quarta-feira, 10 de novembro de 2010

do Amazonas a Sergipe (parte 1/7)

Em agosto iniciei em Manaus mais uma viagem pelos interiores do Brasil.
O ônibus urbano no metrô Tatuapé me deixou no aeroporto de Cumbica em São Paulo. Apenas a barra de cereais e o copo de suco em voo de quatro horas, pago com milhas acumuladas. Devorei os artigos da revista Caros Amigos. Da janela vi a floresta amazônica, muitas queimadas, sobretudo no norte do Mato Grosso, o rio Solimões, o rio Negro com Manaus na margem esquerda. A fim de evitar o assalto de mais de quarenta reais de táxi no aeroporto, esperei pelo ônibus urbano que me levou ao centro de Manaus por um real e oitenta centavos.
Entrei no hotel de sempre e bem localizado. Jantei em restaurante simples, especializado em peixadas amazônicas. A caipirinha, imperdoavelmente coada, desanimou, mas a caldeirada de tucunaré, farta e saborosa, foi aprovada.
Pela manhã, caminhei à margem do rio Negro. O sol e calor sufocantes não tiravam o brilho e o encanto do porto de Manaus, a Escadaria, talvez a única região da cidade que realmente me empolgava. Lanchei tapioca com tucumã e queijo de coalho, tigela de açaí com farinha granulada.
Vinte estudantes italianos, pós-adolescentes, se hospedavam no hotel com o suposto objetivo de praticar ecologia entre as comunidades tradicionais da Amazônia. Padres italianos e outros radicados no Brasil os acompanhariam nas incursões pela floresta e territórios indígenas. Se reuniam sempre comandados pelos padres, para cantar e rezar.
A Companhia Estadual de Água e Saneamento do Amazonas fora privatizada e entregue a transnacional francesa Suez. A mesma Suez que, após tomar as águas da Bolívia, causou sucessivas manifestações populares, desencadeando a deportação e a deposição do fantoche presidente boliviano que a protegia. Lá como cá, os preços do bem público subiram, a qualidade dos serviços caiu, parcela significativa da população pobre teve a água arbitrariamente cortada pela transnacional. Agora só faltava os amazonenses seguirem o belo exemplo do povo boliviano, expulsar a transnacional, reaver o patrimônio público e colocá-lo a serviço da população.

Perambulei sem ambições pelo centro da cidade e depois me sentei sob a sombra no largo de São Sebastião, finalmente todo revitalizado. A vendedora de planos de saúde, química formada, vivia de bicos enquanto não se alocava na própria área, na qual obtivera experiência nos campos petrolíferos da Petrobrás em Urucu. O largo atraía centenas de moradores e turistas durante as noites. Filmes, apresentações musicais, comes e bebes, tudo ao ar livre, sem lotações ou tumultos. A iluminação amarelada realçava o charme do entorno do teatro Amazonas. A cidade aproveitava o espaço público e democrático.
O barco partiu com destino a Tefé com três horas de atraso. A tempestade que se avizinhava no rio Solimões só ameaçou, passando ao lado, com muito vento. Os passageiros aproveitaram a leve queda de temperatura e mergulharam nas redes. Tudo caiu em silêncio profundo. Ouvia-se apenas o som relaxante das águas na proa do barco. O jantar foi servido no final da tarde. Matei a fome que começava a apertar. Após o jantar os passageiros novamente se recolheram às redes. Um tripulante tentava, em vão, acertar a posição da antena parabólica no piso superior. Bastava o leme do barco virar para os chuviscos voltarem com tudo.
O dia amanheceu calmo, com as águas espelhadas do Solimões. Na subida dos rios, os barcos se aproximavam das margens a fim de evitar as zonas de maior correnteza, permitindo imagens privilegiadas da floresta, canoas de pesca, cabanas isoladas, raras e minúsculas comunidades erguidas no alto dos barrancos do rio. Surgiam conversas leves e estimulantes com os colegas de bordo, vindos dos quatro cantos. Passageiros, tripulação, incluindo o comandante do barco, lançavam lixo diretamente nas águas do rio. Impunemente. Eu e raros passageiros utilizávamos as lixeiras espalhadas nos três pisos da embarcação.
Depois da parada matinal em Codajás e do almoço servido antes do meio-dia, todos se renderem à preguiça e leves cochilos. Nos trechos sem ilhas, o Solimões exibia toda a largura e a margem mais distante não passava de mancha no horizonte, pequena e difusa. O nível das águas barrentas baixava e expunha barrancos destruídos pela correnteza. Arbustos, folhas, troncos, árvores inteiras despencavam para serem carregadas pelas águas. Crianças se banhavam nas águas do rio próximas às pequenas comunidades ribeirinhas. Não havia uma das paredes da escola de primeiro grau situada em comunidade abaixo de Coari. E era justamente a parede de frente para o rio. Somente seis estudantes assistiam à aula, em carteiras precárias, com direito a ventilação natural e à vista do Solimões.
Mais desembarque de carga e passageiros na parada em Coari no começo da noite.
Era enorme e entusiasmada a simpatia da maioria dos passageiros pelo presidente Lula do PT. Afirmavam que ele fizera muito pelo Amazonas e pelos amazonenses e tinham certeza da reeleição. No outro extremo, o senador e candidato a governador do Amazonas pelo PSDB Artur Virgílio, mais conhecido como Artur Neto, era execrado pelo povo amazonense. Assim como Geraldo Alckmin e José Serra, também do PSDB, os quais não queriam ver nem mortos. Alguns passageiros e tripulantes também mostravam simpatia pela candidatura de Heloísa Helena do PSOL.
O barco atracou no areal de Tefé no meio do dia. Imediatamente desembarquei, troquei de balsa flutuante e subi no barco pequeno, com apenas dois níveis. Ainda estava vazio e escolhi bom lugar para atar a rede. Saí nas ruas de Tefé para almoçar. A cidade continuava grande, feia, barulhenta, suja, cheia de urubus. As motos voavam pelas ruas, cruzavam as esquinas a toda velocidade, ignoravam os pedestres. Um idoso foi atropelado por um motoqueiro bem defronte ao restaurante em que eu almoçava. A maior cidade do Solimões completava dois meses sem voos. A Infraero interditara o aeroporto pelo recorrente motivo de acúmulo de urubus nas proximidades da pista. Acidentes não faltaram em vários anos. Tefé estava isolada pelas vias aéreas. Praias apareciam acompanhadas de barracas de bebidas e som alto na beira da água do lago que margeia a cidade.
O segundo barco partiu cheio de gente simpática e boa de papo rumo a Maraã. Cortou caminho por furos estreitos nas primeiras horas da viagem. A seca avançava, as águas baixavam e faltou pouco para encalharmos. Anoiteceu e a maioria se recolheu às redes depois do jantar. Tirei bons cochilos, apesar do vento frio. O barco parou muitas vezes durante a noite nas comunidades, para embarque e desembarque.

O baixo rio Japurá mostrava-se largo e caudaloso. Rio acima, o barco cortava sucessivamente lagos imensos. A floresta erguia-se em ambas a margens. Pássaros de diversos tipos, formatos, tamanhos e cores voavam sobre as copas das árvores ou mergulhavam no rio à procura de alimentos. Os barrancos do rio expunham raízes das grandes árvores, as quais, caídas nas margens, indicavam a permanente acomodação do vale do rio.
O barco atracou no porto flutuante de Maraã no início da tarde seguinte. Subi em moto-táxi e voei para talvez o único hotel aceitável da cidade. Os sete quartos disponíveis estavam ocupados. Fui à casa da enfermeira com quem conversara durante a viagem, mas se passava por reformas, se cobrindo de areia e pó. Retornei ao porto e consultei o dono do barco se poderia dormir no convés aquela noite. Ele alertou para o ataque incessante de carapanãs durante a noite em região com surto de malária. A esposa dele me indicou hospedaria perto da igreja matriz. A entrada do estabelecimento desanimava pela má aparência. Depois de escalar a escada íngreme, estreita e apertada, atingi os quartos de cima, de madeira, sujos, com camas deformadas, cobertas por lençóis encardidos, ventilador velho no chão. O minúsculo banheiro coletivo fedia e a descarga não funcionava. As frestas das ripas de madeira nas paredes permitiam a entrada de bichos em geral. O andar superior talvez inibisse ratos e baratas, mas não bichos menores e insetos. Mas sabia que não encontraria nada melhor por aquele preço irrisório. Só me restava encarar o buraco.     
Circulei levemente pelas ruas, ao redor da igreja, próximas à margem do rio, à hospedaria. Nenhuma rua, construção, calçada, praça, me atraía. Logo de saída apareceu um pedinte alegando isso e aquilo para ele, mulher e filhos. E eu virara a atração da cidade. Todos me olhavam perplexos, paravam de conversar, tentando entender o que um tipo como eu fazia por aquelas bandas.
No quarto ao lado da hospedaria havia um casal e dois filhos. Pelas frestas das ripas de madeira do quarto eu ouvia e via parte do quarto deles. E, obviamente, também era visto. O marido se apresentou como funcionário dos Correios. Afirmou ter outro imóvel, mas preferia utilizar aquele quarto para cozinhar. Cozinhar com fogareiro improvisado em quarto e construção toda de madeira. Temia não encontrar a hospedaria após as caminhadas pela cidade, mas apenas os escombros torrados. Ele me entupia de perguntas, queria saber de onde eu vinha, para onde eu ia, no que trabalhava, quantos dias ficaria.
Encarei o cubículo do banheiro coletivo. Saía pouca água do chuveiro, não havia onde pendurar roupas. Latão de água e a caneca indicavam que a água encanada não era adotada pelos hóspedes. Faltou energia na cidade, voltando somente bem mais tarde.

Originada a partir das comunidades de castanhais, a pequena Maraã se erguia no alto de barranco na margem esquerda do rio Japurá. Traços indígenas profundos marcavam os rostos, tons de pele mais escuros, cabelos da maioria dos moradores. A prefeitura construíra praça de alimentação na cidade, onde se vendiam, durante as noites, lanches, grelhados, salgados, doces, bebidas. Cada espaço ligava o próprio aparelho sonoro, criando poluição sonora indescritível. As bebidas alcoólicas lideravam entre os itens oferecidos. O movimento daquela noite de sábado prometia avançar pela madrugada.
Retornei cedo ao barraco de madeira. Só queria dormir bastante e profundamente. Evitei os lençóis sujos e ásperos. E também não queria pegar malária. Vesti calça comprida, camiseta de mangas longas, meias. Aproximei o ventilador ajustado na menor velocidade e deitei sobre a cama, na verdade bancada deformada pelas espumas velhas sobre as tiras de madeira.  O sono acumulado ajudou e desmaiei na cama dura. Nada soube de insetos pelo quarto. E não sei se acordaria a tempo no caso dos vizinhos incendiarem a hospedaria.
O restaurante em frente, de propriedade de um casal colombiano, se tornou o meu ponto de refeições na cidade. Canções colombianas com letras simples e sem apelações, mas de ritmos contagiantes, temperavam o ambiente básico e limpo. No café da manhã devorei três ovos fritos, três pães médios, um deles recheado de presunto, copo de suco artificial, caneca de café com leite. Tudo pela fortuna de dois reais.
Desde o início da manhã, rojões estouravam pelas ruas da cidade. Grupos de moradores e de moto-táxis seguiam o candidato a deputado estadual em pequena passeata. O sujeito cumprimentava os passantes, abraçava, adulava, prometia, sorria, concordava, conchavava, cochichava, prometia mais. Muitos idosos, homens e mulheres, o seguiam de perto, implorando migalhas. O nobre candidato despediu-se dos seguidores no topo da escadaria do porto da cidade. Desceu os degraus rumo às águas do rio Japurá, virou-se, acenou mais vezes, abraçou os cabos eleitorais e embarcou em hidroavião, especialmente fretado para a campanha. As portas do hidroavião se fecharam. A aeronave deslizou nas águas do rio e voou, para longe de Maraã. De queixos caídos, os últimos integrantes da passeata ainda acenavam para o hidroavião na esperança de dias melhores após as eleições.
Ao meu lado, assistindo àquela cena, o vigia da fábrica de gelo sussurrava que o tal candidato, depois de tocar e abraçar o povo, iria se desinfetar com álcool, esquecendo assim tudo o que prometera aos moradores carentes e abandonados, não só de Maraã, mas de todas as cidades por onde passasse. E assim seguia, com pequenas nuances e diferenças, a carruagem da suposta democracia representativa por todo o Brasil.
O abandono da região, sobretudo na assistência médica, predominou entre os temas das conversas com outros moradores. Maraã ficava a quinze horas de descida de barco de Tefé, a qual, sem voos, a mais de trinta e seis horas de descida de barco de Manaus. Em casos de emergência, fato comum em região infestada pela malária e demais doenças tropicais, nem sempre corretamente diagnosticadas, ao paciente restaria demorados deslocamentos fluviais. A maioria morria no meio do caminho. Não faltaram histórias reais de casos escabrosos de parentes e conhecidos. A solução apontada pelos moradores seria várias unidades móveis de saúde, inteiramente equipadas, em circulação por todo o estado, subindo e descendo os rios.
continua...

2 comentários:

  1. muito bom os relatos dessa 1ª parte ! valeu ! fernandoo goncalves, de bom jesus do amparo-mg ferghuma@yahoo.com.br

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  2. Grande Fernando, obrigado pelo comentário.
    Na parte amazônica dessa longa viagem, o ponto alto foi o rio Japurá e a cidade de Maraã. Não houve conforto, mais muita emoção, observação e aprendizado.
    Abraços!

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