terça-feira, 13 de setembro de 2011

Escandinávia (parte 1/4)

Embarquei para a Escandinávia, norte da Europa, em meados de agosto.
Antes disso, o diretor da empresa onde eu trabalhava me perguntou onde eu passaria as férias. Ao ouvir a palavra Escandinávia, pensou, hesitou, pensou novamente. Depois sorriu e, em voz alta e clara, com tapinhas nas minhas costas, soltou a pérola:
“Muito bem, vai visitar a terra do Drácula, eim?”.
Depois de voo longo entre raros cochilos, desembarquei na Dinamarca, no aeroporto de Copenhague.
O atendimento no balcão de informações do aeroporto foi deplorável. Recusavam-se a informar algo que estivesse fora da lista dos hotéis caríssimos. A única coisa que arranquei foi sugestão de me dirigir à estação ferroviária central e lá tentar novamente. Do lado de fora do aeroporto, perguntei ao policial e descobri quais ônibus pegar. Foram dois até a estação ferroviária, onde o atendimento também não era dos mais amigáveis.  
O albergue da juventude central era ruim e sujo. Possuía quartos imensos e lotados, camas desconfortáveis, banheiro distante e mal cuidado. As camas suspensas por cabos de aço rangiam até dizer chega. Alguns hóspedes não respeitaram o silêncio exigido e perturbaram o sono dos demais à noite. E a direção do albergue nada fez para impedi-los.
Circulei pelo centro antigo, o Stroget. Cruzei o canal e subi na torre espiral da igreja. Copenhague passava atmosfera leve e descontraída, apesar das construções muito iguais, monótonas, cinzentas. A zona norte da cidade, após o castelo de Amaliamborg, oferecia mais beleza e tranquilidade. Delicioso parque, ainda que pequeno, estendia-se na margem do mar báltico.
A maioria da população revelava pele clara, cabelos loiros, olhos azuis. Muitas mulheres bonitas, sobretudo de rosto. O corpo incógnito escondia-se atrás de roupas largas. Moradores de rua vasculhavam alimentos e outros objetos nos lixos das ruas. Mas não só eles. Outros razoavelmente vestidos, sobretudo idosos, olhavam e cutucavam tudo pelas esquinas.

Peguei trem à exageradamente turística cidade de Helsinore. Na vila de Kronborg, visitei o imponente castelo na beira do mar, celebrizado pela estória de Hamlet. Destaque para as fúnebres e impressionantes casamatas. O tempo cinzento e chuvoso, com nuvens escuras e carregadas, acentuava a atmosfera pesada. Mas nada de excepcional ou imperdível.
Conversei com o chinês de Hong Kong e o japonês de Kioto no amplo saguão do albergue. Ambos enalteceram as qualidades de Estocolmo e o frio cortante da Lapônia.
Novos hóspedes chegavam de madrugada ao albergue, normalmente de países e continentes distantes. Devido às diferenças de fuso horário e à fadiga da longa viagem, sem se importarem com os demais que tentavam dormir, entravam como cavalos no quarto, jogavam as bagagens no chão, trocavam frases aos berros e despencavam na cama barulhenta. Nem se banhavam ou se trocavam. Dormiam com a própria roupa e as botas de bico fino.
A manhã brilhante daquele dia de semana alegrava a Radsus Pladsen, praça central, sem vegetação, mas com muitos bancos, repleta de gente para se aquecer sob o sol do verão escandinavo. Ao contrário de outras cidades europeias, Copenhague não contava com o eficiente serviço de bondes.
Reservei a tarde para passear no parque Tivoli. A área bem menor que o parque do Ibirapuera de São Paulo incluía parques de diversão com brinquedos tradicionais e eletrônicos, lojas, restaurantes, bares, teatros, cinemas, vários palcos ao ar livre, onde se apresentavam artistas e músicos de diversos estilos. A frequência variava nas idades. Os idosos participavam ativamente dos jogos e eventos culturais. Mas também abundavam os cassinos, com roletas, máquinas caça-níqueis, fliperamas e outras arapucas.
Após o horário comercial o parque lotou, multiplicando-se as atividades. Música, acrobacias, peças ligeiras de teatro, improvisações. O público assistia e aplaudia com entusiasmo, principalmente os mais idosos. A impressão era de que quase toda a cidade afluía ao local.
Embarquei à noite em trem a Estocolmo. Os vagões lotaram e ficou difícil adormecer nos bancos desconfortáveis. Ao cruzar o mar Báltico, os vagões subiram na balsa, sem a necessidade de desembarque dos passageiros. Na cabine se encontrava grupo animado com idades na faixa dos vinte e poucos anos. Entre eles uma jovem, morena, de olhos e cabelos negros, sorridente, rosto cativante, jeito de paulistana, mas legítima italiana, calabresa morando em Roma.  Fizemos companhia um ao outro para passar, da maneira mais agradável possível, a longa noite.
O trem atingiu a estação ferroviária de Estocolmo no começo da manhã.
A italiana me acompanhou nas andanças pela cidade. Almoçamos juntos, trocamos olhares, abrimos possibilidades. Retornamos ao albergue no final da tarde.
Situado em uma das ilhas de Estocolmo, o albergue da juventude ficava de frente à cidade velha, a Gamla Stan. E, como se isso não bastasse, o entardecer nos presenteou com um pôr-do-sol onde as luzes amarelas e alaranjadas tingiram os prédios antigos refletidos nas águas do mar.
Eu, a italiana e outros colegas de albergue saímos pela noite. Notei que ela vestia a mesma roupa que saíra de Copenhague, não tomara banho e nem sequer deixara a recepção enquanto eu me banhava e me trocava. Escolhemos bar ao ar livre, alegre, mas com preços absurdamente caros. Enrolei o mais que pude com um coquetel aguado.
A cidade de Estocolmo realmente encantava. Distribuía-se em ilhas ligadas por pontes apenas nos trechos mais estreitos e centrais. De cada uma delas se tinha visão privilegiada das demais. A ilha onde ficava Gamla Stan, guardava construções históricas e preservadas, palácios, ruas estreitas e medievais. Outra ilha incluía o centro comercial e moderno. A ilha mais ao sul e pouco ocupada reservava imensa área verde com parques, bosques, museus, muita área livre para relaxar.
No centro comercial e financeiro, vendedores ambulantes espalhavam-se pelas calçadas, oferecendo de tudo ao microfone. Artistas mambembes se esforçavam para chamar a atenção dos passantes. As barracas da feira central ofereciam frutas e verduras. Por outro lado, muita música estadunidense e o excesso de propagandas comerciais tornavam as lanchonetes e afins locais insuportáveis.

Visitamos o bairro residencial de Ostermalm com apartamentos de até sete andares distribuídos em ruas arborizadas e tranquilas. Apesar de pequenos, não faltavam ao redor parques e praças, sempre bem cuidados.
A população vestia-se bem, mas sem luxo ou sofisticação. Havia os que se soltavam e caíam na descontração total. Praticamente não se viam mendigos nem tampouco pessoas vasculhando lixo. A polícia raramente dava o ar da graça. A miscigenação racial era notada, ao contrário da Dinamarca. Exilados ou imigrados adotaram, temporária ou definitivamente, a Suécia como novo país. Cinco mil chilenos se exilavam no país fugindo dos horrores da ditadura militar no Chile, comandada por Pinochet, mas criminosamente apoiada e financiada pelo regime estadunidense.
Novamente, no final da tarde, voltamos ao albergue. Novamente a italiana não tomou banho e nem se trocou. A mesma camiseta, a mesma calça, a mesma roupa desde a Dinamarca. Eu nem desconfiava desde quando ela se mantinha assim. Sob a unhas das mãos dela se formavam linhas escuras. O cabelo ensebado se empapava. Manchas suspeitas despontavam sobre os braços e odores desagradáveis exalavam do corpo dela. Minha atração inicial evoluiu para a desconfiança, suspeitas graves, e finalmente a repulsa.
Subi em barco que me transportou ao lago Malaren, onde ficava o palácio real, residência oficial da monarquia sueca. Imensos e vistosos jardins tornavam-no ideal para descanso. Mas valeu principalmente pelo trajeto de barco.
O tempo mantinha-se excelente, com céu azul, sol, temperaturas amenas. Escurecia tarde. Enorme e alaranjada lua cheia surgiu com as luzes refletidas nas águas do mar. Do albergue, com a cidade antiga bem à frente, o acender das primeiras luzes realçou todo o charme da cidade. O luar, a iluminação pública, a disposição das ilhas, o urbanismo humano e de bom gosto, a água do mar, compunham cenário de cair o queixo.
Tomei trem e ônibus até a Sigtuma, datada do século XI e considerada a cidade mais antiga da Suécia. Casas de madeira ocupavam a rua principal e as transversais. Espécie de Embu das Artes sueca, Sigtuma era frequentada principalmente por suecos da capital, em meio a lojas de antiguidades, apresentações de danças folclóricas, corais e brincadeiras com os artistas vestidos à moda antiga.  
Mais um ônibus a Marsta e mais um trem me levaram a Uppsala. A antiga capital sueca guardava bela catedral, sede do arcebispado nacional. Ninguém nas ruas naquele domingo à tarde. A fama da antiga universidade e principalmente as cenas inesquecíveis em preto e branco do filme Morangos Silvestres me despertaram a curiosidade de visitar Uppsala. Porém, em cores e sem a presença da estonteante Ingrid Thulin, a terra natal do diretor Ingmar Bergman perdia todo brilho.
Um alemão praticamente morava no albergue em Estocolmo. Estudante de línguas escandinavas, fez do quarto a residência e o escritório de estudos. Simpático e falante, o estudante tornou-se companheiro de discussões sobre a Escandinávia, Alemanha, Europa, Brasil, o mundo, geralmente no final da tarde, quando eu voltava das caminhadas para tomar banho e descansar. Curioso e bom ouvinte, ele me questionou sobre a destruição da Amazônia brasileira. Certo de que ele ignorava que aquela questão não se restringia ao Brasil e aos brasileiros, expliquei-lhe que as grandes empresas transnacionais, incluídas as alemãs, lucravam com a devastação da floresta. E que o mundo consumia a madeira nobre e demais matérias primas arrancadas do Brasil a preços mínimos, graças aos baixos salários e às condições desumanas impostas aos trabalhadores brasileiros. O alemão ouvia com atenção e parecia captar a realidade até então bloqueada pela ditadura dos meios de comunicação da burguesia.
Fui a Djurgarden, ilha imensa e pouco habitada, coberta de bosques e parques. Na beira do mar báltico, estava o Vasa, velho navio datado do século XVII. O parque Skansen concentrava o principal do verde da ilha. No amplo e bem cuidado espaço, as diversas trilhas permitiam melhor exploração do interior dos bosques e maior contato com a natureza. Destino ideal para relaxar, refletir, namorar.  
Ao entardecer, barcos promoviam festas e jantares dançantes sobre as águas do mar. Iluminados e alegres, levavam passageiros navegando próximos ou entre as ilhas que compunham Estocolmo, emitindo sons ao vivo de jazz, blues e outros gêneros musicais, todos ao mesmo tempo. À noite os sinos das igrejas badalavam melodicamente por longo tempo e a acústica das ilhas separadas pelas águas causavam efeito acústico para lá de instigante.
Repeti a caminhada à cidade velha, agora mais lenta e detalhadamente, sem a companhia da simpática, mas suja e fedida italiana. Me deixei levar pela atmosfera medieval e bem preservada das vielas, ladeiras, casarões, passarelas superiores, harmonia arquitetônica, cafés, pequenos e caros restaurantes.
Eu evitava comer em restaurantes, os caríssimos restaurantes suecos e escandinavos em geral. Forçosamente apelava a supermercados, onde adquiria pães, frios, queijos, cremes de queijo, água ou sucos industrializados, frutas, chocolates e demais itens para garantir a melhor alimentação possível. Comia em parques ou em áreas comuns do próprio albergue. Era pura questão de sobrevivência financeira.
continua...

2 comentários:

  1. Viajante Sustentável - Lendo seu relatos percebo que mesmo o primeiro mundo há problemas como em qualquer outro lugar. Passaram-se mais de 30 anos, hoje deve estar tudo mudado, a evolução anda. Mas o que me encanta são as antiguidades como a arquitetura, engenharia, arte...enfim a História. Abraços e continuo porque seus relatos me aprisionam.

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  2. Obrigado pelo comentário, Ivete!
    Lá tem problemas, sim. Em outros graus, mas tem. Esses países possuem empresas pela América, África e Ásia, explorando mão de obra barata, agredindo o meio ambiente, auferindo altos lucros.
    Depois desse tempo todo, houve um crescimento de correntes neonazistas, fortemente racistas, nos quatro países escandinavos, inclusive com ataques a estrangeiros.
    A Suécia já não é o mesmo destino de refugiados políticos, de guerra e da fome, como era antigamente, muito menos modelo de justiça social ou respeito socioambiental.
    Mudaram e para pior. Pena.
    Abraços e comente sempre.

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