quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O Rio Negro - Amazonas (parte 1/2)

Queria repetir um daqueles percursos de barco pelos rios da Amazônia. Iniciando em Manaus, e em viagem curta dessa vez, lá fui eu em setembro.
Voo direto e tranquilo, a não ser pelo judeu fundamentalista que se sentou ao meu lado, fedendo igual a banheiro público, daqueles de beira de estrada e que ficam dias sem limpeza. E ainda grunhia sons ininteligíveis de quando em vez.
Peguei ônibus urbano no aeroporto de Manaus para evitar a facada dos taxistas. Hospedei-me em quarto de hotel cuja parede da cabeceira da cama queimava devido ao sol implacável.
A estação hidroviária, criminosamente privatizada, continuava vazia e vendendo passagens absurdamente mais caras que os vendedores e agentes avulsos postados do lado de fora que, guardando precauções mínimas, eram de confiança. Caminhei até o cais de São Raimundo, de onde saem linhas pelo rio Negro. Fechei a ida e a volta no barco para São Gabriel da Cachoeira para daí a três dias.
Depois de caminhar que nem camelo sob o sol de setembro, eu bebi dois litros de água e me entreguei à preguiça merecida, já que acabara de acertar mais da metade daquela viagem.
O uniforme dos garçons em restaurante próximo torturava só de olhar. O local era aberto e o calor torrava de dia e de noite. Os coitados vestiam camisa de mangas longas e abotoadas, acrescidas de colete preto, da mesma cor da calça comprida. A gravata borboleta apertava bem o colarinho. Combinava perfeitamente com o clima ameno e temperado da cidade. Seguidamente os garçons enxugavam o suor que escorria pela testa, nuca, pescoço. Parabéns, novamente, a essa linha de hotelaria tão adequada ao Brasil tropical e equatorial.

Subi na lancha para Manacapuru, pelo rio Solimões, com a intenção de retornar por estrada, pela balsa no rio Negro. Enquanto aguardava a partida perambulei pela fascinante Escadaria, reparando na programação dos barcos para as mais variadas vilas e cidades.
A lancha partiu na direção das águas sem fim e de tanta largura do Solimões. Antes cortou caminho pelo paraná quase seco. O piloto até pediu aos passageiros que se aglomerassem na proa, tentando evitar possíveis encalhes. Era o auge da estação seca. Provavelmente aquela seria a última semana possível naquele corte. Depois, pelo menos antes das próximas cheias, somente via a grande volta pela foz do Negro. Mas o Solimões, mesmo na baixa, impressionava pela imensidão de água.
Desembarquei horas depois em Manacapuru, cidade com restinhos de construções antigas ao redor do morro mais alto, onde se erguia a igreja matriz. O calor era de deixar qualquer um torrado. Pouco andei pelo centro comercial e ruas próximas ao barranco do rio. Comi alguma coisa em lanchonete, acompanhado de três copos de suco de cupuaçu, e peguei moto-táxi à estação rodoviária. Embarquei em ônibus que ia para Manaus. A fila das balsas do rio Negro era imensa e nenhuma delas se avistava no horizonte. Desci do ônibus. Entrei em lancha que me largou no flutuante da estação hidroviária.
Na noite de quarta-feira, a apresentação musical com diversos intérpretes, acompanhados de músicos de samba e choro, levantou o iluminado largo de São Sebastião, invariavelmente prestigiado por manauaras e turistas.
Ainda mais que nos dias anteriores, amanheceu com névoa seca, agravada pelas fumaças das queimadas transportadas pelo vento. As paisagens perdiam a nitidez, sobretudo ao fundo, no horizonte.
Fui ao distrito industrial de Manaus, um amontoado de transnacionais do ramo eletroeletrônico, uma ao lado da outra, intercaladas por extensos depósitos de containers sobrepostos, formando cenário incômodo do progresso devastador.

Subi em lancha até Careiro da Várzea, passando pelo encontro das águas do Negro com o Amazonas. Porta de entrada da abandonada e interrompida BR-319, Careiro da Várzea abrigava casas de madeira suspensas do terreno alagadiço, e interligadas por passarelas também de madeira. A visita valeu pelo labirinto de passarelas, casebres simples, cenas do cotidiano de cidade ribeirinha. Na volta as águas do Amazonas e do Negro se encresparam, formando pequenas ondas. Os passageiros da lancha sentados nas beiradas se molharam com as águas das marolas.
Peguei ônibus urbano percorrendo a região de Educandos, nos barrancos da margem do rio Negro, talvez o único bairro na cidade assumidamente ribeirinho, sem a vergonha que a maioria de Manaus sente pelo deslumbrante e desprezado rio Negro.
À noite, depois de saborear caranguejada com arroz e farinha em barraca ao ar livre da praça do Congresso, relaxei pelo entorno do teatro Amazonas, com pouca gente, a iluminação apropriada, o silêncio gostoso, a música baixa entre burburinhos do bar do Armando. A lua quarto crescente e a brisa morna disfarçavam a sensação sufocante do calor manauara.
Peguei a chave com a tripulante e larguei a mochila na suíte do barco. O decrépito cais de São Raimundo se agitava entre cargas despejadas dos caminhões, carregadores, passageiros, balsas, lanchas, barcos pequenos, médios e grandes. O rio baixo alargava a zona da areia, obrigando as escavadeiras ajeitarem constantemente o declive, evitando encalhes dos veículos. Poluição sonora, muita fumaça dos motores funcionando permanentemente. A bela luz incidia sobre aquela cena de fim de mundo. E o rio Negro fluía preguiçosamente.  
Enrolei e comi na cidade antes de voltar ao cais, a pé, sob o calor impossível da Manaus antiamazônica, antifloresta, antissombra, antiindígena, mas pró-concreto, pró-asfalto. O retorno no meio da tarde foi de matar qualquer cidadão. Estava tão quente que cheguei até a me arrepiar. Parecia que eu ia derreter e escoar pelo ralo.

A balsa de carga, ao lado do barco, levava caixas e mais caixas de ar condicionado. Claro, o sistema derruba a floresta, impermeabiliza tudo com concreto e asfalto, não planta árvores, aí a população tem que comprar e pagar pelo consumo do ar condicionado. Neste sistema de cabeça para baixo, é o ser humano que está a serviço da tecnologia e não o contrário.
Depois da partida, o barco passou sob as obras quase prontas da gigantesca ponte sobre o Negro. O monstrengo abrigava trabalhadores vinte e quatro horas por dia na intenção de acelerar a construção. Logo saiu a tradicional sopa da primeira noite de viagem. Saboreei o caldo substancioso e bem temperado. A lua brilhava bem acima, indiferente à massa de nuvens a leste.
Amanheceu nos canais entre ilhas alongadas e cobertas pela floresta.
A tripulação grelhou curimatãs na área de lazer antes de chamarem para o almoço. Os passageiros bons de conversa garantiam a integração social, ajudando a passar, e bem, o tempo. O dominó reinava no bar do piso de Lazer, ao lado das caixas de som, em volume suportável e baseado não somente nos padrões do lixo comercial. Ouvimos até música brasileira de qualidade.
O funcionário da empresa telefônica estadual, demitido após a privatização do sistema Telebrás, vendido a preço de banana durante os governos neoliberais de Fernando Henrique Cardoso (PSDB/DEM), oferecia visão progressista da região e do país, defendendo as culturas dos povos originários, como Tukano, Baré, Yanomami, aí incluídas línguas e costumes.
Choveu fraco durante parte da tarde, refrescando o ar daí em diante. A paisagem do Negro, em meio aos labirintos de ilhas, ou quando a largura das águas impunha respeito, encantava sempre, com ou sem sol.
Dois missionários salesianos, ambos arrogantes e antipáticos, se consideravam acima da plebe que viajava no barco. Não falaram com ninguém durante o percurso. Desembarcaram em Barcelos para logo penetrarem na construção religiosa do barranco do rio. Certamente não fariam falta entre os passageiros. Barcelos parecia arrumada a apresentável como na minha visita de sete anos antes.
Entramos no miolo do labirinto de ilhas do arquipélago de Mariuá, o nome original da cidade de Barcelos. As águas do Negro, agora a montante da boca do rio Branco, se exibiam ainda mais negras e fascinantes.  Casas e comunidades ribeirinhas raramente se avistavam. As águas calmas e espelhadas refletiam o céu e as nuvens na imensidão dos trechos mais largos.
Acabara de me vestir depois do banho frio. Só ouvi os gritos:
“pega a voadeira, pega a voadeira”.
Foi o tempo de sair da cabine e assistir a dois tripulantes voltando com o porco do mato já morto a bordo da canoa. Limparam, retiraram a pele, desmontaram geral com facas afiadas na pedra ao lado do piso de Lazer. Segundo o passageiro  Tukano ao meu lado, a carne de porco selvagem era leve e sem excessos de gordura, pois se alimentava naturalmente e era ativo fisicamente, diferentemente dos porcos de criação, sedentários e alimentados com ração.

Raios e relâmpagos se descarregavam a sudeste. E mais uma noite com churrasco no piso de Lazer, na base de peixe, farinha, pimenta e, daquela vez, também costela de porco do mato. Muitos nem sequer desceram para o jantar, permanecendo nas proximidades da grelha e do bar.
Amanheceu nublado, com leves aberturas de sol. À medida que o barco subia, o rio ficava mais cheio e as poucas praias, branquíssimas em contato com o negro das águas e o verde da floresta, exibiam pequenas faixas de areia.
Parada em Santa Isabel do Rio Negro pela manhã para desembarque de significativa quantidade de carga em município que nada produz. A cidade escancarava, novamente, a presença dos salesianos, reinando absolutos na paisagem e vida local. Parece que nada mudou desde a invasão dos missionários europeus à Amazônia séculos antes. O ópio religioso predominava e se mantinha impune. Carros de som estacionavam perto do barco e vomitavam propaganda dos candidatos às eleições.
A partir de Santa Isabel do Rio Negro, despontaram muitas pedras, lajedos e rochas no curso ou nas margens do rio que, em maior declive, guardava águas ligeiramente agitadas. Três serrotes apareceram no horizonte, a oeste, revelando mudança gradual do relevo. Cresciam os cuidados na navegação em águas e leito mais perigosos. Nas margens, comunidades habitadas por caboclos e populações indígenas, estas oficialmente protegidas pelas tradicionais placas da FUNAI.
Solto e instrutivo debate com o paraense vendedor de confecções radicado em Manaus, o maranhense ex-garimpeiro, o ex-funcionário da empresa telefônica, sobre os rumos da Amazônia. Todos eles recaíam na velha ladainha de atrair o desenvolvimento, crescimento econômico, abrir estradas, incrementar o comércio, indignação com as barreiras ambientais, entre outros chavões gastos lançados pela classe dominante e propagados para a população. Nenhuma referência às insubstituíveis relações harmônicas entre seres humanos e a natureza.
Ao entardecer nos deparamos com espessa, escura e ameaçadora camada de nuvens, ventos fortes, anunciando tempestades. Inicialmente o comandante optou em atracar na margem e esperar o pior passar. Mas mudou de idéia, pois o núcleo da instabilidade contornou à nossa direita, sobrando apenas chuvas fracas e pouco vento sobre a embarcação. A chuva e a leve queda de temperatura lançaram os passageiros de volta às redes após o jantar.
Parada providencial à noite para evitar, no escuro, os trechos cheios de pedras. A tripulação atracou o barco na margem do rio, desligando os motores, e religados somente ao amanhecer.
Amanheceu céu limpo com a serra da Bela Adormecida se despontando bem à frente, nos acompanhando sempre de vários ângulos. Vilarejos minúsculos, casebres de palha no meio da floresta imponente, algumas praias ainda tímidas, lajedos e blocos rochosos esparsos.
Doei o livro lido, Malu de Bicicleta, de Marcelo Rubens Paiva, ao passageiro com quem mais conversei. Fiquei na espera da chegada, pela manhã, no porto improvisado e distante da cidade de São Gabriel da Cachoeira.
Acabei me hospedando no mesmo hotel de onze anos antes quando da expedição ao Pico da Neblina. O diferencial do quarto ficou por conta da geladeira. Não um frigobar, geladeira mesmo, daquelas de tamanho residencial, de trezentos e tantos litros.
Eu e o dono do hotel batemos papos antes de eu entrar para fugir do sol do meio da tarde. Admirador das ações sociais do governo Lula, ele me descreveu comício que o presidente fizera no ginásio de esportes da cidade no ano anterior, quando da visita referente à eletrificação rural e à instalação de vasos sanitários nas comunidades que ainda evacuavam nos rios, igarapés ou em buracos no chão. No meio da fala inflamada, Lula enfatizava, em alto e bom tom:
“todo brasileiro tem o direito de cagar, de cagar direito, de cagar com a luz acesa”.
E o público presente foi ao delírio. O colega ressaltava, com razão, que Lula, independente do tema, consegue se comunicar com o povo usando a língua do próprio povo, sem apelar para o palavreado vazio, pomposo e demagógico das elites.
continua...

6 comentários:

  1. Tempestades são anunciadas. Torrenciais chuvas nunca chegam de repente, tipo surtos inesperados. As informantes árvores parecem pés de chicotes, batendo aleatoriamente em tudo que se encontra ao alcance máximo dos braços que os seguram totalmente dominadas por uma estranha dança.
    Árvores são seres invocadores de tempestades. Seres com os pés fixos e membros superiores inquietos, em voluptuosos movimentos provocados por excomungais sopros de uma garganta secreta.

    O céu se turva, como primeiro prenúncio de invasão sobre a terra. O vento se entremeia na mata, inspeciona a pele das árvores, infiltra-se por entre os vãos dos galhos e despenteia a cabeleira da floresta. Varre a terra, sopra as folhas e emplaca uivos avisando sua fatal invasão de força avassaladora.

    Longe de lamúrias, revira a calmaria do mundo camponês. Sufoca a paz harmoniosa que impera entre a verticalidade das árvores que sustentam a variedade de verdes rendas, formadoras do céu do chão da mata.

    A fragilidade testada pelo abusivo poder da lambeção gananciosa do vento é uma prova, um atestado da soberania do forte sobre o fraco.

    Trovões são insultos. O céu troveja para sacudir dormências e promover o despertar de todos os seres para o comprometimento e respeito pela dignidade da mãe-natureza.

    Tempestade é lindo fenômeno, tangível eco que fere a leveza de tardes azuis e quando em escura madrugada, intensifica o valor do aconchego humano. Realça valores que se fundem no ontem e no hoje, acumulando intimidade entre o passado e o presente.

    Temporal provoca a harmonia e traz à tona pontos de interrogação para as reticências covardemente colocadas em tantos episódios enterrados vivos no profundo poço onde macera covardia.

    Tempestades acumulam cuidados, sabedorias e incontidos desejos do regresso da serenidade.

    ResponderExcluir
  2. Oi Vanda, obrigado pelo visita e pelas belas palavras.
    Maravilha! Somado à foto e aos relatos que escrevi aqui no blog, seu texto diz um pouco de tudo sobre esse fenômeno climático.
    Comente sempre!

    ResponderExcluir
  3. Recomendo ao autor do blog a leitura dos livros de Milton Hatoum, Márcio Souza e os poemas de Thiago de Melo, para que possas vivenciar a Amazônia tanto pelas viagens quanto pela literatura.
    Att, Jafé Praia

    ResponderExcluir
  4. Olá Jafé!
    Obrigado pela visita e sugestões de leitura. Aprecio demais esses autores e os leio sempre que possível.
    O que achou de minhas impressões e reflexões sobre minha viagem ao vale do rio Negro?
    Comente sempre...
    Abraços!

    ResponderExcluir
  5. A beleza das águas do Rio Negro em contraste com céu azul (ou cinza em virtude dos temporais), verde das florestas, o branco das areias formam um cenário de beleza imponente. Na minha opinião, é o rio mais bonito do mundo!
    Att, Jafé Praia

    ResponderExcluir
  6. Oi Jafé,
    Valeu pela atenção e comentários.
    O rio Negro realmente é escandalosamente lindo. Os contrastes formados com o escuro das águas encantam até não poder mais.
    Comente sempre!
    Abraços.

    ResponderExcluir