quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Uzbequistão e Turquia (parte 6/8)



...continuação
Na Kapadokia (Capadócia), para além da cidade de Nevsehir, estava a vila de Goreme, um verdadeiro museu a céu aberto. Grutas de moradias, igrejas, comércios, cavados nas rochas vulcânicas, se aglomeravam no alto da colina, muitas delas guardando afrescos pintados com sangue de animais, representando figuras de São Jorge entre outros santos. As cavernas dos primeiros séculos depois de Cristo foram construídas pelos cristãos com o objetivo de se protegerem das perseguições do Império Romano, então ainda não convertido ao cristianismo como religião oficial.
Ao redor da colina, vales e mais vales com cavernas e grutas cavadas nas escarpas vulcânicas, abandonadas com o tempo e depois proibidas como moradias pelo governo republicano turco.
A vila ao redor da fortaleza de Uçhisar, reservando mais chaminés, grutas, cavernas, nas paredes vulcânicas, contava com centrinho com lojas vendendo produtos típicos da região.
As Chaminés das Fadas em Urgup permitiu deliciosas caminhadas sem rumo pelas trilhas sinuosas e irregulares por entre formações rochosas, cônicas e cilíndricas, contendo grutas e cavernas outrora habitadas. As formas alongadas e as coberturas naturais lembrando chapeletas nos impeliram a rebatizar o local para “Parque das Circuncisões”, em alusão à tradição muçulmana da circuncisão entre os meninos pré-adolescentes da Turquia. A cirurgia transformava os órgãos genitais masculinos do formato salsicha para o formato cogumelo, conforme expressões usadas pela própria guia que ficava bastante constrangida ao mencioná-las.
Antes de assistir à dança dos dervixes, um membro da seita enfatizou que não se tratava de apresentação artística, mas de oração, e que durante o ritual era proibido fotografar, aplaudir ou conversar. Somente após o encerramento, dois dos cinco integrantes rodopiariam para serem fotografados. Agradou pelo espetáculo visual, religioso ou não, a despeito da monotonia da evolução e também do cheiro azedo das roupas usadas pelos dervixes que giravam a centímetros da plateia, composta exclusivamente de turistas.
 Embora a maioria do povo turco seja muçulmana, o Estado é laico na Turquia. A religião é separada do Estado e, portanto, não institucional. Cada um professa as próprias crenças, ou nenhuma, desde que não se sobreponha às leis seculares da república, nem assedie os que pensam diferentemente. Da mesma maneira que o laico Uzbequistão. E ao contrário das teocracias como a Arábia Saudita e demais emirados da península arábica, onde o Estado islâmico impõe as leis do Corão ou, no mais das vezes, inventa leis atribuídas ao Corão.
Amanheceu quente sob o céu azul com o sol brilhando forte desde cedo.
A Kapadokia (Capadócia) ficava para trás. À exceção das montanhas avistadas pela manhã, o relevo se manteve aplainado entre colinas abauladas, alguma terra irrigada e aproveitada para o plantio de cereais, especialmente trigo. A rodovia margeou o lado Tuz, de águas salgadas e em acelerado processo de redução em virtude das poucas chuvas. Dali se extraía o sal e a área secava completamente no auge do verão.
Almocei pide, pão pita coberto de carnes, verduras e queijo, em parada improvisada na beira da estrada e sem maiores alternativas de alimentação.
No começo da tarde surgiram as modernas avenidas da cidade de Ankara (Ancara), ladeadas de altos e modernos edifícios envidraçados. No mausoléu do Ataturk, o pai dos turcos, cujo nome era Mustafá Kermal, crianças e adolescentes, muitos com a bandeira turca nas mãos, cumpriam o ritual de adoração ao herói nacional da Turquia republicana.
Era noite avançada ao encerrar a exploração pela Anatólia ocidental e central e retornar a Istambul.
Subi tarde ao salão do café da manhã. Além de sobrevoar as águas do Estreito de Bósforo, principalmente atrás das embarcações, na busca de comida dos pescadores ou de quem lhes atirava pedaços de pão, as gaivotas também rondavam as coberturas dos hotéis atraídas pelos cafés da manhã. Vira e mexe se aproximavam dos janelões aguardando doações. Assim que o alimento era largado e as janelas se fechavam, colocavam o presente nos bicos e engoliam, voltando a olhar as janelas na esperança de mais comida.
Embarquei para o extremo leste da Turquia em voo que fluiu acima das nuvens. Nada se via abaixo, exceto o tapete branco acinzentado. Assim que o avião começou a descida, ultrapassando as nuvens mais espessas, deu-se o espetáculo. E surgiram as primeiras visões do sudeste da Turquia. E que visões! Muitas montanhas, todas cobertas de neve nas cristas e cumes. Mesmo sem o brilho do sol o panorama deslumbrava até não poder mais. Alguns vales alongados, pequenos lagos e, finalmente, o imenso lago Van, em cujo canto se localizava a cidade de Van, meu destino inicial.
Do lado externo do aeroporto, um homem aparentando meia idade, vestindo roupas surradas, de expressão cansada, desprovido de formalidades, se dirigiu a mim. Era o dono da empresa com o qual eu tinha fechado pela internet o aluguel de um veículo com motorista. Alegava esgotamento físico em razão de ter voltado aquele mesmo dia de percurso rodoviário ao Iraque. E me contou que duas semanas antes as temperaturas beiraram a 10 graus negativos e a região de Van se cobrira de neve.
Larguei as coisas no quarto do hotel, mal iluminado, apesar das cinco luminárias e da janela aberta que dava para uma parede cinzenta. A iluminação tênue, ao melhor estilo dos hoteizinhos dos interiores da Índia, não se restringia ao quarto. As áreas comuns do hotel, como corredores, entrada, recepção, também viviam na penumbra.
Saí pelas ruas do centro de Van, cidade que definitivamente não era bonita. Talvez jamais tivesse tido beleza, nem antes do terremoto que a sacudiu três anos antes, destruindo edifícios do centro e arredores. Mas compensava com povo discreto e acolhedor, além das paisagens naturais do entorno. Avistei a montanha nevada a oeste, outras acastanhadas ao norte. As calçadas lotavam de turcos, mas principalmente de curdos que compunham mais de 90% da população da cidade.
Vários homens caminhavam de braços dados, a dois, a três, às vezes até a quatro. Um deles caminhava com as mãos nos bolsos enquanto o outro enlaçava um dos braços do parceiro. Também se cumprimentavam com beijos em ambos as faces dos rostos, ao se encontrarem e ao se despedirem. Circulavam as muçulmanas praticantes, com mantos e roupas compridas de cores leves, ou as indiferentes, vestindo roupas ocidentalizadas. Vestindo roupas invariavelmente escuras, os homens se sentavam em banquinhos incrivelmente baixos e se serviam de chá preto nos copos transparentes sobre as mesinhas também incrivelmente baixas.
Jantei feito um sultão no restaurante em sobreloja da avenida principal de Van. Antes mesmo de eu escolher o prato no cardápio escrito somente em turco, os garçons, que também somente falavam e entendiam o turco ou o curdo, trouxeram uma cesta cheia de pães sem fermento, facílimos de cortar na longitudinal, mas difíceis de romperem na transversal, mais cinco tigelas contendo pasta avermelhada e picante, iogurte, tomates cortados e temperados, salada, pasta de grão-de-bico de sabor adocicado. E abriram uma garrafa de água mineral. Sem eu pedir absolutamente nada. Era o tradicional meze, onipresente nas mesas turcas. Escolhi no cardápio o Iskender Kebap, prato já experimentado em outros restaurantes e que ali veio muito bem servido. Me empanturrei de cada um daqueles itens, um mais saboroso que o outro. Ao encerrar o banquete, sobraram apenas pequenas lascas alongadas de pão. E novamente sem eu abrir a boca, assim que parei de comer, o garçom serviu chá preto, quente e quase transbordando naquele copo transparente e tipicamente turco. No final das contas, só cobraram o kebap que eu apontei no cardápio.
Dei uma volta no quarteirão, entupido de restaurantes, casas de chá, lojas de doces, lanchonetes, pontos de sopas. E dá-lhe cadeirinhas em volta das mesinhas cheias de turcos ou curdos tomando um chá atrás do outro, fumando um cigarro atrás do outro, muitos com os colares de contas nas mãos.
Os curdos possuem rostos maiores e arredondados, olhos e narizes grandes, os homens de bigodes enormes, normalmente de pele morena e cabelos escuros. Falam numa língua cujo tronco linguístico, indo-europeu, difere da língua turca, pertencente ao tronco uralo-altaico.
Naquele hotel até o salão do café da manhã era escuro. Entre as opções do bufê, sopa, vários tipos de azeitonas, queijos, pepino, tomate, ovo cozido com casca, ovo cozido descascado e temperado, iogurte, frios, doces em calda, geleias, pães. De líquido, somente chá preto.
O castelo de Van (Van Kalesi) se erguia sobre a colina na margem do lago Van. Subi a rampa que ladeia as muralhas até o topo da construção datada de três mil anos e originalmente utilizada como fortaleza do povo armênio. Entre ruínas de adobe, de pedra, trechos reconstruídos ou restaurados, o castelo reservava o peso da história como principal apelo e cuja atmosfera me envolveu, sobretudo naquele início da manhã, sem ninguém por perto, exatamente o oposto das atrações entupidas de turistas da Anatólia ocidental e central.
Do alto do morro, vista panorâmica da imensidão do lago, das montanhas nevadas, da cidade de Van, dos campos e moradias isoladas. Abaixo, próximas à colina do castelo, minúsculas ruínas esparsas de torres e construções retangulares.
Eu estava no extremo sudeste da Turquia, sobre as ruínas da fortificação armênia, hospedado em cidade de maioria curda, muito distante dos formigueiros de turistas. A terceira parte daquela viagem começava promissora.
continua...

2 comentários:

  1. Augusto, que maravilha! Quarenta dias dá para conhecer muita coisa e com calma. Fiquei curiosa em relação a esse hábito dos homens caminharem "entrelaçados". Só viajei para 2 países muçulmanos - Egipto e Marrocos - e nunca presenciei isso. Será uma tradição local apenas?
    Vou continuar a ler a sua aventura.
    Abraço, um domingo luminoso
    Ruthia d'O Berço do Mundo

    P.S. Muito grata pela sua visita ao meu "cantinho"

    ResponderExcluir
  2. Oi Ruthia, obrigado pelos comentários.
    Quarenta dias foram pouco. Aquela região merecia bem mais tempo. Mas, porém, contudo, todavia, era o que me permitiu...
    Creio que nesse caso não há relação entre os hábitos sociais e a religião. Notei comportamento análogo, como homens sentados nos colos de outros, uns acariciando o cabelo de outros, na Índia, cuja religião majoritária é o hinduísmo.
    Além disso, embora de maioria muçulmana, a Turquia conta com Estado laico, separado da religião. Cada um professa o que quer ou não professa nada.
    Entendo serem hábitos culturais, regionais, desconectados das crenças religiosas.
    Abraços e comente sempre!

    ResponderExcluir