quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Uzbequistão e Turquia (parte 4/8)



...continuação
O passeio de barco pelo Estreito de Bósforo valeu pela vida pulsante na beira das águas e pela variada oferta de comidinhas no cais do Eminonu. E dá-lhe casas e mansões nas margens europeia e asiática, de madeira, de alvenaria, valendo dezenas ou centenas de milhões em qualquer moeda, além de palácios usados pelos antigos sultões do período otomano, transformados em museus ou em hotéis caríssimos. Impressionava o intenso tráfego de barcos, balsas, navios, dos mais variados tipos e tamanhos, cruzando as águas do Chifre de Ouro e do Estreito de Bósforo.
As ruelas do Mercado de Especiarias (Mercado Egípcio) revelavam centenas de barracas cujas ofertas de alimentos, frutas secas, castanhas e nozes, salgados, temperos, superavam em imagem, odores e sabores as de tecidos, lembrancinhas inúteis, objetos de cozinha. Mas os becos externos à construção principal se mostraram bem mais fascinantes e autênticos. Carregando consigo milhares de anos de experiência em comércio, os vendedores engambelavam os turistas facilmente, improvisando na língua de origem dos visitantes, cantando canções “engraçadas”, fornecendo explicações mirabolantes, envolvendo e seduzindo os ávidos clientes, que logo abriam o bolso e compravam de tudo. Acreditavam que, pechinchando e baixando os preços iniciais, realizavam ótimos negócios.
Ao entardecer, durante a volta ao hotel no bairro modernoso de Beyoglu, os famosos congestionamentos de Istambul deram o ar da graça, como em qualquer megalópole na qual não se elaboram ou não se cumprem planos diretores discutidos com a população, não se privilegia o transporto coletivo, principalmente o sobre trilhos, e se submete à ditadura do transporte individual, o famigerado automóvel. Nenhuma novidade para os moradores das megalópoles brasileiras.
Mais funcional e integrador seria se os turistas utilizassem o transporte coletivo sobre trilhos da cidade, bondes e metrô, aliado a curtas caminhadas. Tomariam mais contato com o cotidiano da população e não se atormentariam com os engarrafamentos rodoviários.
Amanheceu nublado com chuva fina e intermitente. E o frio vinha junto.
Aya Sophia, a gigantesca construção milenar, já foi templo cristão e mesquita, para finalmente se tornar museu para visitação. Impressionou pelas dimensões monumentais e pela importância histórica. Filas quilométricas de turistas para comprar os ingressos. Formigueiros humanos de visitantes nos interiores. Mais se fotografavam do que observavam por onde passavam, por quais setores circulavam, sob quais cúpulas andavam, diante de quais afrescos estavam.
O ensino fundamental de oito anos era obrigatório na Turquia, em escolas públicas ou privadas. Quatro anos de ensino médio e mais o exame final distribuíam os estudantes pelas universidades públicas ou nas faculdades privadas. Cursinhos treinavam e enquadravam os aspirantes para as provas. Os preços das escolas e universidades privadas eram inacessíveis para a maioria da população.
Praticamente toda a imprensa, segundo a guia, adulava o governo federal na busca de favorecimentos contratuais das corporações ligadas à mídia. Ainda segundo ela, a minúscula imprensa de oposição era perseguida e boicotada em vários níveis, dificultando enormemente a sobrevivência.
O famoso Grand Bazaar ficava a poucos minutos de caminhada dali. A construção abrigava um mundo de lojas, lojas e mais lojas, distribuídas por ruas e ruelas sem fim, em ambiente bem mais sem graça que o Mercado das Especiarias. Eu e o colega pulamos fora daquela paranoia consumista. Relaxamos e enrolamos levemente em uma mistura de lanchonete e casa de chá charmosamente escondida na cidade velha, acessada somente após percorrer dois becos nada óbvios.
Anoitecia e jantamos em restaurante globalizado em ruazinha globalizada de bairro globalizado. O local era o modernoso Beyoglu, Istambul, mas poderia ser em qualquer cidade globalizada e pasteurizada mundo afora, tal a falta de personalidade.
Queria mudar de hotel e de bairro. Embarquei no funicular e depois no bonde. E alcancei o beco onde ficava o hotelzinho básico, situado no miolo de Sultanahmet. Nas imediações, turistas, muitos turistas, do mundo inteiro. E a maioria deles ficaria uma ou duas noites na cidade, num desespero para ver tudo, fotografar tudo, olhando para cá e para lá, sempre com pressa, muita pressa.
Fuma-se muito na Turquia, jovens e velhos, homens e mulheres, sentados ou caminhando, durante todo do tempo, em todos os lugares. Nos quartos dos hotéis, cortinas, tapetes, lençóis, fronhas, cobertores, tudo fede a cigarro, leve ou intensamente. E fede a cigarro apagado, a cinzeiro sujo.
Outra mania dos turcos, mas não exclusiva, era o uso obsessivo dos celulares, na função telefone, jogos, internet. Assim como nas cidades brasileiras, os dependentes tecnológicos turcos inclinavam as cabeças e, parados ou em movimento, cutucavam os brinquedinhos compulsivamente, esquizofrenicamente.
Cinco vezes ao dia, em horários determinados, os muezins chamavam os fieis para as orações islâmicas pelos alto-falantes das mesquitas das proximidades. Penetrando no quarto do hotel, o som repetido cinco vezes diariamente aumentava a sensação de imersão na cultura turca e muçulmana.
Amanheceu com o sol batendo em cheio nos janelões do quarto. O hotel entregava os cafés da manhã de quarto em quarto. E veio tudo em dobro. Duas meias bengalas de pão, dois ovos cozidos, divididos ao meio e cobertos de pimenta, fatias de salame, o quarteto típico das manhãs turcas, tomates, pepinos, azeitonas, queijos variados. Veio ainda dois copos descartáveis com dois saquinhos de chá preto e cubos de açúcar. A chaleira elétrica já presente na mesa precisaria apenas ser preenchida de água. Comi até me estufar.
As muçulmanas não faltavam nas ruas de Istambul. As praticantes moderninhas usavam lenços de cores leves, roupas compridas, às vezes coloridas, jamais pretas. Mas nada de mostrar o corpo ou os cabelos. Normalmente se maquiavam exageradamente, se entregando às vaidades inerentes.
As muçulmanas fundamentalistas, e em grande parte provenientes da Arábia Saudita e demais teocracias dos arredores, usavam apenas o preto, véu preto cobrindo os cabelos, rostos, liberando apenas estreita faixa para os olhos, roupas pretas e largas, até os pés, mangas compridas. O objetivo era tapar o rosto e o corpo, mas também a forma do rosto e a forma do corpo. Impossível descobrir se eram novas ou velhas, magras ou gordas, bonitas ou feias. Nas revistas minuciosas em aeroportos, por exemplo, elas se direcionavam a saletas fechadas com o intuito de pelo menos mostrarem quem eram.
Caminhei até a beira das águas do Chifre de Ouro, tanto do lado de Sultanahmet como do lado de Beyoglu, atravessando a ponte Galata, sobre a qual pescadores lançavam iscas ao mar. Algumas crianças mendigavam nas imediações da ponte.
Entrei pela parte de trás do Parque Gulhane, fantasticamente colorido pela floração das tulipas. Ao contrário do que afirma o senso comum, as tulipas se originaram na Turquia e somente depois foram transplantadas para a Holanda, país que acabou criando fama e recebendo os louros pelo cultivo e comercialização.
Outras flores também enriqueciam os desenhos caprichosamente dispostos ao longo de dezenas de jardins pelos interiores do parque. Era o auge do festival das tulipas, nas cores brancas, amarelas, vermelhas, laranjas, lilases. O resultado visual encantava os sentidos mesmo do mais apático dos mortais. Tanto que o parque Gulhane lotou, de turistas, mas principalmente de turcos na busca de passeios leves em que pudessem contemplar as obras de arte da natureza e da jardinagem.
Rodei bastante até me decidir pelo local do almoço. Comi bem fritada de carneiro e frango com cogumelos, cebola, alho, especiarias diversas. E reguei com o delicioso suco natural de romã com laranja.
Na avenida ao longo dos trilhos do bonde, as calçadas se entupiam de turistas e turcos. Em grupos, casais, famílias, amigos, alegravam os espaços públicos e democráticos na tarde de domingo, longe do embrutecimento de xópins e televisões.
Na margem do cais do Eminonu tomei barco para o subúrbio do Uskudar, cidade do lado asiático. Travessia curta e cênica pelo Estreito de Bósforo, em embarcação confortável e segura.
Uskudar se estendia por colinas em urbanização ocidentalizada, com habitações parecidíssimas entre si, ao longo de ladeiras íngremes e estreitas. Caí na pracinha em frente à prefeitura, aonde todo mundo ia. Conversei com turco aposentado e nascido na cidade de Malatya. Quase não falava inglês, somente turco e alemão. Sei lá como nos entendemos e trocamos informações sobre temas variados. Avesso ao islamismo conservador, aos mantos e demais coberturas religiosas do rosto e corpo das mulheres, admirava os países e culturas ocidentais. Tinha curiosidade pelo Brasil, rejeitava o conservadorismo do primeiro ministro turco de então. Tomamos chá servido diretamente nos bancos da praça por funcionário das casas de chá ao redor e que trazia a bebida quente em graciosas bandejas sustentadas por hastes metálicas.
De volta a Istambul, ao belo por do sol de primavera se seguiu o surgimento da enorme e alaranjada lua cheia por entre os minaretes da Mesquita Sultanahmet (Azul). Espetáculo digno de sentar e se deleitar por horas. E à noite, a suave iluminação, tanto da Mesquita Sultanahmet (Azul), como da Aya Sophia, lhes fornecia maior imponência, competindo com o estupendo luar.
A noite fresca exigia no máximo malha sobre a camiseta. Jantei pita mista, pão ovalado, alongado e grande, coberto de um pouquinho de tudo. Um copo de chá e me dei por satisfeito.
No dia seguinte, peguei outro dos barcos que cruzam o Bósforo, desta vez até Kadikoy, também do lado asiático e bem próximo ao Mar de Mármara.
Kadikoy não seduziu tanto quanto Uskudar, mas revelou encantos próprios. Em relevo aplainado a levemente acidentado, o subúrbio guardava apartamentos de médio a alto padrão, em ruas residenciais calmas onde se ouviam o canto dos pássaros e o farfalhar das folhas nas árvores. Um bonde nostálgico, vermelho e com apenas uma vagão, serpenteava pelas ruas estreitas e sinuosas.
Camadas médias a médias altas da sociedade turca habitavam aquelas paragens. Pouco se notava de islamismo em Kadikoy. Em ambiente que preferia importar modismos ocidentais, lá estavam madames e adolescentes passeando com os cachorrinhos, aspirantes a atletas correndo ou se exercitando, figuras lendo os jornais e revistas da mídia burguesa com caras de conteúdo.
Arrisquei o Museu de Arqueologia de Istambul, instalado dentro do parque Gulhane. Objetos de civilizações egípcias, hititas, babilônicas, assírias, árabes, islâmicas, otomanas, romanas, gregas, mesopotâmicas, percorrendo mais de cinco mil anos de história sobre as terras que passaram às mãos da Turquia. Colunas, muralhas, templos, estátuas, sarcófagos, tumbas, esculturas em pedra, entre outros milhares de itens. Impressionava a conservação externa das tumbas entalhadas milhares de anos antes em mármore, ricamente decoradas com figuras humanas e de animais, em alto e baixo relevo.
Almocei o Iskender Kebap, prato de carne com tomate, batata, queijo e iogurte bem temperado. Na mesa do restaurante à minha frente, um casal já passando dos sessenta anos. Ele, envelhecido e levemente afetado, puxava esse e aquele assunto, comentava sobre isso e aquilo. Ela, impassível na enorme gordura que mal cabia sobre a cadeira, não dava a mínima para o parceiro. Preferia cutucar esquizofrenicamente o celular. Nem via a comida, apenas a engolia freneticamente. Não notava o restaurante, não notava o companheiro, não notava a rua e os passantes pela janela. O celular, somente celular, nada mais que o celular.
Vários clientes que se sentavam em bares ou restaurantes, sozinhos ou acompanhados, turcos ou turistas, antes mesmo de olharem os cardápios ou pedirem alguma coisa, solicitavam a senha da internet sem fio. Então cutucavam, cutucavam e cutucavam o brinquedinho. E sempre de cabeças baixas, ignorando tudo e todos ao redor.
Havia dias que eu tentava ouvir músicas no quarto do hotel pelo youtube, mas sempre cancelava por erro interno. Tentei inúmeras vezes e nada. Sempre o mesmo erro, a mesma mensagem. Passou o tempo e descobri que uma lei federal de telecomunicações da Turquia bloqueava o acesso a todos os endereços da internet contendo vídeos, músicas, filmes. Censura pura e simples em país com eleições e, portanto, tido como democrático.
continua...

4 comentários:

  1. Amo a Turquia e estive rapidamente no Uzbequistão, gostei e recomendo seu artigo!

    ResponderExcluir
  2. Oi Alexandra, obrigado pela visita e pelos comentários.
    Também não fiquei muito no Uzbequistão, mas o pais rendeu boas reflexões.
    Permaneci mais tempo na Turquia, Istambul, na Anatólia ocidental, no extremo leste do país, regiões que disponibilizaram relatos mais detalhados, como você verá nas próximas partes dos relatos que publicarei aqui no blog.
    Além dessa viagem mais recente, publiquei aqui no blog relatos de diversas viagens pelos interiores do Brasil e diferentes países pelo mundo afora. Confira...
    Comente sempre!

    ResponderExcluir
  3. Olá amigo! Adoro a Turquia, Istambul me fascina, acho que pela sua cultura milenar. Istambul, nem se fala. Se eu estivesse lá, com certeza estaria confinada no Museu Arqueológico. Tudo me atraia, o povo, o mercado de especiarias, mesquitas...Triste é saber que lá também existem crianças mendigando. Viajante Sustentável, adoro ler seus diários de viagens, porque através de seus relatos viajo virtualmente. Continuo na carona. Abraços.

    ResponderExcluir
  4. Oi Ivete, obrigado pelos comentários.
    Certamente irá adorar Istambul. E nem precisa ir de pacote organizado por agência. Basta reservar hotel pela internet. Passear lá é facílimo. Os turcos são acolhedores e muito simpáticos.
    Comente sempre.
    Abraços!

    ResponderExcluir