segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Rio Purus (de Manaus a Rio Branco) (parte 1/6)


Considerando a variação do nível das águas do Purus durante o ano, minhas chances se comprimiam entre os meses de dezembro e abril. Pelo menos de percorrê-lo da foz no rio Solimões até a cidade de Boca do Acre, final das linhas de barcos de passageiros que partiam de Manaus. Optei por abril.
No dia da partida, saltei da cama ainda no escuro. Empurrei dois pães com manteiga na padaria, ajudados pelo copo de iogurte batido com leite.
Metrô até a estação Tatuapé, de onde peguei ônibus comum ao aeroporto de Cumbica, em Guarulhos.
O avião partiu quase lotado naquele início de abril, me deixando em Manaus sob o sol tipicamente manauara.
Após encher o bucho perto do hotel, encarei a caminhada até a Escadaria, o vibrante porto de Manaus na beira do rio Negro, cujas águas batiam na murada da rua do mercado.
Não avistei o barco que me levaria pelo rio Purus. Pergunta daqui, fuça dali, fiquei sabendo que o dito cujo estava parado e esperando socorro mecânico na distante cidade de Pauini.
Subi e me informei por curiosidade no barco batizado com um nome ameaçador, fundamentalista e evangélico, que sairia em sete dias com destino a Carauari, no rio Juruá.
À noite, dei volta curta pelo entorno do teatro Amazonas, a praça de São Sebastião, tudo arrumado, limpo, iluminação charmosa, calçamento antigo, música ao vivo nos bares da praça, especialmente no lendário e sempre cheio bar do Armando.
Pela manhã, comprei passagem para a cidade de Codajás, em lancha que partiria bem cedo no dia seguinte. Tudo para enrolar o tempo e pensar melhor. E isso bem longe de Manaus, a cinzenta e tórrida Manaus.
Como a opção Purus parecia inviável, por via das dúvidas, reservei lugar no barco com o tétrico nome fundamentalista, rumo a Carauari. Acabei fechando a ida e a volta ao saber que eu poderia permanecer no camarote, com cama de casal, banheiro privativo e ar condicionado, durante os dias previstos de parada no porto de Carauari.
A cidade de Manaus, a despeito da esquizofrenia dos preparativos para a Copa do Mundo do ano seguinte, com construção e reforma de estádio e aeroporto, entre outras obras desnecessárias, continuava a mesma para a maioria da população. Feia, suja, tórrida, entupida de lixo, concreto e asfalto, com quase nenhuma árvore nas ruas ou áreas verdes, em plena floresta amazônica. Na verdade, a floresta era devastada e empurrada cada vez para mais longe dos moradores.
Acordei muito cedo para pegar a lancha para Codajás na beira do rio Negro.
Despachei a bagagem na plataforma atendida por funcionários uniformizados, atenciosos e prestativos.
A confortável lancha partiu às 7h, comportando duzentos e cinquenta passageiros ou mais, amplo corredor central separando as fileiras de três assentos numerados de cada lado. Nem bem a lancha partiu, iniciou a exibição de filmes, um após o outro, nas dezenas de televisores de tela plana distribuídos em ambos os lados das fileiras.
Enquanto o piloto, impecavelmente uniformizado de branco, cortava caminho pelos furos na floresta graças às cheias dos rios Negro e Solimões, começou a tortura de um filme estadunidense, chamado Argo, pura propaganda imperialista. A maioria dos passageiros ignorava solenemente o lixo comercial nos televisores, dormindo ou conversando, sentada ou em pé.
Já nas águas do Solimões, do qual mal se viam as margens, de terra firme ou de ilhas, a fome resolveu aparecer. Aguentei firme, certo do almoço incluído no valor da passagem a ser servido antes da parada em Codajás, conforme informação na bilheteria quando da compra da passagem.
Sem intervalos, após o fim do lixo terrorista, os televisores exibiram um musical baseado no romance Os Miseráveis. Pavoroso como qualquer musical.
Antes do meio-dia foi servido o almoço sobre a mesinha dobrável à frente do assento, similar aos tempos em que serviam comida nos aviões. Veio bife no molho de tomate, arroz, farofa, batata com maionese, bombom de sobremesa, regado a refrigerante regional de guaraná.
Vez ou outra eu circulava pelos interiores da lancha. A discreta proa abrigava o piloto e mais um assento alongado onde sentavam tripulantes ou passageiros ávidos por contar e ouvir as novidades. Na popa, separada por uma porta de vidro, ficavam quatro banheiros, a cozinha, a copa, o barzinho vendendo comes e bebes. Na extremidade traseira da embarcação, uma área ventilada para fumantes e apreensivos em geral. Tudo muito limpo e em perfeita ordem.
A paisagem alagada prosseguia em ambos os lados do rio. Por duas vezes a lancha parou os motores, ou reduziu acentuadamente a velocidade, para facilitar o embarque de quem vinha de uma das distantes margens do Solimões.
Desembarquei em Codajás no meio do dia. A lancha imediatamente desatracou, seguindo para as cidades de Coari e Tefé.
Já na rua da cidadezinha, caminhei até o hotel, de frente para as águas do Solimões.
A primeira impressão de Codajás foi de uma cidade pequena, pacata, feia, abandonada pelas administrações públicas, inacabada, com obras parcial ou totalmente paralisadas, mato crescido na praça, construções de madeira em ruínas na beira do Solimões. Por outro lado, me pareceu acolhedora, com povo simpático que procurava me cumprimentar.
Saí para jantar no começo da noite. O único restaurante que notei nas imediações do hotel não tinha mais comida. Improvisei sanduíche regado a suco substancioso de cupuaçu.
As ruas centrais se alegravam com muita gente, como normalmente ocorre à noite em cidadezinhas quentes. Poucos automóveis e bicicletas, muitas motos para cima e para baixo, com uma, duas, três, quatro ou mesmo cinco pessoas em cima, e sem qualquer tipo de proteção, para a cabeça ou resto do corpo.
Meninas vestidas para matar, usando maquiagem carregada e saltos altíssimos, perambulavam em duplas, com os respectivos, em grupos. Praticamente todas, assim como os e as acompanhantes, muito jovens. Tipos físicos indígenas, com cabelos lisos e pretos, olhos amendoados, evidenciavam que Codajás fora construída em cima dos territórios dos povos originários da Amazônia.
Os raros carros vomitavam som em volume desumano. Os estacionados ao lado das calçadas, rodeados de turminhas, deixavam rastro de latinhas e garrafas de cerveja, pelas ruas, calçadas. E pelas demais ruas da cidade, mais lixo, largado pela população e não recolhido.
Os poucos quiosques erguidos na calçada da orla, servindo comes e bebes, principalmente bebes, exibiam apresentações musicais pelos televisores aos gatos pingados ocupando as mesas de plástico dispostas num resto de praça da rua principal.
Mas o que realmente massacraria durante a noite e a madrugada era a casa noturna sobre o flutuante em frente ao hotel. O volume ensurdecedor, os graves vibrando pelas paredes e pisos do quarto, certamente poriam em risco um sono minimamente recuperador.
Barcos de passageiros e balsas de carga subiam e desciam a “avenida” Solimões. Apitavam na chegada e na partida. Desembarcavam e embarcavam passageiros, encomendas, cargas das mais variadas. Era um espetáculo de vida pulsante, digno de ver. O animador da danceteria perto do hotel saudava ao microfone os barcos e os passageiros, à medida que passavam em frente à casa noturna. E gritava “vamos desejar boa viagem ao Rei Davi”, “vamos dar viva ao Silva Neto III”, “vamos saudar o Maresias VII”, e assim por diante.
Pela manhã, andei a esmo, a oeste e norte da cidade. Não encontrei nada além de descaso com a população. Ruas esburacadas ou enlameadas com esgoto a céu aberto, casas e casebres precários, lixo acumulado, urubus pairando e pousando, absolutos. Aspecto geral de abandono e sensação de inexistência de qualquer tipo de serviço público.
Será que Codajás também fora sorteada com a prática costumeira por aqueles interiores nos quais o prefeito sequer reside na cidade, torrando o dinheiro da arrecadação municipal e dos repasses estadual e federal em paraísos distantes?
Ao lado disso, e talvez aliado a isso, o comércio evangélico ia às mil maravilhas em Codajás, com filias por todos os cantos da cidade, alienando mentes e posses dos clientes. Se não dentro das empresas do fundamentalismo, era pelas ruas, onde grupos de homens e mulheres, vestidos medievalmente, usavam e abusavam da coação, de casa em casa, para sequestrar mente e dinheiro, engordando ainda mais os cofres dessas corporações evangélicas.
Daí a passividade e a resignação da maioria, ambas com matizes religiosos, diante do descalabro social e político no município. A minoria que lucrava com essa triste situação estava rindo à toa.
Reencontrei dois topógrafos, também hóspedes no hotel, também sem fazer nada, somente aguardando a liberação do início de obra civil nas imediações. Já almoçados, levantamos as opções de atividades para a parte da tarde.
Me lembrei da enorme caixa de isopor no flutuante do porto fluvial, lotada do creme de açaí para ser vendido aos passageiros das dezenas de embarcações que atracavam por ali. Chamei os dois colegas. Três pessoas avaliariam melhor a qualidade da mercadoria. Comprei um litro de açaí dentro dos tradicionais sacos plásticos transparentes, mais um quilo de açúcar no mercadinho em frente.
Já no quarto do hotel, detonei em cinco minutos a iguaria adoçada. Delícia das delícias! Completamente diferente e muito mais saborosa que a maçaroca congelada e adoçada com xarope vendida nas cidades brasileiras.
A barulheira da danceteria, funcionando catastroficamente entre o hotel e as águas do Solimões, prometia repetir a dose naquela noite.
Choveu bastante antes de amanhecer. Clareou com o céu totalmente nublado. As ruas, esburacadas e já sem a maior parte da frágil película asfáltica, se tornaram enlameadas e intransponíveis em certos trechos. Pobres codajaenses.
Circulei a pé sem rumo pelos setores mais a leste do centro. Algumas escolas de bom aspecto externo. Muitos urubus voando e pousando nos telhados, calçadas e ruas. Lixo acumulado, lama fétida dos esgotos a céu aberto. Casebres de madeira, alguns erguidos suspensos do solo, alguns pintados de cores vivas, alguns dando a impressão de moradias simples e dignas.
Finalmente uma noite durante a semana, noite silenciosa na cidade. Maravilha para relaxar, ler, dormir. Devia ser sempre assim.
Na manhã seguinte, depois do café da manhã, adquiri um litro de açaí em outro fornecedor. Três rapazes na garagem aberta de uma casa tinham acabado de centrifugar a fruta colhida pela madrugada. Chegando ao hotel, adocei e mandei ver. Em minutos não sobrava mais nada, além de um prazer incomensurável pela degustação daquela delícia amazônica.
Me despedi dos colegas. Embarquei no meio do dia em lancha bem menor e menos confortável que a da ida. Lembrava as lanchas antigas a jato que eu viajara anos antes na rota entre Parintins, Juruti, Óbidos e Santarém.
Na lancha, os televisores exibiam o final do filme do Van Damme, festival de pancadaria como sempre, seguido de Diário de uma louca, propaganda evangélica disfarçada de tragicomédia. Depois, o filme catástrofe Batalha Naval, ridículo até não poder mais. Claro, todos os três filmes provenientes daquele país terrorista ao norte do México.
A paisagem externa mantinha o Solimões bem cheio, com zonas alagadas, terrenos reduzidos pelo avanço das águas, casebres suspensos, inúmeras canoas para se deslocar entre eles.
Acima da cidade de Manacapuru, notei um barco de passageiros também descendo o Solimões. Logo foi alcançado e ultrapassado pela maior velocidade da lancha. E não é que era o tão sonhado barco no qual eu pretendia subir o rio Purus? O tão esperado barco que quebrara nas imediações de Pauini. Esfreguei os olhos. Reli o nome escrito no casco de madeira. Era ele mesmo.
Mas eu veria aquele barco novamente no porto de Manaus antes da minha partida para Carauari daí a dois dias.
continua...

10 comentários:

  1. Olá, obrigado pelo comentários.
    Fique à vontade para comentar esta e outras publicações de minhas viagens pelos interiores do Brasil e de outros países da América, Europa, Ásia.
    Conto com sua visão crítica.
    Abraços!

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  2. Caramba, viajei e senti os problemas da viagem junto contigo..você aqui, de certa forma, fez uma narrativa denúncia de como anda o Brasil por lá..feio hein...coragem não lhe faltou para continuar, qualidade parapoucos mediante as dificuldades e indiferenças... muuito bom..

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  3. Obrigadão, Erotildes.
    Eu adoro viver e viajar pelo Brasil, mais que qualquer outro lugar no planeta.
    Eu me sinto no dever, como cidadão deste país, de divulgar as belezas físicas, culturais, humanas, mas também as mazelas decorrentes de uma sistema injusto e opressor.
    Ainda bem que também enxergou assim. Valeu pelo incentivo.
    Abraços!

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  4. Ví por esse lado, que é o que sempre observo com maior destaque, adoro aventuras assim, amo fazer isso.. na impossibilidade, fico feliz quea alguém faça e eu possa ainda vivenciar, é como se eu estivesse ali junto..Obrigada

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  5. Eu que agradeço seu carinho em ler e comentar.
    Ainda esta semana publicarei a segunda parte. Aguarde!

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  6. Viajantes,
    vou ler atentamente este relato, estou planejando uma expedição fotográfica para novembro, abs, NIlson soares

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  7. Oi Nilson, obrigado pela visita e pelo comentário.
    Fique à vontade, leia, pesquise, compartilhe, comente.
    Além dessa viagem, publiquei diversos outros relatos pelos vários rios da Amazônia.
    Depois me diga o que achou e se eu o auxiliei no seu planejamento.
    Abraços!

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  8. Aqui em Manaus, o açaí proveniente por Codajás é tido como melhor do estado. Certamente é. O problema é que todo mundo agora vende o açaí dizendo: "Açaí de Codajás" hahaha
    Ainda bem que é difícil estragar o suco do fruto, exceto quando eles põem nas máquinas para serem vendidos em academias e "xópis".

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  9. Oi Jafé,
    É o mesmo que acontece por aqui com o "legítimo" queijo de Minas, o morango de Atibaia, a laranja-pera do Rio, ostra de Cananeia, e por aí vai...
    Pelo menos o saboroso açaí de Codajás compensava o abandono da cidade e dos moradores por tantas e corruptas administrações municipais.
    Comente sempre....abraços!

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