domingo, 10 de outubro de 2010

do Acre à Bahia (parte 1/7)

Depois das explorações em viagens anteriores nos vales dos rios Purus, Negro, Juruá, Solimões, Amazonas, parte dos rios Tapajós, Xingu, Tocantins e Araguaia, optei por roteiro menos ambicioso na Amazônia para aproveitar melhor o nordeste do Brasil.
Escolhi a via rodoviária para chegar a Rio Branco no Acre. O ônibus partiu em abril, com espaço suficiente para me esticar nos bancos anatômicos. À medida que avançávamos pelo sul de Goiás cresciam as extensões de monocultura, sobretudo de soja. Acampamentos de trabalhadores rurais sem terra sucediam-se nas margens da rodovia, com coberturas de plástico preto, em meio a muita precariedade e abandono. O ônibus cruzou a ponte sobre o estreito rio Araguaia, que, pela proximidade da nascente, as águas transparentes corriam sobre lajes de pedra entre barrancos íngremes, de Santa Rita do Araguaia a Alto Araguaia. A monotonia das monoculturas para exportação se intensificou no Mato Grosso. O descaso com os trabalhadores rurais sem terra também.
O traçado da estrada tornou-se sinuoso na descida do planalto central, por entre chapadas e morros. Amanheceu cinzento em meio a terras desmatadas e não cultivadas do norte de Mato Grosso. Na fronteira com Rondônia, o enorme cartaz alardeava a frase “Bem-vindo ao estado com o maior crescimento de rebanho bovino do Brasil”. A paisagem nos lados da rodovia permanecia plana, desmatada, não cultivada. As cidades, planejadas, tristes, empoeiradas ou enlameadas, desagradavam. E a BR-364 continuava esburacada e cheia de caminhões.
Parada no posto fiscal e de vacinação contra a febre amarela na fronteira do Acre. Chegada a Rio Branco, a segunda maior cidade cearense do país, mais de sessenta e três horas após a partida de São Paulo. A viagem de ônibus, no entanto, foi tranquila, e almocei e jantei comida de verdade em todas as paradas.
Estava na Amazônia, mais uma vez, e animadíssimo para percorrê-la.

O Museu da Borracha, apesar de modesto, interessou para conhecer mais sobre os povos indígenas, a história da Acre e da borracha, evidências pré-históricas e até sobre a seita do Santo Daime.
Segunda-feira à noite com ruas vazias em Rio Branco. Mesmo assim passei boas horas no restaurante do Parque da Maternidade. Havia som ao vivo suave, na base de voz e violão. Observei moradores caminhando pelas pistas.
A funcionária do hotel acordava às 4h e sempre saía após o horário normal de trabalho. Recebia somente um salário mínimo, e com atraso. Separada do ex-marido agressor, ela alugava casa de madeira, com apenas um cômodo, banheiro externo e sem água encanada ou rede de esgotos. Recebia pensão do ex-marido de duzentos reais para os dois filhos. Não completou o primeiro grau e não conseguia arranjar outro emprego, a única maneira de dar mais atenção aos filhos e voltar a estudar. De tão cansada, dizia não se aguentar em pé depois das 20h.
Os acreanos, com grande autoestima, orgulham-se da história do estado, da independência da Bolívia, a passagem para o Brasil através da revolução acreana nos anos de 1902 e 1903. Enalteciam o movimento autonomista que levou a transformação do antigo território do Acre em estado no ano de 1962. Os povos originários contavam com 28 territórios demarcados e regularizados no estado. A maior concentração populacional era a Kaxinawa, do alto rio Purus. Os Ashaninka, do alto rio Juruá, usavam túnicas de algodão, bolsas e chapéus de palha, ocupando regiões de temperaturas mais amenas que se estendiam ao Peru. Os Hikawa tiveram as estampas pintadas e desenhadas em camisetas no exterior.
O ônibus chegou ao anoitecer em Assis Brasil, região da tríplice fronteira Brasil/Peru/Bolívia. A cidade era pequena, calma e com simpática praça, para onde muitos afluíam ao anoitecer.
A região amazônica carece de rochas, pedra e brita para construção. E no Acre a situação era crônica. As casas eram de madeira, o calçamento de muitas ruas de tijolo. Além de bonito, funcional, fresco, absorvia as águas da chuva.
A travessia das fronteiras do Peru e da Bolívia era efetuada pelo rio Acre em pequenas catraias. No lado peruano, o barranco enlameado, uma ripa de madeira sob o toldo de plástico preto, nenhum controle ou fiscalização. Iñapari, cidade com poucas ruas, prédios públicos caindo aos pedaços, casas de madeira, a estrada de terra que seguia para o horizonte e, apesar de menor, contando com praça mais ampla e bonita que a de Assis Brasil.

Retornei ao lado brasileiro para cruzar o rio Acre novamente. Acertei com o catraieiro de me buscar assim que eu reaparecesse na margem boliviana. Lá, três barracas vendendo variedades e o cartaz com as cores da bandeira nacional da Bolívia. Segui na trilha pelo mato. Nenhum ser humano ou sinal que cruzara a fronteira. Mais adiante avistei a bandeira boliviana hasteada. Entrava na vila de San Pedro de Bolpebra. Não havia mais que dez construções de madeira, a escola, o posto policial, em meio ao mato baixo. Dei meia volta, acenei para o catraieiro e voltei às ruas de Assis Brasil.
Assisti ao início da sessão da câmara de vereadores, composta de nove membros reunidos em salão com portas e janelas abertas para a calçada da rua.
O ônibus partiu e menos de uma hora depois a polícia rodoviária federal entrou para fiscalizar passageiros e bagagens. Somente eu tive que mostrar meus documentos e responder a perguntas básicas. Em frente ao bagageiro do ônibus, acompanhei um deles abrir a mochila, retirar volume a volume, abrir e observar tudo. A operação demorou meia hora.
Duas horas depois eu chegava em Brasiléia sob chuva fina. Jantei em restaurante simpático, estilo de fazenda, sem paredes, mesas grandes de madeira e ambiente acolhedor. Dei a volta pelas ruas escuras e vazias, revestidas de frescos, bonitos e eficientes calçamentos de tijolos nas ruas e calçadas. Brasiléia, sem ser o paraíso, revelava centro interessante, construções antigas de madeira, barracos usados como bares ou pensões. Na outra margem do rio Acre, a cidade boliviana de Cobija.
No sábado à noite em Brasiléia, sob a imensa e brilhante lua cheia, o centro da cidade virou cemitério. Praticamente ninguém circulando. A igreja não tinha praça, a praça central não possuía igreja. Brasiléia mantinha a calma e o charme de cidadezinha do interior. Caiu rápida e forte pancada de chuva, causando um barulho danado. Foi o suficiente para subir o nível do rio Acre e as águas carregarem galhos, pedras e terra das margens.
Defeito imperdoável e injustificável em diversas cidades espalhadas pelo Brasil, Assis Brasil e Brasiléia inclusive, era a mutilação geométrica das árvores de ruas e praças. Deixadas com formas de gosto duvidoso, cúbicas, cônicas, esféricas, com desenho de coração, degradavam a paisagem, reduzindo drasticamente as áreas de sombra. 
De volta à capital Rio Branco, domingo animadíssimo, tanto no Parque da Maternidade como na região da Gameleira, sob a noite estrelada. Rio Branco demonstrava que o lazer ao ar livre e em espaços públicos, sem templos de vitrines e o consumo compulsivo, é mais sadio, democrático e divertido.

A cidade de Sena Madureira se espalhava em ruas extensas ao redor de ampla praça no centro. Na margem do rio Iaco, barracos, favelas, bares podres, puteiros, armazéns. E muitos ambulantes. Barcos de pequeno porte atracavam nos barrancos enlameados, trazendo castanhas da Amazônia, compradas e encarecidas pelos intermediários. Povos indígenas se amontoavam em meio à lama, lixo, esgoto, urubus, fezes, mau cheiro. Tomavam banho nas águas barrentas do rio, se deitavam na lama fétida, em contato com o lixo urbano. Outros se reuniam no banco da praça, cutucavam a grama, se comunicavam em língua própria. Alguns, completamente bêbados, se arrastavam pelas calçadas, gritavam, choravam. Ninguém lhes dava atenção.
A indústria da religião não dava tréguas. Dezenas e dezenas de igrejas e templos, de nomes esdrúxulos, se espalhavam por todos os cantos, de onde se ouviam gritos, urros, choros. Mais parecia o fim do mundo.
Desembarquei em Porto Velho pela manhã, já em outro fuso horário. Fui direto ao local dos barcos que fazem a linha do rio Madeira. Os vendedores me levaram ao único com partida confirmada para daí a dois dias. Pechinchei bastante até baixar bem o valor do camarote.
As funcionárias do hotel contaram do abandono de Porto Velho, ruas sem iluminação, não pavimentadas, sem rede de água e esgotos. E da especulação imobiliária, que mantinha terrenos vazios, com mato alto e muito lixo. Quando os necessitados ocupavam, limpavam e ajeitavam o terreno, os tais “proprietários” acionavam a polícia para expulsá-los.
A deliciosa caldeirada de tambaqui, duas caipirinhas, o creme de cupuaçu, deram o tom do almoço.
Levei a mochila para o camarote do barco, já com muitas redes atadas. Dei a volta pelas paupérrimas e sujas redondezas do porto do Cai N’Água.
O barco, com dois pisos e meio, era carregado de batatas e mais batatas, cebolas e mais cebolas, desembarcadas de caminhões provenientes de Santa Catarina. A carga parecia não ter fim. Outra carreta de tomates foi esvaziada. O maranhense morador de Caxias pegaria o barco para visitar o pai depois de vinte anos sem contato. Nem sequer possuía foto dele.

O tempo amanheceu com a floresta presente nas margens do rio Madeira, largo e cheio. Pouco se via dos raríssimos e distantes casebres de madeira. Parada em Humaitá. Tarde na preguiça, leve cochilo junto à maioria dos passageiros. Depois boa conversa com um mineiro a trabalho no Amazonas, entre leves pancadas de chuva e belas visões da floresta.
Os vilarejos, com algumas casas e agricultura de subsistência, aumentavam em número. A cidade de Novo Aripuanã, onde o barco atracou, apresentava orla urbanizada, porto limpo e organizado. Em seguida, ocorreu churrasco no convés superior, com vários tipos de carne.
Os dois irmãos amazonenses, embarcados em Humaitá, relataram as arbitrariedades cometidas pelas autoridades locais. Prefeito, juiz, comandante da polícia mandavam prender e soltar, quando e quem eles queriam. Não respeitavam as leis, muitas vezes criadas por eles mesmos. Agrediam adversários políticos ou cidadãos que passavam no caminho. Invadiam casas dos desafetos, apedrejavam, estupravam, aliciavam, coagiam, intimidavam a torto e a direito. E se valiam da miséria, ignorância e abandono da maioria da população. O medo dos moradores, sob o terror das elites, garantia impunidade.
Paradas noturnas em Manicoré e Nova Olinda.
Amanhecemos no Paraná da Eva, corte de caminho na margem esquerda do rio Amazonas. Águas escuras, calmas e ladeadas por fazendas de gado e búfalos. Planícies verdes, árvores frondosas e isoladas, casas aconchegantes, com barquinhos atracados, formavam paisagem relaxante.
Aumentava a ansiedade dos passageiros pela chegada. Mais barcos e balsas em circulação, comunidades diversas e maiores nas margens, apontavam para a proximidade do grande centro. Grupos de amigos contavam piadas e fofocas da noite anterior na proa do convés superior.
continua...

2 comentários:

  1. Parece que de 2005 até agora nada mudou...continuam os assentamentos dos sem terra, a esburacada da BR 364, o desmatamento, o indígena contaminado pela cultura branca, a precariedade das pequenas cidades do interior, a excessiva jornada de trabalho da mulher para sustentar os filhos, a impunidade, a boa culinária caseira...relatos ricos em detalhes que me levam a conhecer a riqueza cultural de nosso Brasil.
    Sigo viagem...

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  2. Obrigado pelos comentários, Ivete!
    Não mudou muita coisa mesmo. Infelizmente, para eles e para todos, como nós, que se indignam com essas injustiças sociais.
    De qualquer maneira, é maravilhoso estar lá, percorrendo vila a vila, rio a rio, conversando, aprendendo. Mesmo porque, nas viagens, mais que belezas perfeitas, procuramos mais as diferenças, a partir das quais nos conhecemos melhor, refletimos melhor, agimos melhor.
    Abraços!

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