quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Portugal e Espanha (parte 1/3)

Diferentemente das demais já realizadas, essa não seria apenas uma viagem de lazer.
O Brasil vivia o primeiro ano do capitalismo neoliberal do governo Collor que confiscara o dinheiro dos correntistas. O patrimônio e os lucros dos ricos da classe dominante, como de praxe nos governos burgueses, permaneceram protegidos. A recessão bateu em cheio no país e o desemprego foi às alturas. Os salários dos que se mantinham empregados foram congelados por baixo, enquanto que os preços foram controlados por cima, para alegria dos capitalistas brasileiros e estrangeiros que sustentavam o governo Collor.
A ideia de viajar a Portugal e depois para lá mudar com ela, cidadã portuguesa, brotou com força. Recentemente ingressado na comunidade econômica europeia, o país recebia toneladas de investimentos dos países ricos. Investimentos que, obviamente, seriam cobrados com juros e correções mais tarde.
Embarquei sozinho rumo à capital portuguesa no início de novembro.
Os sogros me esperavam em Lisboa, de onde seguimos para o Cacém, subúrbio da capital. Nem bem cheguei, comecei a levantar, perguntar e anotar os preços e condições de tudo.
Cacém contava com construções novas e parecidas, não ultrapassando os dez andares. A maioria dos apartamentos não tinha área de serviço, restando aos moradores pendurarem as roupas do lado de fora das janelas. Com comércio autossuficiente, o trânsito local se agitava. Era preciso ter cuidado para não tropeçar ou cair nos buracos das ruas e calçadas. O destaque dos comes e bebes ficava por conta das pastelarias, uma mistura de café, lanchonete e confeitaria, servindo doces, salgados, bebidas, almoços.
Dentro do circuito Oeiras, Cascais, Estoril, praia das Maçãs, Sintra, arredores de Cacém, o trecho entre Oeiras a Cascais lembrou o sofisticado litoral mediterrâneo voltado ao turismo dos ricos. A sinuosa costa contava com praias de mar bravo, dezenas de hotéis, restaurantes, cassinos. Ruas em curva, colinas, becos, palácios, predominavam em Sintra. O palácio da Pena erguia-se no alto da colina, rodeada de bosque muito verde e frio. Mas estava fechado.
Ganhei alforria para passear livremente pelo centro de Lisboa. Peguei o velho, limpo e eficiente trem até a estação ferroviária do Rossio. Ainda se viam pessoas mais velhas vestidas inteiramente de preto. Os homens cobriam as cabeças com boinas, as mulheres usavam panos, invariavelmente pretos. Favelas e barracos de madeira surgiam em terrenos desocupados.
O Bairro Alto guardava becos, ladeiras, vista panorâmica de Lisboa, casas antigas com pequenas sacadas, roupas penduradas ao sol. Idosos muito velhos conversavam nas esquinas. Até os produtos comercializados por ali eram velhos. Bondes circulavam para lá e para cá.
Caminhei pela rua Augusta, cruzei os arcos rumo à praça do Comércio, na margem do rio Tejo, em cujo pequeno cais os barcos levavam passageiros para Almada e arredores. Em número reduzido lá estavam mendigos, bêbados, vagabundos perambulando pelas ruas do centro. Era evidente a pobreza e a carência de recursos de parte da população.
A novela brasileira Tieta reinava absoluta no horário nobre da televisão portuguesa. O país parava para assisti-la e tudo mergulhava em profundo silêncio. Os noticiários pareciam produzidos em série para todos os canais, tamanha era a semelhança entre eles, nos temas abordados, comentários, posições. E apontavam para o rígido controle sobre as mentes e para a ausência de liberdade de imprensa. Não adiantava mudar de canal. As “notícias” se restringiam à rebelião de presos em Alicante, renúncia do presidente do partido conservador inglês, visita de Mário Soares ao Japão, problemas internos no Partido Comunista Português, subornos a juízes de futebol, furacão nas Filipinas. Era o oligopólio dos meios de comunicação em carne viva. Como no Brasil. Os telespectadores mergulhavam em sepulcral silêncio na sala, entre olhares e expressões bovinas. Nada de questionamentos ou comentários críticos.
Erguido na colina do lado oposto ao Bairro Alto, misturada às árvores, o castelo de São Jorge proporcionava vista privilegiada de Lisboa. Entre os muros cobertos de ameias, escondiam-se jardins internos, muito verdes e pitorescos. Além da exploração dos meandros do castelo, os bancos sob a sombra permitiam descansar, ler, observar o movimento dos transeuntes no centro da cidade, lá embaixo.
Segui ao bairro da Alfama, bem mais atraente que o Bairro Alto. Becos mais estreitos, sinuosos e íngremes, casarões antigos distribuídos em ambiente instigante. Como verdadeira viagem no tempo, tudo na Alfama era velho, moradias, pessoas, lojas, adegas, casas de fado, restaurantes.
O número excessivo de carros não encontrava vagas suficientes para estacionar. Sobravam para as calçadas entupidas de veículos e para os coitados dos pedestres, ou peões, como se chamavam em Portugal, que faziam malabarismos para vencer os obstáculos sem serem atropelados nas ruas.
Ao contrário dos demais países europeus que eu tinha visitado em outras oportunidades, em Portugal as pessoas se notavam, se olhavam, conversavam.
Passamos pelo parque Eduardo VII, cujo excesso de simetria e a ausência de verde me deram vontade de sair logo dali. Almoçamos e jantamos no restaurante favorito do casal, nos deliciando com caldeirada de cabrito e arroz de mariscos. Entre as sobremesas, a maçã assada e o pudim de clara, lá batizado de pudim molotov.
Com um parente mais jovem saí pela noite de Lisboa. Percorremos o Bairro Alto, São Bento, Alfama, Chiado, onde ocorrera incêndio criminoso havia poucos anos. A noite fervia no Bairro Alto, valorizado pela fraca iluminação, pela disposição dos bares e restaurantes em becos estreitos e curvos. Poucos olhares, muito desfile e exibição.
O clima quente e seco ameaçava mudar. Seria o fim do veranico, ou do verão de São Martinho como denominavam os portugueses, retornando ao outono propriamente dito. Almoçamos na casa de parentes do lado do sogro.
Sentado na ponta da mesa lotada, o mais idoso estava em fase adiantada de cegueira decorrente de diabete mal cuidada. Nem por isso deixava de cantar louvores à ditadura de Salazar, que mergulhou o povo português nas trevas da idade média durante várias décadas do século XX. Segundo ele, e com a concordância da maioria dos presentes, foi um erro o fim daquele regime após a revolução dos Cravos em abril de 1974. E também condenou a “entrega”, pelo governo português, das colônias africanas aos “negros selvagens”. Em voz sempre alta e pausada, aquele senhor insistia que os portugueses e africanos viviam na maior felicidade e prosperidade antes daqueles “equívocos políticos”.
Enquanto ele discursava, e a maioria ouvia e concordava, eu aproveitava para mergulhar de cabeça na deliciosa comida portuguesa servida em várias travessas sobre a mesa. E jamais deixava minha taça se esvaziar do primoroso vinho tinto.
Mas as doces opiniões do saudoso da ditadura não duraram para sempre. Alguém ligou a televisão da sala. Pronto, todos se calaram, todos pararam de comer, viraram os rostos, deitaram olhares para a telinha. Pareciam hipnotizados. Não importava o que era transmitido. Ninguém piscava ou balbuciava nada. Os portugueses se calavam e se irritavam quando alguém ousava abrir a boca.
À tarde comparecemos a festa de aniversário em casa de parentes do lado da sogra, situada no bairro de São Francisco. Muitos me cercaram e me encheram de perguntas, a maioria sobre as telenovelas brasileiras, expressões citadas pelos personagens, quem ficaria com quem no final da trama e outras dúvidas vitais para o destino da humanidade.
Acabei por dormir ali mesmo. A dona da casa me indicou quarto coletivo, acessado por escada estreita e íngreme de madeira. Colchões se espalhavam pelo chão. Deitei no que me foi reservado. Os adolescentes continuavam a festa lá embaixo, regados a muita bebida e música alta. Só sossegaram no meio da madrugada e despencaram nos colchões completamente bêbados.
Meus futuros companheiros de viagem me acordaram cedo. Encarei o único banheiro da casa, escuro, sujo, com paredes semiacabadas, fedendo a esgoto. O casal se sentou na frente do carro na viagem. Fiquei atrás ao lado de uma senhora idosa que jamais abriu a boca.
O relevo mantinha-se ondulado, em terreno pedregoso, abrigando esparsas plantações, oliveiras, parreirais, raras árvores frutíferas. Mesmo as localidades próximas de Lisboa apresentavam-se pobres. O local do almoço, na beira da estrada e tão elogiado pelo casal, não passava de espelunca suja, desconfortável, com comida insípida. Até o vinho desagradou.
Embora simpático e hospitaleiro, o casal criava clima pesado no carro, restaurantes, visitações. Para lá de histérica, ela só falava aos gritos e se dirigia a todos como se fosse brigar. Extremamente nervoso e cheio de tiques, ele fingia aceitar as loucuras da esposa. E arrotava alto, em qualquer lugar.
Visitamos o enorme e impressionante mosteiro de Santa Maria da Vitória, datado do século XIV. E passamos pelo deprimente santuário de Fátima. Em amplo local de concreto, inundado de estacionamentos e vendedores ambulantes de bugigangas religiosas, aquele cenário cinza com a estátua moderna da santa no meio do nada doía aos olhos.
Seguimos, então, à casa de campo do casal. Localizada na vila de Boleiros, a construção com rachaduras nas paredes caía aos pedaços de tão velha. Por fora e por dentro acumulava-se sujeira e abandono, somada ao frio cortante. Aquecimento de água, nem pensar.
Para espantar o frio mesmo dentro da casa, ele resolveu acender o fogão à lenha. Verde ou úmida, a madeira queimada provocou muita fumaça cobrindo tudo. Não se via mais nada dentro da casa. Então começaram as tosses. As janelas e portas permaneciam fechadas. Até esquentou ligeiramente. Porém, com os olhos ardidos e dificuldades de respirarmos, eles abriram as janelas e portas, sempre aos gritos, desesperados. O vento dissipou a fumaceira, mas trouxe novamente o frio que tanto queríamos evitar. A casa manteve-se aberta e o fogão à lenha aceso. E, como resultado, o pior dos mundos, vento, frio, fumaça. Sem falar no festival de gritos, agressões verbais, acusações mútuas do casal pela desgraça alcançada.
O casal tinha dois filhos que passavam por dificuldades financeiras. Com as respectivas esposas, ambos vieram jantar. Um calibrava pneus em posto de beira de estrada. O outro se vangloriava de ter comprado um carro velho por uma fortuna. A mulher de um deles ganhava misérias como caixa de supermercado.
Embora de maneira alguma mal tratado ou desrespeitado, o ambiente e o comportamento explosivo de todos, no entanto, me impediam de relaxar.
À noite, ela serviu deliciosa costeleta de porco e purê de batatas, regada a vinho tinto soberbo, adquirido por ele junto a antigos colegas de seminário. O desconforto das gritarias, discussões enfurecidas, fumaça, frio, se evaporaram diante daquele autêntico banquete interiorano.
Não demorou muito a ligarem a televisão. Acabaram-se os gritos e brigas, mas também as conversas. Todos prenderam a respiração. Não pronunciaram nenhuma palavra. Não importava o programa em exibição. Quem cometesse o crime hediondo de falar algo seria logo repreendido com gritos e acenos nervosos.
Os gêmeos e as respectivas se retiraram, as luzes se apagaram, a casa mergulhou no silêncio. A vila não produzia um som sequer. Depois daquele dia repleto de emoções, adormeci instantaneamente. Nem notei se a fumaça ainda persistiu por muito tempo.
Passamos por Alcobaça, sede de imponente monastério construído no século XII. Ele lembrou os tempos de seminarista e, enquanto percorríamos os interiores da maravilhosa construção, discorreu sobre fatos da história de Portugal.
Depois, Nazaré, na beira do mar e de altos paredões rochosos. O tempo cinzento não ofuscava o charme das praias, dos barcos de pescadores ancorados na areia. No cume dos rochedos ainda se viam raras viúvas, inteiramente de preto, insensíveis ao vento frio, de cabeças cobertas, com os olhos esbugalhados voltados para o alto mar. Esperavam os maridos desaparecidos há anos, ou décadas, sob as águas.
O castelo de Óbidos abrigava cidadezinha entre as altas muralhas de proteção erguidas contra invasores de outros tempos. Construída em estilo barroco, a vila parecia de brinquedo, toda certinha, bem conservada, bem cuidada. Escolas, comércio, posto de saúde, bancos, serviços em geral, garantiam a relativa autossuficiência dos moradores. Caminhei por sobre as ameias da fortificação, observando o movimento da população nas casas e ruas estreitas.
continua...

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