quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Rio Purus (de Manaus a Rio Branco) (parte 6/6)

...continuação
Coloquei a mochila nas costas. Subi a rampa até a rua asfaltada, seguindo à praça, onde me hospedei em hotel mais que suficiente para aquela noite.
Esvaziei a mochila para me livrar de possíveis lembranças, vivas ou mortas, provenientes de ambos os barcos. Fiz a barba agachado em razão do espelho do banheiro se alinhar com meu umbigo. Tomei banho caprichado, agora sem pressa, em local amplo, podendo permanecer com a coluna ereta, finalmente.
A praça e as ruas que desembocavam nela lotavam naquela noite, sobretudo de adolescentes. Elas se vestiam para matar, usando saltos quilométricos, vestidos ou saias curtíssimas, colantes e de cores berrantes, produção exagerada no rosto, cabelos previsivelmente alisados. Todas parecidas, desfilando com os celulares numa mão, alisando e repuxando os cabelos com a outra, conferindo se os cabelos artificialmente alisados ainda estavam alisados, bem alisados. Muitas eram lindas de rosto e de corpo, a despeito da produção de rodar a bolsinha.
Ainda me sentia zonzo de tantos dias de barco. Me desequilibrava com facilidade ao andar pelas ruas e, se fechasse os olhos, certamente desabaria no chão. Os efeitos da longa viagem sobre as águas do Purus não me largariam tão cedo. Ainda bem!
Dormi sono tranquilo, profundo, sem suor em cascatas e o abafamento do camarote do primeiro barco, sem o desconforto da rede durante horas e o vento da madrugada do segundo.
Me acabei de tanto comer no café da manhã do hotel, entre frutas, sucos, pão fresco, queijo artesanal, ovos fritos, cuscuz, tapioca, banana frita. Reconfortante comer bem e variado pela manhã.
Que maravilha! Agora eu podia parar ou andar de cabeça erguida, coluna ereta, por todos os lugares. Era um alívio permanecer numa postura decente.
Antes de partir passeei rapidamente por Boca do Acre, aproveitando a luz do dia. Fui olhar o rio Acre, na boca com o Purus, acidente geográfico que deu o nome à cidade. Contemplei as construções de madeira, algumas em sobrado, que davam toque especial ao conjunto arquitetônico urbano. Matava saudades da cidadezinha que explorara com tempo dez anos antes.
Peguei o ônibus para a capital acreana, que lotou depois de parar em inúmeros pontos pelas ruas de Boca do Acre.
A viagem de seis horas até Rio Branco correu a maior parte do tempo em asfalto, exceto três trechos curtos de estrada de chão. Ali, ainda no estado do Amazonas, o ônibus cruzou áreas indígenas que não aceitavam uma estrada dentro dos territórios ancestrais, muito menos asfaltada.
Rostos sulinos começavam a aparecer entre os passageiros, indicando o avanço das fronteiras agrícolas e, a considerar a ação destruidora desses migrantes em regiões próximas, deixando um alerta vermelho para os que amam a floresta em pé.
Desembarquei à tarde no novíssimo, moderno e internacional terminal rodoviário de Rio Branco. Dali, ônibus chegavam e partiam para diversas localidades do Peru, inclusive Cuzco e Lima, via a rodovia do pacífico.
Peguei carona com um passageiro do ônibus até o hotel. Entrei no quarto contando com enorme janelão que permitia a entrada de luz natural e de imagens da cidade, inclusive da catedral e da imensa bandeira do estado do Acre, distante dali, erguida na margem do rio Acre.
Lavei as roupas mais sujas. Tomei banho caprichado e demorado. Esvaziei e escondi a mochila em cima do armário. Não queria olhar para ela, muito menos manuseá-la, por uns bons dias.
O centro de Rio Branco agradava pela limpeza, humanização, praças amplas e prestigiadas pela população, de dia e de noite. Quiosques padronizados vendiam tacacá tradicional, rabada ao tucupi, lanches, sucos, comes e bebes em geral. Restaurantes de tipos variados se escondiam nessa ou naquela rua.
Dormi bem e bastante em cama alta e macia. Mas meu corpo, especialmente ao fechar os olhos, ainda sentia o oscilar dos barcos sobre as águas do Purus. Por mais que me afastasse do rio, minha mente insistia em recordar aquele relacionamento fluvial de doze dias.
Os povos indígenas que tiveram as terras milenares cortadas por estrada no sul do Amazonas, a mesma que eu cruzara na tarde anterior, se recusavam a aceitar o asfaltamento da mesma e iniciariam processo de cobrança de pedágio, como em certos trechos do nordeste de Mato Grosso. Alguns moradores das cidades se indignavam com a reação indígena, alegando que não haveria alternativa de traçado da estrada, e os territórios indígenas seriam cortados de qualquer maneira. Mas se este é o caso, por que construíram a estrada? Por que não utilizar o rio Acre ou rio Purus, como vias de transporte do Amazonas ao Acre, deixando os povos indígenas em paz na terra deles?
Já de passagem marcada de volta para casa, o negócio era relaxar e aproveitar o aconchegante estado do Acre.
Aproveitei o céu nublado e o vento fresco para circular pela beira do rio Acre e pelo calçadão em frente ao Mercado Velho. Me sentei no banco da praça para observar as pessoas pelo centro de Rio Branco. Andei até as bandas do Mercado atual. O centro da cidade continuava bem arrumado, limpo, humanizado, com muito verde, sombra, locais para sentar e descansar. E as recentes administrações públicas acreanas não cometeram o crime, tão comum nos interiores brasileiros, de mutilar geometricamente as árvores das ruas e das praças com podas criminosas, estragando as árvores e eliminando as sombras. As árvores cresciam livremente e as sombras refrescavam do calor acreano. Mesmo nas áreas de comércio popular, normalmente suja e confusa nas principais cidades brasileiras, havia organização e limpeza.
A população se mantinha educada e prestativa, dando passagem para os pedestres nos cruzamentos, cumprimentando gentilmente, sorrindo discretamente.
Tanto durante o café da manhã no hotel, com nas ruas da cidade, se via significativa presença de rostos e sotaques sulinos, referências verbais ao Paraná e estados vizinhos. Se essas criaturas agirem como têm agido no Mato Grosso, Rondônia, sudeste do Pará, sul do Amazonas, coitado do Acre e dos acreanos. Por onde passam, ligados direta ou indiretamente aos crimes do agronegócio exportador e envenenado de agrotóxicos, esses infelizes têm deixado como marca somente a destruição da natureza e a miséria social e cultural.
Não tinha preço não ser forçado a me movimentar abaixado, curvo, olhando para chão ou para os lados, por conta dos tetos, chuveiros, espelhos, batentes, entre outros tantos limitadores de altura aos quais me submeti e padeci por dias e dias. Agora o céu era o limite. Os tetos, duchas, espelhos, superavam minha altura. A coluna e todo o meu corpo agradeciam aliviados essa liberdade postural.
Após o almoço, fui ao Mercado Municipal e detonei meio litro de creme de açaí fresco. Não fora centrifugado naquele momento, como os de Codajás, mas delícia seria pouco para qualificar aquela iguaria amazônica.
Mais uma noite na capital acreana, mais uma oportunidade de contemplar e admirar o centro revitalizado da cidade. Praças, restaurantes, quiosques de tacacá, rabada ao tucupi, lanches, doces, bares na beira do rio Acre, escolas, apresentavam movimento discreto em plena segunda-feira. O povo da cidade e os visitantes prestigiavam diversos pontos da região central, sem alarde, sem tensões, sem perigos, sem pânicos, despreocupadamente, flanando.
As demais capitais e cidades grandes brasileiras teriam muito que aprender com Rio Branco em matéria de valorização e humanização dos respectivos centros da cidade.
“Terceiro andar”. “Descendo”. “Terceiro andar”. “Descendo”. Era o que mais eu ouvia, sem parar, vindo do elevador bem em frente à porta do quarto do hotel. Ouvia até mesmo quando o elevador se encontrava no andar de baixo. “Segundo andar”. “Subindo”. “Segundo andar”. “Descendo”.
Perambulei por ruas, becos e calçadões, nas proximidades da margem esquerda do rio Acre. Em cada oportunidade que eu retornava a Rio Branco, e aquela não seria a primeira e nem a última, as administrações públicas, municipal e estadual, encabeçadas nas últimas gestões pelo Partido dos Trabalhadores, organizavam, revitalizavam, humanizavam, mais e mais, o centro da cidade e os arredores. A população e visitantes agradeciam e aproveitavam.
Depois do almoço com a variada comida regional, novamente estiquei até o Mercado Municipal para tomar o açaí nosso de cada dia. E, para manter a regra, fui carinhosamente atendido.
À noite, a brisa fresca deixou a temperatura bem amena. Nem transpirei durante caminhada de ida e volta ao Parque da Maternidade, impecavelmente cuidado. Mais um local prestigiado pela população que de dia, e principalmente à noite, exercia diversas atividades esportivas, culturais e de lazer. Era um parque linear na acepção da palavra, uma vez que se dispunha ao longo de extenso igarapé, não canalizado, felizmente. Parque linear, que em São Paulo, a maior cidade do Brasil, era somente uma promessa demagógica de empresários e políticos, já era realidade em Rio Branco havia no mínimo dez anos.
Escolhi mesa tranquila do bar e restaurante de frente para a pista de caminhada. Entre caipirinhas e comidinhas, refleti sobre a viagem, sobre o Purus, sobre a primeira vez que estivera ali, naquele mesmo bar, dez anos antes. Naquela oportunidade, me sentei em local próximo e fui presenteado pela enorme e brilhante lua cheia nascendo do outro lado do igarapé, enquanto a população desfilava na minha frente, na pista de caminhada.
Mais uma manhã de enrolação e perambulações a esmo, muito bem-vindas por sinal. Não tinha a mínima ambição de passeios específicos, apenas flanar e observar. Já explorara pacientemente a cidade nas visitas anteriores, sobretudo na última, três anos antes. O sol despontava à esquerda. O centro de Rio Branco se clareava para mais um dia. Abri todo o vidro do janelão a fim de receber o ar fresco da manhã e os primeiros sons da cidade.
Tomei ônibus urbano vazio até o distante aeroporto. Li bastante. Enganei o estômago.
Durante o voo, terminei de reler o ótimo livro Maíra, de Darcy Ribeiro. Sem disfarçar, o larguei no bolsão à minha frente. O livro grosso se despedaçara em três partes e eu não pretendia carregar aqueles destroços. Que quem o encontrasse fizesse bom uso.
O avião pousou na segunda semana de maio em Congonhas, São Paulo, na velha e curta pista que sempre provoca calafrios.
Imediatamente lembrei que o barco no qual subira o rio Purus, naquele instante, deveria estar nas imediações de Lábrea, rio abaixo, rumo a Manaus. Desconfortos à parte, a viagem de subida do Purus me deu muito prazer, prazer que não acabaria jamais.
Tanto que durante o voo da volta para casa eu rascunhei possíveis novos roteiros fluviais pela Amazônia. Ficariam para as próximas viagens. Viagens que certamente não demorariam a acontecer.

12 comentários:

  1. Maravilhoso, amo isso tudo.. nessa bem mais confortável, mas deixando bem claro como anda o nosso Brasil, lá no alto do mapa.... adoroooooo aventuras assim.. viajei lendo e lembrando alguns lugares que já estive, quando bem jovem..Parabéns, meu amigo..

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  2. Oi Erotildes!
    Obrigado pelos comentários. Que bom que gostou desses relatos.
    Embora não tenha aberto mão das objetividades, fiz questão de exibir meus olhares sobre o que via e sentia, em ambos os barcos, nas cidades, no contato enriquecedor com os passageiros, diante da paisagem exuberante da floresta.
    Comente sempre.
    Abraços!

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  3. Foi uma narrativa fantástica, cada detalhe prende o leitor e cheguei a rir ao ler sobre a dificuldade em relação ao espelho, mas ficou claro essa destruição em relação ao agrotóxico, em relação as meninas e outros assuntos que narrados e entremeados com um certo lirismo, faz a leitura agradável. Ótima sexta-feira!

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  4. Maravilha ler seus comentários.
    Sempre achei que viajar não se restringe a visitar atrações turísticas, fotografar o óbvio, fazer comprinhas, etc. Não podemos e nem devemos abandonar a visão crítica sobre o que temos pela frente.
    Jamais houve incompatibilidades entre se divertir e questionar, entre analisar e espairecer.
    Tento passar tudo isso nos relatos deste blog. Espero que consiga chegar perto...
    Abraços!

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  5. neusa maria lançoni16 de setembro de 2013 11:11

    Belíssimo teu blog...Parabéns

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  6. Oi, Neusa, obrigado pela visita e pelo comentário.
    Que bom que leu e gostou.
    Nesse blog publiquei relatos dos mais variados destinos, pelos interiores do Brasil e outros países.
    Fique à vontade de ler, pesquisar, compartilhar e, sobretudo, comentar.
    Suas opiniões serão sempre bem-vindas.
    Abraços!

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  7. Parabéns, vivi, vi, aprendi muito sobre nosso povo do norte brasileiro. Foi uma aventura e tanto, cada curva do rio uma nova supresa. Gostei de vê-lo posicionado em favor das terras indígenas, também penso assim. Pena, que nós sulistas causamos tanta destruição, mas é fato, também aconteceu aqui no sul, a agropecuária devastou, hoje possuímos zonas desérticas. Triste realidade, a corrida desenfreada para "ter mais", deixou um legado de inconsequências. Desculpe-nos! Imagino Rio Branco, como uma cidade aconchegante, hospitaleira, onde a sensatez humana é aliada da natureza, gerando a tão amada harmonia. Só posso dizer: - Muito obrigada! Até a próxima viagem. Abraços.

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  8. Agradeço a você, Ivete, pela atenção e comentários tão pertinentes.
    Na verdade, não é culpa dos sulistas, mas do sistema agrário liderado pela gang do agronegócio que vende promessas aos expulsos da terra em outros estados, atraindo-os para a devastação e a monocultura que esgotam rapidamente os solos, ainda mais com os agrotóxicos.
    Sem a reforma agrária aliada a uma nova política agrícola que privilegie a cultura de alimentos, sem agrotóxicos, em harmonia com a natureza, como nos ensinam os indígenas e demais populações tradicionais, nada mudará.
    Chegaremos lá!

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  9. Parabéns pelo blog e pelos relatos. Encontrei vocês na internet e não paro de ler. São tantas opções bem escritas e registrados com reflexões pertinentes.
    Lindo o texto e as fotos sobre o rio Purus. Que expedição!!! Os anteriores também.
    Viaja por conta própria?
    Abração.

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  10. Olá, valeu pela visita e pelos comentários. Obrigado!
    Viajo por conta própria na maioria dos casos. Mas também, quando compensa contratar uma agência ou guia local, opto por essa alternativa.
    Publiquei diversos relatos aqui, seja dos interiores do Brasil, seja de outros países da América, África, Ásia, Europa. Leia, comente, divulgue..
    Abraços!

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  11. Muito interessante o longo caminho de Manaus a Rio Branco, percorrendo o Purus. Agora já imaginou esse trajeto: Manaus-Rio Branco, por via fluvial, depois de ônibus até Cusco? Em breve, serão retomadas linhas da capital do Acre ao Vale Sagrado dos Incas. Seria uma viagem incrível, da qual me planejarei para realizar. Da Amazônia à Cordilheira dos Andes!
    PS: muito bom saber que suas posições políticas são de esquerda.
    Att, Jafé Praia

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  12. Oi Jafé, tudo bem?
    Da última vez que estive em Rio Branco, havia linhas de ônibus para Cusco e região, via a ponte sobre o rio Acre em Assis Brasil, cidadezinha que estive anos atrás e relatei também no blog.
    E esse trajeto de barco pelo vale do rio Purus é realmente imperdível. Maravilhoso, nas qualidades e defeitos. Recomendo...
    Abraços e comente sempre!

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