segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Norte de Minas Gerais-5 (parte 1/5)

                                        
                Como o norte de Minas Gerais me agradara intensamente nas quatro viagens anteriores, decidi explorar partes e cidadezinhas ainda desconhecidas da região.
Embarquei à noite naquele fim de maio. O ônibus confortável até Belo Horizonte não lotou, não gelou. Após Lagoa Santa, em estrada asfaltada e estreita o segundo ônibus entrou de cabeça na Serra do Cipó, passando pelo vilarejo repleto de pousadas, restaurantes, botecos, antes de iniciar a subida sem tréguas do espigão rochoso. O asfalto serpenteava a borda leste da cadeia do Espinhaço, avançando sobre os paredões, escarpas íngremes, vales, deixando a planície esverdeada lá embaixo. O veículo guinava pelas curvas acentuadas, subidas violentas, descortinando paisagem deslumbrante do cerrado mineiro. Era o roteiro pertencente à Estrada Real.
O ônibus alcançou Conceição do Mato Dentro, encravada na encosta oposta da serra. Casario colonial e igrejas antigas despontavam isoladamente na cidadezinha desfigurada, cortada por ruas sinuosas, invariavelmente estreitas. Na minúscula rodoviária, um escritório de transnacional de mineração, estranhamente instalada em local público, dava as boas-vindas e orientações aos recém-chegados.
Em seguida o veículo penetrou na estrada de chão, estreita, empoeirada, situação que se agravou pela circulação de caminhões e máquinas de terraplanagem. Mais placas da mesma transnacional nos limites de imensas áreas cercadas, alertando serem propriedades particulares e de entrada proibida. O cerrado se alternava com extensões da mata atlântica em relevo acidentado. As montanhas, as cidadezinhas, o casario antigo, o povo que embarcava e desembarcava do ônibus velho, contribuíram para a empolgação.
Após uma das paradas, o ônibus partiu sem um dos passageiros, distraído na compra de qualquer coisa, e que não ouviu o aviso de reembarque. O veículo já ia mais de dez quilômetros adiante quando alertaram o motorista. Mas nem precisou refazer todo o caminho de volta. O esbaforido passageiro se dirigia em sentido contrário dentro de um táxi buzinando para que o ônibus parasse.
Em Serro me hospedei em rua tranquila e com vistas para as montanhas. Após matar a fome no começo da noite, o pouco que andei pelas ruas estreitas e calçadas de pedras irregulares do centro antigo, deu para notar que a cidade arrasava na arquitetura barroca. Linda demais!
Comi muito no café da manhã, especialmente o saborosíssimo queijo do Serro, considerado o melhor de Minas Gerais, e, portanto, do Brasil.
E fui circular pelas ruelas, ladeiras, escadarias do belíssimo centro de Serro, dotado de casarões, sobrados, igrejas e capelas de século XVIII. O céu azul e a forte luminosidade valorizavam ainda mais o conjunto arquitetônico. Fui devagar, apreciando e degustando cada esquina, cada detalhe, entre dezenas de preciosidades, a maior parte bem conservada ou em processo de restauração, utilizada por escolas, órgãos da administração municipal e estadual. O calçamento das ruas variava de pedras planas e irregulares ao charmoso pé-de-moleque. De inúmeros pontos se tinha vista privilegiada da cidade e dos morros ao redor, sobretudo após subir os cinquenta degraus da escadaria da igreja de Santa Rita.
O sombreado casarão do Barão do Serro, embora restaurado e de bom aspecto, não contava com mobiliário, nem tampouco uso para visitação ou atividades pela população local. Já o museu dos Otoni, ocupando casarão ao lado de igreja secular, exibia móveis originais, imagens de antiga igreja demolida, objetos históricos, jardim bucólico para uso dos moradores da cidade.
Na estrada para Santo Antônio do Itambé avistei o pico do Itambé e outros da cadeia do Espinhaço bem próximos, formando cenário imponente e promissor para futuras caminhadas. Desci do ônibus na cidadezinha, botei a mochila nas costas e caminhei até um hotel pequeno e limpo.
Durante o jantar, precedido de cachaça branca alambicada nos arredores, obtive informações adicionais sobre acesso a cachoeiras e ao pico do Itambé.
As primeiras impressões de Santo Antônio do Itambé, cidade com menos de quatro mil habitantes, foram mais que animadoras. Ajeitada e aconchegante, ela não contava com o casario secular, mas as ruas, moradias, pontes sobre córregos e margens arborizadas com áreas de lazer e descanso, revelavam carinho dos moradores e da administração pública. E que silêncio noturno bem-vindo das ruas!
Cedinho, parti morro acima, rumo à rota das cachoeiras e do pico do Itambé.
Em estrada estreita de chão, cruzei a Ponte de Pedra, formada naturalmente da própria rocha sobre riacho encachoeirado. As águas corriam por baixo da placa rochosa, se represando em poços convidativos, não fossem as temperaturas baixas de fim de outono. Mais adiante, já em áreas do parque estadual do Itambé, a estradinha subiu sem dó, fornecendo vistas parciais da serra do Espinhaço e do próprio pico. Desci a trilha para as duas quedas da cachoeira da Água Santa. Nenhuma alma viva por ali, somente eu e a natureza. Pulei de rocha em rocha, subi à segunda queda, apreciei as águas das cachoeiras de vários ângulos, límpidas, transparentes. Deitei sobre os lajedos, olhei o céu, ao som relaxante e evolvente das águas.
Retomei o caminho morro acima. As montanhas davam sinal de vida vez ou outra à esquerda. Cruzei e proseei com casal de idosos negros a caminho da cidade para vender a pouca banana colhida. Passei sobre ponte de madeira muito velha, sobre a qual o córrego repleto de corredeiras e caldeirões para banhos corria apressado. Entrei no caminho vicinal à cachoeira do Nenen. A queda d’água impressionava em meio a bicos de pedra até o poço bem desenhado. Contemplei aquele cenário de tirar o fôlego, enchi os pulmões e peguei o caminho de volta para a cidade.
Desci mais rápido que na ida. Descansei e conversei com o fiscal na entrada oficial do parque estadual. Aproveitei para dar trégua às pernas e obter mais informações sobre a região.
Enchi o bucho com a comida comível do restaurante da pousada. Tentei descansar à tarde. Os sons dos alto-falantes do campo de futebol próximo, junto a batucadas e músicas altas dos preparativos para partida de futebol intermunicipal, invadiam em cheio o quarto. E o primeiro jogo emendou com outro, com direito a narração e comentários, tudo bem alto.
Após 21h voltou a reinar a paz tão almejada em cidadezinhas aconchegantes como Santo Antônio do Itambé. O pequeno leilão de frangos, galos, outros animais, prendas em geral, prosseguiu em frente à igreja, com muita animação do público e do espirituoso leiloeiro.
Acordei com os galos, um deles de canto rouco e estridente. Desci para o café da manhã ainda em preparação. Saí com a mochila nas costas, um pão de queijo na boca e outro na mão. O ônibus logo apareceu e pouco depois desembarquei de volta a Serro. Peguei quarto mais alto, mais claro, com vista mais desimpedida da cidade e dos morros ao redor.
À tarde perambulei pelas ruelas, ladeiras do centro. Livre, leve, solto, contemplando, apreciando, despreocupadamente, sem pressa. Permaneci um tempão nos altos do adro da igreja de Santa Rita, observando o domingo preguiçoso de Serro. Para que mais?
Peguei o ônibus para Diamantina. Antes de Pedro Lessa, a estrada cruzou o curso d’água estreito e escuro do rio Jequitinhonha. Muito, mais muito mesmo, perto da nascente. Ele corria entre lajedos oblíquos e fundo arenoso.
Em Diamantina me hospedei em pousada afastada do burburinho do centro histórico, cujo dono me recebeu cheio de sorrisos comerciais.
Dei grande volta de reconhecimento pelos becos, ruelas, ladeiras, entre o casario barroco e igrejas bem conservadas. Fascinante, a despeito da atmosfera menos interiorana, com pesado movimento de veículos e pedestres, figuras de olhares menos naturais, ambiente menos aconchegante. Afinal eu estava em cidade turística do dobro do tamanho de Serro.
A impressão da cidade melhorou à noite, com menos carros e motos em circulação, trechos de ruas e becos bloqueados ao trânsito, poucas pessoas circulando, iluminação noturna realçando o casario. Os restaurantes de comida mineira cobravam caro por pratos individuais e, não por acaso, estavam às moscas. Na praça do Mercado Velho ocorria evento ecumênico celebrando a semana de meio ambiente, cercado por barracas de comes e bebes juninos. Alternando com apresentações musicais variadas, cada facção religiosa teve tempo e espaço para se manifestar dentro do tema proposto.
Amanheceu com baita cerração e frio terrível, justificando os quase mil e duzentos metros de altitude de Diamantina, ainda mais em junho. Mesmo com cerração e gotículas de água no ar, fui dar uma volta na cidade. A sensação térmica se acentuava pelo vento. Circulei sob o céu esbranquiçado, encobrindo parcialmente as construções mais altas e as montanhas.
Tentei atingir o início da trilha do Caminho dos Escravos que seguia serra acima. Desisti antes das últimas casas da periferia. Iria pegar vento gelado lá em cima. E boatos de roubos e assaltos pelo caminho me desestimularam a prosseguir. A funcionária da pousada confirmou casos afins naquela e demais trilhas dos arredores, inclusive na região das cachoeiras, para onde eram designados policiais escoltando os visitantes.
Perambulei mais e mais pelo centro histórico. De tantos locais atraentes, me encantei com a paz, o silêncio e a beleza bucólica dos arredores da igreja do Rosário, permanecendo ali por bom tempo, absorvendo a atmosfera local.
O sol deu as caras somente após o meio-dia e chegou a esquentar. A cidade se iluminou e tudo brilhou. As cores realçaram a magia do conjunto arquitetônico. Não resisti e repeti as idas e vindas pelas ruas, becos e ladeiras já percorridas.
Evitei Diamantina durante os dias em que ocorriam as Vesperatas, quando os hotéis, restaurantes, bares, comércio em geral, aumentavam absurdamente os preços. Porém, mesmo fora desses períodos, o descontrole do turismo se fazia sentir nos preços exagerados. Jantei em restaurante caro, com comida cara, cachaça cara, atendimento demasiadamente formal.
E me dei por satisfeito nessa minha terceira visita a Diamantina. Acordei ainda no escuro e saí de fininho para não acordar ninguém. Encarei a ladeira íngreme até a rodoviária e embarquei em ônibus quase vazio.
Peguei o nascer do sol em paisagem de tirar o fôlego. A rodovia desceu a encosta oeste do Espinhaço por traçado sinuoso, repleto de ziguezagues, entre escarpas rochosas, vales profundos, planaltos pedregosos, vegetação oscilando entre cerrado e mata tropical. As luzes da alvorada pintaram o cenário de tons avermelhados, amarelados, dourados, azulados. Nas depressões mais acentuadas, a cerração cobria os vales de espuma branca. E, para brindar todo o conjunto, a rodovia cruzou novamente o rio Jequitinhonha, com menos de dez metros de largura, águas escuras, praias em curvas de areias claras.
Após a primeira hora do trajeto fazendo bem aos olhos, a rodovia atingiu relevos altos e chapados, envenenados pelas monoculturas do eucalipto. Sugando e secando os cursos d’água e o lençol freático, aquele deserto verde se estendia a perder de vista, em ambos os lados da estrada. Como de praxe nessa desolação da paisagem envenenada, nada da fauna ou da flora original e diversificada, expulsas pela árvore exótica que somente gera lenha para as siderúrgicas e lucros para meia dúzia de coronéis do agronegócio. As vilas e cidadezinhas próximas afundavam na miséria e abandono, típicos efeitos das monoculturas extensivas.
Após subidas e descidas de serras, estradas de chão, dezenas de embarques e desembarques pelo caminho, de tal maneira que me tornei o único passageiro do início ao fim do trajeto, desci à noite em Manga, a última cidade mineira na margem do São Francisco.
Fui averiguar o primeiro hotel na beira do rio, em sobrado velho, decadente, mal cuidado, sujo. E a segunda opção não era muito melhor. O adiantado da noite, porém, me fez aceitar, após conseguir abaixar o preço da diária, e a promessa de trocar no dia seguinte para o primeiro andar. O quarto tinha teias de aranha e as próprias aranhas perambulando pelo teto. Pernilongos voavam para lá e para cá. O repelente de tomada e o ar condicionado precário não fizeram efeito. Os lençóis e fronha da cama de solteiro instalada sobre o concreto exibiam manchas suspeitas de cores indefinidas.
Jantei qualquer coisa na praça e voltei para dormir cedo.
continua...

2 comentários:

  1. o vilarejo da Serra do Cipó, antiga Cardeal Mota, está na borda oeste da Serra do Espinhaço. Muito bom seu relato, abraços.

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  2. Oi Rodrigo, obrigado pelo comentário.
    A região da Serra da Espinhaço é mesmo deslumbrante e para se voltar sempre. Fiz algumas travessias com barraca por aquela região.
    Além desse e de outros relatos pelas Minas Gerais já publicados aqui no blog, aproveite para ler e pesquisar relatos de minhas demais viagens pelos interiores do Brasil e de outros países. Tenho predileção daquelas pelos meandros da nossa Amazônia. Depois me conta o que achou.
    Boas leituras!!!

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