quarta-feira, 2 de junho de 2010

Os Mitos do Turismo (parte 1/4)


Eis aí um texto muito didático, simples e que toca em pontos fundamentais da questão dos mitos do turismo. É de uma entidade nicaraguense que o elaborou na forma de uma cartilha de fácil entendimento. Acho que se aplica como uma luva ao Brasil. Segue abaixo a tradução livre de parte do obtido no endereço : http://www.fundacionluciernaga.org/download/comic.pdf. Lá também há desenhos bastante explicativos.

Para a postagem não ficar muito longa, aparesentarei o texto em partes.

Todas as fotos aqui exibidas são minhas.

Boa leitura e ótimas reflexões.

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INTRODUÇÃO


Do turismo se dizem muitas coisas. Algumas certas, outras falsas. Há aqueles que estão interessados em apresentá-lo como a tábua de salvação para um país. Consideram que não há outra alternativa e que o turismo resolverá todos os males. E se é assim, dizem, tem que fazer qualquer coisa para atrair os investimentos estrangeiros. Os argumentos que eles utilizam são variados.
 

OS MITOS DO TURISMO

Primeiro Mito: GERAR EMPREGOS

O turismo é considerado como um setor que gera muitos empregos, tanto nos postos que requerem as instalações turísticas (hotéis, apartamentos, restaurantes), como nos que facilitam a chegada dos turistas (construção civil, transportes, agências de turismo, casas de cambio, seguros) e os que surgem da demanda dos empregados diretos e indiretos do turismo (comércio, bancos, espetáculos, etc.).

Porém nem tudo é tão bonito. Deve-se olhar mais longe e observar como são esses empregos.

Quanto às características dos empregos:

Inicialmente, boa parte das vagas que o turismo cria requer pouca qualificação (seja nos trabalhos da construção ou nos escritórios). Mas logo a situação se complica.

Quando um lugar se desenvolve turisticamente é necessária mais qualificação e profissionalismo para manter o prestigio e poder competir com outros destinos turísticos. Então exige pessoal mais preparado. E esta necessidade se preenche trazendo gente de fora do lugar, ou até de fora do país, ou investindo na população local. Surgem assim escolas de construção civil, faculdades de turismo, de administração de empresas, escolas de idiomas, etc.. Porém, a maior parte do capital investido na formação dos trabalhadores não vem das empresas (que são as que mais se beneficiam dela), mas sim do Estado (no caso das universidades e escolas públicas) e muitas vezes dos próprios bolsos dos estudantes que se formam.

Quando a população local consegue os empregos qualificados, as funções mais simples são assumidas por imigrantes de regiões e países mais pobres, de maneira que a estrutura social se torna mais complexa, com o aparecimento na região de um grupo de população imigrante muitas vezes de poucos recursos e marginalizada.

Quanto às condições de trabalho:

O emprego não qualificado do turismo se caracteriza por baixos salários, ocupações temporárias, alta rotatividade, longas jornadas de trabalho e escassas condições de segurança. Isto é grave principalmente na construção civil.

Além disso, os trabalhadores encontram dificuldades de defender seus direitos. Muitas vezes os sindicatos são proibidos nos lugares turísticos ou são sindicatos pelegos e corruptos a serviço das empresas.

E também o emprego no turismo é muito instável, já que é um setor fortemente dependente do exterior, como, por exemplo, quando aumenta o preço dos combustíveis, sobem os preços das passagens aéreas a um determinado destino e cai o número de turistas.

“Meu tio que vive no México me contou que em Cancun os trabalhadores que protestam contra algo são demitidos e postos em listas negras, não encontrando mais emprego na cidade. Além disso, as pessoas vivem em bairros periféricos por anos, sem água, enquanto juntam dinheiro para comprar sua própria casa. Mas muitos passam a vida toda nesses infernos. Que horrível!”.

Segundo Mito: IMPULSIONA OUTRAS ATIVIDADES

Diz-se que o turismo impulsiona outras atividades produtivas, como, por exemplo, a construção civil. Mas, ao mesmo tempo, o turismo põe em risco outras atividades tradicionais, geralmente do setor primário, a agricultura ou a pesca, na competição por recursos naturais como terra e água.

O turismo pode alterar a maneira da orientação dos gastos públicos, favorecendo aqueles serviços de maior interesse para o setor turístico e prejudicando os demais. De fato, o turismo se sustenta muitas vezes graças ao uso de dinheiro público.

A criação de empregos no turismo muitas vezes passa pelo abandono de setores tradicionais como a agricultura e a pesca. Nesses casos, não é que o turismo gere novos empregos, mas sim que substitui os que já existiam e incentiva o êxodo rural. Isto pode causar um desequilíbrio geográfico: zonas rurais abandonadas e crescimento desordenado nas periferias dos núcleos turísticos.

“Pois eu conheci uma garota da República Dominicana que me contou que lá muitos trabalhadores rurais tiveram que abandonar suas terras. E que já não podem viver da agricultura porque o seu governo forçou tanto a importação de alimentos dos Estados Unidos que os camponeses dominicanos não conseguem sobreviver. Assim muitos foram viver nas cidades ou perto das zonas hoteleiras e ali tentam ganhar a vida como podem”.

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Continua...

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