quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Inglaterra (parte 1/2)

Quatro meses após o retorno da viagem de mais de sete meses pela Ásia, partimos para outra aventura. Ela desejava aperfeiçoar os conhecimentos na língua inglesa na Inglaterra. E tínhamos a expectativa de, após o curso, seguirmos por terra até a Índia, através da Turquia, Síria, Irã, Paquistão.
Em agência de intercâmbios e cursos de línguas no exterior nos matriculamos em escola de Londres, incluindo estadia em residência familiar.
Em meados de setembro embarcamos em voo para Londres, com conexão em Zurique na Suíça.
Televisores espalhados em todos os cantos da aeronave torturavam os passageiros com repetidas e monótonas imagens da posição evolutiva do avião no oceano atlântico. A empresa aérea suíça exibia, nos mesmos televisores, detalhes da velocidade do avião, temperatura externa, altitude, distância percorrida, distância a percorrer, tempo decorrido, tempo restante, em três línguas, em três unidades de medida. Nada de filmes ou documentários, somente aquela tortura inútil.
Enfrentamos longa fila no setor de migrações do aeroporto internacional de Londres. Apresentei o formulário de matrícula da escola de inglês, a passagem de volta, respondi às diversas perguntas. E o funcionário insatisfeito queria saber quem eu conhecia na cidade e onde trabalharia para me sustentar. E eu repetia tudo novamente. E ele fazia novamente as perguntas racistas de sempre. O impasse ridículo resolveu-se subitamente quando a apontei no balcão ao lado como se fosse minha mulher. A coisa mudou radicalmente. O dito cujo até sorriu, forneceu o visto de três meses e me liberou.
Pegamos o metrô no aeroporto e, depois da conexão de linhas, descemos na estação Highgate. Alcançamos a rua residencial e tranquila de nosso lar inglês.

Dentro do sobrado revestido de tijolinho, como não poderia deixar de ser na Inglaterra, a advogada de trinta e poucos anos nos levou ao quarto, nos explicando como tudo funcionava. Em gravidez avançada, tinha um filho pré-adolescente e recebia a ajuda de uma discreta empregada trintona. Os quatro pisos do sobrado acomodavam, com conforto, vários quartos, banheiros com água quente e abundante, limpeza, organização, sossego. Uma espanhola arrogante, a trabalho na Inglaterra, se hospedava em quarto privativo.
Deixamos as coisas no quarto amplo e, a fim de evitar o sono que nos cercava, fomos dar voltas no centro de Londres. Comemos bem, reconhecemos os arredores meio por cima e voltamos para casa.
Caímos no gostoso banho quente de um dos banheiros coletivos e desabamos na cama. Nem precisamos ligar o aquecedor. Apenas fechamos a janela de vidro duplo, que dava para o quintal arborizado da casa, para mais árvores, para o conjunto de quadras de tênis mais ao fundo.
Dormimos bem e bastante. O café da manhã na cozinha da casa era livre e podíamos comer o quanto quiséssemos. Arregaçamos as mangas e nos servimos de cereais, leite, torradas, manteiga, suco de laranja industrializado, chá.
De bate pronto seguimos à escola de inglês instalada em casarão nos altos do bairro de Highgate. Após leve preleção e teste escrito, chamaram cada aluno individualmente para entrevista e teste oral. E nada mais. Somente no dia seguinte seríamos distribuídos nos níveis e salas específicos. A esmagadora maioria de orientais entre os alunos era espantosa. Simpáticos e educados, apenas arranhavam, e mal, a língua inglesa.
O surpreendente tempo claro e ensolarado continuava. Aproveitamos para passear mais pelo centro da cidade.
Na manhã seguinte, o primeiro dia de aula decepcionou a mais não poder. Caí em sala com doze alunos, onde o professor falava demais, seguia militarmente o livro, não permitia aos alunos praticarem. E, em quatro horas brutas de aula, a escola desperdiçava quarenta minutos em intervalos desnecessários.
Além de informações de pequenos furtos e batedores de carteira, os vagões do metrô de Londres revelavam sujeira acumulada nos bancos e cantos do piso, entre garrafas, latas, jornais, plásticos, comida. Vez ou outra, víamos passageiros lendo tabloides e comendo sanduíches. Ao chegar a estação do desembarque, eles simplesmente largavam o jornal sobre o assento do lado direito, o resto da comida sobre o assento do lado esquerdo, e saíam do vagão impunemente. Não eram imigrantes ou turistas, mas britânicos legítimos.
No entanto, apesar da absurda lotação nos horários de pico, o metrô londrino funcionava com eficiência e cobria a maior parte da cidade. Nos eventuais enguiços ou suspensões temporárias de linhas, os funcionários escreviam a mão e às pressas a comunicação dos problemas e as sugestões de alternativas em quadros negros afixados nas paredes ou armados no chão das estações.
À noite na escola tivemos sessão opcional de filme falado em inglês e sem legendas. Lamentando que os filmes fossem dublados nos cinemas da Itália, o italiano da minha turma comentou que era a primeira que ouvia as vozes originais dos atores.  
Caminhamos ao cemitério de Highgate, ao lado do parque do bairro, no qual se situava o túmulo e o busto de Karl Marx. Em outros trechos, o cemitério apresentava lápides e tampas de túmulos deslocadas, tortas, quebradas, brotando mato por entre as rachaduras. O cenário não poderia ser mais apavorante e típico de estórias de terror.
O curso prosseguia entre momentos altos e baixos. Mais baixos que altos.
Compramos salame, queijo, pão italiano, vinho, frutas e seguimos ao parque Waterlow. O tempo abriu e o sol brilhou. Escolhemos banco em frente a extenso gramado e nos deliciamos com o banquete.
Partimos em ônibus da escola rumo a Bath, cidade que pertencia aos roteiros opcionais de fim de semana. Os japoneses, obviamente, eram maioria entre os passageiros, seguidos de suíços e brasileiros.
Entupida de turistas, Bath guardava arquitetura antiga, ruas estreitas, catedrais e, claro, os famosos banhos romanos. Apesar de pouca coisa remanescente, pudemos apreciar o eficiente uso das águas naturalmente termais por entre canais, piscinas, tanques. Restos de colunas originais, entalhes em pedras e objetos pessoais antigos completavam o conjunto. Entramos em padaria e comemos sanduíche de atum e salada, servido em pão baguete quente e fresco.

Retornamos ao nosso lar londrino à noite.
Fomos assistir ao que eu nunca vira e sempre evitara em todas minhas passagens por Londres, a internacionalmente famosa troca da guarda no palácio de Buckingham. E eu fizera bem em não assistir antes a espetáculo tão deprimente, insípido, monótono, sem graça, sem brilho. Ingleses e turistas do mundo inteiro entupiam as redondezas, disputavam febrilmente os melhores lugares para ver e fotografar aquelas cenas de realeza em pleno final de século XX.
Subimos em barco na estação de Westminster e descemos o rio Tâmisa até Greenwich. Após a Torre de Londres, o que dez anos antes se resumia a áreas degradadas com armazéns e fábricas abandonadas, passou a região nobre ocupada por edifícios residenciais voltados às camadas mais ricas da cidade.
Greenwich tratava-se de local dos mais belos e agradáveis dos arredores de Londres. Tranquilo, pitoresco, muito verde no parque deslumbrante decorado com jardins floridos, rosas, esquilos, a vista privilegiada da cidade.
Em Londres contemplamos o pôr-do-sol no parque St James e, em seguida, sorvemos o burburinho contagiante nas imediações da praça Leicester.
Dois franceses de meia idade inscreveram-se para o curso de inglês e se hospedaram na mesma casa onde ficamos. Sabedores de que a dona da casa morara na França, o casal passou a conversar com ela em francês, perdendo a oportunidade rara de praticar o inglês. Impressionante a piada pronta! Fiquei perplexo com tamanha esperteza e inteligência do casal francês.
A cada aula que assistia na escola, mais eu tinha certeza que tudo não passava de grande enrolação para tirar dinheiro de estrangeiros deslumbrados com o exterior. A escola dividia os estudantes em níveis somente na aparência. Quanto mais alunos por sala, mais barato para a escola. No final das contas, o lucro era o critério essencial dos proprietários daquele estabelecimento privado.
E as horas passadas na sala transformavam-se em divertidos momentos de lazer. Os professores, ou melhor, os animadores, mantinham o astral. O tempo corria velozmente, mas pouco ou nada aprendíamos. Não davam oportunidade para tal. Os alunos praticamente não falavam. E isso em salas com mais de doze alunos e a preços exorbitantes. Em qualidade educacional, a escola perdia feio para as similares brasileiras.
Durante o café da manhã, respondendo às sugestões da dona da casa de assistirmos aos famosos musicais britânicos no teatro, agradeci respondendo que não gostava desse gênero. Minha opinião soou como terremoto, como agressão brutal à honra nacional. Sentindo-se ofendida em nome de todos os ingleses, a advogada rosnou que aquilo era absurdo e saiu da cozinha batendo os saltos. A espanhola arrogante fez coro às indignações britânicas, me olhando como se eu fosse alienígena. Talvez elas não estivessem acostumadas a conviver com outras opiniões e gostos. E dei vivas à diversidade cultural e à tolerância diante das diferenças!
Na parte da tarde, pegamos os livros e fomos ler sob o sol morno no parque Waterlow.
À noite, minha turma e mais três dos professores saímos para jantar em restaurante de comida da Malásia, localizado no próprio bairro de Highgate. Noite agradável, entre bons papos e comida saborosa.
O curso completava a primeira metade. Conversei com diversos alunos e a conclusão era que ali estava mais para centro de diversões e contatos sociais do que para autêntica escola de inglês. Crescia o número de insatisfeitos, porém a maioria preferia deixar como estava. Outros se contentavam em estar entre pessoas, pelo ambiente divertido e agradável, em fazer novas amizades.
continua...

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