segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Tunísia e Marrocos (parte 1/7)

O voo da empresa aérea italiana saiu atrasado de São Paulo naqueles meados de abril.
Desembarquei em Roma no início da manhã e me deparei com desorganização e burocracia nas alas do aeroporto. Filas desalinhadas e furadas por estrangeiros e italianos. Lentidão e confusão na verificação de passaportes, raios-x das bagagens, roupas, corpos. O comportamento racista se evidenciava com passageiros de pele não branca ou de trajes típicos africanos ou árabes. E ali se tratava apenas do setor de trânsito para outros voos e não de entrada na Itália.
Ultrapassados tantos obstáculos, me dirigi ao portão para o segundo voo. Ao lado, embarques para cidades do leste europeu, norte da África, oriente médio. Eu notava rostos familiares rumo a destinos estranhos. Impressionante como a bem-vinda diversidade racial brasileira, com ou sem miscigenação, dispensava a surpresa diante de tipos dos mais díspares países do planeta.
A área reservada aos passageiros fumantes no aeroporto de Roma, por outro lado, me deixou perplexo. Disposta ao longo do corredor entre os portões de embarque, inteiramente envidraçada, a caixa aprisionava os candidatos a câncer feito sardinhas. O aquário esfumaçado mais parecia o apocalipse do que cena cotidiana de aeroporto. Os fumantes, todos de pé, com caras de paisagem, espremidos, quase se tocando, inalavam e baforavam fumaça, para cima, para baixo, para os lados. E aquilo não funcionava para os usuários não fumantes. A porta automática, abrindo e fechando constantemente, permitia que a nicotina circulasse impunemente fora do aquário da morte.
O avião pequeno, da mesma empresa italiana, pousou em Túnis, em pouco mais de uma hora de voo.
No centro novo da cidade, almocei em restaurante simples, barato, frequentado por tunisianos, vestidos ou não à maneira árabe. Comi brik, espécie de folhado frito de legumes, verduras e ovo, seguido de cuscuz com peixe e batatas. Veio também cesta de pães e pires com azeitonas, pasta de berinjela e pasta avermelhada de condimento apimentado, a famosa harissa, onipresente nas mesas tunisianas. E sem eu pedir, veio o café aromatizado ao final de tudo. Tunisianos e tunisianas das outras mesas me lançavam olhares curiosos.
As ruas de Túnis, transversais e paralelas à avenida Habib Bourguiba, exibiam de tudo um pouco nas roupas masculinas e femininas. Desde as de jeans ou vestidas ao estilo ocidental, até as cobertas por véus ou mantos pretos da cabeça aos pés, passando por mantos e roupas compridas, leves e coloridas. Sons distantes apontavam para a convocação para mais uma das cinco orações diárias do islamismo. Nada intenso ou em volume alto como escutado em cidades da Turquia.
Assisti a início de manifestação em defesa do povo palestino que sofre há quase setenta anos o holocausto promovido pelo regime de Israel.
Na manhã, a medina da capital, depois de passar sob a Porta do Mar, em arco, deixando para trás a cidade nova construída pelos invasores franceses. Entramos em becos labirínticos, por entre lojinhas, cafés, casas de chá charmosíssimas. Do outro lado, após a mesquita principal, prédios públicos fortemente protegidos com arame farpado, bloqueios, soldados armados até os dentes, barricadas com sacos de areia. Era a situação de Túnis depois do atentado a museu no mês anterior.
Pegamos o veículo tracionado, dirigido pelo impecável motorista sempre vestido à moda do sul da Tunísia, com túnica e turbante colorido. Rumamos ao museu Bardo, justamente onde ocorrera o atentado mencionado. Distribuídos por diversas salas, mosaicos dos tempos da ocupação do país pelo Império Romano, além de peças e vestígios dos púnicos que viveram antes na região, até os primeiros séculos depois de Cristo.
Impressionou as imagens de vidros perfurados a balas durante o atentado do mês anterior, disparados tanto pelos encapuzados como pelos integrantes da policia e do exército tunisiano.
Almoçamos em La Goulette, perto de um dos lagos de Túnis, dentro de área residencial, novinha em folha, ocupada por milionários tunisianos e estrangeiros. Nada da cultura árabe pelas ruas e avenidas padronizadas, inundadas de lojas pretensiosas, bares e restaurantes metidos à besta, rigidamente protegidos contra invasões de populares.
Exploramos as ruínas de Carthago, então restos de lápides e altares púnicos, datados de mais de três mil anos, no exato local onde se ergueu a Carthago púnica e depois, sobre esta, a Carthago romana. O pouco que restou da Carthago romana, mais especificamente as ruínas dos banhos de Antonina, reservava pedaços de paredes e construções, colunas altas em rocha entalhada, em pé ou tombadas, nos estilos dóricos, jônicos e coríntios. Carthago, no entanto, tinha mais história e fama do que evidências físicas, ainda menos que no caso de Troia na Turquia. A Carthago moderna se transformou em mais uma zona residencial para as elites internas e externas, repleta de mansões, marinas com iates, segurança reforçada pelo medo da ira do povo.
Pegamos a rodovia na direção central da Tunísia. Terreno plano, serrotes esparsos e montanhas ao fundo do horizonte. Plantações sem fim de oliveiras, alguma cevada, frutas, rebanhos de carneiros e cabras. Pequenas concentrações de indústrias estrangeiras.
O final da tarde de aproximava quando entramos na cidade de Kairouan. Visitamos uma fábrica e loja de tapetes, cujos vendedores comunicativos garantiam que eu adquiriria produtos artesanais, preparados a partir de lã de carneiro e cashmere, de qualidade, únicos, exclusivos, por preços baixos, estipulados especialmente para mim, que era do Brasil, país ao qual particularmente se afeiçoavam. Diziam isso para todos e nem ficavam vermelhos. Comprar algo, nem pensar. Descansei em assentos confortáveis. Assisti ao espetáculo teatral dos vendedores que desenrolavam tapetes e mais tapetes na minha frente. Tomei saborosos chás verdes com hortelã. Caprichei nos sorrisos e agradecimentos, em árabe, durante as despedidas. Eu aprendia com eles.
O dinheiro da Tunísia dividia estranhamente a unidade por mil e não por cem. Tínhamos milésimos e não centavos. Os valores eram escritos com três casas decimais, e não duas, depois da vírgula, no caso depois do ponto.
O muezim da mesquita em frente ao quarto do hotel me acordou antes do amanhecer convocando para a primeira oração do dia. Assim jamais me esqueceria de que viajava por país muçulmano e que estava em Kairouan, a quarta cidade mais sagrada do islamismo em todo o mundo.
Fomos a pé até a grande mesquita do século IX, a mais antiga do norte da África. Pesada, imponente, simples e despojada de adornos e detalhes desnecessários. Dentro da sala de orações, ampla e coberta de tapetes coloridos, inacessível a não muçulmanos, mas contemplável do lado de fora, além dos espaços de orações, estantes de livros e revistas abordando assuntos diversos, religiosos ou não, livremente usados pelos fieis durante todo o dia.
Percorremos a pé as ruelas da medina de Kairouan, fascinante, pela diversidade da população moradora e usuária do comércio variado, artesãos, artistas plásticos, ao longo de becos estreitos e irregulares. Em poço antigo e movido à tração de dromedário, a água era retirada de mais de vinte metros de profundidade. Vendedores me abordavam com a insistência de praxe, me convidando a entrar nas lojas. Eu, como de praxe, sorria e recusava educadamente, em árabe, os surpreendendo.
Mesas entupidas de tunisianos bebendo copos e mais copos de café, raramente chá, em bares e cafés fora da medina, cercados por uma infinidade de bicicletas e motos.
Pegamos a estrada e logo a paisagem se tornou mais ressecada, embora contivesse oliveiras, figos-da-índia, trigo, entre extensos vazios agrícolas, vegetação rasteira ainda esverdeada pela primavera, cobrindo terreno arenoso e aplainado, cercado a leste e a oeste por cadeias montanhosas. Nos acostamentos, marreteiros vendiam combustível contrabandeado da Argélia a preços bem abaixo dos postos da Tunísia.
Paramos para almoçar na beira da estrada, em local especializado em carneiro grelhado na brasa, acompanhados de saladas apimentadas e precedidos de sopa também picante. E muito pão que compráramos de ambulante instalado no acostamento da rodovia que os assava diretamente em forno cilíndrico.
Entramos em Gafsa, cidade feia, grande, economicamente forte devido às vizinhas minerações de fosfato, riqueza natural da Tunísia exportada pelo porto da cidade de Sfax. Relaxamos em bar onde os frequentadores assistiam atentos à partida de futebol entre times tunisianos.
Notei placas indicativas à cidade de Redeyef, onde rodou o documentário Maldito o Fosfato, exibido durante o festival internacional de documentários de São Paulo. O filme denunciava os malefícios sociais da indústria mineral estrangeira, desrespeitando direitos humanos e trabalhistas e em nada beneficiando as populações locais com as rendas exorbitantes obtidas da riqueza natural tunisiana. Perseguições, prisões arbitrárias, demissões por razões políticas, terrorismo policial, falta de assistência médica aos contaminados direta ou indiretamente por produtos químicos, entre outras maravilhas impostas pela aliança entre a corporação estrangeira e os governos local e nacional.
A partir de Gafsa a paisagem ficou ainda mais árida. Nada de agricultura, apenas esparsos rebanhos de ovelhas e cabras, que se adaptavam perfeitamente ao clima seco. Placas no acostamento alertavam para a presença de dromedários. Entre os tufos de gramíneas, minúsculas dunas de areia, prenúncios do Saara mais ao sul.
À medida que nos afastávamos dos centros urbanos, mais mulheres cobertas de véus e mantos, roupas longas e largas, mas de cores alegres ou claras, jamais preto ou de tons escuros. Homens vestiam à maneira ocidental, alguns cobriam as cabeças com barretes ou chechias.
De maneira geral, os tunisianos sorriam, eram simpáticos, educados e prestativos, apesar de me abordarem sempre em francês, infelizmente. Pena que eu não conseguia avançar além de meia dúzia de expressões em árabe.
Entramos em Tozeur, cidade erguida ao lado de imenso oásis composto de centenas de milhares de tamareiras. O oásis estava comprometido pela falta d’água em razão do consumo excessivo dos hotéis turísticos que irregularmente cavavam poços de captação subterrânea. E tamanho crime ambiental permanecia impune até então.
Jantei em restaurante no qual gringos da mesa ao lado repetiam a cada segundo a palavra ya. Era ya para cá, ya para lá. Nada além desse vasto vocabulário. A noite estava quente e o céu estrelado. A temperatura alta e os raios vindos dos lados da Argélia abafavam a escuridão. Tunisianos, em grupos, fumavam e tomavam café nos bares. Alguns desfilavam discretamente de moto.
Pela manhã saímos via o deserto com musgos ainda verdes pela primavera em meio à areia, lagos ressecados e salinizados. Rebanhos esparsos de dromedários, ovelhas, cabras pastavam nas imediações.
A cidadezinha de Chebika ficava ao lado de oásis e aos pés de montanha rochosa de coloração ocre. A nascente de água das alturas garantia a vida, animal e vegetal. As ruínas da primeira Chebika ainda se erguiam encosta acima, entre casas de adobe, quadrangulares, distribuídas pelos becos e ladeiras irregulares. Lá estava também o pequeno mausoléu para guardar os restos mortais do fundador da vila. No mais, colinas áridas, ocres, monocromáticas, cortadas pelo vale por onde corria o fio de água, líquido precioso que atraiu antigos nômades a se fixarem. As tamareiras dos oásis do norte da África indicavam a presença de água da mesma maneira que os buritizais no cerrado brasileiro.
De volta à estradinha, agora montanha acima, cortadas por gargantas e caminhos sinuosos, partimos rumo a Tamerza. Visual impressionante do asfalto ziguezagueando por entre escarpas rochosas e vales ressecados bem abaixo. Paramos para o chá em vendinha rústica onde se pendurava e se negociava de tudo, inclusive lagartos mortos e presos a longos barbantes. Me sentia longe de casa em companhia de legítimos habitantes do deserto, herdeiros dos berberes, os povos tradicionais da região, anteriores aos romanos, aos árabes, aos otomanos.
        Mais adiante, vendedores das barracas expondo inutilidades turísticas lamentavam o minúsculo movimento, de locais ou estrangeiros. E as explicações eram sempre as mesmas, a crise na Europa, a instabilidade política do país, o recente atentado ao museu em Túnis.
continua...

8 comentários:

  1. Parabéns pelo blog e pelos relatos. Encontrei vocês na internet e não paro de ler. São tantas opções bem escritas e registrados com reflexões pertinentes.
    Lindo o texto e as fotos sobre a Tunísia. Os anteriores também.
    Viaja por conta própria?
    Abração.

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  2. Valeu pela visita e pelos comentários. Obrigado!
    Viajo por conta própria na maioria dos casos. Mas também, quando compensa contratar uma agência ou guia local, opto por essa alternativa.
    Publiquei diversos relatos aqui, seja dos interiores do Brasil, seja de outros países da América, África, Ásia, Europa. Leia, comente, divulgue..
    Abraços!

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  3. Caramba! Que aventura incrível! É uma diferença cultural enorme quando comparado com a realidade que estamos acostumados. Mas é por isso mesmo que adoro viajar. Aumenta e expande os horizontes de tal forma que não enxergamos o mundo mais do mesmo jeito que antes. Parabéns pelo blog! Abraço!

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  4. Oi Thiago, obrigado pelos comentários.
    Nem vou acrescentar nada ao que escreveu. É exatamente isso que penso e transfiro para as viagens. E comente assim mesmo com os colegas. Perfeito.
    Comente sempre...
    Abraços!

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  5. Oi Viajante Sustentável, ainda na carona. Incrível esta sua primeira etapa da viagem, é tanta coisa bonita de ler, aprender que fico na expectativa da continuação. Tunísia é um baú de História, adoro ler sobre civilizações antigas. Pena, que os patrimônios herdados a maioria já foi depredado pelo próprio homem, bem como a agressão ao meio ambiente continua acelerada. Continuo. Abraços.

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  6. Oi Ivete, valeu pela visita e pelos comentários.
    A Tunísia é um baú da história como tão bem ressaltou. Os interiores do país contam muito do que fomos e também do que somos. Mas, ao contrário dos vizinhos, a indústria do turismo tunisiana privilegia o litoral, repleto de resorts de gosto duvidoso.
    Eu permaneci mais tempo no deserto e vilarejos, bem mais fascinantes e naturalmente acolhedores.
    Comente sempre...abraços!

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  7. Qual o valor em money vou precisar pra montar roteiro similar a esse .

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  8. Oi Lucelia, obrigado pela visita e pelos comentários.
    Os valores variam muito conforme o tempo de estadia, a hospedagem, os meios de locomoção, época do ano, número de acompanhantes, etc..
    Além dessa viagem, relatei dezenas de outras aqui no blog, dos interiores do Brasil e de outros países da América, África, Ásia, Europa. Fique à vontade para pesquisar e compartilhar.
    Comente sempre!
    Abraços.

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