quinta-feira, 26 de agosto de 2010

do Acre ao Tocantins (parte 7/7)

...continuação
O hotel, ruim, velho e decadente, lembrava hospital velho ou reformatório para menores. Larguei as coisas sobre a mesa quebrada do quarto e desabei na cama de cansaço, sem ao menos tomar banho ou escovar os dentes.
Levantei para o café da manhã. Em local sujo, escuro e triste, me deparei com duas funcionárias do hotel, ambas de aspecto mofado e sombrio. O que serviam era simplesmente deplorável. Pão azedo, mamão duro, suco colorido de açúcar com água. Empurrei goela abaixo o que deu para empurrar e saí às ruas para procurar desesperadamente outro lugar.
Em poucos minutos encontrei um hotel melhor aparentado, com empregados sorridentes, mesa do café da manhã animadora, quarto com cama de casal e muita claridade. Sem hesitação, voltei ao reformatório, peguei minhas coisas, paguei a diária ao funcionário morto vivo e me transferi. Finalmente tomei banho, belisquei o café da manhã e pude descansar.
Explorei Altamira na procura da área de lazer e restaurantes. Caminhei por longas e intermináveis avenidas sem atingir a margem do rio. Altamira é plana, moderna, sem prédios altos, com muito movimento em oficinas, lojas de autopeças e manutenção de maquinários em geral. Embora formada originalmente na beira do rio, cresceu distanciando-se dele, através de extensas artérias e bairros novos.  Ela vivia de serviços e como base de apoio regional, daí a grande quantidade de caminhões em circulação.
Mais de uma hora depois e após voltas e mais voltas, tentativas e erros, enfim entrei na parte mais antiga da cidade, a orla e o rio. Desci até a margem, na beira da água e, com muita emoção, molhei as mãos e o rosto nas águas escuras e azuladas do famoso rio Xingu.
As águas do rio Xingu mantinham a tonalidade azulada, mesmo em dia nublado. Em frente à cidade, e ao longo de imensa curva, havia uma grande ilha coberta de vegetação espessa, em cujo lado oposto apareciam praias na estação seca. Atrás da ilha, bem ao fundo, podia ser vista a margem direita do rio.

Assim como em outras partes da cidade, a orla também estava sendo reformulada. Sem ser muito extensa, era mais antiga e simpática que nas outras cidades. Havia o despretensioso e bonito gramado, que corria paralelo ao rio, ornado de árvores entre as duas pistas de pedestres. Do outro lado da rua, casas, poucos bares e restaurantes. Entre a murada e o rio, ainda restavam vegetação, barcos pequenos, palafitas, bares de madeira, pontos de prostituição decadente.
Subi na balsa que atravessava o rio Xingu até a margem direita. Vários caminhões transportavam seres humanos, amontoados na carroceria junto de outros objetos, como se fossem bois. Trabalho escravo? O motorista se incomodou quando os fotografei.
Na margem direita, praias submersas pelas águas do rio Xingu, faixas de pedras e corredeiras também praticamente cobertas pelas águas. Botecos de madeira com mesas de sinuca, o início de estrada empoeirada e nada mais. Com o corpo parcialmente dentro das águas do rio e utilizando-se da bancada de lavagem de roupas, uma jovem abria e limpava diversos peixes frescos. As sandálias estavam sobre a bancada e protegida das águas.
Em importante avenida do centro de Altamira, meia dúzia de caminhões armou bloqueio em frente às sedes regionais do INCRA e IBAMA. Eram madeireiros, indignados com a fiscalização daqueles órgãos que impediam que destruíssem a floresta para ganhar dinheiro. E os madeireiros ainda ousavam afirmar que aquela situação gerava desemprego. De quem? Dos trabalhadores em regime de escravidão?
Esses madeireiros bloquearam todos os acessos rodoviários de entrada e saída de Altamira. E o crime desfrutava do apoio da mídia burguesa. Como sempre. A televisão e jornais mostravam a cidade bloqueada, os latifundiários e empresários locais apoiando o movimento. A maioria da cidade não concordava, mas nenhuma opinião contrária era exibida, assim como nada a respeito do desabastecimento da cidade, sobretudo de gêneros de primeira necessidade, como alimentos e remédios.
Havia também a ameaça de protestos de empresários do comércio, do agronegócio, latifundiários, aliados aos madeireiros, em Redenção e São Félix do Xingu, sudeste do Pará. O nobre motivo? O governo federal movia campanha contra o trabalho escravo na região. E os modernos donos do capital eram contra.

Quando os trabalhadores sem terra reivindicam a reforma agrária, protestam ou ocupam terras improdutivas para plantar alimentos, a mídia burguesa os trata como baderneiros e contra a modernidade, além de apoiar ou se omitir diante da brutal repressão dos latifundiários e policiais.
Na tarde de deixar Altamira rumo a Marabá, o ônibus provisório levou até o bloqueio dos ricos madeireiros. Cada passageiro foi obrigado a carregar as próprias bagagens e caminhar por entre caminhões e máquinas dos criminosos, sorridentes com a situação. Cerca de cem metros depois, ao anoitecer, embarque no ônibus definitivo para enfrentar mais um trecho da transamazônica.
Quase na entrada de Marabá, o ônibus cruzou o rio Tocantins através de obra megalomaníaca. Ponte exageradamente imensa e alta. As dimensões chocavam os olhos e dava a impressão de se entrar em outro planeta.
Marabá é estranhamente dividida em três pedaços separados, não contíguos. A Marabá pioneira ou velha Marabá, a Nova Marabá construída depois da enchente da década de 1970, e a Cidade Nova. Essa separação forçada e mal feita dificultava a circulação. Era praticamente impossível, e até perigoso, caminhar entre elas pelos matagais ou avenidas sem acostamento. O comércio maior e o lazer se concentravam na Cidade Nova. A orla fluvial, o encontro das águas dos rios Itacaiúnas e Tocantins, bancos e parte do comércio estavam na Marabá Pioneira. A rodoviária, cercada de pequenos hotéis, raros botecos, avenidas e o vazio pertencem à Nova Marabá, cujos endereços compõem-se de Folha XX, Quadra YY, Lote ZZ e mais alguma coisa. Eram cerca de três a quatro quilômetros de pontes e avenidas sem acostamentos. Desolador. Em diversos estabelecimentos comerciais estavam afixados cartazes de campanha contra a prostituição, sobretudo a infantil.
Subi em ônibus urbano e desci na Velha Marabá, ou Marabá Pioneira. Cidade com cara de cidade. Pequena, com ruas estreitas, casas antigas, avenida principal simpática com canteiro central arborizado, inúmeros estabelecimentos comerciais em ambos os lados. Havia movimento, vida, sorrisos. À medida que se avançava dentro da cidade, ela se estreitava, as ruas paralelas gradualmente desapareciam, restando apenas a avenida central que se transforma em rua estreita, até o fim, local de encontro das águas dos rios Itacaiúnas e Tocantins em ponta alongada de areia, lixo e abandono.
Comprei a passagem para Conceição do Araguaia em meio à disputa entre os vendedores das empresas de ônibus. A primeira parada do ônibus foi em Eldorado dos Carajás, zona do massacre de 19 trabalhadores rurais sem terra em 1996. O crime foi cometido pela polícia militar paraense a mando de latifundiários e empresários do agronegócio. Os culpados permaneciam soltos e impunes. A paisagem das imediações era desoladora, desmatada, vazia, improdutiva, sem nada plantado. Eram enormes latifúndios usados apenas para especulação e poder. As cidades, pobres, feias, sujas e mal cuidadas. A miséria e o desemprego explodiam em cenas constantes de violência e assassinatos.

A estrada entre Xinguara e Redenção estava em péssimas condições, com muitos buracos e irregularidades. Neste trecho, e no ramal para São Félix do Xingu, ocorrem frequentemente assaltos, diurnos e noturnos, a ônibus e demais veículos. Os assaltantes, após interditarem a pista, entram armados no ônibus, obrigam aos gritos todos a se despirem para evitar que escondam valores sob as roupas, recolhem tudo e, eventualmente, os agridem. A violência desorganizada dos pobres sempre nasce da violência organizada dos capitalistas.
Chegada à noite em Conceição do Araguaia. Precisei acordar o único taxista disponível naquela hora para me levar ao distante centro da cidade. Pedi para ele me sugerir um hotel qualquer situado perto do rio Araguaia. Desembarquei em frente ao hotel escuro, fechado e completamente vazio. Sentada no sofá, a dona demonstrava contrariedade pela minha chegada. Ela nem desgrudou do sofá. Instalei-me em quarto simples, barato, caindo aos pedaços, com janela quebrada, vazamento na pia. Segundo as palavras da moribunda, o café da manhã era pequeno e não vinha quase nada.
Saí para dar uma volta, beber e comer alguma coisa. Logo encontrei local praticamente vazio e na beira do rio. O atendimento era simpático e eficiente, a comida razoável e a brisa vinda do rio Araguaia refrescante. Situação ideal para refletir sobre os perigos pelos quais passei durante esses dias e noites. A possibilidade de eu retornar ao sudeste do Pará era praticamente zero.
Não à toa eu era o único hóspede do lastimável hotel. O sifão da pia do banheiro era uma avenida. A água da torneira entrava pelo ralo, caia diretamente no chão e espirrava nos pés. A janela quebrada do quarto dava para os fundos do lava-rápido e alguns bares. Os mosquitos, livres para invadir o quarto, me trucidaram durante a noite. As paredes estavam rachadas e com a pintura descascando. O café da manhã correspondeu às expectativas tenebrosas dadas pela dona. De bom mesmo, somente a atraente cozinheira que, sorrindo e com lindos olhos brilhantes, me passou a bandeja pela escotilha da cozinha. Encontrei logo outro hotel, mais confortável e bem conservado.
A cidade estava vazia e parada. Até crescia mato nas calçadas. Os habitantes eram sorridentes e simpáticos. Descobri gostoso restaurante típico, simples e barato. A fome era grande e detonei vatapá com camarão, arroz e jambu, suco de cupuaçu com leite e, para arrematar, açaí na tigela com tapioca.
O entardecer na beira do rio Araguaia foi belíssimo. A luz alaranjada iluminava fracamente o grupo de amigos jogando vôlei de praia. Havia duas ilhas em frente à cidade e, mais ao fundo, na margem direita, o estado de Tocantins.

No dia da partida de Conceição do Araguaia rumo a Palmas, logo ao chegar na estação rodoviária, notei a aglomeração em frente ao ônibus vindo de Belém. Pessoas conversavam com os passageiros. Um senhor ligava do orelhão e pedia que lhe mandassem dinheiro. As faxineiras da estação comentavam que foi mais um. O ônibus havia sido assaltado horas antes, nas proximidades de Redenção. Em pânico, os passageiros evitavam falar e entrar em detalhes.
Embarquei no ônibus quase vazio. Quinze quilômetros ao sul da partida a estrada cruzou a ponte sobre o rio Araguaia. Do outro lado do rio, no estado de Tocantins, predominava o cerrado, raras serras e relevo ondulado. Fazendas de gado, vilarejos e cidades pequenas. O tráfego aumentou intensamente na rodovia Belém/Brasília e os buracos apareciam aos montes. A chuva fina e constante acompanhou a maior parte do trajeto. As cidades pareciam mais organizadas, com bons terminais rodoviários, lanchonetes limpas e banheiros gratuitos.
Já bem instalado em Palmas, mas faminto, saí para procurar algo para jantar. Como em cidade planejada não havia centro com as características habituais, a alternativa era sair a esmo no sentido do movimento. Encontrei outra longa e larga avenida no lado oposto da quadra onde me hospedara e lá se estendiam bares e restaurantes. Ocupei mesa na calçada e matei a fome com comida acima da média.
Tentei caminhar depois do jantar. Nada encontrei de interessante entre a infinidade de avenidas, rotatórias, gramados, jardins e pouquíssima iluminação. Muitas quadras, provavelmente comerciais, inteiramente às escuras, silenciosas e desertas. Nada acolhedor.
Durante o dia não havia sombras para se esconder do sol escaldante do cerrado em Palmas. O planejamento da cidade a deixou com muitos espaços vazios e as árvores ainda estavam pequenas. Caminhei pela região da sede do governo estadual, com prédios públicos padronizados e repetidos, cercado por mais ruas e avenidas. Mais adiante, concentrações de atividades comerciais, bancárias e de lazer bastante movimentadas e separadas por imensos vazios de grama e asfalto.
Sem semáforos, os cruzamentos se davam por rotatórias, nas quais a travessia de pedestres ficava difícil nos horários de pico. Mais uma cidade planejada e construída para automóveis. Os pedestres que se virassem como pudessem. As áreas de estacionamento ficavam entre as avenidas e os prédios. Ônibus grandes e pequenos cruzavam as principais vias. Mapas desatualizados estavam afixados em cruzamentos. A leste, depois do final da zona urbana, serras alongadas e com tonalidade azulada. O aspecto dos habitantes variava muito e ouviam-se sotaques de várias regiões brasileiras. Paguei caro pelo livro Os Ratos, de Dyonélio Machado, em sebo da área central.
Comprei a passagem de volta para São Paulo no único e inconveniente horário das 7h. Teria que acordar cedo e perder o café da manhã.
Na manhã seguinte esperei muito tempo no ponto de ônibus urbano. Dois rapazes, vestindo roupas sociais, cambaleavam de bêbados nas imediações. Nem notaram olhares de censura dos trabalhadores à espera do transporte.
Cheguei na estação rodoviária em cima da hora, comprei comes e bebes na lanchonete local e embarquei. O ônibus partiu no horário com apenas quinze ocupantes. Cada passageiro sentou nas duplas de assentos e ainda sobraram lugares. Ninguém acompanhado de ninguém. Ninguém conversava com ninguém. O quase sempre supérfluo ar condicionado estava muito gelado. Solicitei ao motorista que aliviasse e educadamente fui atendido.
A marginal Tietê, como sempre, estava congestionada na chegada a São Paulo.
Nem bem entrei em casa, em dezembro, e já comecei a planejar a próxima exploração à Amazônia, mais precisamente ao vale do rio Juruá.

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