sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Norte de Minas Gerais-5 (parte 3/5)

                              
...continuação
Andei pelo centro de Mato Verde, por entre ruas em traçado quadriculado, exibindo raras casas antigas. A cidade começava na parte mais baixa, na margem do rio Viamão, abandonado e sujo, completamente ignorado pela cidade, e subia na direção da rodovia federal. Na outra margem do rio, a zona rural avançava em terreno aplainado e coberto por vegetação ressecada do agreste. No meio da tarde, em pleno horário da sesta, Mato Verde adormecia e quase não apresentava movimento.
Exceto eu, todos os hóspedes do hotel vinham a trabalho, atuando em diversas áreas. Quase todos portavam notebooks, celulares, I ”isso”, I ”aquilo”. Igualzinho ao restante do país. Um vendedor sentou-se na sala de entrada do hotel, abriu o notebook, acionou dois telefones ou dois daqueles “I” qualquer coisa. Conversava nos dois aparelhinhos, manuseava o notebook, passava dados disso e daquilo, digitava outros, perguntava, respondia. Tudo sob um clima de tensão e pressão. E contrastando com essa tecnologia de ponta, havia a miséria e abandono pelos campos e cidades.
Esfriou ao anoitecer, acompanhado de ventos fortes, uivando e açoitando de tudo quanto era lado. Mas a lua cheia ainda brilhava no céu.
O ônibus partiu à tarde e, depois de subir a serra, dobrou para legítima estrada de chão. A luz da tarde embelezava o relevo acidentado em meio ao cerrado do norte mineiro. Poucas casas ou sinais de plantações e criações de animais. Cerca de dez quilômetros antes de Rio Pardo de Minas, a paisagem natural deu lugar à desolação venenosa das monoculturas de eucalipto, sugando o lençol freático, secando cursos d’água, espantando a flora e fauna nativas. O deserto verde se perdia de vista, a leste e a oeste da estrada de terra. Ao chegar a Rio Pardo de Minas, dava a impressão de a cidade estar cercada, sufocada, asfixiada por aquela praga da monocultura, que nenhum benefício social traz ao povo local.
O ônibus partiu novamente, lotado de moradores da zona rural abastecidos das compras realizadas na cidade.
Daí em diante o veículo fez jus à expressão pinga-pinga durante o trajeto em estrada de chão rodeada de paisagem rural, casinhas isoladas, plantações variadas em pequenas propriedades, criando visual reconfortante após a imagem catastrófica dos eucaliptos. A maioria dos passageiros se conhecia. Eles se cumprimentavam, comentavam da vida, da terra, das colheitas, do tempo, de como estava esse ou aquele. E nas despedidas, muitas recomendações a essa ou aquela, prometendo uma visitinha para breve.
O asfalto ressurgiu pouco antes da chegada a Montezuma, exatamente no momento em que a estrada engatava acentuada subida. O ônibus estacionou e desligou o motor na pracinha do centro de Montezuma.
Embora houvesse estrada recentemente asfaltada entre Mato Verde e Montezuma, o ônibus rodou entre as duas cidades mais que o dobro da distância, a maior parte em estradas de chão, em quase quatro horas de deslocamento. Para mim, porém, em viagem de passeio, fã ardoroso de estradas de terra, da proximidade das moradias e lavouras, do baixo impacto socioambiental dos traçados rodoviários, foi um maravilhoso mergulho nos sertões do norte mineiro.
Caminhei até o hotel amplo, com área de lazer, piscina, sauna, bar, restaurante, entre outras comodidades estranhas aos tipos de hotéis em que costumo ficar.
Comi comida caseira em restaurante simples tocado por familiares no centro da cidade, na base de carne de porco com arroz, feijão, salada crua e legumes refogados, precedida obviamente de generosa dose de cachaça artesanal, local, purinha, branquinha.
Dei leve giro pelas ruas sob o frio cortante da cidadezinha situada a apenas vinte quilômetros da divisa da Bahia. Com pouco mais de sete mil habitantes, Montezuma revelava tendência à verticalização das novas construções, oferecendo prédios de três a quatro andares. Raridade bizarra, inexplicável e nada bem-vinda. Praticamente ninguém nas ruas naquela noite gelada de quinta-feira de junho.
O hotel ficava em frente ao balneário municipal de Montezuma, mantido pela prefeitura, oferecendo piscinas com águas naturalmente termais e correntes, bar, restaurante. Era comum eu avistar cabeças, somente as cabeças, acima da linha da água das piscinas públicas durante do dia, noite ou madrugada. Todas as dependências do balneário funcionavam 24 horas por dia, sete dias por semana. Visitantes acampavam nos trechos arborizados do balneário, nem precisando sair do local sempre provido de água, comida, bebida, banheiros. E na cidade, principalmente ao entardecer e à noite, as pessoas circulavam pelas ruas, de toalha ou roupão enrolado no corpo, de cabelos molhados, bem à vontade, aproveitando aquela dádiva da natureza bem administrada pelo poder público.
Circulei horas pelas estradinhas e trilhas nas colinas acima do balneário, região que já abrigou mineração e garimpo de pedras preciosas. Perambulei solitariamente em meio ao cerrado mineiro, aves, lagartos, vegetação retorcida, pedaços de quartzo e minerais ferruginosos pelo chão. Bem lá do alto, visão panorâmica da cidadezinha, das estradas de acesso e da Serra Geral. Adiante do topo da colina, a trilha bateu de frente à estrada com marcas de veículos pesados e com o desastre ambiental da monocultura do eucalipto. Toda a empolgação por caminhar no meio da vegetação nativa se esvaiu de uma pancada só. Será que era aquilo que a prefeitura de Montezuma escrevia na página oficial da administração municipal como sendo áreas de reflorestamento? Aquele horror era a destruição da flora e fauna nativas, jamais qualquer tipo de reflorestamento. Só existe um tipo de reflorestamento, isto é, aquele efetuado com espécies nativas da floresta original, no caso, do cerrado do norte de Minas Gerais.
Dei meia volta, dando as costas àquela praga do agronegócio.
À tarde usei e abusei da piscina naturalmente térmica do hotel, sem ninguém a maior parte do tempo. A temperatura da água era ideal para permanecer imerso por um tempão. Nem vi as horas passarem. Mergulhei, encostei à borda da piscina, somente com a cabeça fora da água. Lagarteei. Não fiz absolutamente mais nada. Relaxante. O sol se foi, o frio veio com tudo, e resolvi dar o fora.
Acertei com um funcionário da pousada a ida de carro ao ponto onde havia pinturas rupestres, nas tocas da serra das Macaúbas.
No caminho pelas estradinhas de chão conversamos sobre os cortadores de cana que partem do norte de Minas e do nordeste do Brasil rumo às safras de cana de açúcar nos interiores de São Paulo. O funcionário garantiu que, nas quatro safras das quais ele e os colegas da região participaram, todos foram de carteira assinada, todos receberam os direitos trabalhistas, alugaram casas confortáveis, tiraram quatro salários mínimos por mês. Ele particularmente cortou treze toneladas de cana por dia, média alta e característica dos provenientes das imediações de Montezuma, os cortadores mais produtivos do Brasil, segundo o mesmo. Ainda de acordo com ele, os cortadores sertanejos vindos das caatingas nordestinas, baianos, alagoanos, pernambucanos, cearenses, ao contrário, originários da miséria absoluta, se sujeitavam a menos de vinte reais por dia, se matavam de trabalhar sem os direitos trabalhistas previstos em lei, se amontoavam em alojamentos fétidos, sofriam estafas crônicas e constantes acidentes de trabalho. Ele acreditava que, por virem do fundo do poço, se contentavam com os poucos ganhos e as três refeições diárias, então artigos raros dos confins de onde migravam. Declarou que durante a safra paulista da cana, somente de Montezuma, partiam mais de mil cortadores para fazer um pé-de-meia. Ele mesmo, depois de quatro safras, juntou dinheiro suficiente para comprar uma casa em Montezuma. Talvez eles e os colegas fossem exceção em meio ao inferno daquele trabalho quase escravo. Ou aquelas descrições não passassem mesmo de exageros de contador de estórias.
Depois de encostar o carro na beira de estradinha estreita de areia, começamos a caminhar no meio do cerrado, sem trilha, sem nada. Abríamos caminho com o próprio corpo. Enfrentávamos o mato seco, repleto de espinhos, rochas soltas, rampas em lajedos, enormes blocos de pedra, avançando e desviando do jeito que dava. Subimos parte da serra, nos pendurando nas encostas e bicos rochosos. Voltamos a descer, andamos muito, para cá e para lá, sempre rompendo o mato sem trilha, picada ou coisa parecida. E nada de encontrar as tais pinturas rupestres.
Desbrava daqui, se arranha dali e, finalmente, horas depois, ele as achou, acidentalmente. Sob as tocas protegidas das intempéries, as pinturas apresentavam razoável estado de conservação e, num primeiro momento, sem maiores significados. O tipo do local, a inclinação da parede superior da toca, a coloração das pinturas, predominando o ocre, se assemelhavam às demais exemplares do gênero pelo Brasil afora. Identifiquei certas formas humanas e animais de um lado, geométricas e abstratas de outro.
Na volta paramos para visitar alambique totalmente artesanal, sem atividades naquela tarde de sábado. A moenda de cana era movida à tração animal, os recipientes de fermentação e destilação revelavam a precariedade dos equipamentos parados no tempo. Além da cachaça, o minúsculo engenho produzia rapadura. Abelhas zuniam ao redor do espaço que exalava forte perfume de melado.
Paramos em boteco rural. Nem me lembrei da sede provocada pelas caminhadas a esmo pelo cerrado e entornei duas doses caprichadas de cachaça branca artesanal. Enquanto molhávamos o bico, nós e mais a vendedora conversamos sobre um pouco de tudo. Já que ele nascera e se criara nas imediações, passaram a lista, um por um dos conhecidos. Quem casou, quem separou, quem se comportou, quem aprontou. A bebida e o ambiente simples ajudaram passar o tempo de maneira descontraída.
Embora o alcoolizado colega não estivesse em perfeitas condições de manejar o volante, considerando a maneira como arrancou e conduziu o carro, dali partimos para a casa dos pais dele. O casal residia em moradia tipicamente rural. Fomos recebidos tímida e calorosamente. O pai me mostrou moenda de cana do tempo do onça, toda em madeira e também movida à tração animal. O estômago vazio desde o café da manhã recebeu maravilhosamente os pães de queijo, biscoitos de polvilho e café adoçado com rapadura, tudo quentinho, fresquinho, recém-preparado pela mãe. E haja prosa sobre a vida rural, tarefas, sonhos, ideias. Impossível não se sensibilizar e mergulhar naquela atmosfera sincera, generosa, acolhedora, solidária. Bom demais da conta! E na saída, durante as despedidas, o casal ainda se lamentou que tivéssemos aparecido de repente, não dando tempo de eles matarem um porco ou uma galinha.
Somente quando cheguei ao hotel soube que eu teria direito ao almoço do final de semana. Já não estava com tanta fome. Mesmo assim, me sentei na cozinha e matei um prato de feijoada bem temperada no momento em que as cozinheiras se preparavam para sair.
À tarde entrei novamente na piscina termal. Relaxei imerso naquela água quentinha. Mais nada. E precisaria de mais alguma coisa?
As quadrilhas juninas ocuparam um quarteirão da rua central durante toda a noite de sábado, oferecendo música ao vivo, orador ao microfone, animado e animando os integrantes caracterizados a rigor, casamento caipira, duplas, voltinhas, coreografias típicas e variadas. Os moradores assistiam, balançavam o esqueleto, entravam e dançavam dentro da quadrilha.
Caminhei de manhã novamente na direção das colinas ao norte da cidade, optando por estradinhas e trilhas diferentes. Mais próximos do topo do morro me deparei com riachos e córregos completamente secos, sem uma gota d’água sequer. Efeitos da antiga mineração ou das ações insustentáveis das monoculturas de eucalipto que infestavam o tabuleiro das serras?
Reservei a tarde para merecidas preguiças, intercaladas de leituras e imersões nas águas termais. Não fiz e não quis fazer absolutamente mais nada até o anoitecer.
Saí do hotel antes do amanhecer. Embarquei ainda no escuro no único ônibus que partia de Montezuma. Fazia frio. E estava em jejum.
Já na agência de passagens em Rio Pardo de Minas tive a grata surpresa que a única empresa a monopolizar a região cancelara a linha para Salinas ou mesmo até Taiobeiras. Nenhum transporte coletivo oficial levava passageiros para essas cidades. O funcionário da bilheteria me sugeriu caminhar alguns quarteirões e esperar táxi lotação. Clandestino, é claro.
Lá apareceu um carro particular, com chapa cinza, não um táxi, oferecendo transporte para Taiobeiras. Em seguida entrou uma senhora com as três filhas, mais um rapaz na saída da cidade. E lá fomos nós pela estrada asfaltada em transporte ilegal e sem segurança. A senhora rogava para o motorista dirigir devagar. Ele, por outro lado, se preocupava com possíveis fiscalizações que certamente reteriam o carro e a carteira dele. E, detalhe, nos deixaria na beira da estrada.
Desci na rodoviária de Taiobeiras, onde, finalmente, comprei passagem para Salinas em ônibus regular. E da mesma empresa que cria e altera os itinerários, cancela linhas, ao bel prazer, de olho somente nos lucros, jamais na prestação de serviços aos passageiros. Aproveitei para enganar o estômago, engolindo dois pães de queijo e café com leite na lanchonete do terminal.
Já na rodoviária de Salinas, providenciei outra passagem pela mesma empresa de sempre. Esperei horas a partida do quarto e último transporte do dia.
O ônibus desceu mais o relevo, agora rumo ao vale do rio Jequitinhonha. Parada rápida na inclinada Rubelita, cidadezinha com uma só entrada e saída, toda construída em nível abaixo da rodovia.
O ônibus oscilava através de relevo acidentado, asfalto estreito e sinuoso, cruzando córregos e riachos secos. Passamos ao lado de mineração de feldspato, em condições precárias e sem segurança, emitindo poeira em grande quantidade.
Desembarquei oco, cansado, sonolento, em Coronel Murta no meio da tarde, depois de doze horas através de quatro transportes a partir da não tão distante cidade de Montezuma.
Arrisquei hotel cujo quarto, no andar de cima, empoeirado, repleto de pernilongos, com duas janelas de alumínio, outras inteiramente vazadas, banheiro precário, oferecia espaço suficiente e diária barata. Tomei banho caprichado no chuveiro de frente à janela sem vidro, exposto aos passantes da rua lá embaixo.
Jantei comida saborosa e bem temperada no bar e restaurante por quilo na parte de baixo do próprio hotel. Andei pelas ruas próximas. O sono, no entanto, me fez retornar ao quarto e desabar na cama bem cedo. A temperatura caía à noite e a maioria dos pernilongos desapareceu. Bastou abrir as janelas do quarto, ventilar, resfriar o ambiente interno.
continua...

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