogueiras, cerâmicas, ossadas e fósseis indicavam presença humana na região havia mais de 50 mil anos, a mais antiga da América. Forte evidência de que os povos da Ásia entraram pela América do Sul muitos milhares anos antes do acesso pelo estreito de Bering da América do Norte. Não era à toa que em enormes cartazes localizados na cidade e nas estradas estava escrito, em pleno ano 2000, “Brasil 500 anos, São Raimundo Nonato 500 séculos”. Essas civilizações antigas pereceram havia cerca de dez mil anos, provavelmente devido à mudança climática da região que passou de tropical úmido para o semiárido atual.
Pelas localidades de Inferno, Barro, Veadinho Azul, Vaca, Paraguaio, caminhamos por cima e por baixo do extenso e estreito vale, em cujas paredes se expunham uma infinidade de pinturas rupestres. Nem todas estavam nítidas, mas inestimáveis pelo valor científico e histórico.
O circuito dos Rodrigues seguia por longa trilha pela caatinga, com subidas e descidas nas escarpas rochosas. A paisagem vista do alto encantava, com paredões, vales, gargantas, vegetação típica como xiquexique, coroa de frade, rabo de raposa, favela, mandacaru. Avistamos mocós e aves cantadeiras. Ao contrário da facilidade de se andar fora das trilhas na floresta amazônica, onde predominam árvores e folhas grandes, sem espinhos, na caatinga há o emaranhado de árvores e arbustos infestados de espinhos, com folhas que queimam ao primeiro toque.
As atrações do boqueirão da Pedra Furada compreendiam os principais sítios arqueológicos do parque, se destacando pela quantidade, qualidade e variedade. Imagens de homens, mulheres, animais em diversas situações cotidianas como festas, guerras, partos, trabalho, rituais, sexo. A formação da Pedra Furada atraiu, sobretudo, pelo céu azul visto através do enorme orifício e pela lua quarto crescente mais acima.
Encontrei um casal paulista que, pela Amazônia, pretendiam chegar aos Andes peruanos, em viagem prevista de seis meses. Estimulante ver brasileiros realizando essas aventuras de vida, ainda mais por conta própria. Ficaram entusiasmados com minhas descrições do Monte Roraima e do Pico da Neblina.
O bom restaurante da pousada em São Raimundo Nonato era o ponto de encontro da classe dominante local, que aproveitava o isolamento da cidade para conversar privadamente e fechar tenebrosas transações econômicas e políticas. Até honoráveis e excelentíssimos parlamentares compareciam para o ritual do “dar e receber”.

Muita lama rumo aos sítios do Pitombi, Serrinha e Zabelê. Precisei descer da moto várias vezes. Em ponto crítico, a moto derrapou e caímos na lama, besuntando o corpo e as roupas. Depois do Zabelê os caminhos pioraram e tivemos que partir para outras alternativas. Fomos à saída do desfiladeiro da Capivara e de lá retornamos ao Sitio do Mocó. As mutucas atacavam em grande número e picavam mesmo sobre as roupas. Visitamos a região do baixão do Perna onde havia placas de “cuidado com cobras”. O boqueirão das Mulheres estava lotado de marimbondos. As pinturas rupestres encontradas chamavam a atenção pelas cenas do cotidiano, como sexo em grupo, violência, acrobacias. Subimos a pitoresca trilha pelas escarpas até o Alto da Pedra Furada. Do alto se tinha ampla vista das baixadas, Sítio do Mocó e das demais áreas visitadas.
Nos arredores de São Raimundo Nonato, o museu do Homem Americano, ilustrado e autoexplicativo, além das tradicionais peças expostas, oferecia extensos painéis iluminados com imagens, desenhos, reproduções e textos de fácil compreensão. Podia-se ver, por exemplo, como eram a fauna e a flora na região até dez mil anos atrás, e como viviam as civilizações em harmonia com a natureza. Em outros painéis orientava-se sobre o que não fazer, como a ação agressora de madeireiros, caçadores, depredadores em geral.
Dei uma volta preguiçosa por São Raimundo Nonato, cujo município fora desmembrado em seis pedaços três anos antes. A região central era desorganizada. Apresentava muita sujeira e esgoto a céu aberto nas ruas, diferentemente da parte alta, mais limpa e arrumada. Porém a cidade conquistava pelo povo acolhedor, hospitaleiro e conversador. Em todas as paradas para matar a sede sempre aparecia alguém para papear, trocar ideias e informações. Demonstravam grande orgulho pela terra natal.
Numa delas a senhora me contou sobre a coligação progressista que governava a cidade depois de séculos de governos conservadores nas mãos da classe dominante. Embora ainda com muitos problemas, a situação melhorava a cada dia e a população reconhecia. A relação prefeitura/IBAMA era construtiva nas desapropriações das áreas do parque nacional e na assistência às famílias desalojadas. O mesmo não ocorria, segundo ela, nas relações de ambas as instituições com a Fundação do Homem Americano, devido à desconsideração inicial da fundação pela população nativa das áreas internas e vizinhas ao parque. Inicialmente removiam os moradores sem antes lhes providenciar lugares alternativos onde pudessem reproduzir as próprias identidades e aptidões. A população revoltava-se diante dos gastos com a preservação da natureza e a pesquisa científica, ao mesmo tempo em que nada lhe era revertido em benefício social.
A cachaça antes do jantar fez a cabeça divagar sobre aqueles dias memoráveis em São Raimundo Nonato e pelo fantástico parque nacional da Serra da Capivara. O parque nacional da Serra das Confusões ficaria para outra vez, infelizmente.
Tomei ônibus para Petrolina passando pelos estados da Bahia e Pernambuco. No trecho piauiense a estrada estava bem conservada e fiquei atento para não perder a divisa interestadual. O passageiro ao lado disse sorrindo:
“Não se preocupe com a divisa. Você notará facilmente que estaremos na Bahia pelo sacolejo do ônibus”.
Repentinamente o ônibus passou a sacudir como cavalo selvagem nas inúteis tentativas do motorista desviar dos inúmeros e imensos buracos. E chegava a tal ponto que o acostamento de terra era mais trafegável que a estrada “asfaltada”. As cidades baianas de Remanso e Casa Nova, ambas novas e construídas devido ao lago da represa de Sobradinho, eram repugnantes. Não passavam de amontoados de casas, tudo muito feio, sujo e abandonado. Perto dali o ônibus parou em restaurante horrível e nojento de beira de estrada. A placa sobre a pia do banheiro avisava que a região não contava com eletricidade nem água encanada. A população precisava buscar a água na represa em baldes, por conta própria. E isso ao lado do lago da hidroelétrica de Sobradinho, no rio São Francisco, onde o que mais tem é água e eletricidade.
Depois da chegada ao terminal rodoviário de Petrolina precisei esperar o novo embarque para Senhor do Bonfim. O visual desolava com pedintes, menores de rua e mau aspecto em tudo. Pouco antes da partida a rápida tempestade alagou parte do terminal, inundou as plataformas, com direito a ondas respeitáveis. Duas pontes cruzavam o rio São Francisco, de Petrolina a Juazeiro. Mas não impedia longos e demorados congestionamentos nos acessos, com direito a buzinas estridentes e semblantes irritados. Nada diferente das tardes chuvosas em alguma ponte da marginal do rio Tietê ou Pinheiros em São Paulo.
continua...

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