sexta-feira, 16 de março de 2018

O Vale do Amazonas e do Solimões (parte 5/9)

...continuação
As temperaturas, ainda que ligeiramente, começavam a baixar. No início da manhã, a sensação térmica era de quase frio, sobretudo em comparação ao vapor quente dos dias anteriores. O céu limpo e o tempo estável garantiam águas calmas, quase espelhadas, do Solimões.
O navio parou no porto da cidadezinha de Amaturá, na foz do rio de mesmo nome, de águas escuras e atraentes. Longa escadaria para pedestres, rampa para veículos, o nome da cidade estampado no gramado inclinado e voltado para o rio. No topo, o largo da Matriz, enfeitado de bandeirolas vermelhas, azuis, amarelas e brancas, a cruz no centro. A igreja, a escola estadual e colégio em anexo, todos de nome São Cristóvão. O hotel antigo à esquerda, o restaurante e sorveteria, o mercadinho, árvores pela praça, desgraçadamente mutiladas geometricamente, reduzindo a sombra tão vital naquelas paragens. Centro com cara de centro, para felicidade geral da nação. Pequena orla urbanizada com calçada e mureta na beira do barranco para o rio, sombreada por árvores mais frondosas e, felizmente, não mutiladas. Ainda na orla, rio Amaturá acima, o parque infantil e o ponto oficial de moto-táxi. A jusante da praça, casario antigo e de madeira, pendurado no morro, a maioria em más condições, mas sempre charmoso e o mais fotogênico da cidade. Barranco abaixo, sobre as águas, sequência de flutuantes e lanchas escolares que foram amarelas um dia.
Ruas estreitas de concreto, outras de chão, normalmente em bom estado. Mercadinhos, alguns minúsculos, quatro escolas, três delas municipais. Obras financiadas pelo governo federal, dos tempos progressistas de Lula e Dilma. Centros de saúde, casas de apoio ao índio. Indígenas em circulação se comunicando nas línguas originais, de etnias estabelecidas havia milênios nas proximidades. Placas informais nas portas das casas e comércios anunciavam a venda de dindin em dezenas de sabores, gasolina a cinco reais o litro, açaí, serviços gerais.
Todos em Amaturá usavam e abusavam da popular sombrinha para se protegerem do sol. Colorida ou preta, masculina ou feminina, não importava. Impedir os raios de sol era o objetivo primeiro, segundo, terceiro e último. Depois do meio-dia, como ocorre em todas as cidades quentes, o povo se recolhia às casas, o comércio baixava as portas, as ruas se esvaziavam. Raros gatos pingados se refugiavam sob as sombras das árvores. A cidade praticamente adormecia para a merecida sesta debaixo daquele calor de caldeira.
Menininhas ousadas da cidade se vestiam com roupas de domingo, se produziam com esmero, se enfeitavam com capricho, e vinham passear pelos interiores do navio. Tiravam fotos delas mesmas com poses e sorrisos ensaiados. Assim como a maioria da cidade, elas portavam traços inteiramente indígenas.
Os três franceses a bordo nunca entravam em contato com nenhum brasileiro. Não se interessavam por nada. O mais velho bebia café e fumava o tempo todo. O mais moço às vezes tocava flauta doce. Nenhum dos três tomou banho ou trocou de roupa em todo o trajeto de Manaus a Tabatinga. Passar perto deles ou mesmo sentir o odor vindo contra o vento era caso de calamidade pública, de interdição pelos órgãos ambientais. Pobre dos vizinhos deles nas redes, brasileiros que costumavam tomar vários banhos por dia vestindo roupas limpas em seguida.
No meio da tarde o navio partiu de Amaturá. Cidade com jeito de cidade. Cidade pequena, indígena e graciosa. Cidade voltada para o rio através da orla urbanizada.
Dado o avanço da vazante, lagos afloravam próximos às margens do rio. E se tornavam destino de pescadores por confinar diversas espécies de peixes. Semanas depois, essas águas perderiam a ligação com o rio e ficariam ainda mais piscosas.
Avançando no rumo oeste da Amazônia, os dias terminavam mais tarde, obrigando a criação de outro fuso horário acima de Santo Antônio do Içá, duas horas atrás de Brasília. Na parte da tarde, por quilômetros de extensão, perfilou na margem direita do Solimões comunidade dividida em vários núcleos contíguos, entre casas, cabanas, flutuantes, pastos, gado, porcos, escolas, igrejas, gramados, comércio. E tudo iluminado com luz elétrica, graças ao programa Luz Para Todos do governo federal, dos tempos progressistas entre 2003 e 2014.
O peruano de Iquitos me contou a atribulada história de vida. Órfão de mãe muito cedo sobrevivera com os irmãos mais novos, abandonados pelo pai que se embriagava e não supria a casa. Ele largou a escola e vagou por Iquitos até entrar clandestinamente em navio peruano com destino a Letícia, Colômbia. Atravessou a fronteira brasileira para Tabatinga, onde trabalhou como estivador informal no cais e ambulante perseguido pela prefeitura. Como recepcionista de hotel se envolveu com traficantes peruanos de drogas que lhe pagavam para guardar encomendas no hotel. Descoberto, foi demitido e viveu de biscates até ser preso e condenado a anos de prisão em Manaus. Casou e fixou residência em Manaus, onde vivia até então como ambulante de variedades.
Um colombiano de Letícia, também passageiro do navio, se juntou à conversa. Vivia havia trinta anos em Manaus sem nunca ter retornado à terra natal, onde ainda tinha irmãs e irmãos, um deles traficante e portador de cinco documentos com cinco nacionalidades diferentes. O colombiano aguardava ansiosamente que o peruano lhe devolvesse os quarenta reais emprestados para apostar na mesa de caixeta do navio e que lhe escorrera das mãos em poucas rodadas.
Parada à noite em São Paulo de Olivença. Devido ao nome daquela cidade, ao informar que eu era de São Paulo, os passageiros assentiam e completavam:
“Ah, sim, São Paulo do sul...”
Os rituais satânicos e delirantes do fundamentalismo evangélico, puxado pelo pastor com cara de bebê chorão e casado com a cabeluda e bigoduda, funcionava todas as noites depois do jantar. Durante os horrores era vedado o uso da televisão do piso de Lazer. Naquele navio, na disputa acirrada pelo embrutecimento coletivo, o fundamentalismo evangélico levara a melhor sobre a desinformação e a deformação da mídia burguesa.
Antes do amanhecer o navio partiu de São Paulo de Olivença, rio Solimões acima.
Ribeirinhos utilizavam o puçá como instrumento auxiliar de pesca. Pelo cilindro feito de rede trançada, submerso nas águas, com a boca acima da superfície, os pescadores lançavam os peixes pescados e ainda vivos durante dias de atividade. Ao voltar à comunidade levavam todo o cardume, recolhido de uma vez só, com os peixes vivos e frescos. As mulheres ribeirinhas, ao lavarem roupas na beira do rio, vez ou outra enchiam canecas com a água do rio e se banhavam para refrescar.
Depois de sete dias de viagem Solimões acima, finalmente serviram peixe no almoço. Pirarucu ensopado. Acompanhei de arroz e vinagrete. A minúscula porção de pudim, servida no copinho de café, coroou a condescendência dos proprietários do navio.
Um dos contramestres do navio me informou que na fatídica sala de orações do piso de Lazer antes funcionava sala de cinema. Os doces proprietários da embarcação substituíram a ampliação dos conhecimentos, o enriquecimento cultural, o lazer, pelo estreitamento do pensamento, pelo embrutecimento das mentes, pelo fundamentalismo evangélico. E as ovelhinhas do rebanho ainda pagavam por isso.
Comunidades tikuna surgiam às margens do Solimões. Vendaval, Feijoal, Belém do Solimões, entre tantas.
O maranhense de Presidente Dutra já garimpou no Pará, Amapá, Guiana Francesa, Suriname. Largou família no Maranhão para se instalar com o novo amor em Atalaia do Norte, na fronteira com o Peru. Somavam sete os filhos que teve com as duas mulheres. Comerciante inquieto trabalhou de tudo um pouco. Planejava se mudar com a segunda família para Santo Antônio do Içá. Nordestino, falante, comunicativo, se diferenciava dos amazonenses reservados do alto Solimões.
O navio cortou caminho pelo paraná a fim de liberar os passageiros a desembarcar em Tabatinga. Mas somente os passageiros, adiando a saída das cargas ao encerrar o trajeto.
Uma hora depois, no início da madrugada, o navio atracou em Benjamin Constant, na margem do rio Javari, para a parada prevista de mais de vinte e quatro horas. Acordei e o navio estava vazio. Apenas tripulantes e carregadores retiravam lentamente as mercadorias para a cidade. Alto-falantes funcionavam no porto de Benjamin Constant na base de músicas regionais, dedicatórias, recados, convocações, conselhos sobre isso ou aquilo.
Desembarquei e comi o café da manhã nas barracas do mercado logo acima. Pão com tucumã, tapioca com queijo, café com leite. A rampa de terra e barro na beira do rio escancarava a decrepitude e abandono da cidade. Tudo em péssimo estado, caindo aos pedaços. Ruas esburacadas, calçadas inexistentes ou arrebentadas, terra, lama, sujeira. A administração municipal de Benjamin Constant seguia a linha da quadrilha que deu o golpe de Estado no Brasil em 2016, saqueando o município, desprezando a população.
Na margem oposta do rio Javari se via o aglomerado suspenso da cidade de Islândia, já em território do Peru. Eu e o contramestre pegamos a catraia brasileira e fomos ao outro lado. A cidade peruana, inteiramente suspensa a três metros do solo alagável, se interligava por passarelas, as principais de concreto, as secundárias de madeira. Prefeitura, posto de saúde, comércios, hotéis, áreas de lazer e esportes, residências, delegacia, bares e restaurantes, a igreja matriz, tudo acima do chão. Abaixo da passarela, somente o lixo que emergia na vazante. Bandeiras peruanas, vermelha e branca, estavam hasteadas em moradias, edifícios públicos, comércios. Os peruanos, de ambos os sexos e diferentes idades, sorriam e cumprimentavam.
De volta ao Brasil, circulei em Benjamin Constant pela zona do mercado e feira municipal. Apesar do movimento intenso, com muitos clientes e curiosos, da vida pulsante, o aspecto das construções, produtos, bares cheios de bêbados, restaurantes imundos, combinava com os desmazelos da administração municipal.
O contramestre, falante, cheio de lorotas e de contatos na cidade, encostou o esqueleto em boteco sórdido do mercado. O dono do cubículo me sugeriu provar a aguardente de cana curtida em pó de guaraná, gengibre, xixuá, mambaré. A bebida de coloração cinza acastanhada era seca e amarga, mas tragável e animadora. Bêbados circulavam e paravam para prosa rápida, invariavelmente portando olhos avermelhados, lábios inchados e úmidos, apertando e reapertando as mãos de todos, sorrindo mole de cinco em cinco minutos. Como todos os bêbados do planeta.
Reencontrei o vizinho da cabine do navio que encerrara a viagem em Benjamin Constant. Ao saber que iríamos almoçar em restaurante afastado da cidade, me levou na garupa da moto. O arrendatário do cubículo e o contramestre seguiram em outra moto. O local dispunha de lagos com peixes, cabanas ou chalés, amplo restaurante, redário, quiosques para relaxar na beira da água.
A caipirinha precedeu o matrinxã assado e acompanhado de arroz e farinha de Uarini. O arrendatário do cubículo no mercado municipal mostrou que era do ramo e preparou molho na base de limão, vinagre, sal, pimenta, a fim de enriquecer os sabores. Em três detonamos quase dois quilos do peixe inteiro.
Na volta ao centro da cidade, fizemos escala em bar para mais bebes. Experimentei a aguardente colombiana, licor à base de anis. Intragável. O arrendatário do mercado caía pelas tabelas. O contramestre falante e contador de vantagens fingia sobriedade. Retornamos ao navio para cochilar e recuperar as forças prevendo mais atividades sociais à noite. A descarga de mercadorias, em volumes pequenos, prosseguia ininterruptamente desde a madrugada.
Sábado em Benjamin Constant, ao anoitecer. A maioria do comércio fechando, restando abertos apenas bares, arremedos de restaurantes, barracas de comes e bebes. Impossível a poluição sonora naquela cidade empoeirada, esburacada, abandonada, desmazelada, desmantelada. Motos, muitas motos. Raros automóveis. Raras bicicletas. O barulho ensurdecedor enlouquecia. Não dava para conversar. Parecia que tudo iria explodir. A iluminação pública era quase inexistente. Não havia restaurantes, mas sim bares, muitos bares, todos imundos. Ambulantes peruanos vendiam espetos variados. Pelo menos serviam e tomavam sucos de frutas em quantidade e variedade. A praça da Matriz, contando com construção moderna, tenebrosa, monstrengo religioso inativo naquela noite, abrigava espaço insuficiente em alongados bancos de cimento sem encosto, ao lado de grama rarefeita e ressecada. Pouca gente por ali. Calçadas quebradas, descontinuadas, ocupadas por comércio ambulante ou por buracos profundos e entupidos de líquido preto e fétido. Benjamin Constant compunha um amontoado de defeitos e aberrações.
Repeti a banca do mercado para o café da manhã. Tapioca com ovo, tapioca com queijo, café com leite. Lá estava o arrendatário do cubículo de comes e bebes do mercado municipal com um colega. Iam a sítio para comer, e principalmente beber. Iam, mas não iam, pois paravam aqui, paravam ali, conversavam, tomavam umas, outras, se despediam para, finalmente, estacionarem em outro ponto para mais bebes, mais papos, mais bebes.
Circulei pelo centro decrépito de Benjamin Constant naquela manhã de domingo. Cachorros sarnentos, mancos, pernetas, somente pele e osso, disputavam comida com bêbados e demais párias sociais. A poeira em suspensão cobria alimentos expostos na feira e no mercado municipal. O terminal hidroviário da cidade fora construído e inaugurado com verbas federais, mas se encontrava abandonado, ocioso, vazio. Na avenida paralela ao rio, bares, bregas, puteiros, exibiam o lixo amontoado da noite de sábado. Na beira da água, mulheres de vestidos longos, lenços longos e escuros amarrados à cabeça, de seitas evangélicas para lá de medievais, lembravam personagens bíblicos de novelas de televisão. Empresas evangélicas próximas ao centro recebiam clientes ávidos por entregarem bens e consciências aos proprietários do fundamentalismo.
Sujeira, abandono social, miséria e embriagues de um lado. Fundamentalismo lucrativo de outro. Duas faces da mesma moeda. E com o golpe de Estado de 2016 o Brasil tenderia a aprofundar ainda mais essas mazelas sociais.
continua...

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