segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Tunísia e Marrocos (parte 5/7)

...continuação
Em utilitário percorri os cerca de trinta quilômetros até o centro da enorme, moderna, e com favelas explícitas na periferia, Casablanca.
A cidade não tinha cara de nada. Avenidas, rotatórias, cruzamentos movimentados, prédios altos de ambos os lados das vias. Enxame de redes de comida de péssima qualidade, todas provenientes daquele país terrorista ao norte do México. Raros os cartazes ou propagandas escritos em árabe. Raros os homens ou mulheres vestidos à maneira tradicional árabe ou muçulmana. Ali poderia ser qualquer cidade grande do triste e previsível mundo globalizado.
A música ambiente do hotel, gravada no salão do restaurante ou ao vivo nos bares, oferecia repertório daqueles dos hotéis de Águas de Lindóia durante a década de 1960.
Acordei para o dia sem grandes emoções em Casablanca. O mercado central, comum. A gigantesca e moderna mesquita Hassan II, nome do pai do rei da época, na beira do mar, cuja torre do minarete media duzentos metros de altura. A desinteressante praça Mohamed V, nome do avô do rei da época, cortada por linhas de bonde. O bairro Anfa, ocupado pela elite marroquina e estrangeira em trânsito pela cidade.
Na monarquia do Marrocos choviam atrações ligadas à família real, dos pais, avós, parentes. Havia mausoléus desse ou daquele membro da dinastia, palácios, estátuas, bustos, monumentos. Nada que merecesse admiração entusiasta. Eu preferia dar atenção às cenas do cotidiano do domingo marroquino. Famílias saíam para passear, em dia quente e ensolarado, nos parques, monumentos, nas rochas na beira do mar.
 Seguimos à avenida costeira do bairro de Anfa, de frente para o Atlântico. A praia se entupia de banhistas domingueiros, nas águas, areias, jogando futebol, caminhando no calçadão. As ofertas de restaurantes variavam, de comida marroquina ocidentalizada até as repugnantes redes estadunidenses, inclusive a que serve sanduíche de minhoca, refrigerantes químicos, batatas transgênicas, sorvete de gordura, açúcar e corante.
Circulei pelo calçadão urbanizado com balneários, piscinas, vestiários, construídos na areia da praia. Alguns se encontravam desativados e abandonados, fornecendo atmosfera entristecida a todo o conjunto, calçada, areia, mar.
Continuamos em autopista rumo à capital do Marrocos, Rabat, onde, devido a regras locais, nos foi designado guia da própria cidade. E veio o palácio do rei da época, Mohamed VI, o mausoléu do avô Mohamed V, tendo ao fundo o minarete da mesquita inacabada do século XII, a kasbah de Oldayas, abrigando residências pelos becos e ruelas. O guia, que falava de maneira robótica e de má vontade, pediu gorjeta ao final dos serviços. Não recebeu nenhum centavo.
Ao contrário da Tunísia, as atrações turísticas do Marrocos, mesmo as pouco atraentes, se enchiam de turistas despejados de dezenas de ônibus. E o tal pau-de-selfie era usado intensamente pelos estrangeiros. Quase ninguém queria fotografar paisagem, arquitetura, cenas culturais e do cotidiano. Os possuidores de tal artefato desejavam apenas serem fotografados. Os locais visitados, quando muito, já que na maioria das vezes sequer eram notados, serviam somente de pano de fundo.
E eu aguardava pelo Marrocos verdadeiro, profundo, autêntico, árabe. Ansiava por paisagens, arquiteturas, comidas, pessoas, escritos, costumes, realmente marroquinos.
O bar do hotel de Rabat, entre o restaurante e a recepção, fedia cigarro em todos os cantos. Parecia que ali todos fumavam, e em todos os lugares. Passei direto na busca de oxigênio. Enrolei nos sofás do saguão da entrada. Vazios e tristes. Levantei e fui até a calçada. Ruas escuras e desertas.
As estradas para além de Rabat cruzavam bosques, parques, florestas de sobreiros altamente produtivas de cortiça, áreas cultivadas com trigo, cereais, batatas, uvas, legumes, verduras, desenhando paisagem colorida, tal tapetes justapostos. As terras eram mais úmidas e férteis naquele centro-norte do país. Rebanhos de ovelhas e cabras, agora também de bovinos, surgiam de uma hora para outra. O relevo se acidentava. A rodovia se tornava sinuosa, indicando a proximidade da cordilheira Atlas, no caso o Médio Atlas.
Em Meknes, visitamos a medina murada, cujas imensas portas de entrada trabalhadas em madeira, e também rocha nos arcos superiores e laterais, nos davam as boas vindas. Uma dessas, a Bab el-Mansour, impressionava pelas dimensões, solidez, riqueza dos detalhes em relevo. O antigo palácio do fundador da cidadela, Moulay Ismail, cujas cavalariças, nos áureos tempos, chegaram a abrigar doze mil cavalos. O mausoléu onde estava enterrado contava com a tumba da família, mesquita, salão com mosaicos, fontes de água.
Assistimos a demonstrações das diversas fases do artesanato em metais gravados com fios de prata, depois os trabalhos de bordados em tecidos. Os insistentes comerciantes tentaram vender os produtos que garantiam ser exclusivos, de qualidade, a preços bem abaixo do custo somente por terem se afeiçoado a nós, somente a nós.
No centro da cidade, escolhi restaurante pequeno, barato, frequentado por marroquinos de Meknes. Comi tajine de carne de peru, prato ensopado, cozido e servido em recipiente cônico de cerâmica. A farta tigela de pães típicos da região me ajudou a mergulhar lentamente naquele prato que veio pelando de quente. Me satisfiz, na quantidade e na qualidade. Encerrei com salada de frutas cobertas de iogurte. Os garçons, sorridentes e atenciosos, me deixaram a vontade. Os fregueses me olhavam discretamente apesar de eu ser o único forasteiro comendo ali.
Por estradas acidentadas, cortando paisagens cultivadas nos vales e encostas, o veículo seguiu para Moulay Idriss, cidadezinha encravada na encosta de colina e isolada no meio do nada. Fundada no século VII e mantida de forma tradicional, a cidade atraía peregrinos de diversas regiões do país.
Perto dali se erguiam as ruínas romanas de Volubilis, datadas dos séculos II e III depois de Cristo, e situadas estrategicamente no alto do morro.
Mais uma vez um guia local nos foi designado. Sem a mínima vontade de prestar o serviço, o sujeito vomitou de maneira monocórdia frases decoradas sobre a história das ruínas, os possíveis significados de cada setor, cômodo, terreno, muro, mosaico, coluna, caminho. As ruínas revelavam trechos bem preservados, outros restaurados, outros ainda somente com a reconstituição do original. Cegonhas montavam e usavam ninhos enormes e confortáveis nos altos das colunas romanas, nos estilos dóricos, jônicos ou coríntios.
Ao final do circuito, o dito cujo que se considerava guia me coagiu a lhe dar gorjeta. Não pediu, ordenou. Nem pensar. Ainda mais pelo péssimo serviço, incluído no ingresso. E vivas à indústria predatória do turismo que produz párias em vez de treinar verdadeiros guias locais.
No final da tarde o veículo entrou em Fes (Fez), erguida entre as montanhas Rif e a cadeia do Médio Atlas, e dividida em três setores. A cidade antiga, datada do século IX, a parte nova ou medieval, do século XIV, a moderna, construída nas décadas da invasão e ocupação francesa.
Nos cruzamentos da cidade, cenas já notadas em outros pontos do país. Negros de pele muito escura, recém-chegados do centro e do sul da África, pediam esmolas. Segundo o motorista, pretendiam juntar dinheiro para cruzar de barco o Mediterrâneo e entrar na Europa. A mesma Europa que fatiou em pedaços o continente africano em meados do século XIX, dando uma parte para cada país europeu saquear, pilhar, escravizar. A mesma Europa que invadiu e ocupou a África por mais de cem anos, que dirigiu e sustentou o comércio de escravos. A mesma Europa que, agora submissa ao regime estadunidense, ainda deita e rola em território africano, manipulando governos fantoches, jogando civilizações contra civilizações. Mas a população da África espoliada era proibida de entrar e viver nessa mesma Europa.
E, finalmente, a extraordinária medina de Fes (Fez), completando mil e duzentos anos de idade. Ali dentro, somente a pé ou de jumento.
Distribuída num imenso labirinto de quilômetros de becos, ruelas, escadarias, comércio dividido em souks conforme a especialidade ou ramo de atividade, mesquitas, madraças ou escolas corânicas, moradias, oficinas, cooperativas de artesanatos, entre outras tantas subdivisões, a milenar medina, verdadeiro planeta dentro da área metropolitana, encantou de ponta a ponta. Passamos pela universidade mais antiga do mundo, datada do século IX, constituída de faculdades ativas nas mais diversas áreas do conhecimento. O setor de alimentos empolgou entre azeitonas de tamanhos e cores diversas, doces variados, tâmaras baratas, tâmaras caríssimas, frutas, grãos, verduras, laticínios, carnes, inclusive as de dromedários, como eu já notara nos interiores da Tunísia.
O ponto alto veio com o setor de curtumes. Amaciavam o couro, tingiam em tinas de diferentes cores naturais, secavam, costuravam, expunham para venda. Dentro das cavidades cilíndricas de tingimento, amarelas do açafrão, vermelhas da papoula, azuis do índigo, brancas da cal, marrons, verdes, os coureiros nela imersos mergulhavam dezenas de vezes as peças de material cru e previamente amaciado. Imagem impressionante dos coloridos, da metodologia artesanal, do tempo do onça, desumanas.
No almoço me deliciei com outro tajine, dessa de vez de frango e legumes em mesinha ao ar livre, de frente para o movimento frenético dos transeuntes. Comi bem, bastante e barato.
Nos dirigimos à medina medieval, ou nova, que contava com “somente” setecentos anos de existência. Entrei pela imponente Porta Azul, justamente a cor da cidade de Fes (Fez), rumo aos inúmeros souks, distribuídos em outra sequência de labirintos. Nem se comparava à medina antiga, no tamanho, complexidade, beleza, mistérios. Mas agradou pela frequência majoritariamente local. Num dos becos internos, um marroquino me ofereceu haxixe e outros produtos mais elaborados, mais potentes, mais alucinógenos. Não lhe faltariam clientes, sobretudo estrangeiros. Eu não precisava de nada daquilo. Já estava em estado de graça por ter perambulado horas dentro da estonteante medina de Fes (Fez).
O vício do cigarro atingia níveis tão alarmantes no Marrocos, e similares ao da Tunísia e Turquia, que em hotéis e restaurantes havia cinzeiros afixados até nas paredes internas dos elevadores, ou ao lado dos vasos e cavidades sanitárias. Se fumava muito e em todos os lugares, sem restrição. Os não fumantes que inalassem a fumaça. A saúde perdia de goleada para as doenças derivadas dos males do cigarro. E as corporações que lucravam com a dependência química deitavam e rolavam.
Saímos bem cedo de Fes (Fez) sob a névoa e nuvens baixas. As planícies intensamente cultivadas de alimentos, frutas, flores, deram lugar a serras, sobre as quais a estrada estreita se tornou sinuosa, acidentada, ao lado de escarpas rochosas, vales férteis e verdejantes. Cancelas na beira do asfalto interromperiam o tráfego de veículos durante o inverno, quando a neve cobriria tudo. Nos altos a névoa e as nuvens desapareceram e o sol brilhou no céu azul. O relevo subiu, passando pelas cidadezinhas de Imouzzer Kandar, Ifrane, voltadas ao turismo regional de verão, quando os marroquinos fugiam do forno e se refrescavam serra acima. O estilo arquitetônico do casario imitava os vilarejos alpinos europeus, da mesma forma que em algumas cidadezinhas serranas no Brasil.
Depois do entroncamento nas imediações da cidade de Azrou, ainda nos altos da serra, reserva natural contendo grupos de macacos dóceis, aguardando doações de bananas, melancias e afins dos turistas que paravam para fotografá-los.
 As curvas fechadas e o relevo acidentado prosseguiam nos arredores de Tinahdite. As primeiras imagens do Médio Atlas começaram a aparecer, em montanhas, cujas cristas e encostas altas se cobriam de neve. À medida que a estrada descia o relevo, nada mais de colinas verdejantes, florestas de cedro, oliveiras, flores diversas e coloridas. O ocre das escarpas rochosas passaria a dominar a paisagem. As culturas agrícolas desapareceriam, restando somente o verde do fundo dos vales, ao longo dos quais se erguiam vilas menores. A arquitetura berbere predominava. Casas de barro e pedra, acastanhadas, de taipa, térreas e baixas, retangulares, sem cobertura de telhas ou algo do gênero. Rebanhos de ovelhas e cabras eram o que restava àqueles terrenos e clima secos depois da cidadezinha de Midelt.
continua...

2 comentários:

  1. OLÁ! EU JÁ ESTOU EM ESTADO DE GRAÇAS SÓ DE LER E DOU ASAS À IMAGINAÇÃO DE COMO SERIA VIVER NAQUELA ÉPOCA COM TANTA IMPONÊNCIA. CASABLANCA PARA MIM SEMPRE FOI RODEADA DE MISTÉRIOS, ALIÁS MARROCOS É ASSIM, MISTERIOSO, EXALA EXOTISMO. SOU COMO VOCÊ, AMO EXPLORAR, VER E ARQUIVAR TUDO NO MEU PRÓPRIO COMPUTADOR, CHAMADO CÉREBRO. RISOS. O QUE É A CULTURA, ELES AINDA PRESERVAM O MODO ARCAICO DE AMACIAR E TINGIR O COURO, PENA QUE SEJA UM TRABALHO DURO E DESUMANO. O MISTÉRIO E A BELEZA FAZ DO MARROCOS O QUE ELE É AUTÊNTICO. BJS.

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  2. Oi Ivete, obrigado pelos comentários.
    Verdade, haja experiências acumuladas e riquezas culturais adquiridas nessas viagens. Os pontos altos, mas os baixos também, sempre acrescentam.
    E as civilizações árabes guardam sabedorias e muitos pontos altos, bem mais que os baixos.
    Obrigado e comente sempre.

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