quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

do Maranhão à Paraíba (parte 6/6)

...continuação
A avenida da praia ficava interditada para o tráfego de veículos das 5h às 8h da manhã. Muita gente aproveitava para caminhar, correr, exercitar-se, na avenida, calçadão, na praia. Dia para fazer nada, apenas contemplar o visual, esticar na rede, ler, escrever, trocar ideias com os funcionários da pousada. A proibição de construir prédios de mais de quatro andares na praia de Tambaú mantinha de pé casas antigas e preservava a paisagem como um todo. No final da tarde, os pessoenses retornavam às caminhadas e corridas pelo calçadão da praia.
Alguns moradores se ressentiam da cidade não ser tão turística como Natal ou Fortaleza. Argumentei que, com o crescimento do turismo desorganizado, viriam mais turistas, mais putas, mais menores de rua, mais pedintes, mais concentração de renda, mais riqueza para poucos, mais miséria para muitos. E João Pessoa iria perder a atmosfera calma, as praias limpas, a natureza. O turismo jamais deveria ser prioridade, mas sim os investimentos sociais para a maioria.
O dia amanheceu brilhante. Percorri a praia de Tambaú, a praia de Cabo Branco. Subi as encostas da falésia do farol do Cabo Branco, Pontal do Seixas, o ponto mais oriental do Brasil e da América e, finalmente, baixei na praia do Seixas. Antes do farol, calçadões na praia, casas, edifícios poucos e baixos, muito verde, calmaria. Em seguida, caminhei pela areia da praia ou por ruas atrás das raras barracas ou casas. A praia do Seixas estava vazia e tranquila.
Parei em barraca de comes e bebes frequentada pelos vizinhos que faziam breves paradas e jogavam conversa fora. Entre eles estava o policial civil do turno da noite, o sargento aposentado, a garota bastante “rodada” e mãe de menina de quinze anos, o paulista motorista de táxi. O dono da barraca sabia como tirar as novidades e confissões dos frequentadores.

O taxista conheceu em São Paulo a paraibana onze anos mais velha. Decidiram se juntar e morar em João Pessoa. Nem bem ele acabara de contar a história, a dita cuja apareceu na barraca. Lançou-lhe broncas, xingou, gritou, acusou-o de só querer beber e de não voltar para casa. Ameaçou telefonar para a mãe do paulista e contar tudo sobre o “traste” do filho. Os demais da barraca permaneciam calados e atentos. Muito irritado, o paulista respondia no mesmo tom. O clima esquentou e faltou pouco para saírem no tapa. Mas bastou ela ir embora para ele desabafar. Não suportava mais tanta tirania e até pensava em largar tudo e voltar para São Paulo. Era o segundo casamento para ambos e com filhos em todos eles.
O dono da barraca lançou a teoria, logo endossada pelos demais, que não se devia casar com mulher já “feita” por outro homem. E declarava:
“O cabra tem que “fazer” a mulher para a relação dar certo”.
E todos ficaram à vontade para proclamar que “mulher é louca para dar”, “não existe mulher difícil, apenas mulher mal cantada” e outras frases tocantes. O sargento aposentado se lembrou de um pescador abandonado pela mulher que adorava se perfumar todos os dias antes de trabalhar na casa do patrão. E a conclusão de todos na barraca foi imediata: “só podia estar dando para o patrão”.
Jantei no famoso restaurante de comida regional no bairro da Manaíra. Antes de sair da pousada, a senhora idosa, doente e sedentária, que apenas dormia e se estirava no sofá da sala da recepção para assistir televisão, me declarou em voz alta e clara, carregando no sotaque nordestino, em tom bombástico, que aquele restaurante era muito bom e, o mais importante, era “Selv Selv”. O restaurante, com decoração rústica e preços altos, tinha atendimento simpático, às vezes pegajoso, com as garçonetes exagerando nos agrados e dificultando a escolha dos pratos com calma. Não serviam bebidas alcoólicas. As dezenas de opções no bufê vinham nadando no óleo. Os sabores não empolgavam. Matei a fome e foi só.
As noites de João Pessoa ganhavam mais movimento com a proximidade do final de semana. Mas a calma ainda era a marca e tudo se encerrava cedo. Os pessoenses arrumavam-se antes de sair, vestindo calças, sapato e meia, camisa de manga comprida. Raros os que usavam bermudas.
Peguei o ônibus para o centro da cidade. O centro de João Pessoa contém construções antigas e barrocas de grande valor arquitetônico e histórico, como a catedral, igreja do Carmo, Casa da Pólvora, teatro Santa Rosa e, especialmente, o convento de São Francisco. Datado do século XVII, o amplo convento guarda imagens, afrescos no teto, altares, púlpitos folhados a ouro. A administração atual, em atitude louvável, utilizava o espaço do convento como centro cultural da cidade, abrigando exposições de obras contemporâneas, objetos do folclore paraibano e de outras regiões do Brasil. O guia interno se mostrou bem informado e politizado. Além dos conhecimentos a respeito da história, características artísticas e religiosas do convento, abriu debate sobre a situação da igreja brasileira, o bispo Dom Pelé, o MST, movimentos populares, cultura regional entre outros temas.

Almocei em restaurante perto dali frequentado pelos trabalhadores da região e oferecendo pratos da culinária regional, como bode, galinha matriz de carne dura, arroz de leite e outras iguarias. Serviam comida paraibana na Paraíba. Certíssimo!
As praias não enchiam aos sábados. Mas em toda a extensão havia pessoas aqui e ali, sem multidão, com muito espaço e tranquilidade.
Os pessoenses saíram da toca no sábado à noite. As ruas ficaram cheias, leves congestionamentos, os bares lotados, olhares de busca e contatos, gente produzida. As famílias também se faziam presentes pelas calçadas e bancos da beira da praia. Praticamente todos de pele clara.
Dia longo e agradável pelas praias de Cabedelo e João Pessoa, ente elas Camboinha, Poço, Bessa e Intermares. O mar estava calmo, bonito e colorido, mesmo em domingo nada lotado. Foram comes e bebes nas barracas das praias, mergulhos, em companhia da família da colega piauiense. No final do dia, o pôr-do-sol no Jacaré, situado próximo à foz do rio de mesmo nome. Todos os bares, marinas, restaurantes, tocavam o Bolero de Ravel, sincronizando o final com o exato momento que o sol desaparece no horizonte. A maioria dos bares abusava e cobrava entrada. Nada especial e até pretensioso.
As aglomerações humanas nas calçadas, esquinas, praças, bares, sorveterias e restaurantes em João Pessoa, nos finais de semana, lembravam cidades de interior. Muitos reunidos, conversando ou apenas olhando o movimento, pequeno consumo, dispersão e volta cedo para casa. Os espaços públicos, felizmente, ainda predominavam no lazer de todas as idades. Que os templos do consumo, praga em outras capitais, não destruíssem o jeito pessoense de viver a vida.
Embarquei em passeio diurno pelo litoral sul da Paraíba. Passagem pelas praias de Barra do Gramame, do Amor, do Coqueirinho, Tabatinga, Jacumã, Carapibus. Paramos bastante, inclusive na de Tambaba que contava com área para nudistas. No meio da estrada, havia trecho ilegalmente interrompido com galhos espinhosos para o acesso à praia. Descemos e desimpedimos o caminho, barrando aquela tentativa de privatização da natureza. Era quarta-feira e as praias estavam perfeitas, vazias, tranquilas. Ficou a torcida para que esse paraíso não seja estragado pela indústria do turismo.
Moradora de João Pessoa, a colega piauiense se ressentia do comportamento da maioria dos pessoenses. Apesar de simpáticos e prestativos, orgulho ou arrogância os impedia de procurar, telefonar, retribuir gentilezas. E me contou que o irmão se formara em administração de empresas e ficou sem conseguir emprego por meses. Tentou daqui, dali e nada. Muito comunicativo, aceitou a bizarra sugestão de fazer curso para pastor neopentecostal, mesmo não sendo evangélico ou religioso de qualquer facção. Concluiu o curso com louvor. Passou a atuar como pastor nos templos do comércio da fé. Ganhou fortunas, em dinheiro e afins. Ficou rico com a indústria do fundamentalismo sem nunca ter sido religioso ou crer naquelas baboseiras que tanto repetia aos otários que o sustentavam nos chamados cultos das empresas evangélicas.

Acordei no meio da madrugada com os sons da sacada ao lado. O hóspede dinamarquês, que se considerava escritor, dois paraibanos e uma garota morena com longos cabelos negros, tomavam todas, falavam e riam alto. Os dois paraibanos saíram e logo retornaram com mais bebidas. Então foram embora e o dinamarquês ficou sozinho com a morena que não passava dos dezoito anos. Começaram a sussurrar, ele em inglês com raras palavras em português e ela em português com raras palavras em inglês. O tom das vozes ficava cada vez mais melado. Ela se oferecia dizendo que o namorado não era de confiança e ele se empolgava. Entravam e saíam do quarto dele. Depois desceram as escadas e foram mergulhar nus no mar. Voltaram. Ela insinuava que ele lhe presenteasse com jóias. A partir de agora era love, eram friends. Ele fingia não entender e desconversava. Ela insistia de todas as maneiras. Entraram juntos no quarto do dinamarquês e o silêncio, enfim, reinou na pousada.
Terminei o fraco livro Pedra Viva, de Josué Montello. Doei ao funcionário da pousada que agradeceu comovido. E me contou que a mulher, ainda nova, apanhara demais do ex-marido. Nem o filho tinha escapado. Ela ainda exibia marcas da violência pelo rosto e corpo. Com o novo casamento, ela e o filho tentavam superar o trauma.
Depois de muito procurar, em sebo da cidade encontrei o livro O Círio Perfeito, de Pedro Nava.
Pela manhã o calor estava demais. Foi só preguiça. Li, cochilei, almocei, voltei a ler e a cochilar. Caminhei sob as luzes alaranjadas do pôr-do-sol, tomei banho e estava novo para seguir adiante.
Pensava em encerrar a viagem e retornar a São Paulo. Mas bastou anoitecer, refrescar, as calçadas encherem de gente, de alegria, para eu esquecer momentaneamente da volta. Eu e a piauiense circulamos pelos bares da Manaíra. Enrolamos antes de irmos à casa especializada em forró ao vivo, baseado nos estilos tradicionais como baião, xote e xaxado. Por proibirem a entrada de bermudas e chinelos, desenterrei a única calça que estava esquecida e amassada no fundo da mochila. A animação foi até de madrugada.
O domingo amanheceu indeciso antes de abrir o sol. Os pessoenses invadiram as praias. Caminhei até o farol do Cabo Branco. Mergulhei no mar em frente à pousada. Sentei na areia para contemplar o visual.
O hóspede dinamarquês, em quem pouco ou nada se podia confiar, contou que era navegador, separado com filhos, morava no interior da Dinamarca. Tinha várias namoradas em João Pessoa, todas elas bem jovens. Na pousada desconfiavam que ele era fugitivo da polícia internacional. Havia outro hóspede canadense de meia idade. Não conversava com ninguém. Comprava quilos de frutas tropicais e as consumia aos poucos no quarto. Vivia solitário no frio canadense e se presenteava com esses momentos um mês ao ano.
Almocei no restaurante próximo à pousada, especializado em comida sertaneja. Os saborosos pratos estavam dispostos em tigelas fumegantes. Era outro no estilo “Selv Selv”, mas sem comida nadando no óleo ou atendimento pegajoso. À noite aportei em bar para degustar excelentes cachaças paraibanas. Todas as cachaças brancas, nada de envelhecimento que estragam o odor e o sabor de cana destilada.
Os televisores infestavam todos os cantos da cidade. Nem carrinho de cachorro quente escapava da tirania. O proprietário trazia o aparelho de rodinhas para os fregueses comerem e se idiotizarem ao mesmo tempo.

A praia de Tambaú era bastante frequentada pelos casais durante a noite e madrugada. Alguns transavam, se lavavam nas águas do mar e voltavam ao calçadão tranquilamente.
Renovei meu estoque de livros em ótimo sebo do centro da cidade. Saí satisfeito com a aquisição dos dois volumes de Marco Zero, de Oswald de Andrade, Revolução Melancólica e Chão, além de Baú de Ossos, de Pedro Nava.
O nascimento da enorme lua cheia, no fundo do horizonte do mar e defronte à pousada foi de arrepiar. A bola avermelhada nascendo acima das águas fazia com que todos parassem para contemplar. Eventualmente as nuvens a cobriam para depois a exibirem ainda com mais brilho.
João Pessoa lotou durante o feriado da semana santa. E se perdeu com a mania do som no último volume vomitado dos porta-malas dos carros. A pousada recebeu casais pernambucanos e potiguares, invariavelmente fechados. Os machistas vigiavam as mulheres submissas. As praias estavam mais cheias que de costume. Mesmo assim não lotou e havia espaço para todos. Caminhei até o Cabo Branco entre mergulhos.
A encenação mais concorrida da paixão de Cristo na noite daquele sábado de aleluia ocorreu no centro de João Pessoa. Artistas de televisão foram contratados para atrair um público, claro, de televisão. As fãs compareceram em grande número para assistir ao espetáculo sob as árvores da praça central da cidade. Eram cinco palcos onde cerca de cinquenta atores e figurantes se revezavam. Um daqueles galãs de novelas interpretava o Cristo na cruz. Ao abrir a boca, as fãs gritavam histericamente, sequer ouvindo as palavras dele ou de outros atores.
Meu último dia na cidade foi o mais feio de toda a viagem. A chuva não deu descanso. As raras pessoas que arriscaram a praia logo se retiraram. As barracas ficaram vazias, as areias desertas, o mar crespo e acinzentado, a paisagem triste e silenciosa.
O plano original de passar três dias em João Pessoa se transformou em três semanas. Era sempre um dia a mais, outro dia a mais, mais um dia. E eu fui ficando, ficando, conhecendo pessoas interessantes, me envolvendo, gostando, ficando mais. E aqueles vinte e um dias de permanência refletiram fielmente a minha relação com a cidade.
O ônibus para São Paulo partiu com assentos vagos. Choveu muito na BR-101. Menores se prostituíam nas paradas de caminhoneiros em Pernambuco e Alagoas. Barracos de lona preta dos trabalhadores rurais sem terra se estendiam nos acostamentos. Imponentes formações rochosas chamaram a atenção nas imediações do vale do Jequitinhonha.
Entrei em casa no meio da manhã de abril. Fedido, cansado, faminto, mas indecentemente feliz pela longa viagem, livre e no meu ritmo.

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