quarta-feira, 1 de junho de 2016

Guatemala e Honduras (parte 1/6)

O metrô e o ônibus comum me levaram ao Terminal 2 do aeroporto internacional de Cumbica. Circulei pelos saguões sem consumir nada nos comércios abusivamente caros. E passei batido pelas lojas do freeshop, inundado de inutilidades.
No início de março o avião apertado decolou quase lotado. Desembarquei na Cidade do Panamá de manhãzinha. O segundo voo cruzou os céus da América Central de sudeste a noroeste, do Atlântico ao Pacífico. Ilhas, praias, oceanos, crateras de vulcões ativos e extintos, lagos, rios estreitos e sinuosos, serrotes, cidades e vilarejos cintilando ao sol.
O avião pousou na Cidade da Guatemala no final da manhã. Enquanto a aeronave rodava acima da cidade aguardando autorização para descer, a visão de três vulcões. O De Fuego, em plena atividade, expelia fumaça cinzenta e espessa, atingindo centenas de metros acima da cratera. À noite, a lava incandescente, avermelhada, brilhante, iluminada, escorria da cratera pelas encostas do cone.
Nos arredores das pistas do aeroporto, favelas e mais favelas acima dos barrancos de um lado, prédios comerciais e residenciais do outro.
Avancei por avenidas sem fim da capital, algumas arborizadas na forma de charmosas alamedas sombreadas, até o bairro chamado de Zona 10. Fui alertado sobre o risco de roubos e assaltos, em bairros e no centro da cidade. Mas ali, conhecido como Zona Viva, cheio de prédios altos, escritórios, hotéis, bares, restaurantes, comércios metidos a besta, não havia perigo. Não por acaso, muito, mas muito mesmo, em todo canto, policiamento truculento, segurança privada carrancuda, ostentando armamento pesado, de guerra.
Almocei em restaurante de comida guatemalteca. Comida saborosa e barata. E atendimento simpático, sempre acompanhado de sorrisos, em especial da baixinha que assava as tortillas.
Acordei faminto para o café da manhã. No salão, alguns turistas europeus e estadunidenses, mas principalmente falantes de língua espanhola, com feições indígenas, vestindo roupas formais, provavelmente a trabalho, vindos do interior da Guatemala ou dos países vizinhos.
A saída da capital se deu via rodovias duplicadas, altiplano acima, em meio a curvas acentuadas, a sobes e desces. Depois do subúrbio de Mixco, vilarejos agrícolas cujas mulheres vestiam trajes tradicionais, coloridos, trabalhados detalhadamente.
A extensa e famosa rodovia pan-americana penetrou na região de Chimaltenango, razoavelmente cultivada e intensamente viva no comércio, nas ruas, nos transportes lotados e ariscos. De cara chamaram a atenção os ônibus coloridos e vivamente decorados. Dotados de carrocerias antiquíssimas, mas esbanjando charme, as camionetas reinavam absolutas nas cidades, vilas, subúrbios, rodovias. Motos adaptadas, com carroceria e cobertura, os tuc-tucs, similares aos da Ásia, serviam de táxis para corridas mais curtas.
Nas proximidades de Tecpán, estrada vicinal rumo às ruínas da antiga cidade maia de Iximché. A maquete em exposição na entrada do parque exibia o que foi a cidade inteira, antes do abandono da população e da consequente sujeição a intempéries, terremotos, desgastes naturais, à cobertura de terra e vegetação.
Iximché englobava extensa área, entre pirâmides, praças, palácios, altares de sacrifício, campos de jogos de bola, bases de oferendas. Mais adiante das ruínas, após percorrer trilha larga na floresta, ao pé de morro escurecido pela fuligem das sucessivas fogueiras no chão, duas famílias realizavam rituais para alcançarem desejos, sonhos, vidas melhores. A fumaça ascendente, as posturas, os olhares, as expressões, se imbuíam de concentração e fé.
Na beira da estrada almocei linguiça de porco com pasta de feijão preto e guacamole, acompanhado de várias tortillas, sobre as quais apliquei molho e pimenta.
A rota se manteve no asfalto da pan-americana por horas, até os altos de Sololá, mais precisamente Los Encuentros. Era entroncamento rodoviário repleto de lotações, ônibus e tuc-tucs. Meios de transporte populares, camionetas, caminhonetes, tuc-tucs, lotações em geral, desrespeitavam descaradamente as mínimas leis de segurança no trânsito. Excesso de lotação e de velocidade, ultrapassagem nas curvas ou com faixa contínua, tráfego pela contramão, direção suicida. Tudo para chegar mais rápido que a concorrência e atender aos absurdos tempos de percurso impostos pelos donos das frotas. Situação igualzinha à da crueldade imposta aos motoboys da região metropolitana de São Paulo.
Subi em um daqueles ônibus coloridos, a legítima camioneta, ao lado de guatemaltecos do altiplano. Vivenciei parte infinitesimal da rotina diária deles. Não chegou a lotar, pelo menos não naquela rota, naquele dia, naquele horário. Passageiros subiam e desciam no meio da estradinha estreita e sinuosa, serra abaixo.
Lá no fundo do vale, o centro da cidade de Sololá. Desembarquei ao lado da suntuosa igreja, decorada internamente com motivos da quaresma e da páscoa.
Daí rumo ao lago Atitlán. Parada na vibrante cidade de Panajachel, ocupada por enxames de turistas, sobretudo de neomochileiros, tentando a todo custo se sentirem naturais e à vontade em meio aos guatemaltecos. Pelas ruas estreitas abundavam os sensacionais ônibus coloridos, avermelhados, amarelados, esverdeados, brilhantes. Guardas com armas de guerra se postavam na frente dos bancos, as instituições sagradas do capital.
O final da tarde corria solto através de sobes e desces pelas estradas estreitas e sinuosas, margeando escarpas, até o vilarejo de Santa Catarina Palopó, à margem do lago Atitlán, com direito a vista de três vulcões que se erguiam na margem oposta.
Amanheceu escandalosa e deliciosamente com o canto dos pássaros, galos, latidos de cachorros. Circulei pela beira das águas, pelo ancoradouro cheio de barquinhos esperando os condutores. Mulheres coloridamente vestidas à maneira autêntica da etnia local começavam a estender tecidos também coloridos ao longo do beco que dava acesso ao centrinho do vilarejo. Ao final do beco, caminhei lentamente ao redor da pracinha em cujo centro se erguia discreta igreja. Caminhões descarregavam lenha que era imediatamente recolhida, em blocos amarrados e transportados às costas, sobretudo por mulheres vestidas a caráter.
Em hotel que não oferecia o café da manhã no sistema de bufê, escolhi a opção sololateca. Além de café, leite, manteiga, suco, pão à vontade, geleia de morango em pedaços, veio ovos mexidos com tomate, feijão preto, queijo branco, banana frita.
O itinerário subiu novamente as escarpas dotadas de vistas estupendas das águas do lago, vulcões, montanhas, vilas. Passou pela já conhecida Sololá e pelo trevo em Los Encuentros. E o trajeto tomou estrada incrivelmente sinuosa, cruzando serra íngreme coberta de vegetação de médio porte, de um verde pálido pela seca do inverno tropical. Alguns trechos cultivados, pequenas propriedades, indígenas na lavoura. Elas bem coloridas e às vezes com turbante, carregando o filho enlaçado às costas. Eles com calças largas, de tecidos estampados ou de listas verticais, geralmente curtas ou levemente abaixo dos joelhos, tecidos enrolados na cintura, chapéus de abas largas e curvas.
Em nenhum nível o ensino era obrigatório na Guatemala, país com alto índice de analfabetismo. Havia sistema de saúde pública, mas em colapso total. Faltavam medicamentos, soros, gazes, itens básicos e essenciais para o mínimo funcionamento. A educação e a medicina privada, para poucos, sorriam de felicidade diante do caminho livre para mais lucros.
E chegamos a Chichicastenango, cidade serrana abrigando a tradicional feira ao ar livre das quintas-feiras. As ruas e becos se entupiam de barracas, tendas, quiosques, oferecendo artesanato, real e industrializado, produtos para todos os usos imagináveis, comida, sobretudo tortillas claras ou escuras, dependendo da cor do milho, batatas, frituras em geral, doces, frutas, matérias primas. Vendedores avulsos, principalmente crianças, circulavam por entre o conjunto, tentando sobreviver e juntar algum para a família.
A todo instante, vindos das redondezas, carrocerias de caminhonetes, ônibus coloridos, lotações, despejavam fregueses para a feira. Era o dia da abundância, da felicidade, ainda que ilusória, do reencontro entre conhecidos e familiares. As cenas me lembraram dos versos no poema Manhã, de Paulinho Pedra Azul e Marcelo Drummond.
As igrejas da cidade, sobretudo a de Santo Tomás, de arquitetura pesada, internamente escura, lúgubre, revelavam atmosfera triste, soturna. Os fieis ocupavam os corredores com objetos fúnebres, de culto e comunicação com os mortos. Conjuntos de velas acesas, também nas cercanias da nave principal, serviam de pontos de orações, pedidos, lamentos, choros, de familiares dos mortos. Verdadeira neblina cobria os interiores da igreja, entre murmúrios desesperados, orações cheias de dor, lamúrias sentidas. Era a fé do sincretismo entre o cristianismo e a crença tradicional maia-quiché, esta registrada no livro sagrado do Popol-Vuh.
Ambulantes vendiam flores, velas, demais utensílios para os rituais, nas portas e escadarias das igrejas. No interior de uma delas, fieis consultavam videntes, adivinhos, místicos, que liam a sorte, previam o futuro, atendiam pedidos dos mais variados. Os homens sagrados se muniam de pedras e pequenos objetos coloridos que fizeram lembrar os búzios das também sincréticas religiões afro-brasileiras.
 Assim como os demais avistados na região, o cemitério da periferia de Chichicastenango usava e abusava de cores vivas e alegres nos mausoléus, tumbas, lápides. Também ali, familiares dos mortos acendiam fogueiras para se comunicarem com os que se foram. Entoavam orações, ora em espanhol, ora em uma das línguas maias.
 Almocei em restaurante simples e, como de praxe entre os guatemaltecos, bem atendido. Fui de sopa de milho e legumes, tortillas, muitas tortillas, molhos apimentados na mesa, carne de porco, arroz, guacamole, rabanetes.
O comércio das empresas evangélicas florescia em meio à pobreza da Guatemala. O fundamentalismo lucrava horrores em cima da ignorância, da falta de escolaridade, despolitização, ausência de democracia e de liberdade de imprensa, da miséria material e política dos guatemaltecos. Proliferavam nomes dos mais esdrúxulos e hipócritas nas portas dos cultos farsescos das corporações evangélicas.
Da cidade de Panajachel, eu tomei lancha matinal. A embarcação cruzou as águas do lago Atitlán, permitindo a contemplação de montanhas que cercavam as águas, dos vulcões, vilarejos, eventuais barcos de pesca.
Atracando na vila de Santiago Atitlán, logo chamou atenção as roupas tradicionais da etnia Zutuhil. Os homens vestiam calças listadas, coloridas e curtas, camisas sociais, novas, limpíssimas, passadíssimas, sem vincos Os chapéus imensos, de abas largas e curvadas para cima. Elas, além das roupas sempre coloridas e trabalhadas, decoradas de panos nas costas e nos braços, cobriam a cabeça com tiras de tecido vermelho, quilométricas, enroladas em dezenas de voltas concêntricas em cujas últimas e externas vinham tiras coloridas.
continua...

12 comentários:

  1. Gosto do seu tipo de relato. Diferente do tradicional "de manhã tomei café, de tarde fiz um passeio pelo centro e voltei cansado para o hotel"

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  2. Olá Felipe,
    Obrigado pela visita e pelos comentários.
    Blogs têm que ser sinceros e pessoais. Caso contrário não são blogs.
    Tento emitir o meu olhar de viajante ao lado de impressões, sensações e reflexões sobre o local explorado.
    Mas tem muitos relatos publicados no blog, referentes a diversas viagens que realizei pelo Brasil e por outros países. Confira...
    Leia, analise, divulgue e comente sempre.
    Abraços!

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  3. Muito Boa a explanação, e triste saber da pobreza tanto intelectual quanto na saúde, conforme lua seus relatos me vi transportada à era passada,grata por dividir sua experiência abraços

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  4. Oi Margareth,
    Obrigado pela atenção e pelos comentários.
    Nossa América Latina padece desses males há mais de quinhentos anos. E sabemos bem as causas e as possíveis soluções. Quando aparecem governos dispostos a enfrentar e resolver a situação sob a ótica da maioria, logos as elites locais e estrangeiras os derrubam para voltar tudo como era antes, ou seja, mais miséria e mais injustiça social.
    Ainda bem que o mundo e as viagens não se resumem a isso.
    Espero sua visita em breve.
    Comente sempre,
    Abraços!

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  5. Sua viagem me fez recordar quando cruzei do sul do México até Honduras, apreciando o que nos restou da Civilização Maia.

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  6. Olá Marcia,
    Obrigado pela visita e pelos comentários.
    Adoraria saber mais de suas experiências na região. Você precisa compartilhar.
    Além dos relatos dessa viagem, publiquei outros referentes a inúmeras viagens realizadas pelos interiores do Brasil e de outros países. Leia, comente, divulgue...
    Conto com você!

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    1. ok, viajante. Escrevo um pouco quando viajo. Mas nem de longe se compara a tua técnica na escrita.
      Bom se quiser pode dar uma olhada por la.

      http://caminhosdeviajante.blogspot.com.br/2015/04/rota-maia-o-roteiro.html

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    2. Márcia, o importante é escrever o que vê e sente. Simples assim.
      Comente sempre...

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  7. Primeira vez que entro no blog. To curtindo muito :)

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  8. Olá Robson,
    Obrigado pela visita e pelos comentários.
    Espero que leia e curta mais ainda, este e outros tantos relatos já publicados no blog referentes a inúmeras viagens que realizei pelos interiores do Brasil e de outros países da América, África, Ásia, Europa. Fique à vontade para ler, comentar, divulgar, pesquisar...
    Comente sempre,
    Abraços!

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  9. Muito legal!! Vou acompanhar sim o seu blog!

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  10. Oi Heloisa, obrigado pela visita.
    Comente sempre, este e outros tantos relatos que você ler.
    Abraços!

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