quarta-feira, 4 de maio de 2011

da Bolívia ao Chile (parte 1/3)

Eu tinha retornado a São Paulo vindo de projeto de prospecção mineral de quase um ano em Rondônia. E, junto a novos colegas, surgiu ideia da viagem. Não nos esquecemos do visto de entrada na Bolívia, ainda necessário na época.
Desembarcamos no início de janeiro no aeroporto de El Alto, a 4 mil metros de altitude e quatrocentos metros acima do centro de La Paz. Ainda que coberta parcialmente por nuvens, avistamos os picos nevados de parte da cordilheira dos Andes, ali a cordilheira Real, muito próxima da capital.
Era minha primeira viagem internacional, e não conseguia disfarçar o nervosismo assim que pisei em solo boliviano. Logo nas esteiras, enquanto esperávamos as bagagens, fomos abordados pelos cambistas, funcionários e afins do próprio aeroporto, com a intenção de trocar pesos bolivianos. Obtivemos apenas o indispensável até chegar ao centro da cidade, onde escolheríamos melhores taxas e condições.
A escolha caiu em hotel simples e barato instalado em sobrado no centro antigo de La Paz antes de partir para explorar as ruas da cidade.
Militares entupiam as esquinas e praças. A Bolívia vivia anos de turbulência política. Golpes militares se sucediam com rapidez impressionante. Generais entravam e saíam da fama de uma hora para outra, invariavelmente ligados ao narcotráfico e submetidos às ordens do regime dos Estados Unidos. A mobilizada população boliviana não conseguia oferecer alternativas aos desgovernos capitalistas e sofria as conseqüências da exploração econômica e opressão política.

A tensão e o terror flutuavam no ar com tanta intensidade que nem sequer percebíamos os efeitos da altitude. Cansava durante as caminhadas pelas intermináveis ladeiras da capital, mas nada de mal estar ou dores de cabeça. O centro antigo fascinava pelas construções antigas, ruas e ruelas, ladeiras, calçamento de pedra, praças arborizadas, as montanhas nevadas sempre visíveis.
A maioria dos bolivianos exibia fortes traços indígenas, Aymara ou Quéchua. Nas raras tentativas de fotografar as bolivianas, chamativas com compridas saias coloridas, chapéus coco, adereços, aprendemos que não aprovavam a atitude. Ameaçavam atirar pedras ou simplesmente se viravam escondendo o rosto. Afinal não se tratavam de objetos exóticos a serem fotografados por turistas deslumbrados. Contentei-me em registrá-las visualmente.
Ainda inexperientes em descobrir pontos mais saborosos, enjoávamos de tanto comer pollo con papas fritas.
Circulamos rapidamente pela parte nova de La Paz. Avenidas novas, prédios novos, mansões novas, lojas novas, lanchonetes novas de redes estrangeiras. Chatice bem familiar. Muita segurança e proteção para a elite de sempre.
Visitamos o Vale da Lua, nos subúrbios da cidade. Paisagens inóspitas e fascinantes, áridas, íngremes, vales profundos e escarpas, vegetação rala e espinhosa, areia cinza clara, desabitada, intrigante.
Percorremos a zona rural boliviana rumo às ruínas e aos vestígios da antiga civilização em Tiwanaku. Exploramos sem pressa o sitio arqueológico com a cordilheira Real sempre a perfilar no horizonte. O ambiente não lotava e permitiu captar a atmosfera do local.
Compramos passagens conjugadas de barco e ônibus à cidade peruana de Puno. Senti um frio insuportável na travessia de barco pelo lago Titicaca. A blusa de lã que eu vestia estava longe de me proteger do vento e das baixas temperaturas andinas. Paramos na ilha de Copacabana, a cerca de 3.850 metros de altitude, onde pudemos circular pelas redondezas, escadarias, pequenas ruínas, templos.
Já em solo peruano, ônibus com destino a Puno, ainda na beira do lago Titicaca. A rodovia se afastou levemente da margem do lago e pudemos apreciar a paisagem rural, as pequenas comunidades, plantações, índios, mestiços.
Puno mais parecia uma periferia de cidade grande tal a feiúra e sujeira generalizada. Telhados de zinco se refletiam sob a fraca luz do entardecer. Lama e lixo se espalhavam nas ruas devido às chuvas de verão. As margens do lago Titicaca assustavam pelos detritos e mau cheiro. Mas era por uma noite apenas.

Após acertar hospedagem em hotel precário, providenciamos na estação ferroviária, para o dia seguinte, as passagens de trem com destino a Cuzco. Circulamos sem grandes pretensões pela cidade, comemos o trivial e retornamos ao hotel. O tempo nublado tornava tudo sem graça ao redor e nada realçava na paisagem. O vento gelado da cordilheira e do lago açoitava tudo e todos.
Embarcamos pela manhã no trem em classe que, se não era a primeira, também não era a última. Bancos acolchoados para duas pessoas, um de frente para outro, com mesa no meio, nos deixaram, os quatro, formando um grupo. As bagagens seguiam acima de nossas cabeças, amarradas aos ferros a fim de prevenir eventuais furtos. 
Conversamos bastante. Tentamos cochilar sobre a mesa ou na vã tentativa de nos acomodarmos nos encostos verticais e fixos. Comemos frango com batatas, cobrados à parte da passagem, pollo com papas fritas. Em paradas mais demoradas, era possível desembarcar e arriscar comprar algo que nos enganasse o estômago. O frio e o vento vinham das montanhas. Em dada estação nevava tão fortemente que nem deu para colocar a cara fora do vagão.
A paisagem externa chamava a atenção. Montanhas nevadas, picos agudos, planícies esverdeadas, vegetação abundante nos fundos dos vales, abismos, escarpas rochosas, rios encachoeirados, pequenas cascatas, vilarejos, lhamas, alpacas, comunidades indígenas.
A frequência no vagão compunha-se majoritariamente de turistas independentes em meio a peruanos de classe média. Sempre que surgiram oportunidades trocávamos ideias com os passageiros próximos. Circulamos pelos vagões de passagens mais baratas. Os peruanos pobres eram transportados como gado, amontoados, esmagados em vagões apertados, sujos, mal conservados, insuportavelmente lotados.

As primeiras divergências dentro do grupo não tardaram a aparecer. Diferentes pontos de vista sobre os lugares visitados, sobre modos de vida, sobre o ritmo da viagem, sobre o roteiro para os dias futuros.
Cuzco surgiu no dia seguinte depois de trajeto extremamente exuberante e variado, exibindo facetas distintas do altiplano peruano. Em hotel simples no centro da cidade, logo no banho houve problemas com a água quente, prometida enfaticamente pelos agentes que nos levaram da estação ferroviária. Sem soluções à vista, saímos à rua e nos hospedamos em outro local, também simples e barato, mas com água quente e conforto compatível com o oferecido.
Jantamos todos juntos naquela primeira noite. A unidade do grupo, no entanto, estava comprometida. Eu e minha irmã marcharíamos à parte nas atividades seguintes. Antes mesmo da metade da viagem não havia mais as convergências de intenções surgidas originalmente entre os quatro.

Exploramos a pé a fascinante Cuzco, cidade erguida sobre os alicerces dos escombros de antiga cidade Inca, destruída impiedosamente pelos invasores europeus. Cuzco era um museu ao ar livre, tal a infinidade de ruas e becos estreitos, arquitetura barroca, praças aconchegantes, igrejas pesadas, balcões e colunas sobre as calçadas. Ruínas Incas nos arredores da cidade comprovavam a avançada tecnologia em construções adquiridas pelos antigos habitantes da região. Caminhadas sem pressa pelas ruas do centro e bairros, entre conversas com os moradores. Paradas em pontos altos a fim de contemplar o visual urbano e das montanhas próximas.
Turistas e mais turistas se distribuíam em hotéis, bares e restaurantes de Cuzco. A vida noturna fervia entre apresentações musicais e comidas típicas regadas a pisco. As cores vivas das malhas e gorros de lã alegravam os ambientes.
continua...

6 comentários:

  1. Que bela reportagem... lindas fotos e incrível sua percepção...Parabéns!! abraço....sucesso!!

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  2. É incrível sua capacidade de percepção visual mesmo com as atribulações locais.
    Gostei do relato, e olha que não estou sendo gentil nheim!
    Bjus!

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  3. Estive no Peru e Bolívia há 2 anos. Percorri a "Rodovia do Pacífico",recentemente inaugurada, do Acre até Cuzco. Parece-me que na época em que você esteve em Assis Brasil, a travessia ainda não se fazia pela ponte, certo?
    Agora, em pouquissimos minutos já estamos do outro lado, Iñapari, onde o setor de imigração continua precário. Poucos brasileiros vão até Cusco por ali, ainda.
    Com relação à rodovia: surpreendeu-me o encontro da engenhosidade humana com a grandeza da natureza. Apesar das consequencias que poderão surgir, prefiro acreditar que venha melhorar as condições de vida daquele povo sofrido que vive nos diversos lugarejos por onde ela corta.

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  4. A ponte estava em contrução quando estive em Assis Brasil em 2005. Cruzei o rio Acre de canoa, conforme os relatos "do Acre à Bahia".
    Estes relatos acima, porém, são do início dos anos de 1980.
    Retornei ao Chile em 2001 e à Bolívia e ao Peru em 2003, em viagens cujos relatos já publiquei aqui.
    Já pensei em entrar no Brasil vindo do Peru, seja pelo Acre via rodovias, seja pelo rio Amazonas/Solimões via fluvial. Quem sabe um dia...

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  5. A paisagem externa chamava a atenção. Montanhas nevadas, picos agudos, planícies esverdeadas, vegetação abundante nos fundo dos vales, abismos, escarpas rochosas, rios encachoeirados, pequenas cascatas, vilarejos, lhamas, alpacas, comunidades indígenas, simplesmente fantástica a descrição. Como não viajar na leitura? Obrigada...sigo adiante.

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  6. Taí outro lugar que preciso voltar. Estive na Bolívia novamente em 2003, mas rapidamente, de passagem.
    O país, a cultura, o momento político promissor, merecem uma visita sem pressa, detalhada, exploratória, em contato com os bolivianos.
    Mais um destino na listinha que sempre vira um listão!
    Abraços!

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