segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sertões de Minas e Bahia (parte 1/5)


Ainda não saciado com as explorações anteriores pelo norte de Minas Gerais, decidi iniciar nova viagem pelo vale do Jequitinhonha, mais precisamente por onde encerrara a última.

Debaixo de frio cortante parti do terminal rodoviário do Tietê em São Paulo em setembro de 2008. Para alívio meu e da maioria dos passageiros, o sempre supérfluo ar condicionado estava quebrado. Mas a monopolista Gontijo adicionou o valor correspondente ao preço da passagem. O motorista teve que destravar as janelas parafusadas intencionalmente pela empresa. Assim, os próprios passageiros controlariam a ventilação interna e natural do ônibus, da mesma maneira como funcionava antigamente e jamais deveria ter sido mudado. A sempre irritante parada na garagem da Gontijo localizada nos arredores de Belo Horizonte aconteceu mais uma vez.

Cheguei de manhã cedo em Minas Novas após cruzar o imenso deserto verde das plantações de eucalipto entre Capelinha e Turmalina. Desoladora agressão às comunidades locais, à natureza.

No início da noite, após conversas descontraídas entre hóspedes e o vigia noturno na portaria da pousada, subi na perua caindo aos pedaços do vendedor do interior mineiro. Sentamos em bar ao lado da Gruta. Vez por outra ele apontava garotas que já carregara ao quarto da pousada nas noites anteriores. Uma conhecida dele, fingindo não ser puta, permaneceu ao nosso lado a maior parte do tempo, cutucando repetidas vezes o celular.

Tomei o ônibus vespertino, pinga-pinga. Mas poucos passageiros subiram e desceram no percurso pela estrada de chão coberta de poeira fina e avermelhada. Quando cruzávamos com veículos no sentido contrário, tudo se cobria da poeira em suspensão. A vegetação rala e ressecada das encostas denunciava a seca prolongada. Estreitos cursos d’água não revelavam uma gota sequer. Mesmo o rio Araçuaí apresentava baixíssimo nível das águas.

Desembarquei na praça central de Berilo e segui a pé até a pousada que oferecia preço bom, quarto amplo e limpo, janelas grandes por onde entrava bastante claridade, banheiro espaçoso. Das ruas de Berilo vinha o som dos carros em plena campanha à eleição municipal. Só havia duas candidaturas a prefeito. O dono da pousada se alinhou à do filho do ex-prefeito da cidade, assassinado meses antes.

Jantei em restaurante de comida caseira, onde mãe e filha atendiam em local simples, oferecendo comida trivial e feita na hora. Sob a noite fresca e ventilada, dei volta rápida por ruas quase vazias. Berilo dormia profundamente antes das 21h. Pelo menos eu estaria livre da barulheira dos carros de som naquela noite.

Depois de café da manhã suficiente, caminhei pelas ruas da cidade, pela pequena feira semanal dos sábados, em meio a poucos e frescos produtos rurais. Passei pela igreja do século XVIII, similar às demais do vale do Jequitinhonha, contando com telhado de várias águas e madeiras pintadas de cores azuladas, posicionada no alto, de frente para o rio Araçuaí e de costas para o centro da cidade. Mais abaixo, em estado desesperador de conservação, o casarão também do século XVIII não tinha desabado ainda por milagre. Abandonado, usado como banheiro e refúgio, sem portas e janelas, sem o piso do andar superior, a construção, ou o que sobrou dela, simbolizava o descaso das elites e do Estado com a história brasileira. Naquele sobrado passou e se hospedou Tiradentes, ao lado de outros inconfidentes, durante campanha pela independência do Brasil. Mais duas ou três casas antigas na mesma rua do Porto, agora caminho de terra, sujo e descuidado, ao lado de habitações miseráveis.

A prefeitura providenciava ônibus para as lavadeiras virem trazer as roupas de todo o povoado às águas do Araçuaí bem em frente à cidade. Pretas na maioria, elas vinham do povoado de Caititu, onde não tinha água encanada.

Os moradores de Berilo contagiavam pela simplicidade e facilidade de comunicação. Bastava olhar e cumprimentar para iniciar conversas sem prazo para terminar. Tracei na beira rio duas generosas doses de cachaça branca, purinha, de alambique, deliciosa, acompanhada de carne de porco frita. Havia várias cachaças expostas na tosca prateleira do bar, todas brancas e sem rótulo, produzidas por alambiqueiros artesanais das imediações. O mineiro que tocava a barraca nada cobrou e ainda agradeceu minha companhia nas conversas.

O rio Araçuaí, mesmo baixo devido ao assoreamento causado pelo desmatamento das margens, compunha cenário impressionante cortando a cidade, concentrando nas margens desabitadas a vegetação rala e seca. Mas, segundo moradores, as margens do Araçuaí e demais afluentes, vinte anos antes, contavam com mata alta e espessa, derrubada para plantação de capim para o gado. A catastrófica monocultura de eucalipto pelas empresas privadas nas cabeceiras dos rios e riachos, além de envenenar o solo, expulsou a fauna e flora do local, secou as nascentes e o lençol freático. O deserto verde do eucalipto tornou-se uma calamidade socioambiental. A região já foi auto-suficiente em alimentos essenciais, cultivados pela agricultura familiar, integrados com a natureza. A situação mudou radicalmente, exibindo riachos completamente secos, sem olhos d’água, rios cada vez mais baixos e assoreados, praticamente toda a alimentação proveniente de distribuidores em Belo Horizonte, pastos abandonados. Enquanto isso, as transnacionais de eucalipto e celulose engordavam os lucros.

Almocei no mesmo local simples da noite anterior. Com o marido trabalhando no Pará, a mãe de cinco filhos tocava o restaurante e a pousada. Conversamos bastante enquanto ela preparava a refeição e eu bebericava uma purinha.

E a disputa eleitoreira municipal seguia a todo vapor, com gritarias e buzinadas de ambos os lados, esquentando o clima a cada minuto. Não havia neutralidade entre os moradores. Ou era de um ou de outro candidato. O dono da pousada apontava carro por carro, pedestre por pedestre, afirmando taxativamente esse é do candidato fulano, esse é do cicrano. Discussões políticas sobre as principais questões e soluções para o município, nem pensar. Somente aquela briga enfadonha de quem é melhor para mandar na cidade. Nada diferente do resto do Brasil.

No final da tarde cada campanha encheu ônibus de adeptos, as ovelhas de rebanho, e se dirigiram a comunidades rurais diferentes para comícios no início da noite. Haja buzinas, rojões, berros, bandeiras, faixas, escapamentos estourados. E Berilo adormeceu profundamente logo em seguida. Tudo fechou na cidade. Bares, restaurantes, sorveterias, padarias. A cidade parecia de luto. Ninguém nas ruas. Silêncio total. Com muito custo encontrei boteco aberto e em vias de baixar as portas. Descolei caldo de feijão acompanhado da irrepreensível cachaça purinha de alambique.

Pela manhã desci na direção do Araçuaí, depois do qual continuava a estrada de terra, terrivelmente empoeirada naquela época do ano. Atravessei a ponte, caminhei em estradinhas e trilhas marginais ao rio, explorei as margens, observei lavadeiras, pescadores, gente tomando banho de rio. Retornei pela margem direita, passando em frente ao sobrado dos inconfidentes e pela rampa em pé-de-moleque até os altos da igreja matriz e a praça em declive acentuado.

Percorri a estradinha da margem esquerda, rio acima. Muita poeira cobria o caminho. Encostei o esqueleto na barraca habitual, com pouca gente naquele dia seguinte aos comícios noturnos. Matei a sede, mas não a fome. Saboreei três doses da cachaça da região, branquinha. Enrolei o tempo ao som surpreendentemente baixo e na base de canções de violeiros.

Os rojões e buzinadas dos cabos eleitorais continuavam a poluir o ambiente, agora competindo com os gritos histéricos dos cultos comerciais das seitas fundamentalistas. A cada berro mais forte dos carneirinhos, as caixas registradoras daquelas empresas da fé acusavam aumentos no faturamento. Qual dos dois ópios, o eleitoreiro ou o do comércio da fé, venceria e massacraria mais os corações e mentes dos moradores? Ambos cumpririam bem o papel de domesticar o rebanho para o capital.

Jantei ao ar livre e curti a noite da cidade em pleno domingo.

E amanheceu com céu tipicamente sertanejo, azul, de pouquíssimas nuvens, calor significativo. Peguei a pé a estrada de terra para Francisco Badaró. Atolava os pés na camada de quase dez centímetros de pó, torcendo para que nenhum veículo ou mesmo animal de porte passasse, sob o risco de me cobrir de terra da cabeça aos pés. Encostas desmatadas, ressecadas e queimadas, pequenos vilarejos com casas feias e padronizadas, com concreto ou tijolos à vista, algumas delas abandonadas, prontas para morar ou não. Nada de verde ou árvores.

A segunda-feira agitou a cidade com repartições públicas, o comércio aberto, gente circulando para todos os lados. Os carros de som dos candidatos continuavam a propaganda nas ruas. O salário de cada um dos nove vereadores da câmara municipal, e do prefeito de Berilo, alcançavam os valores de três mil e cinco mil reais respectivamente. À tarde caiu chuva rápida. Mas o perfume de terra molhada que brotou do chão deu prazer enorme aos narizes e olhos. Ainda mais naquela terra tão carente de chuvas.

Esperei o ônibus onde terminava a longa rampa de acesso às casas do alto do morro. Na paisagem do trajeto, colinas desmatadas, ressecadas ou queimadas, fornecendo tons acastanhados ao cenário, inclusive na estrada de chão, apesar de menor poeira devido à pancada de chuva do dia anterior. Nenhum, absolutamente nenhum, riacho, córrego, regato ou afins, com água parada ou corrente. Tudo seco e desolado. Apenas do Araçuaí fluía água e pouca. Desci na tórrida Araçuaí no meio da manhã e deixei a mochila no guarda-volumes. Circulei rapidamente pelas ruas e mercado municipal da cidade, este organizado e limpo. O sol abrasador me obrigou a retornar à rodoviária.

Almocei no mesmo restaurante da viagem anterior. O endereço mudou, mas a saborosa comida mineira permanecia a mesma. Enorme televisão na parede maior do restaurante, auxiliada por caixas de som espalhadas por todo o ambiente, não deixava ninguém perder o conteúdo “educativo” daquele eletroeletrônico. Os clientes abusaram do olhar bovino, se deslumbrando com notícias da mais alta importância para o vale do Jequitinhonha, como constantes tomadas da situação do trânsito em São Paulo, crimes no Rio de Janeiro e em São Paulo, imbecilidades em geral, tão típicas da imprensa empresarial. Tinha os que se viravam nas cadeiras para assistir às cenas do televisor, dando as costas aos colegas de mesa, os quais também se embruteciam diante daquilo. Praticamente ninguém conversava ou olhava em outras direções. O tal noticiário importante acabou, iniciando em seguida programa de vendas. E os fregueses da casa continuaram olhando, como ovelhas de rebanho, como se nada tivesse acontecido. O programa ensinava a vender produtos femininos e ninguém do restaurante, homens ou mulheres, desviava os olhos. Pareciam hipnotizados. A clientela pertencia à elite da cidade, mais trabalhadores em Araçuaí, muitos vestindo terno e gravata. Ia mal Araçuaí, muito mal.

Soube que no fim de semana anterior acontecera micareta em Araçuaí. Transbordei de felicidade por ter escapado de mais essa roubada. Voltei à estação rodoviária, pingando de suor, em brasa, fedendo, para o embarque à tarde para Salinas.

O ônibus cruzou o Jequitinhonha antes da pequena cidade de Coronel Murta. Daí em diante o relevo se acidentou, com serras e maciços rochosos. A vegetação rala e seca mantinha o tom acastanhado na paisagem. Entramos na cidadezinha de Rubelita, inteiramente abaixo do nível da estrada. O ônibus desceu engrenado pela baita ladeira até o centrinho local, de onde se avistava riacho no fundo do vale, cheio de pedras e com pouca água. Após ligeiro embarque e desembarque, o motorista gastou força para manobrar o ônibus e colocá-lo de frente à saída da cidade, lá em cima, vencer a ladeira e retomar a rodovia.

Não notei nenhum canavial nas proximidades da cidade nacionalmente famosa pelas cachaças artesanais. Desembarquei em Salinas no final da tarde, antes do terminal rodoviário, a fim de me hospedar no centro da cidade.

O centro de Salinas me impressionou pela classe, urbanização, praças arborizadas, calçadas sem buracos, ruas com canteiros centrais cobertos de palmeiras imperiais. E os salinenses usufruíam o centro da cidade em casas de lanches, bares, restaurantes, padarias, sorveterias, escolas movimentadas. Não faltavam mulheres bonitas e sensuais. Exibindo pele morena, amadeirada, jambo, traços alongados, falsas magras, olhares misteriosos, as orgulhosas salinenses se davam ao valor.

Diversas lojas de cachaças artesanais, individualizadas pelos fabricantes, se espalhavam pela cidade em espaços bem montados. Os respectivos alambiques ficavam distantes da cidade, em locais de difícil acesso, sem falar que alguns deles exigiam reserva antecipada às visitações. Os canaviais, dos quais eu sentira falta na estrada, eram pequenos e cultivados longe da visão, em leves depressões dos terrenos das famílias.

Embarquei em ônibus a Montes Claros por rodovia sinuosa e acidentada, ladeada pela vegetação que evoluía de caatinga ao cerrado, entremeada de manchas de mata atlântica, entre serras e serrotes. Nenhuma cidade digna do nome em todo o percurso. Apenas casinhas aqui e ali. Nada plantado, com a exceção lamentável de cerca de trinta quilômetros do triste deserto verde. As pragas do eucalipto e pinus se alternavam, envenenando, esgotando as nascentes e o lençol freático. Utilizando pouquíssima mão de obra, a monocultura de exportação em nada contribuía para a diminuição da miséria local, ao contrário, concentrava os lucros na mão de uma ou outra grande empresa transnacional.

Desembarquei em Montes Claros a tempo de correr às bilheterias e comprar passagem a Itacarambi. O calor sufocava mesmo com as janelas abertas do ônibus. Tudo, porém, era melhor que o insuportável ar condicionado. Passageiras adolescentes cutucavam os celulares sem olhar o mundo em volta. Terrenos parcamente cultivados brotavam entre extensas áreas secas. Começava a aparecer riachos com água corrente. Rápida escala na rodoviária de Januária antes do ônibus retornar á estrada. O calor dava trégua à medida que o sol se punha à esquerda.

Desembarquei ao anoitecer em Itacarambi. Ao me dirigir a pé à pousada, ainda assisti ao início da confusão entre motorista, cobrador e passageiros, todos prestativos nas tentativas desajeitadas de embarcar mulher ainda jovem e portadora de duas muletas. Chegaram a pensar até em desconectar o reboque de veículo ali de perto na intenção de içá-la ao ônibus. Entrei na pousada completamente vazia de hóspedes, localizada no alto do barranco do rio São Francisco. O proprietário me atendeu com a voz e movimentos exageradamente lentos, olhar de peixe morto, bafo de álcool, me indicando quarto em estilo despojado, porém com cheiro de mofo, teias de aranha pelas paredes e prateleiras, pó sobre a colcha das camas vindo das aberturas das telhas. Tinha jeito de não ser ocupado há tempos. A vista do rio ao lado, o preço atraente e o ambiente de autêntica pousada, me convenceram a ficar.

continua...

4 comentários:

  1. Foi bem dito sobre o município de Berilo. É uma cidade muito diferente. Eu gostei muito. Obrigado.

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  2. De nada...Fique à vontade para ler os inúmeros outros relatos de minhas viagens ao Brasil e outros países. Comente , indique, sugira... Serão sempre bem-vindos suas opiniões, elogiosas ou não. Abraços!

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  3. Sou contra o alcoolismo. Mas tomar uma cachacinha de forma moderada, como foi o caso do blogista, não faz mal a ninguem. Pelo contrário, é até recomendável. Eu conheço a cachaça da região aludida, que sem dúvida, é a melhor do Brasil. Bem recentemente fui presenteado com uma garrafa.
    JOSÉ MARIA DA CUNHA BRAGA

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  4. Obrigado pelo comentário, José Maria.
    Concordo em gênero, número e grau com o que escreveu.
    Leia e comente sempre as outras publicações deste blog.
    Abraços!

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