quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Espírito Santo (parte 4/4)

...continuação
Nublara novamente e ventava um vento frio e constante.
Foi servido comes e bebes no final da tarde na pousada. Ao descer, observamos objetos antigos, penduricalhos, itens diversos adornando agradavelmente cantos e escadas. O perfume nauseante do incenso, no entanto, tirava o apetite.
Lá embaixo, ao redor da mesa, estavam o casal proprietário e um colega. Tomamos chá, beliscamos pãezinhos, queijos, frios. E conversamos. Na realidade, mais ouvimos. Falavam de tudo um pouco, longa e contundentemente, deixando raras oportunidades de nos manifestarmos. Mas, em viagens, agrada mais ouvir do que falar. Viajantes desejam aprender, apreender, captar, absorver, e não só as paisagens.
O casal se conheceu nos tempos da Vale do Rio Doce, empresa estatal de mineração, gestão modelo e altamente lucrativa, até ser privatizada ilegalmente em 1997 durante o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Os testas-de-ferro do grande capital a entregaram a preço de banana, muito abaixo do valor real da companhia, a capitalistas privados. A privataria, recheada de irregularidades e inconstitucionalidades, conduzida por corruptores e corruptos, rendeu inúmeros processos criminais. O povo brasileiro aguarda ansiosamente a apuração dos crimes, a condenação exemplar dos culpados, a devolução da empresa ao patrimônio público brasileiro, com juros e correção.
Durante nossa estadia na pousada, o marido nos entupiria de informações sobre a história da região. Impressionante a capacidade de ele falar durante horas, emendar assuntos aparentemente desconexos, abrir parênteses e jamais fechá-los, ignorando a reação dos interlocutores. A esposa, que não era boba e nem nada, escapava do ambiente tão logo o marido começava a discursar. E sobrava para o casal recém-chegado ávido por histórias. Ainda mais que fomos os únicos hóspedes naqueles dias.
Após banho morno entramos na pizzaria ao lado da pousada. Arriscamos vinho, condizente com a noite fresca e o vento insistente, comemos pizza bem preparada. O dono da pousada, sentado na mesa ao lado, aceitou nosso convite, se sentou com a gente, provou do vinho e da pizza. Desembestou a contar mais histórias, invariavelmente longas e ligadas magicamente a outras, sem pontos, sem vírgulas, sem parar, quase sem respirar.
Botei lenha na fogueira ao lhe perguntar sobre o caso Aracelli, famoso crime dos anos 1970, divinamente registrado e analisado pelo jornalista José Louzeiro, no livro Aracelli, meu Amor. Naqueles anos de ditadura civil e miliar, uma garota de nove anos foi drogada, estuprada seguidas vezes, espancada, usada e abusada, depois assassinada por membros da nobre elite de Vitória. Todos identificavam os culpados, inclusive os inúmeros policiais que participaram das investigações, muitos deles também assassinados ao se aproximarem da verdade. Mas ninguém até hoje foi condenado ou preso.
O Judiciário brasileiro não prende e condena os ricos. O Judiciário brasileiro só prende e condena os pobres.
Animado pelo vinho, ainda o cutuquei com vara curta a respeito do elevado número de execuções pelos esquadrões da morte no Espírito Santo, estado com um dos índices mais altos do Brasil nesse tipo de crime. Receoso, ele falou, mas não disse nada. Era um tema espinhoso que a maioria amedrontada evitava se manifestar. E o pavor apenas comprovava a existência generalizada desses assassinatos por encomenda.
Adormecemos cedo naquela noite quase fria.
Comemos bem e variado durante o café da manhã. Mas, como de praxe, ele, o marido, sentado ao lado e diante do jornal do dia, comentava sobre qualquer coisa que lesse. Não importava a relevância do tema, mas a necessidade de falar. Nem nos olhava, se satisfazendo em vomitar mil assuntos nos ouvidos próximos. A esposa, como também de praxe, saía de fininho, inventando atividades para se afastar.
Mais ao sul, no bairro planejado, triste e melancólico do Coqueiral, assim como em muros de outros trechos do município de Aracruz, a pichação “Pó preto não”, referência óbvia à poluição causada pela corporação privada de eucaliptos e celulose.
O tempo começava abrir para o sol. E fomos aproveitar a claridade da manhã.
Passamos ao lado de aldeias indígenas, a Boa Esperança entre elas, abrigando etnias tupiniquins e guaranis, segundo as fontes da pousada. Atravessamos a ponte sobre os manguezais e chegamos ao povoado de Santa Cruz.
Perambulamos pelo vilarejo de pescadores que lotaria de turistas na temporada de verão. Silencioso e bucólico no meio do ano, Santa Cruz dava prazer em circular pelas ruas estreitas, praias e beira do mar de águas calmas, mangues, fonte de água potável.
Retornamos pela mesma ponte e entramos nos acessos a outras praias, cheias de casas, algumas da elite capixaba ou mineira, todas vazias.
Na convidativa praia do Mar Azul, o vento frio não deixou que nos estendêssemos sob o sol nas areias desertas diante do mar bravio. Castanheiras e coqueiros, com troncos e galhos inclinados comprovavam a incidência do vento constante. Nenhuma alma viva, na praia ou nas ruas.
Na praia dos Quinze, similar à anterior, nos chamou atenção uma casa, provavelmente sobrado de família abastada, completamente queimada. Somente duas estruturas de concreto ainda em pé. O resto, de madeira, tudo torrado no chão, espalhado entre detritos pretos, cinzas, cacos de vidro, pedaços retorcidos de eletrodomésticos. A cerca, também de madeira, estava intacta, mantendo o distintivo da empresa de segurança que deveria cuidar dessa e de outras residências ao redor.
Informações colhidas mais tarde garantiram que a polícia identificara os culpados, adolescentes vizinhos e sedentos por emoções, mas a punição parara nas repreensões verbais aos pais. Será? O dono da residência, em trabalho no exterior, nem viera verificar os estragos, mesmo meses após o ocorrido.
Retornamos à praia dos Padres, onde nos deliciamos com moqueca de badejo. Estupenda! Saboreamos a maravilha da culinária capixaba precedida de caipirinhas e doses de cachaça, purinha, branquinha.
Nublou e ventou frio ao entardecer, nos afastando de aventuras nas praias que não fossem observar e registrar rapidamente a paisagem.
Nos refugiamos na pousada sem conseguir evitar o assédio do dono, especialmente durante o chá da tarde. Entre muitas e boas, todas longas e encadeadas espetacularmente umas às outras, o colega nos contou como resolviam problemas com cães e gatos que perturbavam a paz dos moradores dali. Após a advertência inicial aos donos dos animaizinhos, que relutavam em tomar as providencias cabíveis, fatos misteriosos aconteciam. Gatos e cães apareciam mortos de uma hora para outra. Versões oficiais davam conta que, repentinamente, os bichos estranhavam o vento incessante vindo do mar e vinham a falecer.
Ao ouvir aquilo, num curioso processo de cognição, me lembrei das conversas da noite anterior, com ele mesmo, sobre os esquadrões da morte e as execuções de seres humanos por encomenda no Espírito Santo.
A comida e a bebida do jantar empolgaram como na noite anterior. Na mesa ao lado do restaurante, dois brasileiros ciceroneavam cinco portugueses, todos a trabalho e vestidos socialmente. Entre cochichos e sussurros, tratavam de assuntos relacionados a tipos e qualidade de solo, técnicas e maquinários agrícolas.
Nos matamos de comer pela manhã, antes de encerrar a conta e pegar novamente a estrada.
Na avenida da Praia Grande demos de frente com protestos que bloqueavam a ponte ligando à Nova Almeida. Queimaram pneus sobre a ponte e a fumaça preta logo subiu aos céus avisando que a manifestação ia demorar. Não ia e nem vinha nenhum veículo. Nada a fazer, senão deligar os motores e esperar.
Passavam carros da polícia militar, dos bombeiros. Voltavam em seguida. E nada.
Ninguém era informado sobre a situação. Os manifestantes deveriam distribuir panfletos, carregar faixas, explicar as razões do bloqueio. Numa dessas, em solidariedade às causas e às reivindicações, a população, nas calçadas, ruas, veículos, poderiam apoiar e engrossar a luta. Mas não tínhamos a mínima ideia de nada.
Cerca de duas horas depois do início dos protestos, a fila de veículos começou a avançar. Atravessamos a ponte sobre asfalto enegrecido pelos resíduos pneumáticos. Trechos ainda soltavam fumaça do chão.
E rumamos para sul sem saber as causas, as motivações, as reivindicações, os temas, os porquês da manifestação. Nenhum panfleto, nenhuma faixa ou bandeira, nenhuma palavra de ordem. Nada nas camisetas ou algo similar que nos fizesse entender contra o que protestavam. Falha imperdoável dos organizadores. Perderam a oportunidade de conquistar aliados às lutas. Ao contrário, aproveitando essa desinformação, a mídia conservadora jogaria a população contra eles.
Cruzamos Nova Almeida e Jacaraípe por avenidas monótonas. Entramos na capital capixaba e devolvemos o carro na locadora.
Saímos do hotel para esticar as pernas. Sem pressa, apreciando a paisagem praieira, caminhamos pelo calçadão da praia de Camburi. Cruzamos a pequena ponte e, já na praia do Canto, encontramos lugar convidativo para comer bem, de maneira variada, em ambiente frequentado por capixabas a trabalho e pela fina flor do bairro elitizado.
Tingidos pela luz agradável do meio da tarde, perambulamos mais pela beira do mar de Camburi. Chapinhamos pelas águas, mas nada de entrar. O vento mais que fresco não atiçava o desejo por mergulhos. E nos entregarmos à preguiça merecida no quarto do hotel, desta vez nos fundos. Ouvíamos os ruídos incessantes da autoestrada da praia, porém em volume inferior ao dos quartos de frente para o mar.
À noite, caprichamos o paladar entre galetos e linguiças caseiras grelhadas, regados a razoáveis caipirinhas.
De volta ao bom café da manhã do hotel. E obviamente de costas para o televisor em direção ao qual a maioria abandonava os olhares bovinos nas programações embrutecedoras de sempre.
Despretensiosamente, sem planos para nada, fomos andando pela praia de Camburi, pela praia do Canto, com jardins e parques infantis formando conjunto aconchegante, mas largado e carente de manutenções. Avistamos os acessos às antigas ilhas do Frade e do Boi, a Curva da Jurema com barraquinhas de comes e bebes.
Rumamos novamente à praia da Costa em Vila Velha. A manhã luminosa encantava, assim com as areias e a cor do mar, mas entrar nas águas estava fora de questão devido ao vento frio.
A temperatura amena aguçou o apetite. Imediatamente nos lembramos do restaurante de nossa primeira e inesquecível moqueca capixaba. Repetimos a fenomenal moqueca de dourado, acompanhada de arroz, pirão e da surpreendente moquequinha de banana-da-terra, cozida no próprio molho da moqueca. Tudo saborosíssimo e ideal para a despedida dessa maravilha da culinária brasileira. Nossos olhos resplandeciam em meio a garfadas e goles. Definitivamente a moqueca capixaba supera com folga a deliciosa moqueca baiana.
Retornamos a Vitória em tempo de visitar o galpão oficial das famosas Paneleiras do Espírito Santo. Acompanhamos as diversas etapas da fabricação das panelas, caldeirões, tigelas e afins. A modelagem com a argila especialmente voltada para a atividade, a secagem, a queima em fogos improvisados de restos de madeira velha, do lado de fora do galpão e parecendo lixões à distância, o banho com a tinta obtida da casca de arbusto do mangue, a exposição para venda, a embalagem e o envio para o Brasil todo.
Antes do amanhecer do dia seguinte, os coitados dos turistas de pacote já arrastavam as ruidosas malas de rodinha pelos corredores do hotel, sem o café da manhã, apressados em direção ao ônibus da empresa que os aguardava com o motor ligado.
Passeamos pelas areias da praia de Camburi sob o sol impecável, sem nuvens. Pratiquei vinte flexões para tomar coragem e entrar no mar. A maré vazava, as ondas estouravam em terreno mais plano. O mar puxava menos e pude relaxar após o choque térmico inicial.
Pegamos ônibus e, depois de passar por terminais urbanos ao norte de Vitória, descemos na enseada de Jacaraípe, município de Serra.
O dia luminoso, brilhante, realçava as formas e cores, valorizando a paisagem.
A enseada de Jacaraípe atraía frequência simples, alegre, sem fricotes, ao longo de praia aplainada, atraente, de ondas regulares. Ao lado da ponte de pedestres sobre o rio que vinha do manguezal, a placidez de barcos coloridos dos pescadores atracados nas muradas da praça.
A caipirinha abriu caminho para postas de badejo acompanhadas de arroz com alho e salada mista. Alternávamos garfadas e goles com contemplações da praia, do azul do mar, do movimento discreto daquele sábado de sol forte.
Subimos em outro ônibus urbano até o aeroporto de Vitória.
O tranquilo e rápido voo nos deixou em São Paulo naquele final de julho.
Em pouco tempo eu entrava em casa, feliz pela viagem, pelo Espírito Santo e pelos capixabas.

7 comentários:

  1. Viajante Sustentável, além de uma viagem de aprendizagem, fiquei maravilhada com tantos Brasis encontrados incrustados dentro de um pequeno estado. Não estou tão feliz por chegar ao final da leitura e sim por perceber que ainda restaram algumas moquecas. Risos. Abração amigo e obrigada.

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  2. Essas moquecas me dão água na boca só de lembrar delas, até hoje rsss. Na diversidade física e cultural, nas qualidades maravilhosas e nos defeitos assombrosos, o ES surpreende. Viajar assim enriquece... Comente sempre... Abraços.

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  3. Oi, gostaria de entrevistá-lo para uma reportagem que estou produzindo sobre turismo responsável e sustentável, você poderia me proporcionar seu email?
    De qualquer forma deixo o meu, se puder entrar em contato :)
    mahpaschoalli@gmail.com

    Obrigado!

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  4. Além das paisagens, moquecas e dos capixabas, ficou também o sentimento de ternura, de amizade, de companheirismo que me faz sentir tamanha felicidade ao seu lado. Pois é pelo enorme carinho que sinto por você, que posso dizer que realmente sou uma pessoa muito feliz! Obrigada por fazer parte da minha vida.
    Bjus Ternurentos!

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  5. Oi Ela, obrigado pelo comentário.
    Também sinto o mesmo. Essa viagem não teria sido nem a metade sem você. Você que a propôs, você que a enriqueceu, você que a envolveu da maior de todas as belezas, a sua companhia.
    Cobrarei e devolverei em dobro esses beijos!

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  6. Olá viajante!
    Quão belas paisagens e notórias evidencias rochosas, não?
    Também já tive o prazer de estar em algumas praias e o belo "Convento da Penha", sei que já a muito, pra ser sincero, desde a inauguração da 3ª ponte em 29 de agosto de 89 que eu nao visito, mas ainda me lembro da imponência dos pontos visitados...
    Ainda faltou de certo a sua visita ainda mais ao sul do litoral capixaba, ficaram praias ainda muito simples e de pouca visitação, nao desertas, mas bem calmas, já bem próximas do Estado do Rio. Enfim, estou adorando a leitura do seu blog, obrigado pela oportunidade de ler-te!

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  7. Olá José, obrigado pela atenção e pelos comentários.
    Também me encantei com as paisagens naturais capixabas, tanto que quero voltar e explorar essas região que você me indicou.
    O povo a cultura do estado também me empolgaram, sobretudo as saborosíssimas moquecas.
    Comente sempre.
    Abraços!

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