quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 1/12)

Diante do deslumbramento da minha primeira viagem à Ásia, ela me contagiou para nova exploração à região. Desta vez, sem roteiro engessado, sem data de volta, permanecer onde e por quanto tempo desejar. Iniciaríamos no Nepal, priorizaríamos a Índia, decidiríamos lá o restante.
Embarcamos no início de outubro. O primeiro trecho aéreo permitiu um dia inteiro em Londres. O segundo voo criou o suspense da conexão apertada em Delhi, rumo a Kathmandu. Mas funcionou a terceira e última etapa aérea ao Nepal.
A chuva fina recepcionou na chegada a Kathmandu. Depois de duas noites voando e sem dormir, o sono bateu em cheio.
Acordando no meio da tarde do dia seguinte e a acentuada diferença de fuso horário impediram de o sono vir à noite. Depois de conversas, leituras, esperas, enfim o sono. Dormi bastante e profundamente. O relógio biológico, por fim, se ajustava.
O dia se resumiu a atividades burocráticas e ao planejamento da travessia pelo Himalaia. Optamos pela junção de três trilhas na região do Lantang em 17 dias de caminhada. Encaramos a caríssima vacina contra hepatite A em hospital administrado por canadenses. Ficamos imunizados e desfalcados de bela grana. Mais tarde, ao templo budista de Swayabunath, situado no topo da colina.

Pela manhã, o templo hindu de Pashupatinath, dedicado a Shiva. Os fiéis vestiam roupas coloridas durante as cremações, bênçãos, purificações nas águas sagradas do rio, afluente do rio Ganges. Músicas religiosas acompanhavam os rituais. Os sadhus circulavam seminus pelas redondezas. Dos degraus da margem oposta do rio se via com calma as cenas à frente. Dali ao templo budista de Boldhanath, marcado pela grande estupa. Valia mais pelos restaurantes ao redor, a maioria com amplos terraços, ideais para comer, beber, ver o movimento frenético das ruas.
Dia ensolarado para ir à cidade de Baktapur. Bem preservada, com circulação restrita de veículos, a cidade guardava templos hindus, vielas medievais, cenas de rua, moradores receptivos e simpáticos. Era o tipo de lugar para se perder pelos caminhos e esquecer o tempo. Poucas ruas e praças se amontoavam de turistas. E, ali, oportunistas insistentes tentavam vender serviços de guia alegando serem estudantes de história e precisarem de dinheiro para pagar a escola. O restante da cidade, não menos interessante, permanecia calmo para explorações detalhadas e contatos mais íntimos com os moradores.
O ônibus lotado levou a Kirtipur, cidadezinha encravada no alto da colina. A cidade fora quase toda reconstruída após o terremoto de 1934, inclusive templos e estupas. Os moradores eram sorridentes e receptivos. E impressionava a visão da cordilheira do Himalaia. Retorno ao centro de Kathmandu em outro ônibus lotado de tipos fascinantes.
Aproveitamos a luz da tarde para perambular pela praça Durbar em Kathmandu, sentar nos degraus do templo e apreciar o vaivém dos moradores e turistas. Claro, sempre importunados por vendedores de bugigangas, condutores de riquixás, taxistas, falsos sadhus, falsos guias. A poluição em Kathmandu incomodava, dos escapamentos ou da abundante poeira em suspensão.
 Arrumação meticulosa das mochilas para a caminhada no dia seguinte. Não caberia todo o necessário, de jeito nenhum. O jeito era retiramos itens, encher novamente, esmagar, sentar em cima. Pronto. Coube.
Ainda no escuro para pegar o ônibus para Dunche, que cruzou paisagens em relevo acidentado e montanhoso. A estrada sinuosa subia e descia encostas rochosas, com muito verde. Se sucediam os precipícios, quedas d’água, desníveis fascinantes. O ônibus contava com ajudante para embarque e desembarque de passageiros e cargas, mas também nos momentos em que vinha outro veículo em sentido contrário ou em curvas fechadas na beira de precipícios.

O trajeto de quase onze horas cansou em ônibus com pouco espaço para pernas e bagagens. Pulava demais na estrada cheia de buracos, de terra ou pavimentada. A maioria dos passageiros era de nepaleses, simpáticos e receptivos. Os poucos turistas, loiros, primavam pela arrogância. Furaram impunemente a fila no embarque, não conversavam nem com os nepaleses.
Em Dunche, outro ônibus a Shiabru Bensi, a 1.420 metros de altitude. O jantar no refúgio básico veio de dhal bath reforçado com dois ovos fritos. Depois sono. O dhal bath era o prato típico nepalês, constituído de arroz, lentilha, batata temperada e, eventualmente, outros ingredientes de brinde.
Início da caminhada cedo pelo fundo do vale. A trilha ascendia invariavelmente em meio a florestas de verde abundante, acompanhada do riacho encachoeirado. Surgiam pequenas pontes de madeira, diversos abrigos, casa de chá. Raros turistas nas imediações.
Nos bosques pintados pelas cores de outono, as folhas evoluíam de verde, amarelo, laranja, até tons acastanhados. Escarpas rochosas, pássaros, cascatas, córregos se alternavam. O riacho principal que corria ao longo do vale reservava corredeiras e pequenas cachoeiras. A subida se acentuou e o vale se alargou. A vegetação tornou-se mais rala e de menor porte, exceto a ciliar. Os paredões verticais de rocha pura impressionavam com inúmeras quedas d’água. O lanche foi de lamem com ovo frito e muito chocolate de sobremesa. O pico nevado do Lantang Lirung apontou no fundo do vale e deu as boas-vindas na parada da vila de Lantang, a 3.500 metros de altitude.
Mesmo com cestos de lixo ao lado, os estrangeiros do assim chamado primeiro mundo jogavam papel dentro dos vasos sanitários e nunca puxavam a descarga. O banheiro fedia terrivelmente após a passagem deles. Lavamos o essencial no cano de borracha que trazia água gelada da montanha. E preguiça sob o sol de fim de tarde para relaxar e lembrar as belezas da trilha.
Despertar bem cedo para assistir ao nascer do sol nas montanhas nevadas ao redor. Apesar do frio quase insuportável, fortes emoções diante dos raios de sol que gradativamente iluminavam a ponta dos picos e depois toda a montanha.
Dia para caminhadas leves pelas colinas, apreciando as montanhas com calma e se aclimatando na altitude. Entre as trocas de pontos de vista com o guia a respeito de diferentes modos de vida entre Nepal e Brasil aumentou a consideração mútua. Os nepaleses preferiam nos procurar para conversar, sentar ao lado ou simplesmente sorrir. Como brasileiros, chamávamos atenção pela simpatia, receptividade, curiosidade. Os demais turistas se isolavam de tudo e de todos.

Novamente cedo cordilheira acima. A vegetação apresentava-se mais rala e dispersa em vale alargado. Apareceram iaques e naques em numerosos rebanhos. Os condutores ofereceram ruksi, bebida alcoólica forte e geralmente adulterada segundo o administrador do refúgio. Chegada em Kanjyn Gompa, a 3.800 metros de altitude deslumbrados com o visual de montanhas nevadas ao redor.
Antes do amanhecer, subida ao topo da montanha Tsergo, a 5.000 metros de altitude. Os efeitos da altitude exigiam paradas para repor o oxigênio e normalizar o batimento cardíaco. O visual encantava, sobretudo com os picos das montanhas mais altas iluminados pelas primeiras luzes da manhã. Pouca neve no começo, sobre os blocos de rocha, depois espessa, cobrindo totalmente a rampa acentuada, escondendo os buracos, tornando tudo escorregadio. O gorro, a bota, as luvas pouco amenizavam o frio.
 De volta ao vale do Lantang, rumo às cabeceiras e geleiras, a 4.500 metros de altitude, entre córregos com água corrente e blocos de gelo. O vale se estreitava e as montanhas se aproximavam à direita e à esquerda. Eram mais e novas montanhas nevadas. Uma delas, toda coberta de neve, mais parecia feita de nata. Do outro lado, terminava o Nepal e iniciava a China.
O aquecimento da água era feito com lenha cortada dos bosques, contribuindo para o desmatamento na cordilheira do Himalaia. Daí lavar o rosto, pés, as partes baixas, com água fria mesmo. A sujeira rapidamente era esquecida ao caminhar e contemplar as montanhas ao redor.
Subida ao cume do pico Kanjyn, a 4.300 metros de altitude. Da pedra do cume, a paisagem revelava imagens espetaculares do Lantang Lirung, das geleiras, da maioria das montanhas nevadas ao redor. Paz e silêncio na companhia apenas dos pássaros, da natureza do vale do Lantang, da cordilheira do Himalaia, durante horas, entre fotos, preguiça, observações, contemplações, frases, conversas. Nada descreveria o que os olhos e ouvidos captaram. E nevou levemente na descida.
O sol brilhava intensamente à tarde nas imediações do refúgio. A partir da água gelada das montanhas que brotava dos canos de borracha, o banho quase completo. Depois lagartear sob o sol morno para observar o lento movimento do vilarejo até quando o sol não esquentava mais. A neve estava mais brilhante do que nunca. As luzes e cores prendiam os olhares.
À noite o céu enchia de estrelas e a lua quarto crescente refletia o brilho nas encostas nevadas das montanhas, parecendo se acenderem com o luar, fazendo esquecer o frio intenso, mesmo quando íamos aos banheiros afastados e gelados.
Na descida do vale durante a manhã, o espetáculo vinha do verde, amarelo, castanho da floresta, o rio de águas verde-azuladas, a visão do maciço branco do Lantang entre as árvores. De cada curva da trilha, de cada ângulo de observação, mais belezas se revelavam. No refúgio, a 2.380 metros de altitude, banho frio, parcial, priorizando as partes críticas do corpo.
Mais caminhantes gringos subiam o vale, raramente retribuindo acenos, cumprimentos, saudações. No posto de fiscalização do parque nacional, os estrangeiros loiros não escreviam as informações necessárias, colocavam dados falsos, não assinavam, debochavam das normas.

Nos trechos sombreados em meio a florestas verdes e úmidas, o pico do Ganesh Himal servia de pano de fundo para Shiabru, graciosa vila situada na crista da montanha, a 2.100 metros de altitude. Terraços cultivados com cevada formavam conjuntos esverdeados. Aglomerados por entre becos e ladeiras, as construções da vilazinha ofereciam muitas flores nas sacadas. O festival do Dasain iniciava o período mais importante das comemorações.
E novamente montanha acima. Eram florestas de pinheiros, carvalhos imensos, coníferas, cujas folhas evoluíam do amarelo ao laranja. A maior parte da trilha percorreu cristas com os picos Lantang Lirung e Manaslu até o amontoado de barracos em Laurebina Yak, a 3.980 metros de altitude. Não nos cobraram nada pela estadia precária.
A paisagem mais uma vez mudou sob as encostas quase verticais de rocha acinzentada. Eram escarpas, abismos, com neve onde não batia sol. O cenário dos lagos, escuros, esquisitos, instigava em Gosaikund, a 4.380 metros de altitude. Nevou levemente, esfriou mais, mas dava para andar sem problemas.
E nos enfiamos nos sacos de dormir para gostosa preguiça. O refúgio lotou de novos caminhantes. Ouvíamos vozes em diversas línguas. O rádio dos sherpas tocava a todo volume. Mas distingui vozes em português brasileiro. O grupo filmava documentário na Ásia sobre a Rota da Seda entre o Paquistão e a China. Estavam no Nepal apenas a passeio. Sempre gratificante encontrar brasileiros, referências de alegria, receptividade, calor humano.
continua...

2 comentários:

  1. Fascinada, quanto mais leio mais quero ler. Que presente!

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  2. Oi Ivete, obrigado pelo comentário.
    Ainda tem muita coisa pela frente nessa viagem e espero você por lá.
    Abraços!

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