sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

do Maranhão à Paraíba (parte 1/6)

Nada melhor que, em seguida à exploração da Patagônia, contrapor um roteiro leve e quente pelo nordeste do Brasil.
O ônibus partiu em janeiro do terminal rodoviário do Tietê com apenas cinco passageiros. Dormi bastante e até sonhei. O dia clareou em Goiás, iluminando a paisagem plana do cerrado entre muitas cercas e poucas plantações.
Após as serras da divisa entre Goiás e Bahia, surgiu a imensa planície, tomada pelas monoculturas de soja e milho. Além da presença dos nomes de testas-de-ferro brasileiros, o cenário era ocupado pelas transnacionais Cargill, John Deere, Monsanto, entre outras. Pistas de pouso, hangares, aviões voando baixo e borrifando agrotóxicos cujas marcas apareciam em grandes cartazes ao lado dos produtos transgênicos como o milho Roundup, a soja Monsoy e demais venenos. Foram quilômetros e quilômetros de paisagem ostensiva e desoladora. Lojas das transnacionais, agências bancárias, cartazes, indicavam financiamento federal e estadual para aqueles empreendimentos. E dezenas de áreas loteadas com corretores de imóveis sentados à espera de compradores. Tudo parecia feito às pressas, sem qualquer preocupação social. E o município teve o nome original alterado para Luís Eduardo Magalhães, o filho de Antonio Carlos Magalhães. Não era à toa que esse nome figurava ao lado de transnacionais, transgênicos, agrotóxicos, dinheiro público para o capital estrangeiro.

Na Bahia muitos nomes foram alterados após a morte do dito cujo. O pai, ao lado dos capitalistas beneficiados, desprezou o nome original de terminais rodoviários, escolas, hospitais, centros esportivos, ruas, avenidas, praças, aeroportos e até cidade. E o novo nome imposto era sempre o mesmo. Enquanto isso, as estradas baianas figuravam entre as piores do Brasil e a população entre as mais miseráveis.
Pouco antes de Barreiras, o relevo do cerrado acentuou-se cortado por rios com corredeiras. A população refrescava-se nas águas naquele domingo ensolarado. Depois, até a divisa do Piauí, a rodovia transformou-se em calamidade. Nada de pavimentação, somente terra, areia, buracos, mato com espinhos invadindo o caminho e entrando pelas janelas do ônibus. A situação melhorou bastante após a entrada no Piauí.
Depois de passar por Corrente e Gilbués, o ônibus embicou na estação rodoviária de Floriano no início da manhã.
Na margem do rio Parnaíba, construções antigas, bares e restaurantes, inclusive flutuantes. Muitas lavadeiras e moradores, em busca de sombra e brisa, naquele final de tarde. Na outra margem do rio, já no Maranhão, se erguia a cidadezinha de Barão de Grajaú. A estação chuvosa deixava alto o nível das águas do rio. Devido a grandes enchentes recentemente, carros de som circulavam pedindo ajuda aos desabrigados. 
O ônibus da empresa Transbrasiliana apresentava problemas mecânicos, nos freios, na estabilidade, nas janelas que não abriam, abafando o interior do veículo. Atravessou o rio Parnaíba, saiu do Piauí e entrou no Maranhão.
O relevo se acidentava ligeiramente com pequenas serras, extensas planícies, vales alongados. O cerrado predominava entre buritizais, babaçuais, carnaubais. As recentes chuvas esverdearam a vegetação. Os vilarejos miseráveis, com casas de barro e cobertas de palha, raras as de alvenaria e telhas, pareciam aldeias primitivas, em contato brusco com a rodovia. Nada além de depósitos de gente sobrevivendo muito abaixo das mínimas condições humanas. Entre São João dos Patos e Balsas, a monocultura da soja ocupava imensas áreas, com a presença de imigrantes do sul do país.
Muitos passageiros viajavam de pé, reclamavam dos preços abusivos, dos serviços ruins da Transbrasiliana. Os rostos se renovavam seguidamente pelos que subiam e desciam, carregando muita bagagem e mercadorias.
Em Carolina me hospedei em pousada na qual seria o único hóspede por aqueles dias. A cidade era graciosa, sem construções de mais de dois andares, para a sorte dos moradores. Apesar de antiga, contava com traçado urbanístico arrojado, ruas e calçadas largas, canteiros centrais arborizados com bancos para relaxar, amplas praças com bares, lanchonetes, diversas mesas ao ar livre. A população aproveitava e bem os espaços públicos. Deixavam as casas, colocavam cadeiras nas calçadas e conversavam com os vizinhos pela noite adentro. A bicicleta era muito usada, especialmente pelas crianças e jovens.

O rio Tocantins, que margeia cidade e divide o Maranhão do Tocantins, estava bem alto.
De carona em ônibus de longo percurso, a rodovia cruzou a região da Chapada das Mesas. Morros chapados apareceram em ambos os lados, esculpidos pela natureza em formatos e tamanhos peculiares. Desci na entrada do caminho de terra.
A trilha à cachoeira da Pedra Caída, somente com guias e, em área particular, pagando ingressos. Caminhada pelas águas do estreito leito do riacho através da garganta formada de altos paredões de rocha, parcialmente cobertos de samambaias, sempre acompanhados de pequenos fios de água que respingavam de todos os lados. A garganta tornou-se ainda mais estreita. A água ficou pela cintura. Finalmente atingimos o salão arredondado e escuro, com pequena abertura acima da qual vinha a queda d’água, de fora para dentro.
Novamente carona, de volta a Carolina.
A balsa cruzou o rio Tocantins até a cidadezinha de Filadélfia, já no estado do Tocantins. Apenas bares, pessoas mal encaradas, a longa rua que se transformava em estrada mais adiante. Matei minha sede e voltei ao Maranhão.
A cidade acordava e se alegrava à noite. As ruas e calçadas ficavam repletas. O colírio ficava por conta das atraentes caboclinhas desfilando levemente nas bicicletas, para lá e para cá. Comi sob as árvores da praça principal de Carolina, em meio à agitação noturna da cidade e ao visual dos caminhantes e ciclistas. Fora os televisores ligados, matracando dos quiosques qualquer lixo para as pessoas se desinformarem, o que mais estragava aquele ambiente bucólico eram os carros que estacionavam, abriam os porta-malas, recheados de potentes caixas de som, e vomitavam os últimos sucessos no máximo volume.
De ônibus às duas cachoeiras do rio Itapecuru. Ficavam quase lado a lado e, no grande lago formado, cabia um banho refrescante. No local muito desfigurado, com estacionamento, pousada, bar, restaurante com mesas fixas na beira da água, valeu a saborosa galinha ao molho pardo.
O adolescente que vigiava a pousada à noite mudara com a família para Carolina devido à violência, assaltos e assassinatos da cidade natal, Araguaína, no Tocantins. E afirmou que a situação se agravou após a criação do estado do Tocantins em 1989.
Havia opção de ônibus para São Luis, mais barata e mais rápida, porém exposta aos assaltos nas estradas, sobretudo entre Imperatriz e Açailândia. O funcionário da empresa garantiu que dois carros com homens armados escoltariam o ônibus, na frente e atrás. E que, na semana anterior, numa tentativa de assalto ao ônibus, o segurança armado foi obrigado a atirar. Mas me tranquilizou:
“tudo bem, o tiro só pegou na cabeça de um e os outros fugiram...”.
Comprei passagem na bilheteria da empresa ao lado que passaria por rodovias menos trafegadas. E sem assaltos.

Três técnicos da Fundação Nacional de Saúde partiam ao Rio de Janeiro para combater a epidemia de dengue junto à grande força tarefa que envolvia, além do Maranhão, mais cinco estados. Segundo os técnicos, a situação era muito pior do que o divulgado, pois as autoridades fluminenses temiam prejuízos ao turismo durante o carnaval carioca. E o “miserável” nordeste compunha os mutirões de auxílio ao estado do “rico” sudeste do Brasil.
Houve troca de ônibus em Balsas. Anoiteceu. A temperatura interna do supérfluo ar condicionado, digna de frigoríficos, e as televisões internas, vomitando os lixos estadunidenses de sempre, incomodaram.
O ônibus entrou no terminal rodoviário da capital maranhense no meio da manhã.
O centro histórico de São Luís, no bairro de Praia Grande, encontrava-se bastante heterogêneo na conservação. A melhor parte, nos arredores do chamado projeto Reviver, exibia casarões restaurados, bares e restaurantes, cineclube, praça de eventos culturais, lojas com produtos regionais. Perto, no entanto, imensos sobrados caíam aos pedaços, em verdadeiras ruínas. Em alguns havia a placa de interditado, outros em processo de restauração, os demais abandonados ou ocupados por miseráveis sem teto. Mas sentia enorme prazer em caminhar por aquelas ruas seculares, ladeiras, becos, escadarias, tendo o mar da baía de São Marcos sempre ao lado. À noite, a iluminação amarelada deixava tudo ainda mais charmoso.
No sábado anterior ao carnaval, as ruas da Praia Grande estavam tomadas por blocos, gritarias, talco, farinha e espuma líquida. A maioria caía na dança. Cantavam, se embebedavam, balançavam o esqueleto, espontaneamente, sem brigas ou confusões.
Aproveitei o dia na distante praia de Araçagi, ainda limpa e preservada. O ônibus percorreu vinte quilômetros de grandes avenidas por dentro da ilha. Bairros miseráveis, ausência de saneamento básico, abandono, carnes à venda penduradas ao sol e às moscas. Desci e caminhei por estrada de terra entre manguezais e milhares de mutucas que atacavam sem piedade. Bastava se afastar dezenas de metros da zona dos bares, onde a maioria se concentrava, e Araçagi virava praia deserta. Comprida e com mar bravo, escandalizava pela livre circulação de veículos pela areia. No trecho mais deserto, cresciam as dunas, frente a vilarejos de pescadores, manguezais ricos em caranguejos.
O ponto forte da cidade, porém, era mesmo o centro histórico, a marcante cultura, os discretos e simpáticos moradores. O projeto Reviver na Praia Grande apresentava bom movimento à noite. Bebi caipirinha numa das mesas ao ar livre. Na mesa mais adiante, sob outra árvore, uma cafuza de beleza exótica.
continua...

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