sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O Rio Japurá-AM (parte 1/6)

O voo lotado e cheio de chineses saiu atrasado de São Paulo devido ao excesso de aeronaves nas pistas e às mudanças de local de decolagem.
Comi o sanduíche seco servido a bordo. Reli páginas de Arraia de Fogo, de José Mauro de Vasconcelos, depois de mais de trinta anos da primeira leitura. O ar condicionado exageradamente frio e sem possibilidades de ajustes incomodou.
O avião pousou em Manaus no meio da noite.
Apelei para táxi caro em razão do adiantado da hora, inconveniente para ônibus urbano. O motorista salientou a névoa permanente sobre a cidade devido a sucessivos incêndios urbanos e a queimadas constantes nos arredores. A falta de ventos e as altas temperaturas, anunciando a próxima estação das chuvas, só aumentavam a concentração da fumaceira.
Larguei as bagagens no quarto do hotel e saí para dar uma volta. Apenas o antológico bar do Armando, com música ao vivo e mesas cheias, dava sinal de vida na região do entorno do Teatro Amazonas e do Largo São Sebastião.
Escrevi poucas linhas antes de apagar tudo e adormecer.
Raros turistas no café da manhã. Muitos hóspedes a trabalho, mandando ver em notebooks, celulares, tablets, nas mesinhas da entrada. Até reuniões profissionais rolavam por ali.
Desci a rua Joaquim Nabuco rumo à margem do rio Negro, nas imediações da Manaus Moderna, a famosa Escadaria. Avistei o barco desejado. Desci à margem seca, ultrapassei as areias emporcalhadas de lixo, subi na balsa flutuante e entrei na embarcação.
Acertei a ida e a volta de Japurá no camarote do piso Superior, sem banheiro privativo, mas com ar condicionado. Deixei meu nome como única necessidade de reserva.
O calor, mesmo sob o sol pálido pela névoa seca e amarelada, massacrava. Eu sentia o suor escorrer pela nuca, peito, costas, pernas. Me ensopava instantaneamente. Andar se tornava um sacrifício.
Encostei o esqueleto dentro do mercado Adolpho Lisboa, reformado e turístico, para descansar e matar a sede. Fiquei horas olhando o vaivém, derretido no banco, sem forças para sair dali. Local simpático, porém menor e menos fascinante que os congêneres em Belém.
O centro de Manaus, para variar, continuava em reformas infindáveis. Duravam anos e administrações públicas das mais diversas. Não acabavam nunca. Tapumes, obras, areia, pedras, terra solta, ruídos de máquinas, desvios, trechos interditados, inacabados, meio destruídos. Tudo pelo meio, nada pronto. Nenhum local aprazível para relaxar ao ar livre, nenhuma sombra natural, nenhum banco ou qualquer coisa para se sentar em área pública. Em outros bairros, a mesma tristeza. A anti-amazônica e anti-indígena cidade de Manaus, conforme já lamentara nas visitas anteriores, permanecia desumana, feia, suja, tórrida, entupida de concreto e asfalto. Andar pela cidade durante o dia era uma temeridade. Alto risco de insolação, desmaios, grudar no asfalto em fusão. Nada de agradável pela zona urbana. Em muitos anos de visita à cidade, nenhuma novidade, infelizmente.
A avenida Eduardo Ribeiro, nos dois últimos quarteirões, entre o teatro Amazonas e a praça do Congresso, se encontrava fechada com tapumes metálicos de uma calçada à outra. Obras, mais obras, obras sem fim, na Manaus do concreto e asfalto.
À noite, a lua quarto-crescente apareceu desimpedida e prateada. Circulei pelo Largo São Sebastião, então com roda de samba amazonense, tradicional das quartas-feiras. E apresentações gratuitas de óperas no Teatro Amazonas, com direito a longas filas pelo público que prestigiava os eventos públicos. Fui de caldeirada de tambaqui, suculenta, bem temperada com coentro, alho e cebola, acompanhada de arroz e pirão. Escolhi mesa ao ar livre. A caldeirada empolgou sob todos os aspectos, a despeito da transpiração abundante e generalizada, compensando as duas caipirinhas medíocres.
 O samba corria solto com público vibrante e participativo, bem ao lado da banca de tacacá. Tentei relaxar em banco do largo. Não deu. A temperatura noturna superava os 30 graus. O suor da caldeirada secara. Mas começaram a escorrer outros filetes causados pelo calor absurdo da noite manauara. Passei pelo bar do Armando. Música ao vivo na base de banquinho e violão, frequência interessante, como sempre.
Não consegui sair à rua depois do café da manhã.
É certo que eu só contava os dias até a partida do barco rumo ao rio Japurá. Nada me atraía na zona urbana. Mas o que decididamente me reteve no quarto do hotel foi o calor tenebroso daquela manhã. Não o calor normal de Manaus, já exageradamente intenso. Mas um muito pior, mais tórrido, mais abafado. O sol brilhava e queimava violentamente quem se movia na superfície. Tudo parecia que iria se derreter sob o sol, a começar por mim e especificamente meu cérebro. A cinzenta Manaus, a cidade do concreto e asfalto, a Manaus sem árvores ou sombras em pleno coração da floresta amazônica, conseguia se superar a si mesma no calor indecente. A cada ano que eu a visitava a situação se tornava mais insuportavelmente quente. O vento era bafo pegando fogo na pele e nas vias respiratórias. Doía e ardia para inalar aquele ar em chamas.
O extremo desconforto pelas temperaturas indecentes atingiam os manauaras também, talvez até com mais intensidade do que para mim. Mesmo acostumados ao caldeirão, os moradores viviam se lamentando, sofriam os efeitos na saúde, exibiam expressões fatigadas, fugiam desesperados para locais refrigerados.
Me arrastei lentamente pela curta caminhada ao almoço. Aterrissei com as roupas grudadas ao suor do corpo. Mas o restaurante compensou. Caipirinha, picanha grelhada, arroz com brócolis, farofa, vinagrete, suco de cupuaçu.
À noite as temperaturas se mantiveram elevadas. Mesmo parado, eu suava e sentia a roupa lixando meu corpo. Jantei sorvetão de cupuaçu, açaí e tucumã. Sentei no banco do largo. Nada de brisa. Me sentia pegando fogo.
Pela manhã desci a rua Joaquim Nabuco rumo à Manaus Moderna, a única região interessante da cidade, a beira do rio Negro, da Escadaria, do comércio, do mercado e adjacências.
Cruzei a areia seca e suja da beira do rio. Subi na balsa e no barco. Eu nem precisava confirmar a reserva. Cumprimentei tripulantes, troquei frases com o proprietário. Observei o carregamento de itens dos mais variados tipos, provenientes de fora de Manaus, rumo a cidades e comunidades do vale do rio Japurá, as quais, como regra nos interiores amazonenses, nada produzem, nem comida, nem nada.
Saí para jantar a fim de encarar novamente a caldeirada de tambaqui. Não me importei de esperar bastante por mesa do lado de fora, sob a lua quarto-crescente e o céu coalhado de estrelas, nem de me ensopar de suor por aquela maravilha da culinária amazonense. Delícia das delícias. O calor do meio-dia prosseguia à noite.
Mas eu estava feliz da vida. Pela caldeirada precedida de duas caipirinhas, pela expectativa da partida do barco.
Após o café da manhã fechei tudo e saí do hotel.
Ao subir no barco, peguei a chave do camarote com a cozinheira. Larguei as bagagens no cubículo limpíssimo, com lençóis nas duas camas do beliche.
Subi ao piso de Lazer, vazio e silencioso, para escrever diante do vento quente e constante. A estação das chuvas se aproximava. Não era comum aquele vento incessante com o barco parado e atracado na balsa flutuante.
Conversei bastante com o professor de história em escola municipal de Japurá. Maranhense de nascimento e recém-separado em Manaus, o cinquentão tentava recomeçar a vida em cidade pequena. Parecia deprimido. Levantei as questões dos municípios do interior do Amazonas não produzirem nada para o próprio sustento e dependerem de tudo de fora, inclusive verduras, legumes, frutas, ovos, carnes, etc. As respostas não diferiam muito dos demais a quem costumo indagar. Falta de interesse dos governos, entre tantas desculpas. Mas e daí? Ninguém tenta nada?
O barco partiu mergulhando imediatamente na escuridão da noite, rumo à foz do rio Negro, ao rio Solimões, ao rio Japurá. Observei o negrume interrompido pelas raras luzes dos vilarejos e comunidades ribeirinhas.
Entrei no camarote levemente refrigerado pelo ar condicionado que eu regulara a um terço da potência. Apenas fresco. Nada de frio ou congelamento. No camarote oposto ao meu, um senhor roncava impunemente. Os vãos das madeiras liberavam o som diretamente nos meus ouvidos. Sublimei e adormeci com relativa facilidade.
Me levantei ao começar a clarear. Navegávamos em águas do Solimões. Tomei banho completo no cubículo que fazia vezes de latrina e chuveiro frio. A água vinha do próprio rio e puxada para as caixas d’água no piso de Lazer.
A névoa seca e a fumaça das queimadas ofuscavam o horizonte. Dava para sentir o cheiro, embora não se notasse focos de fogo ou chamas. O céu, de um amarelado bizarro. A margem direita do Solimões, a mais próxima, exibia barrancos estratificados de lama ressecada. Acima deles, eventuais casas isoladas ou comunidades, abastecidas por energia elétrica instalada pelo programa Luz Para Todos do governo federal. Abaixo, canoas transportavam madrugadores para pescar o alimento diário.
           O café da manhã a bordo ofereceu pão, margarina, ovos mexidos, tapioca com margarina, bolo, leite com achocolatado, café, leite, tudo à vontade. Dava para repetir até matar a fome.
continua...

2 comentários:

  1. Tomei uma excelente caldeirada de tambaqui neste último fim-de-semana, regada a suco de araçá - um dos maiores privilégios de morar na Amazônia é desfrutar da nossa culinária. Em sua próxima visita a Manaus, avisa-me para comermos peixe assado ou outra caldeirada. Também será uma boa oportunidade de conhecer as cachoeiras de Presidente Figueiredo que, penso eu, ainda não visitaste.
    Abraços
    att, Jafé Praia.

    ResponderExcluir
  2. Oi Jafé, obrigado pela visita e comentários.
    Nunca tomei suco de araçá. Já me deu água na boca...
    Certamente nos encontraremos para mergulhar nas paisagens e culinária amazonense. Me aguarde...
    Abraços!

    ResponderExcluir