sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Norte de Minas Gerais-5 (parte 2/5)

                                      
...continuação
            Pela manhã troquei para o quarto mais espaçoso do andar superior. A má conservação, com tudo caindo, se desintegrando, se soltando, no entanto, continuava a mesma.
A cidade aplainada e com traçado quadriculado de Manga nada oferecia de atrativos arquitetônicos ou urbanísticos. A meia dúzia de casas do início do século XX, espalhadas e esmagadas entre construções sem personalidade, mal apareciam e nada representavam historicamente. As poucas praças cultivavam o péssimo costume dos interiores brasileiros de mutilar geometricamente as raras árvores, comprometendo a já reduzida área de sombra em cidade quente e ensolarada. O caudaloso rio São Francisco atraía pela imponência. E abundavam farmácias e drogarias em Manga. Nunca tinha visto tantas delas concentradas em tão pouco espaço. Permaneciam sempre às moscas com os balconistas olhando para o nada.
E verifiquei mais preciosidades no hotel “cinco estrelas” onde me hospedei. Eles cobrem as camas, todas elas, em todos os quartos, apenas com o lençol de baixo. Mais nada. Pedi o lençol de cima. A recepção estranhou. Os funcionários procuraram, mas não havia nenhum disponível além dos quatro de casal existentes em todo o estabelecimento e já usados como lençol de baixo em outros quartos. Ofereceram um de solteiro, retirado da cama de um quarto vago, o qual ficou só com o colchão exposto. Todos os lençóis e fronhas apresentavam manchas de diversas cores, tamanhos e tipos, algo parecido com intervenções artísticas decorrente do uso e da idade dos mesmos. O registro da torneira da pia às vezes liberava água com pressão, às vezes apenas um fio fino. A própria pia estava solta, podendo despencar no meu pé a qualquer momento, e vazava por cima da cuba. Havia somente pedaços ou simples sinais do que foram os cabides do banheiro, suporte para sabonete, toalhas, papel higiênico. As tomadas e fiação exposta do quarto instigavam a choques, curtos circuitos e incêndios. Mas nada como um dia após o outro para a gente se acostumar com tudo.
Uma saborosa peixada de surubim com arroz e pirão encerrou a noite em restaurante da praça principal da vida noturna.
Atravessei o São Francisco de balsa e subi em moto-táxi na outra margem que me levou a Matias Cardoso, doze quilômetros rio acima. A atração principal ficou por conta da pesada igreja em frente à praça ampla e sem sombra. Construção do século XVII, sem forro, com as madeiras de sustentação do telhado à vista, solidez de fortaleza, a igreja impressionava pelas dimensões e suntuosidade em cidade tão pequena. O altar e a sacristia, apesar de desprovida de cores e brilhos chamativos, impunha respeito pela idade e arcos retorcidos.
Em frente a uma casa, um senhor expunha aparelhos eletrônicos velhos, usados, esparramados pela calçada, sob o sol quente, para exibição, venda ou sei lá o quê. Mas para quem, numa cidadezinha pacata e sem movimento? Ele me pareceu com problemas de raciocínio e encadeamento de ideias. Receoso de não conseguir sair dali, evitei puxar assunto ou fazer perguntas.
Dividi táxi lotação e retornei à margem do rio em frente à Manga para pegar a balsa.
No restaurante, onde repeti a deliciosa peixada de surubim, precedida de duas doses de boa cachaça, havia despedida de uma moradora da cidade junto a colegas, amigos, familiares. Contrataram músico local, que interpretou, além dos sucessos previsíveis de outros, composições próprias, em estilo de cantador sertanejo, bastante interessantes. Enquanto isso, na longa mesa de convidados, poucos assuntos, muitos olhares de inveja e intrigas, revelando clima nada amistoso entre a maioria dos presentes. Abundavam as olhadas compulsivas aos relógios e telefones celulares.
A arrumadinha e limpa Manga, era silenciosa à noite, mas barulhenta durante o dia, como de praxe nos interiores. As lojas instalavam caixas de som nas calçadas e dá-lhe música alta e chamadas comerciais. Propaganda ambulante sobre reboques puxados por motos, carros ou bicicletas, bombardeavam mais publicidade e música, bem alto obviamente. E, vez ou outra, um veículo particular passava com o som no último volume.
Presenteei o recepcionista do hotel com um livro lido. Talvez por isso tenha ganhado mais desconto no valor das diárias. De tanto abaixarem a tarifa, fiquei na dúvida do preço real do quarto.
O ônibus provisório partiu à tarde do terminal rodoviário de Manga. Embarcou na balsa, cruzou o São Francisco, estacionou na margem oposta, onde já se encontrava o ônibus definitivo, para o qual foram transferidos os passageiros e as bagagens. E partiu rumo à rodovia aplainada, ladeada por plantações de frutas, cerrado, caatinga, campos.
O veículo cruzou a horrorosa cidade de Jaíba, esparramada ao longo da rodovia, sem centro, sem cara de cidade, sem cara de nada.
Desembarquei na rodoviária de Janaúba ao anoitecer, em meio à festa no parque de exposições bem ao lado do terminal. O evento ocupou todas as vagas dos hotéis das imediações, os bons e os ruins, caros ou baratos. Caminhei quarteirões com a mochila nas costas até um hotel com apenas um quarto vago. O vento encanado no poço central da construção de cinco andares uivava pelas janelas do quarto e do banheiro, garantindo a bem-vinda ventilação.
Saí para jantar e para matar a fome bem matada. Encontrei inúmeros bares e restaurantes. Impressionante a poluição sonora vomitada dos porta-malas dos carros dos tais da cidade, estacionados bem em frente. Mesmo que eu gritasse, seria impraticável qualquer diálogo com os garçons. Os clientes berravam uns com os outros, sentados ou em pé ao redor das mesas. Impossível até ouvir o próprio pensamento. Dei meia volta e fugi daquilo. Entrei em lanchonete de rua, mais tranquila, ou que ainda não fora atacada pelas gangs do som ensurdecedor. Encerrei a noite naquela cidade apenas de conexão.
Baixei na rodoviária bem cedo. Comprei a passagem sem assento marcado em ônibus procedente de Montes Claros. E esperei, esperei muito. Enquanto isso, a tal feira agropecuária corria solta ao lado do terminal. O agronegócio patrocinava mais um daqueles eventos de propaganda, exibições de peças, animais, acessórios. Mas o que atraía mesmo o público eram as apresentações musicais, lotando as dependências internas do parque de exposições a trinta reais por cabeça, em cidade sem quaisquer alternativas culturais. O mesmo acontecia com as cidades vizinhas, cujos moradores afluíam a Janaúba para ver os ídolos de perto.
O ônibus só foi chegar no meio do dia, lotando imediatamente.
A paisagem começou a chamar atenção com a cadeia do Espinhaço, ali denominada de Serra Geral. Pude apreciar os paredões rochosos e esbranquiçados ao longe. As jovens passageiras ao lado, moradoras de Espinosa, não se cansavam de descrever as maravilhas da noite passada durante a apresentação da dupla sertaneja Vítor e Leo. Esgotadíssimas, de ressaca, só pensavam em quando teriam outra oportunidade de assistir exibições assim e paquerarem à vontade rostos desconhecidos.
Desembarquei na rodoviária de Mato Verde. Caminhei até o hotel afastado do centro e da rodoviária, mas oferecendo a vista da linha de montanhas da Serra Geral iluminada pelo entardecer.
Dei volta noturna pelo centro da cidade, pela praça dos lanches, pela praça da matriz moderna, onde havia festa em homenagem a Santo Antônio. Comes e bebes, mesas e cadeiras lotadas ao redor da quadra vazia, muita gente circulando, um palco onde se revezavam bandas tocando o padrão comercial.
Pela manhã, o vento incansável uivava e batia nas janelas do salão vazio do café. Dali eu via os campos e sítios e, mais distante, as montanhas da Serra Geral.
Atravessei a rodovia. Logo no começo da estrada de chão consegui carona na carroceria de caminhão. Desci no povoado de Melancias e iniciei a caminhada na estrada encascalhada.
O céu nublado ofuscava a paisagem agreste e ressecada. As montanhas de Serra Geral, ainda distantes, se cobriam de nuvens cinzentas até a metade. Mais adiante avistei paredão rochoso do topo do qual vertiam quedas d’água separadas, formando conjunto impressionante. A estradinha, agora mais estreita, descia o relevo. Margeei casas isoladas, pequenas plantações, criações de animais. No fundo do vale, o riacho que vinha da cachoeira e a imagem do paredão com as quedas d’água apareciam mais nítidos.
O tempo nublava mais e mais, começando a garoar. As pernas davam sinais de cansaço e eu ainda nem completara a metade da distância.
Retornei sob a garoa intermitente e refrescante. Proseei com morador em Melancias antes de respirar fundo e botar o pé com firmeza na estradinha de volta a Mato Verde, justamente pelo trecho que percorrera na carroceria do caminhão. O tempo e o visual melhoraram nas proximidades da cidade, com trechos fascinantes da Serra Geral, entre paredões rochosos quase verticais.
No meio da tarde as nuvens engrossaram, escureceram, baixaram, encobrindo o horizonte das montanhas. A garoa acentuou, despencou a temperatura, tudo ficou cinzento e frio. Mais à noite, nublado e com pequenas aberturas, frio suave e sem vento intenso, pude sair sem sustos.
Perto do hotel um bar abriu com cardápio reduzido a espetinhos variados acompanhados de farinha e vinagrete picante. Detonei seis espetos. E ainda saboreei duas doses generosas de cachaça branca, artesanal, sem rótulo. O som precário da casa vinha de dvd´s transmitidos em televisão pequena, a maioria deles com defeito, pulando ou travando nas faixas. Melhor assim. Os ouvidos agradeciam. Comi bem, bebi bem, na beira da BR-122, extremo norte de Minas Gerais. Dei volta rápida pelo centro da cidade para ajudar na digestão. Observei as casas com platibandas ornamentadas, costume frequente por aquelas paragens, e o silêncio profundo das ruas.
Nas imediações da cidade vizinha de Monte Azul as montanhas altas e instigantes se erguiam do outro lado da rodovia. Caminhei poucos metros e me dei diante de cercas. O lavrador que carpia a roça seca nas proximidades do arame farpado me sugeriu caminhar rente à cerca ou procurar veredas de gado, através das quais, garantiu ele, eu atingiria a colina, do topo da qual eu obteria visão desimpedida das montanhas.
Caminhei horrores, me enchi de espinhos nas botas, meias, bermuda, camiseta. Nada de trilhas ou veredas. E me embrenhei ainda mais no mato baixo e seco. Mais espinhos e arranhões alongados nas pernas. Passei por entre arames farpados, encontrei trilha bombardeada de bostas de vaca, frescas e secas. O dia ensolarado auxiliava na apreciação das montanhas exuberantes. E que serras, que paredões, que montanhas! Eram imagens de cair o queixo. Acabei batendo num curral e estábulo, com ainda mais bosta de vaca. Cruzei as inúmeras divisões cercadas de madeira. Escalei e pulei o alto alambrado. E atravessei novamente o asfalto da BR-122.
Andei pelas ruas de Monte Azul, morro abaixo, atingindo o centro da cidade. Matei a sede e comi comida comível. Aproveitei as dependências vazias da rodoviária para me sentar, tirar botas e meias, remover espinhos, carrapichos, areia, terra, pedras e demais itens dos pés. Ainda bem que nenhuma vítima por perto teve o desprazer de compartilhar o cheiro marcante que emanava daquelas meias suadas.
De volta a Mato Verde, aproveitei para caminhar apreciando as montanhas iluminadas pelas luzes do fim de tarde. Casebres da margem da rodovia e mesmo um pequeno cemitério emolduraram aquela pintura. Nem lembrava mais os arranhões, cortes, carrapichos, espinhos, grudados e enfiados pelo corpo todo.
À noite não titubeei. Repeti o jantar no bar dos espetinhos. Em noite mais quente, mais mesas se ocupavam, mais animação entre os frequentadores. E contemplei a lua cheia brilhando no céu estrelado, entre uma abocanhada e outra no espeto de linguiça caseira, antes ou depois do gole de cachaça artesanal, branquinha, purinha. Veículos leves e pesados, ônibus clandestinos e oficiais, trafegavam de maneira esparsa pela BR-122. Apenas algumas árvores me separavam da rodovia. E eu pedia mais espetinhos de porco, coração, linguiça caseira. E sempre molhando a garganta com doses da pinga alambicada nas redondezas. E lançava mais olhares à lua cheia.
O vento uivava com tudo logo pela manhã. Mas o céu amanheceu azul e sem nuvens. Apenas a névoa e a poeira em suspensão pela ventania persistiam no horizonte.
O único jeito de conhecer sem pressa a estrada de acesso e a própria cidadezinha de Santo Antônio do Retiro era por táxi contratado entre os muitos que se juntavam ao lado do terminal rodoviário de Mato Verde. Não havia linhas de ônibus, lotação ou qualquer forma de transporte coletivo, público ou privado, oficial ou clandestino, naquele trecho, ainda que em asfalto novo e bem conservado.
As paisagens ao longo da subida de serra se compuseram de curvas fechadas, visão da planície desde o alto, algumas formações rochosas da parte alta, casas e povoados isolados. Áreas de recuperação ambiental, cercadas e protegidas, apareciam na subida e alto da serra. Aquelas extensões tinham sido infestadas anteriormente pelo deserto verde das monoculturas de eucalipto. O plantio foi suspenso pelas autoridades ambientais do estado, iniciando então processo de reflorestamento com espécies nativas do cerrado original.
A minúscula cidadezinha de Santo Antônio do Retiro não tinha cara de nada, excetuando uma ou outra casa velha, entre inúmeras novas e sem graça.
Encarei o restaurante por quilo do restaurante do posto de combustíveis de Mato Verde, de comida apenas comível, mas aparentemente a única opção diurna na cidade.
Passageiros de ônibus clandestinos abrilhantaram a companhia durante a refeição, antes de reembarcarem em veículos nada confiáveis que os levavam do interior da Bahia para o interior de São Paulo. Os motoristas utilizavam rotas alternativas, em veículos em péssimo estado de conservação, interna, externa, mecanicamente. Pneus carecas, assentos em número acima do suportável na intenção de enfiar mais gente e aumentar o faturamento, aperto e desconforto geral, riscos de acidentes e bloqueios pela fiscalização rodoviária. Os passageiros pagavam menos da metade do valor cobrado pelas empresas oficiais de ônibus. A placa de um deles, fria ou não, era da cidade paulista de Icem. A maioria seguia para o trabalho de semiescravidão ligado à indústria do corte de cana de açúcar durante as safras nas fazendas do agronegócio, setor muito “moderno” segundo os testas-de-ferro e a mídia burguesa.
E me liberei na parte da tarde. Não queria e nem precisava fazer nada.
continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário