segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sertões de Minas e Bahia (parte 1/5)

Ainda não saciado com as explorações anteriores pelo norte de Minas Gerais, decidi iniciar nova viagem pelo vale do Jequitinhonha, mais precisamente por onde encerrara a última.
Parti do terminal rodoviário do Tietê em São Paulo em setembro. O supérfluo ar condicionado do ônibus estava quebrado. Mas a monopolista Gontijo adicionou o valor correspondente ao preço da passagem. O motorista teve que destravar as janelas parafusadas intencionalmente pela empresa. Os próprios passageiros controlariam a ventilação interna e natural, da mesma maneira como bem funcionava antigamente. A irritante parada na garagem da Gontijo localizada nos arredores de Belo Horizonte aconteceu mais uma vez.
Cheguei de manhã cedo em Minas Novas após cruzar o imenso deserto verde das monoculturas de eucalipto entre Capelinha e Turmalina. Desoladora agressão às comunidades locais, à natureza.
No início da noite, após conversas descontraídas entre hóspedes e o vigia noturno na portaria da pousada, subi na perua caindo aos pedaços do vendedor do interior mineiro rumo ao bar ao lado da Gruta. Vez ou outra ele apontava garotas que já carregara ao quarto. Uma conhecida dele, fingindo não ser puta, permaneceu ao nosso lado cutucando o celular.

Tomei o ônibus vespertino, pinga-pinga. Poucos passageiros subiram e desceram pela estrada de chão coberta de poeira fina e avermelhada. Ao cruzarmos com veículos no sentido contrário, tudo se cobria da poeira. A vegetação rala e ressecada das encostas denunciava a seca prolongada. Estreitos cursos d’água não revelavam uma gota sequer. Mesmo o rio Araçuaí apresentava baixíssimo nível das águas.
Depois de passar por Chapada do Norte desembarquei na praça central de Berilo, de cujas ruas vibrava o som dos carros em plena campanha à eleição municipal.
Jantei em restaurante de comida caseira feita na hora. Sob a noite fresca e ventilada, dei volta rápida por ruas quase vazias da cidade que dormia profundamente antes das 21h.
Depois de café da manhã suficiente, caminhei pelas ruas da cidade, pela pequena feira semanal, em meio a poucos e frescos produtos rurais. Passei pela igreja do século XVIII, similar às demais do vale do Jequitinhonha, contando com telhado de várias águas e madeiras pintadas de cores azuladas, posicionada no alto, de frente para o rio Araçuaí, e de costas para o centro da cidade. Mais abaixo, em estado desesperador de conservação, o casarão também do século XVIII não tinha desabado ainda por milagre. Abandonado, usado como banheiro e refúgio, sem portas e janelas, sem o piso do andar superior, a construção simbolizava o descaso das elites e do Estado com a história brasileira. Naquele sobrado passou e se hospedou Tiradentes, ao lado de outros inconfidentes, durante campanha pela independência do Brasil. Mais duas ou três casas antigas na mesma rua do Porto, agora caminho de terra, sujo e descuidado, ao lado de habitações miseráveis.
A prefeitura providenciava ônibus para as lavadeiras trazerem as roupas às águas do Araçuaí em frente à cidade. Pretas na maioria, elas vinham do povoado de Caititu, sem água encanada.
Os moradores de Berilo contagiavam pela simplicidade e facilidade de comunicação. Bastava olhar e cumprimentar para iniciar conversas sem prazo para terminar. Tracei na beira do rio duas generosas doses de cachaça branca, purinha, de alambique, deliciosa, acompanhada de carne de porco frita. Havia várias cachaças expostas na tosca prateleira do bar, todas brancas e sem rótulo, produzidas por alambiqueiros artesanais das imediações. O mineiro que tocava a barraca nada cobrou e ainda agradeceu minha companhia nas conversas.

O rio Araçuaí, mesmo baixo devido ao assoreamento causado pelo desmatamento das margens, compunha cenário impressionante cortando a cidade, concentrando nas margens a vegetação rala e seca. Mas vinte anos antes contavam com mata alta e espessa, derrubada para plantação de capim para o gado. A catastrófica monocultura de eucalipto pelas empresas privadas nas cabeceiras dos rios e riachos, além de envenenar o solo, expulsou a fauna e flora do local, secou as nascentes e o lençol freático. A região já foi autossuficiente em alimentos essenciais, cultivados pela agricultura familiar, integrados com a natureza. Agora praticamente toda a alimentação provinha de distribuidores em Belo Horizonte. Enquanto isso, as transnacionais de eucalipto e celulose engordavam os lucros.
Almocei no mesmo local da noite anterior tocado pela mãe de cinco filhos, com quem conversei bastante enquanto ela preparava a refeição e eu bebericava uma purinha.
E a disputa eleitoreira municipal seguia a todo vapor, com gritarias e buzinadas de ambos os lados. Só havia duas candidaturas. Não havia neutralidade entre os moradores. Ou era de um ou de outro candidato. O dono da pousada apontava carro por carro, pedestre por pedestre, afirmando taxativamente esse é do candidato fulano, esse é do cicrano. Discussões políticas sobre as principais questões e soluções para o município, nem pensar. Somente aquela briga de quem é melhor para mandar na cidade.
No final da tarde cada campanha encheu ônibus de ovelhinhas de rebanho e se dirigiram a comunidades rurais diferentes. Haja buzinas, rojões, berros, bandeiras, faixas, escapamentos estourados. E Berilo adormeceu profundamente logo em seguida. Silêncio total. Com muito custo descolei caldo de feijão acompanhado da irrepreensível cachaça purinha de alambique.
Pela manhã desci na direção do rio Araçuaí, depois do qual continuava a estrada de terra, terrivelmente empoeirada naquela época do ano. Atravessei a ponte, caminhei em estradinhas e trilhas marginais ao rio, explorei as margens, observei lavadeiras, pescadores, banhistas. Encostei o esqueleto na barraca habitual com pouca gente. Saboreei três doses da cachaça da região, branquinha.
Os rojões e buzinadas dos cabos eleitorais continuavam a poluir o ambiente, agora competindo com os gritos histéricos dos cultos comerciais e fundamentalistas das corporações evangélicas. A cada berro dos carneirinhos, as caixas registradoras daquelas empresas da fé aumentavam o faturamento. Qual dos dois ópios, o eleitoreiro ou o do comércio da fé, venceria e massacraria mais os corações e mentes dos moradores?

E amanheceu com céu tipicamente sertanejo, azul, de pouquíssimas nuvens. Pela estrada de terra para Francisco Badaró eu atolava os pés na camada de quase dez centímetros de pó, torcendo para que nenhum veículo ou mesmo animal de porte passasse, sob o risco de me cobrir de terra da cabeça aos pés. Encostas desmatadas, ressecadas e queimadas, pequenos vilarejos com casas feias e padronizadas, com concreto ou tijolos à vista, algumas delas abandonadas.
A segunda-feira agitou a cidade com repartições públicas, o comércio aberto, gente circulando. Os carros de som dos candidatos continuavam a propaganda nas ruas. O salário de cada um dos nove vereadores da câmara municipal, e do prefeito de Berilo, alcançavam os valores de três mil e cinco mil reais respectivamente. O perfume de terra molhada que brotou do chão depois de rápida pancada vespertina deu prazer enorme. Ainda mais naquela terra tão carente de chuvas.
Na paisagem do trajeto do ônibus, colinas desmatadas, ressecadas ou queimadas, forneciam tons acastanhados ao cenário. Nenhum riacho, córrego, regato ou afins, com água parada ou corrente. Tudo seco e desolado. Apenas do rio Araçuaí fluía água e pouca. Depois do começo do asfalto em Virgem da Lapa, desci na tórrida cidade de Araçuaí, e deixei a mochila no guarda-volumes da rodoviária.
No restaurante, a enorme televisão auxiliada por caixas de som espalhadas por todo o ambiente prendia os olhares bovinos dos clientes com notícias da mais alta importância para o vale do Jequitinhonha, como o trânsito em São Paulo, crimes no Rio de Janeiro e em São Paulo, imbecilidades tão típicas da imprensa empresarial. Alguns se viravam para assistir às imagens, dando as costas aos colegas de mesa que também se embruteciam diante daquilo. Praticamente ninguém conversava ou olhava em outras direções. Iniciou então programa de vendas na telona. E os fregueses continuaram olhando, como ovelhas de rebanho. Ninguém do restaurante, homens ou mulheres, desviava os olhos. Pareciam hipnotizados. A clientela pertencia à elite da cidade, mais trabalhadores em Araçuaí, muitos vestindo terno e gravata.
Depois de o ônibus cruzar o rio Jequitinhonha na cidadezinha de Coronel Murta, o relevo se acidentou, com serras e maciços rochosos. A vegetação rala e seca mantinha o tom acastanhado na paisagem. Para a cidadezinha de Rubelita, inteiramente abaixo do nível da estrada, o ônibus desceu engrenado pela baita ladeira até o centrinho, de onde se avistava riacho no fundo do vale, cheio de pedras e pouca água. Em seguida o motorista gastou força para manobrar o ônibus e colocá-lo de frente à saída alta da cidade, vencer a ladeira e retomar a rodovia.

O centro de Salinas impressionou pela urbanização, praças arborizadas, calçadas sem buracos, ruas com canteiros centrais cobertos de palmeiras imperiais. E os salinenses usufruíam o centro da cidade em casas de lanches, bares, restaurantes, padarias, sorveterias, escolas movimentadas. Diversas lojas de cachaças artesanais, separadas por marcas, se espalhavam pela cidade. Os respectivos alambiques ficavam distantes da cidade e alguns deles exigiam reserva antecipada às visitações.
O ônibus percorreu rodovia sinuosa e acidentada, ladeada pela vegetação que evoluía de caatinga ao cerrado, entremeada de manchas de mata atlântica, entre serras e serrotes. Nada plantado, com a exceção lamentável de cerca de trinta quilômetros do triste deserto verde. As pragas do eucalipto e pinus se alternavam, envenenando, esgotando as nascentes e o lençol freático. Utilizando pouquíssima mão de obra, as monoculturas em nada contribuíam para a diminuição da miséria local, ao contrário, concentrava os lucros na mão das empresas transnacionais.
Passageiras adolescentes cutucavam os celulares sem olhar o mundo em volta. Começavam a aparecer riachos com água corrente perto de Riacho da Cruz. Rápida escala na rodoviária de Januária. O calor dava trégua à medida que o sol se punha à esquerda.
Ao anoitecer em Itacarambi, entrei na pousada localizada no alto do barranco do rio São Francisco. Com voz e movimentos lentos, olhar de peixe morto, bafo de álcool, o proprietário me indicou quarto despojado, cheirando a mofo, teias de aranha pelas paredes e prateleiras, pó sobre a colcha das camas vindo das aberturas das telhas. Tinha jeito de não ser ocupado há tempos.
continua...

8 comentários:

  1. Foi bem dito sobre o município de Berilo. É uma cidade muito diferente. Eu gostei muito. Obrigado.

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  2. De nada...Fique à vontade para ler os inúmeros outros relatos de minhas viagens ao Brasil e outros países. Comente , indique, sugira... Serão sempre bem-vindos suas opiniões, elogiosas ou não. Abraços!

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  3. Sou contra o alcoolismo. Mas tomar uma cachacinha de forma moderada, como foi o caso do blogista, não faz mal a ninguem. Pelo contrário, é até recomendável. Eu conheço a cachaça da região aludida, que sem dúvida, é a melhor do Brasil. Bem recentemente fui presenteado com uma garrafa.
    JOSÉ MARIA DA CUNHA BRAGA

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  4. Obrigado pelo comentário, José Maria.
    Concordo em gênero, número e grau com o que escreveu.
    Leia e comente sempre as outras publicações deste blog.
    Abraços!

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  5. Postagem digna de muitos comentários. Parabéns!

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  6. Olá, obrigado pela visita e pela observação.
    Fique à vontade para comentar sobre esse e outros tantos relatos publicados neste blog. Tem para todos os gostos, interiores do Brasil e de tantos outros países da América, Ásia, Europa. E virão muitos outros mais...
    Comente sempre...abraços!

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  7. Que saudades da honesta comida mineira. Diga-me, qual foi o propósito da viagem? Conhecer a região?
    Infelizmente, essa febre do eucalipto também passou por Portugal. Mas acho que já está um pouco mais controlado.
    Abraço e obrigada pela sua visita ao meu cantinho
    Ruthia d O Berço do Mundo

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  8. Oi Ruthia, que maravilha encontrá-la por aqui.
    A comida e a cachaça mineira são mesmo inesquecíveis. Dá até água na boca em lembrar.
    Viajo sempre a passeio pelo simples prazer de contemplar paisagens e entrar em contato com culturas e seres humanos únicos. Daí eu penetrar tanto pelos interiores do Brasil, de maneira solta, sem pressa, mas com o olhar atento e o senso crítico ligadíssimo. Alienação, jamais.
    Comente sempre.
    Abraços!

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