terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Rio Japurá-AM (parte 4/6)

...continuação
Acordei durante a madrugada. O barco estava atracado a barranco ocupado por casinhas iluminadas, muito próximas umas às outras. Era a ilha e distrito de Acanauí, antiga sede do município de Japurá, porém transferida na década de 1980 para a atual localização, e abandonada em virtude da baixa altitude e de constantes alagamentos durante as cheias do rio.
Amanheceu com o Japurá bem largo e enchendo em razão de chuvas nas cabeceiras situadas em território colombiano, lá chamado de rio Caquetá. Era cheia temporária, permitindo o chamado repiquete dos peixes. As praias, existentes havia semanas, e agora sob as águas ou muito reduzidas, voltariam a aflorar em meados de novembro, para sumirem de vez nas cheias definitivas a partir de dezembro, durante a estação das chuvas, ou inverno amazônico.
A amplidão das águas do Japurá abrigava centenas de ilhas de vários formatos e tamanhos, compondo labirinto de pedaços de terra com cobertura florestal sobre o mar de água doce.
Praticamente não se viam comunidades, casas isoladas, roças familiares, nas margens de terra firme ou das ilhas. A floresta reinava absoluta reservando árvores de pequeno, médio e grande porte, entre castanheiras, samaumeiras e outras majestades. Serviam de moradias ou escalas para uma infinidade de pássaros como, além dos já citados, arirambas, socós, periquitos, papagaios, maritacas, todos cantando, piando, oferendo som inebriante, e com eco das funduras da mata. Ao passar do barco as aves voavam de galho em galho, davam rasantes na água, bailavam no céu.
Durante o café da manhã, cearense falador nos presenteou com mais balelas, causos, exageros, provocações, brincadeiras, lorotas, bravatas. Entre tantas tagarelices, mencionou a abordagem ousada que praticara na noite anterior na cozinheira. Ele se vangloriava das supostas proezas, enquanto ela ali ao lado balançava negativamente a cabeça e refutava toda a estória.
O idoso também discursou contra a obsessão de pessoas pelos celulares. Contou o causo da garota na praia de um rio amazônico. Ela não largava o celular, só no papo solto, concentrada e excitada, sem prestar atenção a nada ao redor. Eis que surgiu um jacaré pelas costas, lançando uma rabada para desarmá-la enquanto a puxava com a bocarra. Foi celular espatifado para um lado, e ela, toda ferida e sangrando, para outro. E arrematou:
- É pra deixar de ser besta, fiadaputa! Celular é o cão!
Quando não rolava o lixo da música descartável em vídeos no televisor do piso de Lazer, outro lixo pior nos invadia sem pedir licença. O lixo das empresas evangélicas, aquelas que lucram milhões em cima dos trouxas que berram louvores a isso ou aquilo. Sofríamos com o massacre fundamentalista. Mas uns poucos, exibindo olhares embrutecidos pela ignorância, se bestificavam diante das imagens e dos sons alienantes. Imediatamente me lembrei do delicioso samba interpretado pelo Bezerra da Silva, Pastor Trambiqueiro. Seria pedagógico àquela altura do campeonato.
E os passageiros, ansiosos pela chegada, iam desatando as redes, recolhendo as tralhas, empacotando tudo.
Na manhã do sexto dia de trajeto desde Manaus, rios Solimões e Japurá acima, o barco atracou na balsa flutuante da cidadezinha de Japurá, na margem direita do rio de mesmo nome. Em frente, a rampa concretada e sombreada de mangueiras que levava, a pé pela escadaria, ou motorizado pelas ladeiras laterais, ao centro urbano, erguido acima do barranco.
O município de Japurá contava com cerca de sete mil habitantes em extensa área que alcançava a fronteira com a Colômbia, dois dias de barco rio acima, mais precisamente no posto militar de Vila Bittencourt. Em cidade tão despovoada de brancos, quatro mil pessoas ali no distrito sede, o professor maranhense contou nos dedos até concluir que havia exatos dez carros na cidade. Somente dez. Motos, sim, havia muitas.
Eu ouvira horrores da cidade de Japurá nove anos antes, quando da minha visita a Maraã. Na época, um técnico em eletricidade a serviço denunciara a situação de abandono e descalabro social. A completa ausência de serviços públicos municipais, o matagal nas ruas obrigando os moradores a se esgueirarem nas frentes das residências para se locomoverem, a quantidade de cobras perambulando impunemente e causando acidentes fatais. O caos.
Pois dois anos e tanto depois, tomou posse uma administração municipal de esquerda, eleita pelo povo indignado e esgotado do descaso social a que as elites locais condenaram os moradores por vinte e oito anos, por sete mandatos consecutivos, roubando os cofres públicos e tratando a população pior que animais, como de praxe em governos corruptos dos partidos das classes dominantes.
 Essa administração progressista que assumiu em 2009, nem bem iniciou o mandato, começou a colocar ordem na casa e atender a maioria da população. Cortou o mato alto das ruas, matando centenas de cobras. Concretou os leitos trafegáveis após a instalação de água canalizada. Construiu rampa de concreto no porto para os barcos e balsas. Ergueu hospital público municipal, antes casebre podre de madeira, agora construção ampla e equipada com o mínimo necessário. Construiu escolas públicas municipais aliadas a encomenda de frota de ônibus escolares junto ao governo federal. E não somente para a sede do município, mas também para as comunidades rurais, inclusive a distante Vila Bittencourt.
Tive a oportunidade de analisar as fotos de Japurá antes e depois de 2009. Os resultados das duas administrações, com a reeleição em 2012, eram evidentes. As diferenças entre o antes e o depois eram escandalosas demais. E colocaram em dia as receitas e as despesas, incrementando os necessários gastos públicos para o bem-estar da maioria da população.
Calma aí! Japurá estava longe de ser um paraíso. Havia ainda pendências, muitas delas. Por exemplo, a urgente política pública para tornar Japurá autossuficiente nos principais alimentos que consome. Era problema crônico em praticamente todo o Amazonas, onde tudo é importado, nada se produz. Somente o peixe e a farinha, então já em produção no município, estavam longe da desejada autossuficiência alimentar. Alimentos compatíveis com o solo e o clima podem e dever ser produzidos localmente. A agricultura familiar, agroecológica, abasteceria a população de produtos frescos e baratos.
Voltei ao barco e permaneci no piso de Lazer para escrever e refletir sobre tantas experiências vividas em poucas horas. Antes, aceitei o convite para a caldeirada de tambaqui no piso Principal com a tripulação. Eu nem estava com fome, mas caiu bem demais, a comida e o ambiente. Os tripulantes não se cansavam de se debocharem, entre risadas e descontrações variadas.
Lá fora o sol queimava e me desencorajava a maiores explorações. Escrevi e relaxei ali em cima.
Esperei o sol baixar. Subi a rampa do porto e encarei pequena volta pelas ruas ao redor do centro. O calor massacrava. Me sentei no topo das escadas sob as mangueiras e ali estanquei por mais de uma hora.
O barco não parava de desovar carga que era transportada para o comércio local via reboques atrás das motos, carrocerias de caminhonetes, nas mãos. Estudantes uniformizados tentavam a todo custo catar mangas verdes ou jambos maduros dos pés ali da rampa sombreada. Caíam alguns frutos que logo eram devorados. Quiosques de madeira ao redor do mercado do topo da rampa começavam a vender cervejas para os primeiros bebuns.
Cruzei com o professor maranhense e o acompanhei à secretaria municipal de educação. Observei a biblioteca farta de livros de literatura, ciências, história, variedades, todos bem organizados nas prateleiras. Não descobri se alunos ou professores os utilizavam. Utilizado mesmo era o bebedouro de água gelada bem ao meu lado, inclusive, e principalmente, por mim.
O Mais Médicos, elogiado programa do governo federal, se fazia presente no município de Japurá. Antes nenhum médico fixo atendia a cidade. Agora cinco médicos estrangeiros, quatro deles cubanos, atendiam a população da zona urbana e das comunidades afastadas. A ação sanitária se mostrava corretíssima face à recusa dos médicos da burguesia e da pequena burguesia de saírem dos grandes centros para atenderem quem mais precisava, em localidades remotas e carentes. Ponto para o governo federal e vaias para os filhinhos-de-papai que condenam o programa humanitário e só querem ganhar dinheiro em cima das doenças nas maiores cidades.
O toró despencou à tardinha e parecia que não pararia nunca mais. Muita água, relâmpagos, raios, trovões. Ainda bem que eu estava em terra e não a bordo. Enxurradas lavavam o concreto das ruas e calçadas. A população, no entanto, circulava normalmente. Muitos nem guarda-chuva usavam. O calor pegajoso deu um tempo e o ar refrescou.
Eu e o maranhense permanecemos ali na varanda de madeira da casa dele, sentados por horas, jogando conversa fora, cumprimentando os passantes. Alguns paravam e puxavam assuntos variados. Até o vizinho de madeira do professor soltou frases soltas, deixando a porta aberta para ouvirmos as músicas de letras sofridas.
Estiou temporariamente já de noite. Atravessamos a rua rumo à casa da esquina, também de madeira, que servia sob o alpendre improvisado generosas porções de frango grelhado com arroz, salada e farinha d’água. Pelo jeito era o único lugar a servir refeições decentes naquela noite de tempestades. O padre, dois garimpeiros suspeitos, figuras da elite local, vieram comprar comida para viagem. O pernambucano apareceu e comeu também.
Atravessamos de volta a rua e nos sentamos novamente em frente da casa. Absolutamente nada para fazer. Pelo menos as temperaturas e o frescor do ar causavam boa sensação. Jogamos conversas fora por mais algum tempo. O assunto se concentrou na sinuca de bico em que se encontrava o professor. Separado recentemente, distante dos filhos, sem condições de trazê-los, morrendo de saudades, ganhando o insuficiente, deprimido, amargo. Não via nem sinal de luz no fim do túnel. O sono bateu nos três. O maranhense só fez abrir a porta e entrar em casa. O pernambucano desceu a rua rumo ao hotel. Eu me dirigi ao lado oposto, ao porto e ao barco.
Tomei banho e me recolhi ao camarote. A água e a energia elétrica funcionavam normalmente no barco. Dormindo aquela noite a bordo, atracado, eu economizaria a diária de hotel e manteria a atmosfera fluvial.
Dormi bem. Não ouvi nada de inconveniente durante a noite. Se houve bêbados cambaleantes e ruidosos nada percebi.
Havia gotas e manchas de sangue nas torneiras da popa. A noitada da véspera, em festas pela cidade, fizera vítimas, certamente. Mais tarde, soube que um dos tripulantes do porão de cargas, carregador baixinho e entroncado, se metera em confusão. Embriagadíssimo, querendo ser melhor que o oponente, ferira a mão com gravidade. Até o encontrei mais tarde nas ruas da cidade, bêbado feito um gambá, com a mão direita enfaixada. Ele teria que sarar e recobrar a lucidez rapidamente a fim de recarregar o barco e se preparar para a partida.
          Perambulei pelas ruas da cidade sem saber ao certo aonde ir. Peguei uma rua aleatoriamente até o final. Virou estradinha estreita e asfaltada. A caminhada agradável cortou parte da floresta, modestos cursos d’água, casinhas, fazendas de gado, bares e puteiros quase escondidos. Pouco movimento de motos e pedestres. Das altas árvores, os cantos de pássaros marrons de cauda amarela lembravam toque de mensagem de celular. Não aquele ruído mais comum e imitação de canto de pássaro. Mas som inusitado, como se substanciosa gota d’água caísse em profundo recipiente cheio de líquido. Era som digitalizado, arredondado, grave e agudo ao mesmo tempo. Interessantíssimo. Aproveitei a sombra da árvore frondosa e me deixe ficar ali por longos minutos, apreciando a paisagem e a acústica daquela incrível sonoridade. O bando de pássaros, então, resolveu dar espetáculo e cantou com todo o gogó. Demais!
continua...

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