sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Inglaterra (parte 2/2)

...continuação
Por conta própria, sem excursões escolares, pegamos trem rumo a Oxford. A antiga e histórica cidade sobrava em charme, beleza, personalidade. Encantava pelos becos, universidades com jardins perfeitamente conservados, construções pesadas e imponentes, catedrais, torres. Tirando as lotadas ruas comerciais, as demais partes da cidade exalavam calma, sossego, silêncio. Nem mesmo as pencas de turistas afetavam a atmosfera envolvente. Eram dezenas de universidades cujos prédios impunham respeito pela beleza da arquitetura, gramados impecáveis, parques floridos, atmosferas seculares. E tivemos a sorte de presenciar cerimônias de formatura, nas quais estudantes vestiam togas solenes e pretas, chapéus também pretos, fornecendo ao ambiente muita pompa e emoção.
Em Londres, demos uma olhada rápida pela região de Camdem Town no início da manhã. Ainda montavam o mercado, feira de roupas, objetos usados em geral. Havia de tudo um pouco, maluquices, ousadias, outras nem tanto. Os preços variavam de exorbitantes a boas pechinchas.
Caminhamos da praça Leicester até a Torre de Londres, passando pela catedral de São Paulo, pelo centro financeiro. Foi uma longa pernada, mas agradável e pedagógica. Não fazia calor e as ruas estavam vazias naquela manhã de domingo. Mas permanecemos somente do lado de fora da Torre. Não estávamos a fim de encarar a fila quilométrica. Encaramos cinema e assistimos a filme deplorável. Circulamos pelo Hyde Park sob um vento frio.
Exceto as aulas dispensáveis, o dia se resumiu a outro gostoso lanche na base de muita comida e vinho no parque Waterlow.

À noite, a escola promoveu concursos de cultura geral. E o grupo do qual participamos saiu vencedor. Ganhamos uma garrafa de vinho, detonada ali mesmo, camisetas da escola e um dicionário Oxford. As perguntas se restringiam a conhecimentos simples e não exigiam tanta cultura ou raciocínio. Com honrosas e raras exceções, a maioria dos alunos impressionava pela ignorância e alienação sobre tudo. Embora compreendessem o inglês necessário, nada sabiam sobre dados e fatos ao redor do próprio nariz. Um aluno suíço pós-adolescente se destacou pelo desequilíbrio mental. Gritava, interrompia, atrapalhava. De nada adiantou as sutis repreensões do inglês que coordenava e lia as questões. Após abrirmos e secarmos a garrafa de vinho conquistada, o jardineiro da escola sentou-se à nossa mesa. Abriu outra garrafa e nos ofereceu. Então auxiliamos o gentil colega a enxugá-la em minutos.
O clima sombrio incomodou durante o dia e não fizemos grandes coisas ao ar livre. Algumas linhas de metrô estavam paralisadas ou em funcionamento precário.
Como se fosse possível, o dia na escola conseguiu a proeza de ser ainda pior que os anteriores. Em tudo, conteúdo das aulas, comportamento dos professores, vexame dos alunos. O cardápio das bobagens incluía jogos de ludo, de adivinhação e outras idiotices para enrolar o tempo. De ensino da língua inglesa, praticamente nada. Nos últimos cinquenta minutos da tal “aula”, dois alienados da Suíça pediram e o professor os atendeu. Ignorando a programação do curso e o interesse da maioria dos alunos, trouxe folhas contendo lista dos principais palavrões da Inglaterra, com exemplos e tudo o mais. Os dois suíços, que adoravam cochichar em alemão feito duas comadres fofoqueiras, aplaudiram a inovação e se excitaram com o nobre aprendizado. De nada adiantou eu e outros alunos reclamarem daquela perda de tempo. O professor justificou que oferecia a oportunidade de aprendermos a linguagem das ruas. Somente palavrões por longos cinquenta minutos.
Aproveitamos as aberturas de sol e passeamos na região de Richmond, afastada do centro de Londres, na margem do rio Tâmisa, em meio a extensas áreas verdes, como sempre impecáveis no arranjo e conservação.
Embarcamos em nova excursão da escola, rumo à cidade litorânea de Brighton.
Muito frequentada pelos londrinos no verão, a praia só podia ser piada de mau gosto. Não havia sequer um grão de areia, somente seixos de cerca de cinco a dez centímetros de diâmetro. Era impossível caminhar descalço sem tropeçar, cair ou cortar as solas dos pés. Para completar a desgraça, o píer que avançava no mar se entupia de fliperamas, máquinas de jogos eletrônicos, caça-níqueis.
A área central da cidade oferecia becos estreitos e sinuosos, formando labirintos com lojas, restaurantes, confeitarias. Pelo menos ali valia a pena circular e apreciar o conjunto arquitetônico. Entramos em restaurante italiano no meio do labirinto que servia boa comida, bom vinho, bom café. Sem pressa, passamos boas horas naquele ambiente aconchegante.
Acordamos bem cedo para pegarmos trem rumo a Canterbury na estação ferroviária de Victória. Aquela linha não estava em nenhuma tabela de horários, o que não seria novidade. A maioria das tabelas não passava de pura ficção. Linhas de trens presentes nas programações não corriam mais. Outros em funcionamento não constavam das listas. A Inglaterra depois da privatização de inúmeros serviços essenciais não inspirava confiança. E nem havia banheiros no vagão que viajamos.
Canterbury era bem arranjada, simpática, com lindos jardins, para não perder a mania inglesa, casas e ruas charmosas, a impressionante catedral gótica. O tempo chegou a abrir, mas o frio apertou. E na volta, mais aventuras pelos transportes ingleses privatizados. Foi preciso pegar um trem, um ônibus para superar o trecho interrompido da ferrovia, e outro trem até a capital. E o percurso total era curto. Muito mais complicado e desgastante do que nos interiores da Índia, onde estivéramos meses antes.
E mais problemas no metrô em Londres. Ramais e linhas interrompidas. Desviamos e tivemos que trocar duas vezes de linha.
Em dado momento da aula no outro dia, o professor pediu que cada aluno conversasse com o aluno ao lado e perguntasse sobre o comportamento usual durante as refeições nos respectivos países. Eu fiz dupla com uma japonesa de vinte e poucos anos. Descrevi a alegria e descontração que acompanhavam a maioria das refeições brasileiras. Na vez dela, muito sóbria, comunicou que durante as refeições nas casas japonesas todos se calavam completamente enquanto comiam. Seria tremenda falta de educação alguém falar.
Desisti de esticar por terra até a Ásia e decidi retornar ao Brasil após o final do curso. Ela permaneceria mais tempo, mas em outra escola de inglês.
E a escola mantinha a embromação. Os dois suíços continuavam a manifestar atitudes racistas e preconceituosas. Os demais alunos não os suportavam. Os professores nada faziam e eles não cediam um milímetro sequer.
À noite tivemos jantar agradável com os alunos e professores da minha turma. Ainda mais porque os dois suíços racistas, “as duas comadres”, não compareceram, deixando o ambiente mais leve e prazeroso. Foi um alívio. Ninguém sentiu a falta deles.

Último dia de aula, finalmente, entre trocas de fotos, de endereços, despedidas. O professor, apesar das péssimas aulas, era boa pessoa, adorava culinária, planejava no curto prazo sair da escola, vender alguns bens e partir para a China a fim de estudar a culinária chinesa. Exceto “as duas comadres” da Suíça, a turma agradou e proporcionou bons momentos sociais. Mas o tal curso de inglês, nunca existiu de verdade.
Passamos quatro horas memoráveis na Torre de Londres. Exploramos as muralhas, masmorras, escadarias, exposição de joias, peças de ouro. O brilho das riquezas impressionava, mas se ofuscava pela origem de tudo a partir de saques e roubos do império britânico pelo mundo afora.
À tarde, após almoço italiano saboroso e caro, entramos em cinema para assistir a filme inglês rodado no norte do país. Era comédia crítica à decadência econômica e social da Inglaterra, sobretudo daquela região, outrora rica em indústrias metalúrgicas. Os atores usavam sotaque regional de difícil compreensão. Perdemos inúmeros diálogos, mas nos divertimos com as cenas cômicas e as risadas da plateia inglesa.
No início da manhã, espessa neblina, associada à umidade, molhava as ruas e os carros estacionados. A água escorria da lataria de alguns deles. E nenhuma gota de chuva caíra durante a noite ou madrugada. Seguimos de trem rumo à cidade universitária de Cambridge.
O ponto alto de Cambridge ficava por conta do King’s College, faculdade somente para homens, com capela estupenda, cheia de vitrais, os jardins gramados na parte da frente, o rio bucólico nos fundos do prédio. Estudantes ganhavam trocados conduzindo turistas de barco pelas águas calmas. Não usavam remos, mas estacas profundas que impulsionavam os barcos lentamente.
Um saboroso kebab recheado de frango ricamente temperado encerrou a noite nas imediações da praça Leicester em Londres. Era minha última noite na cidade.
Ela matriculara-se em escola bem mais barata nas imediações do centro da cidade. Também conseguira permanecer na mesma casa depois das renegociações de preços e condições. Tivemos muita sorte com a casa, a higiene, o café da manhã farto e variado, a boa recepção. Mas parecia exceção. Ouvíamos histórias escabrosas de outras casas, onde os donos trancavam a porta a partir de certas horas, serviam comidas vencidas ou de má qualidade, cortavam a água quente, destratavam os hóspedes. E todas elas faziam convênio com a escola privada, a tal que cobrava fortunas dos alunos, nada ensinava e só embromava.
No voo da volta, com conexão em Zurique, a mesma viagem chata, cansativa, com comida medíocre da empresa aérea da Suíça. E novamente as desnecessárias e torturantes informações técnicas nos televisores.
Aproveitei para refletir sobre o desejo de parar momentaneamente com as viagens ao exterior. Depois de tantas e gratificantes viagens pelo continente americano, europeu e asiático, me dei por satisfeito. E também um pouco enfadado de gringos. Eu sentia muita falta das paisagens e dos povos brasileiros. Pronto! Em breve voltaria a percorrer os interiores do Brasil, destinos bem mais fascinantes, que certamente brilhariam nas minhas próximas explorações.
Desembarquei em São Paulo em fins de outubro. Depois de pegar o ônibus comum no aeroporto de Cumbica, tive que esperar bastante na estação Bresser do metrô por um vagão que não estivesse transbordante naquela manhã de terça-feira.

2 comentários:

  1. Você retornou à Inglaterra depois dessa viagem?

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  2. Oi Joseane, obrigado pela visita.
    Estive mais de uma vez na Inglaterra, mas essa foi a última. Foi o fim de uma longa fase de diversas viagens ao exterior e já me sentia cansado daquilo tudo.
    E retornei feliz da vida a incursões pelos interiores do Brasil.
    É claro que isso passa e voltarei em breve a explorar países que valham a pena.
    Um dia, quem sabe um dia...
    Abraços!

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