sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O Rio Japurá-AM (parte 5/6)

...continuação
Atingi a casinha que funcionava como saguão do aeroporto, ao lado de pista asfaltada de mil e quinhentos metros de comprimento. Além da pista de pouso, outros caminhos seguiam a comunidades afastadas, mas estreitos e de terra, no caso lama pelas chuvas torrenciais da noite passada.
Retornei à zona urbana. Me enchi de líquidos variados, sentado sob a sombra ventilada das mangueiras que dão acesso ao porto. Me hidratava enquanto contemplava o fraco movimento entre a cidade e o barco. O rio Japurá corria lá embaixo, lento, da esquerda para a direita. O sol mandava ver, sem dó nem piedade.
Mais tarde reencontrei o pernambucano em busca do símbolo do município, com quem segui em peregrinação pelas ruas da cidade. Depois fomos almoçar perto do mercado, o único estabelecimento aberto que servia refeições diurnas. Encarei o razoável pacu assado com arroz e feijão. As minúsculas espinhas, em quantidade excessiva, dificultaram a ingestão do assim denominado Hipoglós em Cuiabá, ou pacu assado.
Um sujeito aloirado, de pele clara, quarentão, de sotaque gaúcho, desfilava pela cidade a macheza e a arrogância. Eu já reparara no indivíduo na noite anterior quando do frango grelhado. E o tal reaparecera no restaurante do almoço, acompanhado dos parceiros. Não olhavam para os lados. Não dirigiam a palavra a ninguém. Comentavam sobre tantas gramas de ouro ali, um desvio no peso lá, uma tentativa de roubo dos grãos acolá. E sempre no tom de machos imbatíveis:
- comigo não!
- comigo o cabra não sobrevive!
- eu furo ele todinho!
Entre outras tantas bravatas. Exceto os colegas do tal, nenhum do entorno dava a mínima.
O calor ia às alturas. Nem pensar em permanecer nas ruas andando feito doido. Desci a rampa e me alojei no piso de Lazer do barco, pegando a fresca e escrevendo as impressões e sensações do dia.
O sol inclinava no horizonte. Subi novamente a rampa. Me hidratei entre águas e refrigerantes regionais de guaraná. Me sentei nos degraus da escadaria da rampa. Ensebei. Matei o tempo o quanto pude. Desci a rampa e me instalei definitivamente no barco.
No momento em que me sentava para escrever no piso de Lazer e dava olhadelas na já familiar rampa sombreada pelas mangueiras, notei dois rapazes batendo no piso das escadas com pedaço de pau, justamente onde me sentara tantas vezes, exatamente onde ficara vendo o tempo passar minutos antes. Uma cobra de mais dois metros de comprimento se debatia no chão e tentava se livrar das pancadas. Pela distância não identifiquei se venenosa ou não. Só sei que era marrom e longa. E, mesmo ali no barco, distante, sentado, seguro, aquilo me assustou.
O piso Superior se ocupava de apenas treze redes. A maioria chegada à última hora. E também na última hora, parentes, amigos e anônimos, se aglomeraram na beira do rio, no final inferior da rampa, muitos vestidos com roupas de domingo, especialmente montados para despedidas e curiosidades.
 Escurecia. O prefeito apareceu com a comitiva a fim de se despedir do proprietário. Subiram a bordo e permaneceram no piso de Lazer consumindo latas de cerveja. Os cilindros de alumínio seriam largados no piso do barco, rolando de lá para cá.
Sabedor de meus comentários sobre o antes e o depois da situação das ruas da cidade, o proprietário me apresentou ao prefeito em pessoa. Trocamos impressões sobre Japurá e o que acontecera em mais de sete anos de administração. Me vendo conversar tão à vontade com o prefeito, assessores dele vieram depois me procurar, curiosos. Queriam saber quem eu era de especial. Me apertavam as mãos. Balbuciavam algo nem sempre inteligível pelo avançado estado de embriagues.
O coquetel corria solto. O barco ligou os motores e soou o apito. A comitiva e sua excelência desembarcaram, acenando de terra. O barco manobrou e deu a partida, rio Japurá abaixo, sob o céu negro, limpo, escandalosamente estrelado.
Nem bem o barco se pôs em movimento, o vento bem-vindo bateu, espantando os mosquitos e refrescando a noite quente e abafada. O vento durante as baixadas de rio batiam mais forte em razão da maior velocidade do barco em comparação com as subidas.
A equipe administrativa do barco desapareceu sob os efeitos do álcool ingerido no coquetel de despedida. Os tripulantes, ou se ocupavam das funções específicas, ou curtiam a ressaca da noitada anterior. Os passageiros, poucos, se mantiveram nas redes. O ambiente mergulhou em silêncio profundo.
O barco atracou ainda no escuro no flutuante em Maraã. Amanhecia deslumbrantemente a jusante da cidade, em tons dourados e sanguíneos, atrás de barquinhos e flutuantes sobre as águas do Japurá.
Não quis desembarcar em cidade já explorada, feia e desinteressante. Iria somente suar, suar muito, apenas suar. O céu azul, sem nuvens, liberava o sol para torrar sem piedade o que estivesse pela frente. As sombras eram muito procuradas. Nelas, a brisa suave garantia parte do frescor do começo da manhã.
Depois de o proprietário do barco comprar pirarucus e tambaquis enormes, vendidos nas canoas que encostavam ao piso Principal, mais remessas de bananas e cana, o barco zarpou rio Japurá abaixo no meio do dia. Entre os passageiros embarcados em Maraã, reencontrei da viagem da subida o técnico de telecomunicações, a serviço na cidade, e uma senhora, empregada doméstica em Manaus e mãe de sete filhos.
O setor de redes do piso Superior encheu bem e, é claro, quase todos chegaram à última hora para o embarque. Não havia mais vagas em nenhum camarote ou suíte.
O massacre sonoro do piso de Lazer prosseguia a todo vapor. Ou eram mil vezes sem parar o vídeo da apresentação de lixos descartáveis da indústria cultural ou mil vezes sem parar o lixo do fundamentalismo evangélico que lucra em cima da fé dos otários. Preferia permanecer no piso Superior, para ler, escrever reflexões e sensações no diário, ou conversar com passageiros. E reli até o fim, com imenso prazer, Arraia de Fogo, de José Mauro de Vasconcelos, me causando melhor impressão que da primeira vez, décadas antes.
A tarde corria solta, modorrenta, tórrida, abafada. A sombra na baixada, porém, ficara do meu lado. Podia me sentar encostado na murada de proteção sem o perigo de entrar em fusão.
O cearense tagarela que iria desembarcar em Japurá não desembarcou. Mudou de ideia para Maraã. Também não desembarcou. Finalmente decidiu ficar em comunidade horas a jusante de Maraã. Figura impagável!
As paradas ou reduções de velocidade ocorriam à mercê dos interesses do proprietário, que saía em voadeira com dois tripulantes à procura de pirarucus e tambaquis baratos a serem revendidos caros em Manaus. Praticamente sem carga nos porões, os trajetos de baixada eram usados pelos barcos para comprar matéria prima, abundantes nas comunidades e flutuantes, a preços irrisórios. A voadeira nos encontrava mais abaixo cheia de sacos carregados ou o barco encostava a algum flutuante para carregar.
O sol do meio da tarde valorizava as cores das águas e margens, da floresta, poucas praias, flutuantes, comunidades, casinhas isoladas. A poluição sonora do piso de Lazer deu trégua, me permitindo ficar lá na boa. Um grupo ocupava a mesa para jogar caixeta a vinte e cinco centavos a rodada. Parei para assistir. Outros apenas relaxavam e olhavam a paisagem dourada pelo sol.
Parada em flutuante na margem esquerda do Japurá para carregar quilos e mais quilos de pirarucu e tucunaré. Em seguida, o por do sol, mais uma vez naquela viagem, foi de babar de emoções. Amarelo, dourado, laranja, vermelho, e muito brilho, bastante brilho. Demais! E bastou o sol baixar, antes mesmo de se por completamente, para passageiros subirem ao piso de Lazer a fim de pegar o ventinho fresco antes do anoitecer.
Iniciei o livro Fogo Morto, de José Lins do Rego, outra releitura depois de quase quarenta anos. Os primeiros vinte por cento do livro não animaram.
Alguém havia comentado que os trajetos de baixada de rio costumam ser mais vibrantes e animados que as subidas. Fato. Os passageiros se integram mais, usufruem mais do piso de Lazer, se movimentam mais.
Por outro lado, a passeio, eu preferia as viagens de subida de rio. Sempre fugindo do canal para incrementar o desempenho do motor, os barcos se aproximam das margens, facilitando observações mais apuradas da floresta, fauna, barrancos, casas, comunidades, flutuantes, barquinhos de pesca, vida cabocla, eventuais reservas indígenas. E a velocidade mais lenta, por navegar contra a corrente, por navegar mais pesado, por dispender mais tempo nas paradas para descarregar, também permitia apreciar tudo com mais calma. Nas baixadas, por motivos opostos ao da subida, o barco corria mais, procurando o canal principal do rio, comumente no centro, longe das margens.
Acordei assustado no início da madrugada. Ouvi um som de pancada, estrondo forte e seco. Um só, mas intenso e apavorante. Nenhum movimento diferente do lado de fora. Relaxei e adormeci.
Menos de uma hora depois nova barulheira. Meio acordado, meio dormindo, inicialmente supus espécie de mutirão de limpeza, no qual os tripulantes varriam os três pisos ao mesmo tempo. Era com se estivem raspando tudo. O barco todo balançava. As madeiras rangiam ao se retorcerem. Parecia que a estrutura da embarcação iria se desconjuntar, se separar, se repuxando de um lado para outro. As águas, já de volta ao Solimões, estavam agitadas formando ondas irregulares. Por mais que tentasse, não conseguiria adormecer novamente.
Saí do camarote.
Muitos passageiros estavam acordados, de pé, atentos, mudos, tensos, amedrontados. Chovia. Raios e relâmpagos estouravam a oeste. O proprietário se encontrava ao lado da cabine de comando. A coisa era séria e preocupava. Afinal, ninguém esfregava nada em convés nenhum. O barco cruzava chuva, vento, o banzeiro e o nervosismo do Solimões. O gordão mulato que dividia o camarote ao lado, também de pé e longe do cubículo, agourava:
- Não gosto de camarote. Vi muita gente morrer assim, afogado, sem poder abrir a porta.
Outros ao lado emendavam:
- Muitos morrem ali dentro sem saber o que acontece do lado de fora.
- Morrem dormindo.
- Mas será que não despertam quando estão se afogando?
- Sei não...
Me sentei junto à mesa de refeições da popa do piso Superior. Muitos ali mantinham os olhos esbugalhados, de sono e de medo. Pouco ou nada falavam. As redes oscilavam bastante, batendo uma nas outras.
Duas horas depois o tempo se acalmou. A chuva praticamente parou. As ondas do Solimões se acalmaram. O barco se aprumou e parou de balançar.
Entrei no meu camarote e tentei adormecer.
continua...

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